
Morreu nesta segunda-feira um dos maiores nomes da percussão jamaicana, o lendário baterista Sly Dunbar. Nascido Lowell Fillmore Dunbar, Sly ganhou este apelido na adolescência, quando começou a tocar com aquele seria seu maior parceiro em toda vida, o baixista Robbie Shakespeare, no momento em que a música da ilha caribenha em que nasceram passava por sua maior transformação. O ska tornava-se rock steady e aos poucos o novo gênero deixava de ser tão dançante para assumir uma doçura que vinha da soul music norte-americana, mutando-se no que depois se tornaria mundialmente conhecido como reggae. Sly e Robbie começaram a tocar juntos em grupos da primeira fase do gênero, como Revolutionaries (que também tocava como Aggrovators) e suas influências vinham da própria ilha – especificamente do baterista dos Skatalites, o lendário Lloyd Knibb, e do baterista dos Booker T & The MGs nos Estados Unidos, Al Jackson Jr. Os Revolutionaries tornaram-se a banda do histórico Channel One Studios no mesmo ano em que Bob Marley tornou-se um artista global, o que provocou uma procura mundial pelo novo ritmo jamaicano. Logo os dois começariam a trabalhar como uma dupla e assinar Sly & Robbie, tocando tanto com lendas conterrâneas (como Gregory Isaacs, “Scratch” Lee Perry, Junior Murvin, Black Uhuru, Peter Tosh, Chaka Demus & Pliers, Bunny Wailer, Jimmy Cliff e o próprio Bob Marley) a titãs da música pop tão diferentes quanto Bob Dylan (que os reuniu com Mark Knopfler e Mick Taylor no disco Infidels, onde gravaram “Jokerman”), Herbie Hancock (com quem gravaram “Future Shock”), Grace Jones (com quem gravaram três álbuns), Serge Gainsbourg, Madonna, Fugges, No Doubt, Sinéad O’Connor, Britney Spears e os Rolling Stones. Robbie já tinha ido para o outro plano em 2021 e agora os dois se reúnem novamente no céu do reggae. Vai em paz.

A semana começa com Mr. Bungle no Cine Joia, mas o mais legal é saber que Mike Patton e companhia chamaram os brasileiros do Test pra abrir o show desta segunda. Foda demais!

“Don’t sleep, don’t eat, just do it on repeat”, respondeu Charli XCX, citando ela mesma (na “365” que encerra seu disco Brat) quando alguém da plateia perguntou como é que ela conseguia tempo para fazer tudo que conseguia. Ela estrelou a entrevista coletiva neste sábado no festival de Sundance quando apresentou seu documentário de mentira The Moment ao lado do elenco do filme e do diretor Aidan Zamiri e falou sobre o que ela mais queria agora, diferente da personagem do filme, é que o Brat – disco-motor do fenômeno retratado no pseudodocumentário – parasse.
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Foi um dia antes do aniversário da cidade, mas deu pra lavar a alma da pequena multidão que se aglomerou debaixo do vão do Masp no sábado para assistir a Suzana Salles, Juçara Marçal e Kiko Dinucci iapresentar o espetáculo que fazem há anos ao redor do repertório de Itamar Assumpção. Especial ouvir “Sampa Midnight” ao lado do Trianon e sob o vão do museu citados na música, mas mais forte ainda perceber o quanto a obra de Itamar vai cada vez mais perdendo a aura equivocada de maldito para assumir seu lugar como arcano maior da sensação de paulistanidade evocada naquele encontro, reunindo três ícones da música da cidade. Para ganhar a estatura exata, o show no entanto precisaria estar num palco alguns metros mais alto (apenas cem centímetros já melhoraria bastante a experiência) e com o som poucos decibéis acima. Mas mesmo esses pequenos revezes ampliavam a presença da cidade ao redor – a conversa das pessoas, o som do trânsito, o barulho das árvores, a fina garoa que insistia cair em pleno verão -, o que não chegou a comprometer um sensacional sábado à tarde. E ouvir Juçara e Suzana conduzindo os vocais do público para entoar “Nega Música” com o violão de Kiko como único acompanhamento instrumental foi maravilhoso…
#itamarassumpcao #kikodinucci #jucaramarcal #suzannasalles #masp #trabalhosujo2026shows 006

Bons presságios do primeiro Inferninho Trabalho Sujo nessa sexta-feira, começando o ano com uma série de sinais que dão uma ideia de como o ano promete. A começar pela casa anfitriã da noite, quando o compadre Arthur Amaral mostrou sua Porta Maldita após uma pequena mas agradável reforma que deixou a área do bar mais espaçosa – e propícia pra virar uma pistinha. A noite abriu com a banda do Vale da Paraiba Infinito Latente, que lança seu primeiro álbum bem nesse início de ano, aproveitando a festa para mostrar as músicas ao vivo pela primeira vez desde o lançamento. Baseada na harmonia da dupla que lidera o grupo, a vocalista Maira Bastos e o violonista João Dussam, o grupo ainda conta com Igor Sganzerla nos teclados, Pedro Sardenha no baixo e Caio Gomes na bateria, mostrando as canções de seu Sem Início Nem Fim na fronteira entre o indie rock e a MPB que tão bem caracteriza essa nova geração.
Depois foi a vez da Schlop aproveitar a oportunidade para mostrar a versão física e palpável do ótimo projeto “O Mapa da Música Autoral de SP”, concebido pelo companheiro da vocalista e líder da banda, Isabella Pontes, Alexandre Bazzan. O levantamento de Bazzan (que pode ser encontrado digitalmente em sua newsletter) reúne tanto casas de show quanto novas bandas e depois falo mais sobre esse ótimo projeto. E o show da Schlop também trouxe novidades: além de consolidar a formação com Lúcia Esteves no baixo e o aniversariante Antonio Valoto (na bateria), a banda começa a mostrar as músicas que lançarão em seu próximo disco, em que regravaram as músicas que Isabella lançou quando a banda ainda era um projeto de uma garota só em seu quarto. A apresentação terminou com Isabella entregando a guitarra para Gustavo Esparça (que toca em bandas tão diferentes quanto Apenas Animais, Onda Quadrada, Elipsismo, Miragem, entre outras) para o momento mais grunge da noite.
A edição terminou com a primeira apresentação da banda Turmallina na festa, com o quinteto paulistano comemorando dois aniversários na banda, quando a baterista Paula Janssen e o baixista Eduardo Campos ganharam parabéns no palco da Porta Maldita. O grupo caminha por essa improvável vertente da nova cena indie de São Paulo que mistura emo com shoegaze e aproveitou a oportunidade para mostrar músicas novas que estarão presentes em seu primeiro álbum, que está gravado agora. À frente da banda está o guitarrista Caio Silva, que, mesmo sem chamar atenção, equilibra-se entre duas duplas, dividindo os vocais com Gabe Jordano e as guitarras com Marcos Marques, dando uma personalidade específica o grupo.
#inferninhotrabalhosujo #infinitolatente #schlop #turmallina #portamaldita #noitestrabalhosujo #trabalhosujo2026shows 003 a 005

O primeiro Inferninho Trabalho Sujo de 2026 acontece no dia 23 de janeiro, quando, em mais uma noite na Porta Maldita, reunimos as bandas Infinito Latente, Schlop e Turmallina para esquentar a sexta-feira da próxima semana apontando os nomes que estão formando a nova cena independente nos anos 20. A Porta Maldita fica na rua Luís Murat, 400, entre os bairros de Pinheiros e Vila Madalena e abre a partir das 20h. Os ingressos já estão à venda e eu toco entre os shows de cada banda. Vamo lá que o ano tá só começando…

Vamos voltar a falar de Geese? A banda da vez começou 2026 na maciota e seu líder Cameron Winter apresentou-se solo nesta segunda-feira na casa nova-iorquina TV Eye sob o infame e genial pseudônimo de Chet Chomsky dentro de um evento organizado pela Olive Grove Initiative para arrecadar fundos para ajudar famílias carentes em Gaza. Nessa mesma noite, a guitarrista do grupo Emily Green também mostrou seu trabalho solo, tocando sozinha canções ainda sem título um pouco antes do show do vocalista de sua banda. 2026 promete…
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Há exatos 40 anos, uma certa Kim Deal respondia a um anúncio em que uma banda formada por Charles Thompson, Joey Santiago e David Lovering que procurava uma baixista mulher para uma banda com influências de Peter Paul & Mary e Hüsker Dü. E assim nascia uma das bandas mais importantes de todos os tempos: os Pixies.


Tem Plastikman e Bernard Herrmann, Ryuichi Sakamoto e Leonard Cohen, Aphex Twin e Syd Barrett, Bill Evans e Lee Hazlewood, Faust e Danny Brown, Nino Rota e até o brasileiro José Mauro: o Radiohead acaba de disponibilizar o mix que o Thom Yorke criou para a abertura dos shows que fizeram no ano passado em quatro capitais europeias. O link pra mixtape em diferentes plataformas – inclusive um mix completão, no Mixcloud -, ouça abaixo: Continue

Quando Charli XCX despediu-se do verão Brat no final do festival de Coachella do ano passado, ela não estava apenas colocando o ponto final em seu bem sucedido experimento pop de 2024, como também estava esticando-o como reticências para um novo momento para o disco. O momento em si (er…) era o próprio filme The Moment, que estreia no próximo dia 30 nas telas do hemisfério norte, pseudodocumentário feito no meio da turnê do infame disco verde-limão que lida com a dor e a delícia de se cumprir uma agenda intensa quando se chega um ponto alto do showbusiness (que inclui, mais infâmia de piada interna, documentários sobre turnês gigantescas). O documentário começou a ser revelado ali, quando, no telão, ela duvidava sobre o fim do verão Brat e, no som, ouvíamos um remix de “I Love It”, hit da dupla sueca Icona Pop que colocou Charli no mapa mundial da dance music em 2012, que dá ênfase em dois versos da canção: “Eu amo” e “eu não me importo”. Foi revelado no ano passado que o remix era, na verdade, uma faixa inédita do produtor e broder de Charli, A.G. Cook, que assina a trilha sonora do documentário e batizou aquele último suspiro de Brat de “Dread” (nojo), sintetizando o lado pesado da fama multimilionária que quase nunca é mencionado por seus protagonistas. Na semana passada, Cook lançou mais uma música da mesma trilha, um IDM pesadíssimo chamado “Offscreen”, o que indica que Brat seguirá vivo por mais alguns meses mesmo que Charli esteja mais ocupada com sua carreira nos cinemas – e siga dando aulas de como lidar com o mondo pop na terceira década do século 21.
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