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Loki

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Os alemães Jens “Jence” Moelle e İsmail “Isi” Tüfekçi reativaram o Digitalism depois de cinco anos sem lançar nada novo e para abrir caminho para o novo disco – Mirage, previsto para o meio de maio -, apresentam o clipe de “Utopia”, explorando um universo ainda mais eletrônico do que suas raízes maximalistas.

Climinha daqueles

bibio2016

O produtor inglês lança mais um disco – A Mineral Love – e você sabe como as coisas ficam quando ele chega… O clipe de Light Up The Sky dá a medida.

killingchainsaw-2016

Entrevistei o Rodrigo Guedes sobre o renascimento de uma das principais bandas do indie rock brasileiro, que se reuniu novamente para uma série de shows lá pro meu blog no UOL.

Entrevistando o Seconde Come

Entrevistando o Seconde Come

Houve um tempo em que ter uma banda e viver de música eram atividades quase marginais, quando conhecer música era uma atividade para iniciados pois discos eram difíceis de serem encontrados e escolhas estéticas criavam conjuntos musicais que não estavam interessadas em fazer sucesso comercial. Esse é o espectro do documentário Guitar Days – An Unlikely Story Of Brazilian Music, que começa a se materializar a partir dessa semana, com os três shows de volta do Killing Chainsaw em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte. A volta do mítico grupo piracicabano, pedra fundamental para um mercado independente que hoje movimenta milhares de pessoas em todo o país, está diretamente ligada ao filme idealizado por Caio Augusto, que passou a entrevistar dezenas de bandas, produtores, donos de selo e jornalistas, para contar a história de uma cena que começou no início dos anos 90 e colhe frutos até hoje. Fui um dos entrevistados do filme, que ainda não tem data de lançamento, e também chamado para discotecar no show do Killing Chainsaw desta quarta, no Z Carniceria, que terá abertura dos Twinpine(s) (tocando com o Zé dos Pin Ups) e dos Mickey Junkies (mais informações aqui). O Killing também toca sábado em BH ao lado do Secod Come, do Valv, do Câmera e do Lava Divers (mais informações aqui) e no Rio dia 30 ao lado dos Cigarrettes e do Second Come (mais infos aqui). Conversei com o Caio por email sobre o documentário e a cena que ele se dispôs a conhecer melhor.

Como surgiu a ideia de documentar este recorte da produção musical brasileira?
A ideia original era fazer um curta sobre a ocupação do espaço público pelo músico independente. Em algum momento em março do ano passado, um grupo de amigos divulgou um show de rua que seria realizado na Praça Roosevelt. A tarefa não parecia nada fácil, naquela semana eles trocaram de lugar uma porção de vezes. Problemas com autorizações e a polícia militar. Na noite anterior ao evento, conseguiram a autorização. O show não aconteceu porque choveu. Aquilo me chamou a atenção e os procurei pra saber quais eram as dificuldades de se tocar hoje em dia.
Digo hoje em dia porque também tive banda, que se chamava Kaddish, mas nem chegou a gravar nada e sabia, por experiência própria, que a vida nos anos 90 não era nada fácil, achei que ali tinha uma boa história e esse paralelo temporal poderia ser feito.
Durante as pré-entrevistas, onde os próprios entrevistados sugeriam os próximos a ser entrevistados, percebi que as histórias não eram tão somente sobre a conjuntura do cenário alternativo-independente, contava-se uma história longa, desde o início dos anos 90, como se houvesse a necessidade de cobrir um espaço nessa linha de tempo que eu, como entrevistador, talvez precisaria ser informado por não ser um tema óbvio.
A partir deste momento, entendi que um pedaço incrivelmente relevante da história da música brasileira me chamava para ser registrado, a história das bandas alternativas-independentes que cantavam em inglês e utilizavam a voz como mais um elemento musical, e não como protagonista da canção. Eram as guitar bands.

Alê e Zé (Pin Ups)

Alê e Zé (Pin Ups)

Como você chegou ao denominador comum em relação a cantar em inglês no Brasil?
Dissonância, vocais embutidos e letras em inglês foram denominadores comuns para estas bandas que, a partir do início dos anos 90, decidiram romper com rock dos anos 80 e assumir suas influências que vinham de fora. Mas isso tinha um preço.
Quando se fala em “artista”, sobretudo no mundo da música, comumente pensa-se em badalação, fama, grana e afins. Inclusive, não é nenhum exagero dizer que o jovem que procura a vida artística, hoje em dia, ambiciona essa vida de celebridade que lhe é vendida, em vez da divulgação e promoção da sua produção artística. Os envolvidos neste cenário alternativo-independente abandonam qualquer possibilidade de se tornar um “artista” da maneira como lhes tem sido apresentado, pela simples escolha do idioma inglês como canal de expressão. Pelo menos, é o que tem se provado até então.
Por que se tornar um artista sem exigir o “pacote de benefícios” que a função costumava lhe conferir? Nunca houve, realmente, nenhuma pretensão? As respostas para estas perguntas têm ligação direta com aquilo que o documentário também pretende apresentar: o rock pode ter sofrido com sua autoestima, mas nunca perdeu a atitude. Quem acha que perdeu, está olhando para o lugar errado. O fato do mercado não se interessar por rock – em 2015 não houve um música de rock sequer nas top 100 das rádios brasileiras -, não extirpa da personalidade do rock a sua característica essencial. Enquanto as câmeras apontam para um lugar, atrás delas o bicho tá pegando.
Se sua banda canta em português, não importa qual sua intenção no show business, você tem chance.
É óbvio que para toda regra há uma exceção. E essa exceção, até agora, foi o Cansei de Ser Sexy. Agora, se você perguntar “por que eles estouraram?”, nem mesmo Carlos Eduardo Miranda, o primeiro a assinar com a banda através da Trama, sabe te responder. Adriano Cintra, compositor e multi-instrumentista do Cansei, tem uma boa resposta pra isso, “não foi meritocracia nenhuma, foi como ganhar na mega-sena”.

Qual a sua relação com estas bandas? Como conheceu esta cena?
No início dos anos 90, também tive uma banda que compunha em inglês. Não era uma guitar band, era uma banda de pós-punk com influências de Cure, Siouxsie, Joy Division e afins. Em São Paulo, o costume era oferecer noites de pós-punk/gótico às sextas, guitar aos sábados, e punk/hardcore aos domingos. Raramente me encontrava com essa galera, apesar de ter assistido aos shows de Pin Ups, Killing Chainsaw, Mickey Junkies e Garage Fuzz nessa época.
Havia um misto de curiosidade e admiração por estas bandas. Lembro quando vi pela primeira vez o disco homônimo do Killing, o da capa do Akira – feito pelo jornalista Alex Antunes -, e pensei: “Cara, as portas se abriram. Vai rolar gravar um disco!” Mas assim como o Sol Segabinaze do Stellar lamenta no teaser do doc, é difícil rolar.
A minha relação com eles foi como a de muitos, de quem estava por perto naquele momento, mas não eram meu círculo de amizade e nem curtíamos o rolê juntos. Ao contrário dos meus amigos que me acompanham na produção do documentário. O Magoo Felix sempre esteve nos mesmos lugares dessa galera toda, da mesma forma que o Maurício Palhano esteve com a galera de Belo Horizonte. Acredito que esse distanciamento me habilitou a tratar do assunto com imparcialidade necessária para um documentário, tanto na captação das experiências dos entrevistados, quanto na descrição dos fatos.

Mickey Junkies

Mickey Junkies

Foi um documentário dificil de ser realizado?
Tem sido. O primeiro desafio a ser compreendido e equacionado é a obtenção e alocação de recursos para um projeto que não tem apelo comercial. É um trabalho sobre um cenário musical que, apesar de prolífico e de alcance nacional, ainda se trata como nicho, comercialmente. Ainda assim, pudemos observar durante a realização do documentário, que existe uma intenção objetiva de seus envolvidos – casas, mídia especializada e músicos – em assumir sua importância dentro do rock brasileiro e se profissionalizar. Por conta disso, nossa primeira tentativa de captação de recursos foi através de crowdfunding. Avaliamos que esta forma coletiva de financiamento seria uma possibilidade real para escoar nossas recompensas através desta ampla network em construção, auxiliaria no processo de divulgação inicial, com a possibilidade de entregar ao fã de música recompensas relevantes relacionadas ao tema. Preparamos uma coletânea de músicas inéditas em parceria com a Midsummer Madness, exibições de corte-não finalizado, DVD com extras e shows especiais em SP, BH e RJ, mesclando bandas noventistas com a nova safra e promovendo o retorno do Killing Chainsaw. Paralelamente, lançamos uma campanha chamada “Pacoteira Guitar Days”, onde dezenas de artistas, selos e bandas independentes de diversos estilos colaboraram com camisetas, CDs, vinis e uma série de outros itens bacanas para estimular a venda dos apoios. Ainda assim, o crowdfunding não trouxe o retorno esperado e preferimos interromper o processo em tempo para que os shows pudessem ocorrer sem problemas para os fãs interessados. A Pacoteira será sorteada entra aqueles que comprarem os ingressos para estes shows.
Ainda sobre problemas, um dos maiores ao realizar esse documentário foi decidir quando parar de buscar os personagens a serem entrevistados. O Guitar Days não tem a pretensão de indicar quem são as bandas mais relevantes do país, sobretudo se falarmos sobre a cena atual. Mas é inegável que Pin Ups, Second Come, Killing Chainsaw, Mickey Junkies, Garage Fuzz, Low Dream, brincando de deus, PELVs e The Cigarettes, foram sim os pioneiros da música indie nacional. Foram os primeiros a gravar discos e CDs, os primeiros a desenvolver uma linha rudimentar de distribuição de fitas demo, os primeiros a lançar uma plataforma online – brincando de deus tinha site na web em, pasme, 1993! – e os primeiros a criar uma rede de colaboração e cooperação entre bandas. A partir daí, o guarda-chuva se abriu. Querer definir a relevância das bandas independentes a partir deste ponto seria, no mínimo, irresponsável. Com bandas do mainstream isso é simples e óbvio, há uma lista ali de quem vendeu mais discos. Mas e para quem vende discos para um público ultra-segmentado? Por isso, a partir dali, a escolha das bandas para o registro do documentário obedeceu um critério objetivo. Dentre os temas abordados na narrativa, buscamos bandas que têm experiência para falar sobre tais assuntos e foram, também, mencionadas nas pré-entrevistas.
Um exemplo. Em Belo Horizonte, tínhamos na lista os excelentes Valv e Vellocet de BH, e Soap Blisters de Contagem. Três guitar bands de expressão na região, sendo que uma delas foi uma das primeiras bandas nacionais a participar do South By Southwest, o Valv. E eles contaram como foi essa experiência nos EUA.
Recebo mensagens cobrando a participação de bandas de todas as partes do Brasil, como se tivesse havido uma eleição ou seleção de bandas para o documentário. O doc não trata de quem é o mais importante, trata de assuntos importantes relacionados ao cenário alternativo-independente cantado em inglês e a forma como bandas experienciaram aquilo.
Mas como trabalho pouco é bobagem, pra quê simplificar se a gente pode complicar, não é? Hoje, temos um longa-metragem para finalizar, um CD para prensar e três shows para produzir. Se não é a participação dos parceiros Rodrigo Lariú – do selo Midsummer Madness – fazendo o meio-de-campo na produção da coletânea; o Rodrigo Carneiro – dos Mickey Junkies – ajudando enormemente em tecer alguns contatos fundamentais para as entrevistas; o Maurício Mauk – do Second Come – fazendo a ponte com a galera no Rio de Janeiro; nosso anjo da guarda mineiro, a Fernanda Azevedo – que era da produtora Motor Music – na linha de frente do show em BH; a Mariângela Cavalho – do Supernova – dando total suporte na nossa divulgação, posso lhe assegurar que nós aqui já tínhamos arrancado todos os nossos cabelos, unhas e etc.

Como você vai financiar o resto do filme? Há uma previsão de lançamento?
Ainda estamos avaliando alternativas para o financiamento do filme. A intenção é esgotar as possibilidades de finalizar o documentário de forma autossustentável, e os shows são uma das ferramentas de apoio para o financiamento. Veja bem, não sou contra a utilização de leis de incentivo. Acredito que o governo tem a obrigação de fomentar a produção cultural no país. Ainda assim, é uma busca pessoal tentar alternativas ao financiamento público. O Guitar Days é sobre isso, também. Sobre ser independente. Criar caminhos para que o audiovisual autoral possa se retroalimentar é, além de uma luta pela sobrevivência, uma declaração de independência. Sobretudo com a iminência de tempos difíceis por aqui. Sobre o lançamento, ainda não há previsão. Além do financiamento, durante este processo de levantamento de recursos percebemos que ainda havia algo que precisava ser contado. Por conta disso ainda faremos algumas captações pontuais, mas muito importantes para o refinamento da história.

Rodrigo Guedes (Killing Chainsaw e Grenade)

Rodrigo Guedes (Killing Chainsaw e Grenade)

Fale sobre a relação do documentário com o último show dos Pin Ups e a volta do Killing Chainsaw?
Quando fiz a pré-entrevista com o Zé Antonio, ainda em maio de 2015, ele já havia me dito que estavam conversando com o Sesc para fechar o último show da banda em São Paulo. Não teve dedo nosso ali, ao contrário do Killing Chainsaw.
Ao entrevistar o Rodrigo Guedes em Londrina, e Gozo, Pedrinho e Gérson em Piracicaba, percebemos que havia ali uma vontade latente em tocar juntos mais uma vez. E não era “voltar a tocar”, Guedes nunca deixou de tocar. Apesar do tempo lhe atribuir mais responsabilidades, ele é o “singer-songwriter” do Grenade. O pessoal de Pira se reúne eventualmente para tocar, com menos frequência, uma vez que o baterista Pedro Rosas mora hoje em São José dos Campos.
Eu, como fã de música e de performances ao vivo, sempre quis ver o Killing tocar mais uma vez. E acredito que eles também. Antes das entrevistas contei para eles tudo aquilo que tinha ouvido nas entrevistas anteriores. Como as bandas e jornalistas viam o Killing Chainsaw e como essa admiração não mudou de tamanho dos anos 90 para cá. Admito que fui à entrevista de Piracicaba já com segundas intenções, mas não aumentei uma palavra sequer daquilo que tinha ouvido. O Killing Chainsaw tinha uma vigorosidade nos palcos, que os entrevistados lembravam com brilho nos olhos. A semente havia sido plantada. Colheremos agora nesta quarta, no Z Carniceira em São Paulo, no sábado na Autêntica em BH, e dia 30 no Saloon 79, no Rio de Janeiro.

Quem você vê como os principais herdeiros daquela época?
A internet te oferece um universo de músicas e bandas, hoje, de forma totalmente horizontal e democrática. O oposto dos anos 90, quando você tinha que sair de casa, ir aos shows, copiar demos, vasculhar zines para ouvir coisa nova. Também não há o elemento da ruptura, que caracterizou aquela época, nos dias de hoje; mas sem dúvida alguma podemos ver bandas que foram influenciadas ou que transitam pelos caminhos criados por aquelas bandas. Pessoalmente, gosto de bandas mais soturnas, como os piracicabanos – tem coisa naquela água lá! – do Travelling Wave, mas não acho que eles seriam herdeiros por causa de uma sonoridade contemporaneamente distópica. Na minha opinião, os mineiros do Lava Divers e os gaúchos do Loomer, agregam as especificidades da época: guitarra distorcida, vocal embutido, volume alto, 4 pessoas que vivem a banda, correria, networking e muita disposição. Tenho convicção de que, se a música que o Lava Divers gravou para o Guitar Days, “Hash and Weed”, for lançada na gringa, vira hit. Aliás, essa coletânea do Guitar Days tá uma coisa linda!

Lava Divers

Lava Divers

O que mais lhe impressionou ao produzir o documentário?
Os artistas, sem dúvida alguma. O que conheci foi um número de talentosos artistas brasileiros que são tão artistas quanto My Bloody Valentine ou Sonic Youth. A diferença aí, é que estes artistas independentes não podem se dedicar a sua arte em seu tempo integral, porque precisam se dedicar a outras atividades para custear a sua atividade artística que, como sabemos, não é autossustentável. Não há dúvidas ao afirmar que essa foi a melhor parte ao realizar este documentário. A sensação ao sair das entrevistas era de perplexidade por estes artistas não terem recebido o devido reconhecimento por aquilo que produziram até então. Foi um privilégio ouvir as histórias dessas pessoas. Não por acaso, foram mais de 70 horas de conversas registradas.

Fabio Massari

Fabio Massari

Como foi seu contato com o Mauricio Palhano e o Magoo Félix, que estão ajudando no documentário?
O Magoo Felix é amigo de bairro. Nos conhecemos desde os 16 anos quando ele só ouvia Anjos dos Becos. A bateria que ele usou nos primeiros 6 anos de Twinpine(s) era a minha. Magoo era um dos entrevistados para o curta-metragem sobre a ocupação do espaço público. Foi ele quem me costurou os contatos do Zé Antonio do Pin Ups e Rodrigo Carneiro dos Mickey Junkies. E foi logo após estas entrevistas que decidi ampliar o escopo de atuação. Eu o chamei, dizendo que seria uma produção de guerrilha e não poderia pagar um real sequer, ele aceitou na hora. Magoo é um trabalhador incansável! O Maurício Palhano foi meu parceiro de Academia de Cinema. Ele não gosta muito de tocar no assunto, mas é baterista da banda shoegaze mineira Multisofá. Através dele, desenrolamos as entrevistas de Minas e Rio de Janeiro e algumas outras em São Paulo. Além dos contatos com os entrevistados, Magoo e Maurício seguiram atuando em diversas frentes da produção, como obtenção de locais para gravação, busca de material de cobertura, artes gráficas, e também durante as gravações, auxiliando na captação de áudio e também participando das entrevistas. Isso sem falar na correria da produção dos shows, que é todo um trabalho à parte.

Caio, Magoo e Maurício (Divulgação)

Caio, Magoo e Maurício (Divulgação)

Os gaúchos voltam com a formação clássica e lançam seu possível melhor disco, que você escuta primeiro aqui

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O estalo me veio durante o show dos Pin Ups do ano passado. Mesmo que a banda-símbolo do indie paulistano dos anos 90 parecesse mais uma assembleia de pais e professores do que ícones cool d’antanho, aquele talvez tenha sido seu melhor show. Mesmo há séculos de distância de seu auge, há uma década e meia sem gravar e mais de dez anos sem tocar juntos, o grupo estava tocando num bom palco (o Sesc Pompeia), com instrumentos e equipamentos bem melhores do que os que haviam nos anos 90 e um público legitimamente interessado – e cantando todas as músicas! – na banda. A intimidade dos músicos com o público, com o palco e anos a mais de prática em seus instrumentos também transformou aquele momento de 2015 num dos principais acontecimentos de sua carreira.

E pelo mesmíssimo motivo Monstro, o novo disco do Defalla, que você ouve em primeira mão no Trabalho Sujo, periga ser o melhor disco da clássica banda gaúcha. Edu K já foi ao céu e ao inferno do pop brasileiro de todas as formas e hoje, mais do que nunca, entende a essência da banda que pariu ao lado do guitarrista Castor Daudt, do baixista Carlo Pianta e da baterista Biba Meira (baixista), todos da formação clássica da banda (dos dois primeiros discos) e todos de volta ao disco original. Aperte e o play e deixa Edu K falar:

“O engraçado que, sem querer ser autoindulgente, a maior influência desse disco é o próprio Defalla!”, me conta o gênio picareta Edu por email, ciente de como desvirtuou a carreira da banda em detrimento de suas próprias loucuras. “Durante os anos em que fui o único integrante original e legítimo na banda, muitas vêzes usurpando o sagrado nome do Defalla com mega hits pop como “Popozuda Rock N’ Roll” -segundo os fãs mais ardorosos, que me excomungaram e me desejaram as profundezas do último círculo do inferno por minhas heresias – pelo menos as festas devem ser uma loucura por lá, né? haha – houveram algumas tentativas de reunião. Mas, finalmente, em maio de 2011, o tão esperado reencontro tomou forma no show, Discografia do Rock Gaúcho, onde várias bandas da cena sulista tocavam, na íntegra, algum de seus discos clássicos. No primeiro acorde do primeiro ensaio com os 4 Cavaleiros do Após Calypsotech juntos na mesma sala, com seus instrumentos nas mãos e enormes sorrisos nas caras, soubemos: estamos de volta, mesmo sem nunca termos ido à lugar algum! Foi como se tivéssemos tocado juntos na semana anterior, não no século anterior. À partir daí, sabíamos: temos que gravar um disco novo!”

Produzido pelo próprio Edu K, Monstro soa como o clássico Defalla dos primeiros discos, mas traz um espírito de época (o final dos anos 80), que só parece ter sido digerido pelos quatro há décadas de distância. Há ecos de acid house, da cena Madchester, da fusão entre o rock e o rap, da fase pop do Gang of Four, da aproximação entre o rock psicodélico e a música eletrônica, da canonização do rock clássico, do distanciamento do R&B do hip hop e do nascimento do funk metal. É como se os Red Hot Chili Peppers tivessem gravado o Screamadelica ou como se o disco rock’n’roll do Primal Scream fosse o BloodSugarSexMagik – e, por mais indigesto que isso possa parecer, funciona. E bem. Edu enumera as referências: “temos de volta todos os clássicos que sempre nos acompanharam: de Tim Maia à James Brown, passando por George Clinton – o que sempre gerou comparações com os RHCP, por quem não faz seu dever de casa -; de David Bowie à Iggy Pop, passando, e parando, no Eno; toda aquela turma gótica dos anos 80, de Bauhaus à The Cure; e, claro, o groove branco enfezado do pós-punk do PIL e do Gang Of Four. Mas tudo de uma jeito muito característico, muito nosso e, de minha parte, também vem uma influência forte do pop eletrônico americano moderno, em especial no approach de produção.”

DEFALLA_2016

Ele continua falando de suas influências:”Agora eu, pessoalmente, escuto de tudo em casa: todos os citados e mais um caminhão de coisas! Sou fissurado no trap hardstyle dos holandeses do Yellow Claw, acho o Diplo um gênio, apenas – tudo o que ele toca vira ouro; adoro o delicioso pop moderno de Justin Bieber; tenho uma queda delicia por cantoras pop como Ariana Grande, Demi Lovato e Charli XCX e, claro, continuo ouvindo muito Slayer, Pantera e Anthrax e hip hop dos anos 80/90 e ainda sou completamente obcecado pela obra prima do Teo Macero – grande inspiração, praticamente o cara que inventou esse tal approach de produção da música eletrônica moderna, que mencionei antes – e do Miles Davis: Bitches Brew, disco que escuto quase todos os dias.”

“Eu, pessoalmente, gosto muito de pop, e o POP brasileiro vem crescendo muito em qualidade e sacação!”, continua, desembestado. “Não posso falar pela banda mas sou muito fã da Anitta, ainda mais nessa nova fase Mestre Zen do Snapchat, em que ela se encontra. As produções dela estão num outro nível, e, sinceramente, prefiro ela à Rihanna. Comungo na igreja do Wesley Safadão também: me julguem, mortais! E a cena deep house brasileira também anda me deixando de queixo caído! Absolutamente original, gigante, em termos de público e absurdamente inspirada, essa turma que conta com os geniais Chemical Surf e Illusionize e os caciques já consagrados, Vintage Culture e Alok, só tem arrasado, cada vez mais, aqui e no mundo. No âmbito do rock, além dos parças da Cachorro Grande que, com minha ajuda, têm feito maravilhas pelo estilo no Brasil, um outro cara em que geral tem que se ligar é o Erick Endres! Esse moleque arregaça: pense na Mahavishnu Orquestra com a participação do Hendrix, com a produção do The Weeknd!”

O novo disco conta com participações prováveis e inusitadas ao mesmo tempo, como Pitty, Mario Bortolotto, Beto Bruno do Cachorro Grande e – pois é – Humberto Gessinger e levou quase meia década para se materializar: “Foi um processo longo e tortuoso, que durou quatro anos – e foi apelidado por amigos e fãs, de Paraguayan Democracy, numa clara e sacana alusão à epopeia de Axl Rose. O grande lance do Defalla é que a banda nunca acabou: apenas fomos cada um pro seu lado cuidar de suas coisas e lamber as feridas abertas dos anos 80 e 90. Neste ínterim, muito conjecturamos sobre a vontade louca de tocarmos juntos de novo.”

Como a volta se transformou num disco?
Fomos registrando as ideias por etapas: primeiro, nos trancamos por três dias em um estúdio de ensaio, com o rec e o play apertados e registrando tudo que ia saindo, espontaneamente. Nada foi discutido ou intelectualizado: apenas tune in – os instrumentos -, turn on – meu microfone – e drop out, motherfuckers. Este sempre foi nosso processo psicodélico: telepatia musical, elemento presente, e atuante, em todas as bandas que admiro, inclusive minha própria. Um ano depois, registramos o resultado destas jams, em 5 dias, novamente trancados em um estúdio de gravação. Na fase três do video game ‘Grave Um Disco, Seja Herói’, parafraseando nosso genial Oiticica, gravamos alguns overdubs, os vocais e fizemos as mixagens das faixas do nosso queridão, Monstro!

Vocês já tinham algo em mente sobre o que seria o novo trabalho?
Haha, minha telepatia tá se esparramando por aqui também: tô respondendo à pergunta seguinte na resposta anterior! Mas, em relação à criação, neste novo disco, ou em qualquer outro trabalho do Defalla: nada é pensado antes. Pensar é anti-intuitivo, anti-musical: sempre buscamos a máxima espontaneidade possível, em tudo que fazemos. É o que chamo de processo vegano-musical: 100% orgânico!

Qual a diferença entre os primeiros anos da banda no estúdio e a gravação do novo disco?
O Monstro é, como venho dizendo, uma ponte entre o Defalla de hoje e o Defalla dos dois primeiros discos, que definiram, para muitos desavisados, o que “era” o Defalla. Desavisados, digo pois, quem conhece mesmo a banda sabe que o estilo Defalla é não ter estilo. Fazemos música. Ponto. Porém, sim, os dois primeiros discos do Defalla, “Papaparty” e “It’s Fucking Boring To Death”, captaram e essência sônica dos quatro elementos da banda, a magia, em si. E neste Monstro, naturalmente, depois de anos de experiências malucas e decepções homéricas, para os fãs mais ligados ao que consideram representar a banda, este disco é um sopro de ar fresco, um alívio para este calejado povo da Terra Do Nunca: os fãs do Defalla! Pois, naturalmente, o panorama sônico remete bastante à essa fase inicial da banda, com sua mistura de funks James Brown com vitiligo via pós-punk, com um emaranhado de influências e inspirações, vindas do passado e do futuro, que sempre compuseram o som único e característico da banda. Dentro do estúdio de gravação, em si, somos a mesma banda dos primeiros discos, engajada na experimentação e no uso do estúdio como um instrumento, como um membro extra da banda.

Por que Monstro?

Existem dois caminhos que levam ao interior sombrio desta floresta negra assombrada: sempre trabalhamos com letristas, poetas e escritores que admiramos, na hora de criar algumas das letras de nossos discos: uma tradição similar à das bandas de Curitiba, como o Beijo AA Força e sua ligação genial com o saudoso poeta, Marcos Prado. Na hora de escolher alguns dos parceiros pro Monstro, pensei no escritor, ator e dramaturgo, Mario Bortolotto – que, não por coincidência, é um paranaense faca na bota -, que admiramos muito, e é nosso velho parça. Ele me apareceu com a letra da faixa “Monstro”, que fala de um sujeito muito particular e misântropo, numa cruzada particular contra a humanidade, desprezada pelo mesmo – e que representa muito o espírito de nossa banda – e, automaticamenten todo o conceito se encaixou como peças de Lego do Guerra nas Estrelas! O outro caminho foi a vontade da banda de fazer um disco que falasse sobre nosso contundente momento atual, um disco temático, um disco que tratasse da monstruosidade humana, enfim. Essa monstruosidade que remete aos monstros clássicos; ao mesmo tempo que fala do psicopata que mata por prazer; do cidadão comum que, sufocado pela opressão do sistema e da vida moderna, não suporta mais conviver com o próximo, que se amontoa à seu lado, para todos os lados – somos como formigas famintas nestas selvas de pedra a que chamamos de cidades -; a monstruosidades dos relacionamentos humanos em geral, mas também das convenções do amor romântico, usado para aprisionar as pessoas em “seus lugares”; a monstruosidade da velocidade do mundo moderno, a monstruosidade que habita as sombras da alma de cada um de nós. Enfim, nada mais apropriado para nossos monstruosos dias de escandalos políticos, indignação geral, pobreza financeira e de espirito: a ascenção apavorante da idiocracia.

Fala sobre as colaborações com os convidados, como rolou o contato em cada um dos casos?
Hehehehe, tô tipo a Britney Spears, “Oops, i did it again”: meio que respondi isso na pergunta anterior. Mas, em relação aos músicos que participaram do disco, também foi um processo orgânico, de afinidade mesmo: cada um participou na faixa que realmente tinha a ver consigo. O Beto participou de “Timothy Leary, e sendo ele, um estudioso dos anos 60 – além de amigo nosso de longa data -, sabendo tudo sobre a época e seus personagens coloridos, fez a junção de Leary e Dylan no olho do furacão, sobre uma base musical que reverencia a psicodelia dos anos 60, mas mesclada à era rave rock da Madchester dos Stone Roses, algo que já vínhamos desenvolvendo nos discos que tenho produzido da Cachorro Grande. O Defalla nunca teve um lado muito stoner/grunge, que resolveu dar as caras nesse disco! E a faixa que mais representa essa nossa nova tendência, “Delírios De Um Anormal”, inspirada no mestre Zé do Caixão, caiu como uma luva para uma participação estelar da Pitty, que é uma grande admiradora da banda – e isso é recíproco pra nós – e tem um histórico de lidar com temas mais pesados e obscuros e um grande, e sedutor, talento vocal pra essa pegada mais pesada e dark. Last but not least, Humberto Gessinger é um grande gênio do nosso pop brasileiro, que muito admiramos, e que eu sempre quis botar lado a lado com o talento pop do Castor Daudt, nosso guitarrista e guru psicodélico, o que gerou uma das faixas mais belas do disco, “Dez Mil Vêzes”, que junta o pop guitarreiro oitentista, filhote dos Byrds e dos Beatles, com uma verve soul da pesada, a la Tim Maia, outro de nossos grandes irmãos de alma. Fora ak ironia de que, muita gente nem sonha que EngHaw e Defalla sempre tiveram uma relação Beatles/Stones nos bastidores, apesar das alfinetadas em público: somos todos dedicados adeptos do Pão e Circo!

Qual a sua relação com a internet?
O Defalla já era uma banda da era da internet antes mesmo de a internet ter sido inventada, ou seja, estamos como pintos no cyber lixo! Sempre fomos partidários do acesso/excesso de informação, sendo nossa musicalidade esquizofrênica a maior tradução disso. E a internet está virando a própria realidade alternativa – já vivemos dentro dela – tão propagada pelos quadrinhos e escritores de ficção científica: olá, o futuro chegou, finalmente! E ele é dark, perigoso, inebriante e, mesmo assim ainda acha tempo pra ser, também, tedioso! Toda essa informação também vem gerando uma preguiça mental, um descaso, um desinteresse: será interessante ver, fazendo parte ativa disso tudo, onde isso vai dar. Agora, pessoalmente, depois de minha participação no reality show, A Fazenda, pelas redes eu descobri o fã, essa criatura pura, devota e sagrada, pela qual, e para a qual, nosso universo existe! Não que o Defalla não tenha tido sua alta dose de fãs xiitas e devotados, mas agora EU os entendo, e venero, melhor! E isso quem me deu foi a internet! Thanx, Zucka!

Sintetize o novo disco em uma frase.
“Viva o surrealismo!” Paris, maio de 68.

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Em comemoração ao Record Store Day, o grupo Bixiga 70 entregou algumas faixas de seu terceiro disco, lançado no ano passado, ao produtor Victor Rice para que ele desse aquele tratamento especial característicos de seus dubs. O resultado é o disco The Copan Connection, que será lançado neste sábado, na loja Patuá Discos, em tiragem limitada em vinil. A capa foi feita pelO MZK, que assina todas as capas do grupo, e que também estará discotecando no lançamento, que começa às 15h e vai até à noite. Além do Zk, também discotecam Magrão, Ramiro Z (da Patuá), Peba Tropikal e Maurício Fleury (do Veneno Soundsystem – e Maurício é tecladista e guitarrista do Bixiga). O evento é de graça e a Patuá fica na Rua Fidalga, 516, Vila Madalena (mais infos no 11-2306-1647). Ouça abaixo a versão que Rice fez para a faixa “Machado”.

E aproveito pra linkar os vídeos que fiz do Baile do Bixiga, no final do mês passado, quando o grupo apresentou-se do lado da Tulipa Ruiz e de seu irmão Gustavo. Foi quente!

pj-harvey-the-hope-six

Que tal acalmar esta sexta-feira com The Hope Six Demolition Project, o disco novo da PJ Harvey? Olha ele aí inteirinho.

Flaming-Lips-Space-Oddity

Wayne Coyne e companhia registram seu tributo à passagem do mestre inglês no início do ano regravando uma versão quase idêntica à original de “Space Oddity” num vídeo psicodélico gravado em uma igreja cheia de balões na plateia.

Transe dance

peakinglights

Sete minutos de um delírio psicodélico para a pista de dança, cortesia do casal Aaron Coyes e Indra Dunis, também conhecido como Peaking Lights, que volta à ativa com essa deliciosa “Conga Blue”.

Drake-Hotline-Bling-

É surreal.

No final do vídeo a dupla explica sua proposta musical.