Trabalho Sujo - Home

Loki

breaking-bad

Vamos aos fatos: Breaking Bad não é a melhor série já feita. E, com seu final formal, não entra no panteão das melhores séries de todos os tempos. O crescendo criativo que tornou uma série cult em um dos maiores fenômenos da TV deste século prometia um final épico, megalomaníaco, impossível de ser batido. Fomos (ou pelo menos fui) vítima da própria expectativa. Toda última temporada de Breaking Bad (as duas partes) não fizeram jus à tensão que vinha acumulando-se por toda a série – elas apenas esticaram esta tensão, esta sim a grande qualidade da saga de Walter White. Só continue lendo a partir daqui se souber do final da série.

A cada novo capítulo, o drama do professor de química – que, à beira da morte, passa a apostar na fabricação e comércio de metanfentamina para deixar sua família com algum troco antes de morrer – tornava-se mais denso e complicado. Não apenas pelo fato da aposta ter dado certo. Sua ascensão profissional mexe com os brios de uma concorrência bem barra pesada, o que a torna cada vez mais perigosa. Mas o problema não é esse – é que nosso protagonista aos poucos vai tomando gosto pelo poder e vicia-se na adrenalina de ser o pior vilão. Em questão de meses deixa o ar assustado do professor e pai de família Walter White e transforma-se num bad guy de peso, assumindo características dos vilões que foi dando cabo na medida em que a série avançava. E o codinome Heisenberg que inventou para sua nova persona vai assumindo sua identidade com mais força que o câncer que o colocou nessa vida bandida.

Por quatro temporadas, assistimos a essa escalada com as unhas cravadas nos braços da poltrona. Na mesma medida que ia ganhando dinheiro, ia fazendo desafetos. Esses novos inimigos tentavam enquadrá-lo, mas, de alguma forma, Walter White conseguia reverter a situação, quase sempre usando os poderes da ciência (“science, bitch!”), sua mais fiel comparsa. Como num videogame escrito por Sam Peckinpah, cada final de fase apresentava seu chefão sinistro, um vilão repugnante que deixava o antagonista anterior com cara de frágil. A quarta temporada, pra mim, é o ápice de Breaking Bad, ao apresentar todo esplendor de seu pior vilão, Gus Fring, de forma crua e sem diálogo logo no primeiro episódio, e ao eliminá-lo de forma ainda mais crua e apoteótica num season finale histórico. O final da quarta temporada é infinitamente superior a quase toda a quinta temporada, à exceção do impressionante episódio Ozymandias, o antepenúltimo capítulo que, de certa forma, encerra Breaking Bad.

A principal qualidade da última temporada foi enfatizar o principal músculo da série – sua capacidade de reter a tensão. Não houve nenhuma grande sacada, nenhuma reviravolta emocionante ou segredo revelado que estivesse sob nossos narizes. Ninguém da família de Walt morre, como temíamos por diversos episódios, e a redenção de Jesse, mesmo que temporária, apenas proporcionou uma sensação de alívio trivial. A morte de Walt na última cena é só um desfecho melancólico e previsível, que em nada se pareceu com finais previstos que podiam traçar paralelos com o Scarface de Al Pacino ou O Poderoso Chefão, obras citadas como referência no decorrer da série. A melhor leitura do último episódio foi feita por um comediante americano, que pegou as falhas do season finale (a narrativa mecânica, os diálogos frios, a conclusão morna) para montar um desfecho paralelo em que Walt morre sozinho no exílio, cercado por policial num deserto gelado enquanto imagina, minutos antes de morrer de câncer, as cenas que assistimos no último episódio.

Mas até chegarmos ao final, passamos por uma temporada em que qualquer silêncio tinha triplo significado, qualquer troca de olhares podia resultar numa briga fatal, qualquer plano mirabolante podia desandar horrivelmente. A ascensão comercial de Walter White se estagna e não vemos ele se tornar um lorde traficante internacional. A eliminação de Gus Fring no último episódio da quarta temporada parecia que nos levaria ao grande rei do crime organizado, alguém ainda mais polido e vil que o personagem dono de uma franquia de lanchonetes de frango frito. A aparição da personagem Lydia parecia nos levar a uma outra esfera do negócio que Walter White invadia, aquela em que empresários e políticos frequentadores de colunas sociais são os grandes vilões. “Se você segue a droga, você chega em drogados e traficantes”, dizem as sábias palavras de Lester Freamon, um dos principais personagens da impecável série The Wire, que vai onde Breaking Bad não teve coragem de ir, pois “se você segue o dinheiro, ninguém sabe onde ele pode te levar”. Breaking Bad preferiu não seguir o dinheiro.

O grande trunfo de Breaking Bad é consagrar esta fase de ouro vivida pela produção para a TV no novo século. Se antes da HBO e do blockbuster superlativo “televisão” era uma forma de menosprezar a produção audiovisual, depois de Sopranos, 24 Horas, The Wire, Lost, Six Feet Under e Battlestar Gallactica este parâmetro mudou a ponto de quase ter se invertido. Não há mais distinções entre quem produz cinema e TV como antigamente e alguns dos principais astros de Hollywood (George Clooney, Will Smith) vieram da televisão. As principais produções em termos de faturamento e crítica são feitas para a TV e a geração Netflix ainda está em sua infância. Breaking Bad faz parte de uma geração que inclui Walking Dead, Game of Thrones, Mad Men, Orange is the New Black, Girls, Lie to Me e Sherlock (esta sim a grande série atual) – seriados com aspiração à grande arte, que não se fingem apenas de entretenimento vazio e buscam a consagração de obras com centenas de horas de duração. Aconteceu que ela foi apenas a primeira destas a acabar, daí tanto frenesi. Mas todas essas outras citadas também chegarão ao fim e causarão, umas mais que outras, níveis de fanatismo exagerado e declarações de que “esta sim é a melhor série de todos os tempos”.

Não creio que nenhuma destas barrará Sopranos ou The Wire nesse sentido. É preciso superar as expectativas, em vez de simplesmente atendê-las, como aconteceu no episódio final de Breaking Bad. Uma série que nos acostumou com o inusitado preferiu o conforto de um final justo. Não acho que uma obra que termine com uma conclusão considerada “honesta” (adjetivo usado à exaustão na semana do season finale) seja digna ao trono de qualquer linguagem.

fredleal

Já perdi a conta de quantas vezes comecei a escrever esse texto. Comecei a rascunhá-lo como um processo de exorcismo à péssima notícia que meu amigo e irmão de coração Fred Leal havia sofrido um AVC, em Paracambi, a cidade que ele colocou em nosso mapa mental, no primeiro dia do mês de setembro deste ano. Danilo me ligou tenso, dizendo não ter mais informações além de que ele já estava internado no Rio de Janeiro e perguntando, já sabendo da resposta, se podia me incluir numa troca de emails de um grupo de amigos mais próximos que estavam acompanhando o fato trágico. Tatu, outro irmão dessa pequena família que construímos além da amizade, estava acompanhando tudo direto do hospital e nos mantinha informados sempre que podia. Não dava pra fazer nada a não ser esperar. Foi quando comecei a escrever esse texto, como uma carta para ser lida por ele quando saísse do hospital.

Cheguei a ir ao Rio de Janeiro dias após o acontecido, fiquei horas na sala de espera do hospital em que ele estava internado, mas não consegui visitá-lo. Os médicos não disseram na hora, mas depois fiquei sabendo que o quadro dele havia piorado enquanto o esperava e não seria possível ninguém vê-lo naquela quarta-feira. Tatu continuava mandando notícias sobre os altos e baixos típicos de alguém que estava internado naquelas condições. Cada dia uma nova leva de novidades, boas ou ruins. Até que, alguns dias depois, na meia-noite do sábado 7 para o domingo 8 de setembro, recebo uma mensagem no celular, com a Bia pedindo para que eu ligasse para ela urgente – estava na praia e o celular não pegava direito, embora houvesse wi-fi. Fui correndo para a beira da praia onde o sinal do celular pegava melhor, já temendo o pior – e com ela a drástica notícia. Fred não havia resistido. Nunca havia perdido alguém tão próximo. Entrei em estado de choque e não consegui sequer ir ao enterro de um dos meus melhores amigos, naquele domingo triste em Paracambi.

Fred Leal era uma das melhores pessoas que todos nós conhecíamos. Como muitos amigos que conheci primeiro online, não me lembro de nosso primeiro contato virtual, mas lembro finalmente te-lo conhecido pessoalmente no show de lançamento do primeiro disco dos Los Hermanos, no saudoso Ballroom, no Rio de Janeiro, em 1999. Fred, ainda adolescente, era uma dos muitos fãs de primeiríssima hora do grupo carioca e já havia perdido a conta de quantos shows do grupo já havia assistido antes daquele, mas estava especialmente animado com o show daquela noite – afinal era a consagração de uma intuição que já havia sido percebida por um pequeno grupo de cariocas do qual Fred fazia parte. E, como acontecia com a maioria das pessoas que conheceu Fred, o primeiro contato offline com foi de empatia instantânea. Nos dias seguintes já o tratava como alguém que conhecia há anos e nossa diferença etária (era seis anos mais velho que ele, diferença significativa quando flutuamos ao redor dos vinte) havia simplesmente desaparecido.

Desde então o contato online tornou-se permanente – há mais de dez anos trocava informações sobre discos, livros, filmes e frilas com Fred, sempre o chamando nas diferentes empreitadas que me envolvia. Coloquei-o para entrevistar personagens no site da velha revista Play, chamei-o para cobrir shows do saudoso projeto Trama Universitário, convidei-o para escrever no livro 300 Filmes para Ver Antes de Morrer, que editei para a revista Época em 2006 e quis o destino que ele não escrevesse nada pra Galileu – era questão de tempo para que o chamasse. Mas não era só troca de conhecimento – Fred era um coração gigantesco pronto para ouvir seus lamentos e desventuras e muitas vezes segurei suas barras emocionais depois de pés na bunda ou ressacas morais. Trocávamos links pra shows inteiros no YouTube enquanto um lia o outro falando sobre as desilusões e esperanças recentes, indicações de novos autores vinham misturadas de confissões hilárias ou de sermões intensos. Uma dica de culinária lembrava velhas namoradas, brigas com parentes, a monotonia do emprego. Exercícios de futurologia, filmografias completas, ombro amigo, artistas desconhecidos, filosofias de vida – qualquer meia hora conversando com Fred via email, MSN, ICQ, Gtalk ou mensagens do Facebook valia por cursos intensivos das coisas que importam na vida.

O contato online, a poucos toques e cliques do teclado, se tornou uma amizade de coração, e, mesmo na maior parte do tempo morando em cidades diferentes, pudemos conviver proximamente em vários momentos. Desde as temporadas que eu passava no Rio no início da década passada aos shows de Paul McCartney que assistimos juntos em Buenos Aires, quando ele havia se mudado para a capital argentina. Mas dois períodos de convivência foram intensos: 17 dias em Recife no início de 2006 e o quase ano que trabalhamos juntos em São Paulo no Estadão, entre 2009 e 2010.

O primeiro foi em fevereiro de 2006, quando fui convidado para palestrar na segunda edição do Porto Musical, em Recife, uma semana antes do carnaval. Eu havia acabado de sofrer o acidente que me deixou parado por seis meses, braço direito na tipóia e sem movimentar a mão devido a um estiramento de nervos e uma das conversas mais frequentes que tinha com Fred à época era sobre a produção de conteúdo feita pelo usuário comum através da recombinação de mídias já existentes – a cultura do remix que é a base da produção cultural na internet, aquela feita por qualquer um (no final daquele ano a revista Time escolheria “você” como “pessoa do ano”). Pensei em apresentar este tema no simpósio e convenci a organização do evento a pagar a passagem de Fred, que havia topado desenvolver melhor a palestra comigo. Como estava de licença médica, poderia emendar o período da palestra com o carnaval pernambucano, uma velha utopia. Ao ir em dupla para Recife com Fred ainda tivemos a vantagem de descolar um apartamento no bairro de Boa Viagem, onde passamos duas semanas em dos carnavais mais psicodélicos da minha vida. Foi quando eu criei o Vida Fodona, que começou a princípio como um podcast de entrevistas – aproveitamos a movimentação cultural promovida pelo Porto Musical e, claro, pelo carnaval, e saímos entrevistando artistas, produtores e amigos sobre aquele momento. Na véspera da viagem, passei antes por seu apartamento no Leme (o clássico Tchose Inn), onde editamos o vídeo que apresentamos na palestra pouco antes de irmos ao histórico show que os Rolling Stones fizeram em Copacabana. Os causos e lendas deste carnaval (o misterioso segundo disco do Mombojó, a festa que Dani Arrais – que ainda morava no Recife – conseguiu agitar para que tocássemos antes de irmos embora, o famoso caso do psy às quatro da manhã) estão entre alguns dos meus melhores momentos pessoais. Vida Fodona indeed – e sempre ao lado do Fred.

O segundo aconteceu depois que me tornei editor do Link e consegui convencer o Estadão a contratar um repórter que não tinha diploma – Fred veio com a chinfra de “personal nerd”, título criado por ele que usei para atualizar a antiga seção “Saiba Como”, e logo encantou a todos, se tornando uma peça central em uma das melhores equipes que já fiz parte, a equipe que conduzi a partir de 2009. A convivência diária com Fred nos presentava com doses cavalares de gentileza e bom humor – Fred sempre tinha aquela tirada na hora certa, seja com um link, uma citação, uma lembrança inusitada ou apenas seu senso de humor ao mesmo tempo sisudo e sacana (sempre seguido daquele “HEHEHEHE” rido com força na garganta). Ele morava do lado de casa, no mesmo prédio que a Tati, e várias vezes emendávamos um terceiro tempo pela região – seja dividindo o táxi ou trocando idéia até altas em seu apartamento, bebendo, fumando, ouvindo música e jogando Beatles Rock Band. Foi em sua passagem pelo Estadão que ele conseguiu entrevistar dois de seus ídolos na música – Robert Schneider, dos Apples in Stereo, e Bill Withers. “Direto eu lembro das nossas conversas de fumódromo”, foi uma das últimas coisas que ele me escreveu, “hahaha, grandes momentos”. Grandes momentos :~

Essa convivência foi interrompida pelo próprio Fred que, em sua segunda passagem por São Paulo, havia percebido que não nascera para morar nesta cidade. Abandonara mais uma carreira, entre tantas, desta vez para morar em Buenos Aires. Seis meses depois me chamava no Gtalk – “estou te devendo um uísque, vou voltar pro Brasil”. Mas em vez de voltar para o Rio enfurnou-se em Paracambi. Logo depois vieram as notícias da morte de sua mãe e de seu pai (mesmo que não falasse mais com o pai, a notícia lhe baqueou, embora não transparecesse) e cada vez mais Fred foi se escondendo em Paracambi. Por trás da extrema simpatia havia uma tristeza que pairava sob sua personalidade. Era essa tristeza que o tornava tão doce e sentimental, mas ao mesmo tempo arrastava-o para baixo com força. Aos poucos, a ida para Paracambi parecia uma fuga da realidade para os mais próximos, que de algum jeito tentavam trazê-lo de volta à convivência. Mas ele parecia disposto a ir. Meu último gesto nesse sentido foi dar-lhe um blog nOEsquema – uma forma de contribuir não apenas aos anos que me deixou hospedado na Fubap (que antes chamava-se Badtrip) como também de fazê-lo voltar a escrever, mas o Axioma teve apenas quatro posts. Num deles, deslumbra-se com o grande disco de Frank Ocean do ano passado e cita uma entrevista do rapper para definir sua amplitude lírica. Sem querer, Fred estava falando de si mesmo:

“Quando você está feliz, você curte a música. Mas quando você está triste, você entende a letra.”

Fred era letra e música – e todos cantávamos com ele. Quem sente, sabe. Vamos seguir cantando-o.

malkmus-2014

Talvez essa seja a deixa perfeita pra fazer que ele volte em 2014 para o Brasil.

loureed

A primeira vez que ouvi a voz de Lou Reed foi quando um professor de história me emprestou uma fita cassete com o terceiro disco do Velvet de um lado, algumas músicas do Loaded do outro e “Venus in Furs” no final. Eu era adolescente em Brasília no início dos anos 90 e o acesso à informação em geral (principalmente se comparado a hoje em dia) era praticamente nulo. Comecei a gostar de música com uns 10 anos de idade e descobri o rock clássico ao mesmo tempo em que o rock brasileiro dos anos 80 paria um de seus principais representantes na minha cidade-natal – e enquanto os Beatles puxavam toda uma linhagem clássica e estabelecida (Stones, Cream, Hendrix, Doors, Led, Pink Floyd), o Legião Urbana citava toda a geração pós-punk (Smiths, Joy Division, Cure, Echo & the Bunnymen, Jesus & Mary Chain) além dos próprios punks ingleses (Sex Pistols, Clash, Buzzcocks) e americanos (Patti Smith, Talking Heads, Ramones). O raro contato com esse universo acontecia através da única revista regular de música (a Bizz) e especiais esporádicos de outras editoras (em geral, as revistas-pôster da Somtrês), em programas específicos de rádio (uns contrabandeados do Rio e de São Paulo em fitas cassete) e discos que raramente entravam no circuito, seja através do relançamento em CD (a novidade da indústria fonográfica da época) ou de amigos que traziam discos importados em raríssimas viagens ao exterior. Haviam duas dezenas de livros sobre música nas prateleiras das livrarias (dois do Nelson Motta, dois da Ana Maria Bahiana e vários Songbooks do Almir Chediak) e não existia internet.

Nesse garimpo de informações musicais começou a pintar, vez por outra, o nome do Velvet Underground. Sempre apresentado com excesso de estranheza, o grupo nova-iorquino não estava preso a nenhuma cena musical específica e era cria da mente de dois cérebros pervertidos – o estudante de música John Cale e o estudante de literatura Lou Reed. Os dois universitários negavam suas origens acadêmicas num projeto musical que misturava sexo, drogas e rock’n’roll sem um pingo do hedonismo bicho-grilo de seus contemporâneos. O clima do Velvet Underground era sujo e noturno, quase sempre barra pesada, com alguns ecos sentimentais funcionando como clareiras emocionais no meio do caos ali representado. Além da fita do professor de história, meu outro contato com a música de Lou Reed havia sido no disco VU, lançado em 1984, com as gravações daquele que deveria ter sido o terceiro disco do Velvet ainda com John Cale. Umas músicas do terceiro disco, outras do quarto, a íntegra do VU, “Venus in Furs”, algumas poucas fotos e muitos textos sobre a ruptura provocada pelo primeiro disco, as performances nos shows, os temas tabu, a baterista unissex, a viola elétrica, a microfonia de duas guitarras histéricas, a associação com Andy Warhol, a vocalista Nico vindo direto da Europa para ganhar três músicas-chave no primeiro disco. A biografia do Velvet é uma lenda sedutora para qualquer fã de rock’n’roll e o mínimo glamour combinado ao excesso sonoro e cênico até hoje é uma das matrizes do que chamamos de punk rock.

Mas não só. Lou Reed é desses marcos do rock que expandem suas fronteiras. Depois dos Beatles, talvez apenas o Velvet Underground tenha ampliado tanto os horizontes de uma música que nasceu como som do inconformismo adolescente norte-americano para tornar-se a trilha sonora do século 20. Tudo bem que o pacto feito com John Cale antes da banda existir (fazer música para agradar apenas a si mesmos) tenha suas raízes em bases opostas: Lou Reed não aguentava mais escrever músicas sob encomenda na gravadora Pickwick e John Cale havia chegado à conclusão de que a música erudita contemporânea o limitava. Mas o acordo entre os dois mudou completamente o rumo do rock – e da históra. Fodam-se os fãs, a indústria, os pais, o país. A única coisa que realmente importava era fazer barulho com outros amigos em uma garagem qualquer e falar do que viesse à cabeça. Esse é o principal legado do Velvet Underground.

Já a principal contribuição de Lou Reed veio da aspiração erudita em elevar a carpintaria do gênero às esferas da alta literatura – e para isso, contou com o submundo. A noite eterna, que se arrasta por bares, puteiros, ruas mal iluminadas e frequentadas por trambiqueiros, estelionatários, marginais e outras almas que se perderam na ingenuidade de um dia ser alguém. Contraposto ao mondo pop criado ao redor do padrinho do Velvet, Andy Warhol, aquele cenário fora habitados séculos antes por personagens de Shakespeare, Dostoiévsky, Dickens e agora vinha colidir-se com o mundo das artes do século 20. De repente prostitutas e viciados tornavam-se modelos e atores e a desolação do gueto era combustível para letras e riffs que cantavam as dores de Janes, Candys, Bills e Lisas e a transformavam em poesia mudana, suja, cantada com um sorriso irônico e um olhar perdido.

Sua morte é a mais importante no pop de 2013, pois vivemos num mundo que um dia só existiu na imaginação de Lou Reed. Poucos podem gabar-se de fazer a própria criatividade ter dado origem a uma mudança de comportamento que se espalhou pelo planeta. Lou Reed era um desses.

snowden

Desde que me tornei editor do Link, no Estadão, em 2009 até a minha saída no final do ano passado, me autoinflingi a um mau agouro: o dia em que o suplemento de tecnologia se tornaria obsoleto (também sempre cogitava a pior hipótese de hard news para um caderno semanal que circulava no início da semana – a morte de Steve Jobs numa segunda-feira; ela aconteceu numa quarta e mesmo assim eu e Helô conseguimos tirar onda na edição daquela semana, obrigando o leitor a entortar o jornal). Sempre brincava – embora falando sério – que a natureza do Link contraposta à do Estadão permitia que nos aventurássemos por diferentes áreas do jornal sem brigar por pautas com outros cadernos. Assim conseguimos falar sobre o Marco Civil da Internet, de pirataria como vertente política e das trapalhadas da nossa justiça com a natureza da internet antes do pessoal de política, da economia aberta e de moedas virtuais sem abalroar com economia, da discussão sobre a ilegalidade dos downloads, da natureza do remix e da arte colaborativa fora das páginas de cultura. Mas chegaria um momento em que essas discussões inevitavelmente iriam interessar aos leitores de todos os cadernos, quando o digital deixasse de ser exceção. Cogitava como horizonte o dia em que a internet e as novas tecnologias se tornariam tão presentes que deixariam de ser reconhecidos apenas por um caderno. Uma vez que a internet avança cada vez mais sobre cada desdobramento de nossa vida, é inevitável a chegada de um momento em que um caderno sobre novas tecnologias e cultura digital se torne redundante frente a todas as outras editorias.

Quis o destino que tais preocupações ficassem no passado logo que assumi a direção da Galileu, no final de 2012 (cogitando, sobre novos ombros gigantescos, novos horizontes), mas tenho uma forte impressão que todo esse oba-oba em torno do digital e da internet terminará até o final desta década. Isso não quer dizer que a internet passará ou que os dilemas da transição que estamos vivendo se cessarão: pelo contrário, acho que eles se tornarão ainda mais presentes e complexos. A diferença é que não vamos mais nos referir uns aos outros como “internautas” (palavra que abomino e tento eliminá-la de meus textos, a não ser pra citar o próprio ridículo do termo, como agora) e vamos deixar de falar em “entrar na internet”. A rede já é ubíqua e o Facebook sozinho já pode gabar-se de ter um sétimo da população do planeta conectada à sua agenda de contatos, o maior CRM do planeta. Mas já começamos a ver um movimento de reação que é inevitável: a fuga da internet (ou a redução da presença online). Cada vez mais gente abandona plataformas de publicação para ter apenas um ponto de contato com a internet, deixando para trás essa era histérica e autorreferente de discussões intermináveis que só fazem bem ao ego dos envolvidos, sejam colunistas ou blogueiros de esquerda ou de direita (conceitos cada vez mais difusos, ainda mais nesses dias). E essa desconfiança da internet ganhou requinte de crueldade com as revelações feitas por um ex-agente da inteligência norte-americana, Edward Snowden, que revelou que os Estados Unidos utilizam recursos digitais – com auxílio das grandes grifes da rede – para monitorar a vida de quaisquer cidadãos que estejam na internet, norte-americanos ou não.

Qualquer um que dissesse, até 2012, que o governo dos EUA teria algo parecido com o PRISM seria imediatamente tachado de paranóico e conspirador maluco – mas eis que vem a realidade e nos esfrega em nossas ventas algo que nem a melhor ficção cogitaria. Mais do que isso: nos dá um anti-herói vilão arrependido que foge para a Rússia numa ação que desafiou até a soberania do presidente boliviano. Snowden surgiu como improvável protagonista da contrainformação corporativa, deixando o mundo boquiaberto sobre suas revelações e dando início a um dominó político que por vezes respingou no Brasil – desde reativação o Marco Civil da Internet à detenção de David Miranda, o namorado brasileiro de Glenn Greenwald (responsável pela revelação das acusações de Snowden), até a carta que o próprio Snowden escreveu ao Brasil, dizendo-se disposto a ajudar o país no que diz respeito às espionagens relacionadas ao governo e empresas brasileiras.

As revelações de Snowden podem ter tornado o mundo mais cético e mais cínico, mas se esse é o custo para que saiamos do loop de autodeslumbre que estamos presos desde que a web 2.0 permitiu que o mundo ouvisse a voz de cada um de nós, tudo bem. Pode ser que assim passamos menos tempo olhando para telas, decididos a registrar qualquer momento ou pensamento, nos fazendo refletir sobre a natureza da sinceridade da pergunta que o Facebook sempre nos faz (“como você está se sentindo agora?”). Não vivemos num reality show em que o mais exibido ou melhor articulado ganha um milhão no último episódio – estamos mais para ratos em laboratório cujas menores reações são monitoradas a cada milímetros ou segundo. E não tem último episódio, mesmo que você leve o milhão (de views, de likes, de RTs).

Daft-Punk-Get-Lucky

De Bowie, em janeiro, a Beyoncé, em dezembro, lançamentos-surpresa estiveram na ordem do dia de 2013. É mais um indício que a transição da era analógica para a digital está chegando ao fim. Os artistas, que antes precisavam mover uma enorme máquina de marketing para conseguir ao menos um tijolinho de texto em uma página de jornal, estão fazendo isso sem tanta estrutura, pois falam direto com seus fãs. O álbum-surpresa não é uma novidade de 2013; o Radiohead já fez isso pelo menos três vezes (embora na primeira eles não assumam): no “vazamento” de Kid A no meio do ano 2000, quando o disco estava prometido para setembro; e no lançamento de In Rainbows, de 2007, e The King of Limbs, de 2011, postos para a rua em menos de um mês depois de finalizados em estúdio. A novidade de 2013 é que isso não é mais exceção e, aos poucos, tornam-se regra. Mesmo com gravadoras envolvidas no processo, os artistas querem entrar em contato direto com seus ouvintes e vender seus novos discos sem antecipação. Até o My Bloody Valentine tirou um atraso de mais de duas décadas usando essa fórmula, seguida pelo Boards of Canada, que brincou de quebra-cabeças com ouvintes e ratos de lojas de disco.

Mas ninguém soube faturar tão bem a expectativa como o Daft Punk. Não é de hoje que a dupla francesa experimenta formatos contemplando diferentes mídia e é nítida a ênfase específica que os dois dão à sua criação musical. Ao transformar as antigas máscaras em personalidades-robô, Guy-Manuel de Homem-Christo e Thomas Bangalter ampliaram sua área de atuação para além da música e talvez tenham se perdido no meio do caminho. Entre o soberbo (e lotado de samples) Discovery e a trilha sonora da continuação de Tron, a imagem do Daft Punk chamou mais atenção que suas músicas – e parece que foi com este intuito que Random Access Memories foi gravado. Sem samplear ninguém, a dupla chamou um senhor time de colaboradores (Panda Bear, Julian Casablancas, Giorgio Moroder, Todd Edwards, Chilly Gonzalez) e preferiu centrar fogo em uma música. Ou melhor: quinze segundos de uma música.

Foi o que aconteceu quando ouvimos “Get Lucky” pela primeira vez, num comercial do Saturday Night Live que viralizou no YouTube. 15 segundos e só o riff. A única imagem era o logo da banda, estilizado em prata, seguido das duas metades de cada capacete vindo de cada lado da tela, revelando a data de lançamento do novo disco. Sem vocal. Sem refrão. Só o riff, que depois ficamos sabendo que era tocado por ninguém menos que Nile Rodgers, fundador do Chic, que produziu David Bowie e Madonna nos anos 80. Semanas depois, uma versão esticada do comercial aparecia num telão no festival Coachella não apenas revelando a participação de Rodgers como a do cantor Pharrell, entregando a estrofe pré-verso da música. Ao criar essa expectativa em torno da chegada de uma única canção, o Daft Punk aos poucos foi nos acostumando com sua estrutura, seu ritmo, sua textura musical – essencialmente um flashback literal do final dos anos 70 e início dos anos 80 como o próprio nome do disco deixa claro.

Quando “Get Lucky” apareceu, tudo estava pronto para ela se tornar a música mais ouvida do ano. A expectativa criada em uma única música – e não numa grande volta ou em todo o álbum – colocou o Daft Punk no centro pop de 2013 e transformou seu hit em uma das músicas mais emblemáticas de 2013, mesmo que pareça ter sido feita em 1979. A forma como ela nos foi apresentada é que é típica deste século.

matias-babee

Foi a minha última Noite Trabalho Sujo de 2013, mas não a última do ano – esta acontece nesta sexta, sob a batuta do Danilo. Abaixo, as fotos que a Bárbara fez.

Continue

noites27dezembro2013

Passado o natal é hora de esperar 2014, mas antes do ano novo chegar, vem aí a última Noite Trabalho Sujo de 2013, quando a pista fica na mão dos grooves e hits pinçados pelo mestre Danilo Cabral. Ele repassa os melhores momentos do ano que termina ao mesmo tempo em que busca pérolas em todas as épocas e gêneros musicais para não deixar a pista parada! O caminho das pedras você já sabe: senão, siga as infos tanto no site do Alberta #3 quanto na página do evento do Facebook que não tem erro. E pra mandar os nomes pra lista de desconto, basta enviá-los para o email noitestrabalhosujo@gmail.com até às 20h. Aproveitem o fim de 2013 que 2014 promete!

13 de 2013

Treze partes de um ano ímpar, a partir do meu ponto de vista

bitch

O número 13 vem carregado de um desequilíbrio que perturba a maioria das pessoas. Como o dia em que nasci leva este número, entrei escaldado em 2013. Não havia como fugir que nosso primeiro ano 13 fosse tenso e carregado como foi – emoções boas ou ruins, igualmente inquietas. A aura do número – da sorte ou do azar, dependendo da perspectiva – pairou sobre nossas cabeças de forma quase icônica e ríamos ao chamá-lo de “creize” entre os dentes cerrados como uma forma de exorcizar toda essa pilha.

Foi um ano em que política pareceu ter perdido a aura engravatada e cinzenta que era nos vendida para se tornar algo palpável e presente, seja nos protestos de junho de 2013, nas políticas públicas, na participação popular, no convívio social. Vimos máscaras subindo e outras caindo num ano em que os papéis entre palco e platéia se embolaram de vez e a intermediação entre ambos tornou-se quase ensurdecedora, com tantos em busca de protagonismo. Polêmicas e memes se misturam às notícias e tudo parecia filtrado por opiniões recém-adquiridas via Facebook – toda semana um novo assunto é exaurido de possibilidades retóricas, o que aos poucos vem desgastando nossa capacidade (e paciência) de argumentação ao mesmo tempo em que essa fase de que se precisa ter opinião sobre tudo parece que vai passando. Convicções seguem rígidas, mas há uma desolação irônica que flutua sobre qualquer assunto – o papa que renuncia, os direitos das empregadas domésticas, o Ben Affleck vai ser o Batman, Tom Zé e a Coca-Cola, o ingresso de R$ 12.500,00, a Mídia Ninja e o Fora do Eixo – que parece nos preparar para uma realidade menos ilusória, plástica. Daí a política nos desinteressar na esfera representativa global e começar a brotar em recantos comunitários. Afinal, se somos todos monitorados pelos Estados Unidos, como já desconfiávamos pela onipresença do Google e do Facebook, por que não baixarmos a guarda e começarmos a falar umas boas verdades, inspirado pelo principal sujeito de 2013, esse Nobel da paz de verdade chamado José “Pepe” Mujica.

2013-Giuliana-Vallone

Mas a imagem do ano é a da fotógrafa Giuliana Vallone alvejada no olho por um policial durante um protesto pacífico, pois ela talvez seja quem melhor represente essa mudança – não estamos falando apenas de uma casualidade de guerra ou de uma estatística em um confronto, mas de uma pessoa surpreendida pela agressividade institucional. A mesma que nos faz querer ir às ruas, humanizar a discussão – afinal a discussão sobre os 20 centavos só ganhou corpo quando a violência policial fez-se presente. E isso nos custou abrir um pouco a mão de nossa zona de conforto.

Essa retomada do espaço público e do ar livre se refletiu em vários níveis pessoais – desde aproveitar melhor a cidade à materialização de uma festa vespertina. E não adianta despregar uma retrospectiva do ponto de vista individual, ainda mais no ano em que a dicotomia entre #merepresenta e #nãomerepresenta foi gasta num certo ponto em que a única verdade possível é a de cada um. Particularmente, tirei 2013 para estabilizar meu plano de vôo – e se o acaso quis que a maioridade do Trabalho Sujo coincidisse com meu primeiro ano na direção da Galileu, transformei isso em meta dupla coexistente. Sob ambas, o despertar de uma preocupação com a saúde que vai além da fácil “alimentação melhorada” rumo ao exercício físico (a caminhada #thewalk e a natação #downbythewater, dois hits da minha vida assumindo-se rótulos para transformações físicas) e vendo um horizonte sem a fumaça da nicotina em 2014. Conheci Berlim e Barcelona, duas cidades incríveis e antagônicas, São Paulo e Rio de Janeiro de uma Europa mais jovem que esperava encontrar. Vi o Cure, o Tame Impala e o Blur duas vezes, finalmente fui a um festival Primavera, vi o Cidadão tocando o Dark Side do Pink Floyd e um show histórico do Neil Young sobre seu Crazy Horse. Dei festas memoráveis sempre tocando ao lado de amigos queridos e aos poucos estou retomando a cozinha. Mas fui ao cinema e li menos do que gostaria. A série cujo final eu mais aguardava terminou sem graça e perdi um dois grandes ídolos: um icônico e outro irmão. Foi um ano montanha-russa, em que a lógica pareceu ser a mesma por trás de qualquer Harlem Shake (uma moda, por incrível que pareça, deste ano).

Nos próximos treze posts, treze lembranças deste ano treze que chega ao fim, textos que comecei a escrever em diferentes épocas e cidades nos últimos doze meses e que serão terminados nas altitudes de um deserto sul-americano, onde passo uma semana com a única pessoa que realmente importa – minha mulher.

Força, porque ano que vem, você já sabe, vai ser “o” ano: e só melhora!

PS – A contagem regressiva das 75 melhores músicas de 2013 continua a partir do primeiro dia de 2014, junto com outras listas de retrospectiva, que seguem até o dia 6.