Escrevi para a editora Intrínseca sobre a edição do autor do primeiro romance de Neil Gaiman, Deuses Americanos, que vira série no ano que vem, e que ainda não teve seu impacto medido.
A nova mitologia de Deuses Americanos
Ainda não chegou o tempo em que olharemos para trás e reconheceremos que Deuses americanos foi um marco na literatura fantástica mundial. O livro que lançou a carreira de Neil Gaiman como escritor para além dos quadrinhos completa quinze anos em 2016, e sua adaptação para série de TV já está sendo filmada e estreia em 2017. O aniversário traz de volta a versão integral que Gaiman mandou a seu primeiro editor, que podou dezenas de páginas. Nessa Edição Preferida do Autor as páginas extras são resgatadas, além de outros textos de Gaiman sobre o livro, como uma nova introdução e uma entrevista.
Em Deuses americanos, Gaiman explora a possibilidade de mitologias acompanharem seus povos em migração. A história se passa na virada do milênio, mas também volta no tempo para mostrar os Estados Unidos em formação, explicando como cada povo e cada tribo deixou a Europa rumo à América levando consigo suas crenças — e como estas foram se transformando no novo continente, que, ao mesmo tempo, via o nascimento de novos deuses.
Assim como acontece na extensa saga em quadrinhos Sandman, publicada entre 1989 e 1996, a sombra que Deuses americanos projeta sobre a fantasia atual ainda está em lento crescimento, sendo apresentada a novos públicos e espalhando-se para além daquele momento inicial de seu lançamento.
Na nova introdução, Neil Gaiman explica que concebeu o título do livro antes mesmo de saber sobre o que escreveria. E, ao apresentá-lo para sua editora, recebeu de volta uma capa já pronta com a clássica imagem do relâmpago ao longe, no horizonte de uma estrada. A imagem icônica surgiu antes mesmo de Gaiman determinar exatamente qual história queria contar e qual tom daria à nova saga.
De certa forma, Deuses americanos pode ser visto como uma continuação do universo que Gaiman começou a explorar em Sandman, embora por outro ponto de vista. Com a série da DC Comics, o autor britânico escolheu um personagem de terceiro escalão da editora e foi em sua essência, descobrindo que o nome Sandman estava vinculado ao personagem do sonho em todas as mitologias. Criou um universo no qual sete irmãos — os Perpétuos — atravessam todas as narrativas da história humana. Eles são entidades que existem desde a aurora dos tempos — Destino, Morte, Sonho, Destruição, Desejo, Desespero e Delírio (todos com D, em inglês) — e cuja interação afeta diretamente a vida dos seres humanos. Sandman era um enorme xadrez da eternidade, em que diferentes deuses e personagens fantásticos brincavam com a mortalidade humana.
Deuses americanos nos faz ver esses universos mitológicos do ponto de vista mortal. O protagonista, Shadow, cruza os Estados Unidos de carro em busca de divindades de outras culturas que estiveram na base da formação do país, mas que aos poucos foram perdendo a importância, ao mesmo tempo em que viram o nascer de novos deuses, aqueles que batizam o livro. E, mesmo que tenha uma história fechada, o universo de Deuses americanos acabou por invadir e dar origem a outros livros de Neil Gaiman, que aos poucos vai desenhando seu próprio universo ficcional.
A adaptação do livro para a TV amplia ainda mais as fronteiras desse universo. A princípio produzida pela HBO, a série passou para o canal fechado Starz e conta com nomes como Bryan Fuller (da série Hannibal) e Michael Green (que fez Heroes e Kings e atualmente produz Gotham e escreve a continuação de Blade Runner), além do próprio Neil Gaiman, que acompanha de perto o projeto desde o início. Gaiman já admitiu ter participado do roteiro dos primeiros episódios da série, que teve seu primeiro teaser exibido — e recebido com aplausos — na Comic Con de San Diego deste ano, o principal evento de cultura pop do mundo.
Ao chegar à TV durante uma grande entressafra que coincide com a fase final do fenômeno de fantasia Game of Thrones, há uma grande chance de a série encontrar um público ávido por novas histórias que misturem mitologia e realidade. Em Deuses americanos, assim como em toda obra de Neil Gaiman, os fãs encontrarão um enorme manancial de contos, fábulas e épicos.
Mas ainda há muito pela frente. Outras obras fantásticas — como O senhor dos anéis, Harry Potter e o próprio Game of Thrones — só atingiram o auge da popularidade quando saíram do papel e chegaram às telas do cinema e da TV, sendo que apenas os autores dos dois últimos — J.K. Rowling e George R.R. Martin — puderam curtir o ápice de popularidade e alcance de suas criações, ajudando-as a crescer nesta transição. A nova edição de Deuses americanos e a iminente série são as primeiras provas de que esse universo pode — e deve — ser bem explorado nos próximos anos.
Emicida coroa seu 2016 reunindo Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin no clipe de “Mandume”, que também funciona como editorial de moda para a coleção atual de seu selo-grife, o Lab Fantasma.
Escrevi lá no meu blog no UOL como tudo que assistimos de Westworld até aqui pode ter sido apenas um prefácio para a história de verdade.
Quantas perguntas Westworld precisa responder em seu décimo episódio, que vai ao ar na virada deste domingo para segunda-feira, para encerrar a primeira temporada da série? O programa, inspirado no filme de mesmo nome dirigido por Michael Crichton nos anos 70 e produzido por J.J. Abrams e Johnathan Nolan, já pode ser considerado um dos grandes acontecimentos televisivos do ano e o saldo de dúvidas que poderá ser quitado neste season finale pode determinar se o nível de genialidade da proposta e da execução da série até agora será coroado com uma conclusão à altura das expectativas suscitadas. E, ao que tudo indica, será.
Por isso, se você não acompanha Westworld, assistiu alguns episódios sem dar a devida atenção ou está entretido em algum lugar do meio da primeira temporada, pare de ler este texto agora. A partir daqui vem uma sequência de spoilers e especulações sobre o que falta acontecer no seriado que pode estragar a surpresa de quem ainda está tateando seu rumo neste futuro de robôs idênticos a seres humanos. Se este for o seu caso, sugiro que leia o texto que escrevi no começo da semana exaltando a importância da série sem entregar o ouro. E para evitar algum acidente, jogo uns gifs animados na sequência para não correr o risco de estragar a surpresa de ninguém.
Para começar, quais perguntas ainda precisam ser respondidas? Ao contrário da série que deu fama a um de seus produtores (Lost, de JJ Abrams), Westworld já respondeu a grande maioria dos questionamentos que levantou, alguns diretamente, outros insinuados de tal forma que só faltam serem mencionados literalmente para confirmarmos a certeza. Nesta última categoria, uma dessas questões – que ajuda a entender a estrutura da série – ficou evidente aos seus espectadores: estamos assistindo a cenas de uma mesma história que acontecem em épocas diferentes, e a edição – ao lado do fato dos “hosts” (os androides quase perfeitos da série) não envelhecerem – é recortada de forma a nos enganar que estamos assistindo a fatos que acontecem numa mesma época.
A linha do tempo de Westworld até agora nos apresenta a três diferentes etapas, embaralhadas propositadamente para nos confundir: uma época que aconteceu mais de trinta anos atrás, quando Ford e Arnold criaram aquele universo; outra que acontece trinta anos atrás, quando Dolores mata Arnold pouco antes da abertura de Westworld ao público e outra que acontece no presente, quando alguns robôs começam a sofrer a mesma pane que Dolores sofreu trinta anos antes, provocando o desequilíbrio daquele faroeste artificial.
Ford e Arnold são os criadores daquele universo. Desenvolveram a robótica e a inteligência artificial a um ponto tão complexo que seus robôs passaram no teste de Turing, aquele criado por Alan Turing no meio do século passado para determinar seu um interlocutor era um ser cibernético ou natural. A partir desta descoberta criaram Westworld, um ambiente falso, inspirado no velho oeste norte-americano, que seria habitado por aqueles robôs.
O problema era que cada um deles tinha uma visão sobre como aquele universo deveria funcionar. Arnold, encantado com sua obra, queria que ela evoluísse ainda mais, atingindo um ponto em que descobrisse a natureza de sua existência e ganhasse consciência de fato. Ford considerava tal evolução perigosa e preferia que os robôs funcionassem como meros brinquedos para os seres humanos, transformando Westworld em um parque de diversões para adultos.
No período que antecede a morte de Arnold, Westworld era um universo sendo ensaiado, com robôs caubóis lentamente começando a aprender como comportar-se naquele novo cenário. E Dolores – o primeiro robô – era a criação favorita de Arnold, que ele ensina a percorrer um caminho para que ela consiga atingir a própria consciência. Este caminho – “o labirinto” – é percorrido duas vezes pela personagem em épocas distintas, mas como os robôs não envelhecem, a edição do seriado faz que as mudanças entre tempos diferentes pareçam acontecer simultaneamente.
Há outro detalhe, explicado em um dos episódios mais recentes, sobre a natureza da memória da inteligência artificial. Enquanto nossas lembranças, humanas, desgastam-se com o tempo e tornam-se quase opacas quando comparadas com a realidade que habitamos, as dos robôs – por sua natureza sintética – podem ser acessadas de forma quase instantânea e intacta, fazendo que uma lembrança, mais do que algo nostálgico, possa ser praticamente revivida. É isso que tem acontecido com Dolores enquanto ela refaz, sozinha no presente, o mesmo caminho que percorreu com William há trinta anos. E também com Maeve quando ela se lembra de sua vida anterior, em que tinha uma filha.
Arnold, portanto, conseguiu fazer que Dolores percorresse este caminho por conta própria, rumo à própria consciência. A natureza de Bernard, nos revelada nos episódios mais recentes não apenas como ele mesmo sendo um robô, mas também um robô-clone para onde Ford conseguiu transferir a consciência de Arnold depois de sua morte, explica que as cenas em que o assistimos interrogando Dolores com o vestido azul (diferente dos interrogatórios de robôs no presente, em que eles todos estão nus) aconteceram antes da inauguração de Westworld.
Dolores é o robô favorito de Arnold, que ele, em segredo, conduz rumo à consciência. O que provavelmente assistiremos neste último episódio é a confirmação de que Dolores é Wyatt, o grande vilão de uma das primeiras narrativas. No penúltimo episódio, vimos que Teddy maquiava a lembrança de um passado genocida como a memória da guerra. E que ele foi um dos principais agentes na matança que ocorreu pouco antes da abertura do parque ao público, quando Arnold foi morto por Dolores. É quase certo que a cena que vimos sendo descrita como Wyatt matando o general seja encenada, de fato, por Dolores e Arnold – o ponto crucial da tomada de consciência da robô.
O grande trunfo de Westworld, no entanto, não é a revelação destes mistérios – mas a execução desta revelação. O momento em que Bernard é revelado como sendo um robô não é propriamente um grande segredo, mas uma confirmação de uma suspeita, orquestrada de forma sutil e sublime (a estranheza que uma simples pergunta – “que porta?” – pode causar). O mesmo está para acontecer com a confirmação de que William é o Homem de Preto trinta anos mais tarde.
Há questões parentes destas espalhadas por todo último episódio, algumas delas meras desconfianças, outras, fortes indícios. A própria natureza de Westworld é dúbia e passamos a questionar a humanidade de todos os outros personagens. Ford é um robô? Theresa era um robô? Os dois funcionários cúmplices de Maeve são robôs? Todo Westworld é um enorme ecossistema de robôs, tanto hosts quanto guests peças num enorme xadrez cibernético?
E qual é a grande nova narrativa de Ford? A saída de Maeve? Será que a segunda temporada de Westworld vai para além do universo que já conhecemos? E qual é o papel da Delos em toda essa história?
Essa é a minha aposta. Ao chegarmos aos limites da semelhança e estranheza entre humanos e máquinas, o próximo passo a ser dado é contemplá-la no mundo real. O velho dilema entre homens e robôs que é clássico na ficção científica – de Eu, Robô a Matrix – é mais uma vez atualizado em uma série cujo tema é a construção de narrativas que nos confunde ao mesmo tempo que nos encanta. É como se todas as perguntas sobre a natureza da ilha de Lost fossem respondidas ainda na primeira temporada. Estamos prestes a ver a descoberta de uma nova escotilha de Desmond para descobrir que a Delos é uma Iniciativa Dharma muito mais refinada (e, aparentemente, mais gananciosa) para entender o papel de Westworld junto ao resto do planeta (se é que Westworld fica nesta planeta…).
Céu antecipa o show que fará ao lado do General Elektriks nesta quinta-feira em São Paulo (mais informações aqui) com o clipe lo-fi retropicalista de seu hit “Varanda Suspensa”
Conforme prometido, eis aqui, em primeira mão no Trabalho Sujo, o filme que o mestre Eugênio Vieira fez das gravações do projeto Goma-Lama, concebido pelo Ronaldo Evangelista e a Biancamaria Binazzi em 2014. O projeto reúne artistas contemporâneo para resgatar músicas brasileiras que só foram registradas em acetatos de cera de carnaúba (ou goma-laca, daí o título). No documentário, vemos o maestro Letieres Leite conduzir os músicos Marcos Paiva, Hercules Gomes, Gabi Guedes e Sérgio Machado em uma viagem atemporal de uma conexão musical secular entre o Brasil e a África para receber vocais de Juçara Marçal, Russo Passapusso, Karina Buhr e Lucas Santtana. Saca só:
A dupla francesa Xavier de Rosnay e Gaspard Augé – que também atende pelo codinome Justice – recrutou ninguém menos que Susan Sarandon para ser a estrela do novo clipe de seu disco Woman, chamado apenas de “Fire”.
Escrevi no meu blog no UOL sobre o porque do remake de Westworld, produção de JJ Abrams e Johnathan Nolan, já poder ser considerada a melhor série de 2016.
E a HBO conseguiu mais uma vez. Westworld vem superando todas as expectativas, episódio a episódio, e caminha para se tornar o grande evento da TV em 2016, fazendo a emissora recuperar-se do fiasco que foi a primeira temporada de Vinyl e a promissora mas fria The Night Of. Um enorme quebra-cabeças magistralmente montado em frente aos nossos olhos, intercalando a frieza de máquinas com o calor do velho oeste norte-americano, reinventando completamente uma premissa simples de um filme dos anos 70 para o século 21 e enfileirando monólogos magistrais, atuações impecáveis, cenas intensas, diálogos esclarecedores, teorias complexas e revelações sensacionais.
Para quem não está acompanhando, eis a breve premissa, sem spoilers: num futuro próximo existe um parque de diversões para adultos chamado Westword, em que você paga para viver como nos tempos mais selvagens do povo norte-americano, interagindo com robôs idênticos a seres humanos que ficam à disposição dos convidados. E esta disposição é degradante: os “anfitriões” (hosts, em inglês, como os androides são referidos na série) se tornam objetos para todo o tipo de humilhação que os convidados queiram praticar, e assim são tratados como meros objetos e quase sempre morrem mortes violentas – apenas para serem religados e voltar ao papel de escravo dos desejos alheios.
Mas algo acontece: os robôs aos poucos começam a entender sua própria condição. Acumulando memórias de suas vidas passadas, alguns dos protagonistas da série vão lentamente entendendo o que vivem e, cada um à sua maneira, vai despertando sua consciência e aprendendo a lidar com aquela nova realidade. Alguns simplesmente entram em parafuso e dão tilt – logo no primeiro episódio da série há um destes -, mas outros conseguem ir além. E poucos humanos conseguem perceber isso.
Isso é apenas a premissa inicial, o tabuleiro armado em que seus produtores desdobram cenas ousadas, violentas e emblemáticas, criando uma mitologia específica enquanto mostram personagens rasos lentamente sendo aprofundados. A partir disso, há um enorme e complexo jogo narrativo que faz o espectador perder-se em histórias que parecem acontecer simultanemente, mas que ocorrem em épocas diferentes – um truque genial que parte do princípio de que os robôs não envelhecem.
Sob esta premissa, há um duelo entre os criadores do parque, Arnold e Ford, que têm ideias distintas para aquele mundo robótico: enquanto o primeiro quer evoluir a inteligência artificial para a descoberta da consciência, o segundo considera isto perigoso e prefere apenas usar os seres sintéticos para “contar novas histórias”. Ford ganha a disputa e Westworld passa para as mãos de uma empresa chamada Delos, cujo interesse no parque vai muito além da gerência dos lucros gerados pelos visitantes e segue desconhecido. A série de dilemas éticos e morais abertos a partir desta disputa seria assunto para uma série apenas sobre isso, mas Westworld vai além.
Personagens como a cândida Dolores Abernathy vivida por Evan Rachel Wood, o assustador e admirável Robert Ford de Anthony Hopkins, o intrincado Bernard Lowe de Jeffrey Wright, a impressionante Maeve Millay da Thandie Newton e o Homem de Preto de Ed Harris humanizam e emocionam a história com atuações grandiosas e exigentes, Eval Rachel Wood e Thandie Newton especificamente brilham como poucas atuações na TV nesta década e até coadjuvantes como Hector Escanton do nosso Rodrigo Santoro, o William de Jimmi Simpson e a Clementine de Angela Sarafyan desequilibram bastante o seriado.
Tudo isso sendo orquestrado em cenas que transcendem gêneros e criam imagens impactantes para a cultura pop. Westworld consegue elevar o western para um patamar quase surreal, misturando orgias, canibalismo, religião e genocídios, aprofunda questões éticas tocadas apenas de forma superficial pela ficção científica moderna, atualiza os robôs para a era da impressão 3D e aposta na inteligência do espectador, proporcionando momentos de puro deleite narrativo (o final do oitavo episódio, por exemplo, já é um dos grandes momentos do ano na TV).
Os detalhes também são de tirar o fôlego: cenografia, direção de arte e trilha sonora mantém aquele padrão da emissora em que ela acerta mesmo quando as séries são ruins. A trilha especificamente é um achado: versões para músicas de Amy Winehouse, Radiohead, Rolling Stones, Animals, entre outros, tocadas naqueles pianos típicos de saloon (automatizados, como se fossem os primeiros robôs).
E por cima de tudo há um labirinto. Uma mapa literal que pode ser percorrido geograficamente mas também um jogo lógico que amplia o teste de Turing para uma realidade em que a inteligência artificial evolui como um fractal. Um desafio posto no coração da série tanto para seus protagonistas quanto para seus espectadores, que vai recompensando a cada novo episódio.
A primeira temporada da série termina no próximo domingo, quando seu décimo episódio vai ao ar (a HBO brasileira vem transmitindo os novos episódios exatamente à meia-noite entre o domingo e a segunda, com reprises na segunda às 21h) e tudo indica que teremos a conclusão de uma série de enigmas e mistérios abertos ao longo dos episódios anteriores – além de tantas outras perguntas que só serão respondidas na próxima temporada, já renovada para o ano que vem.
A esperteza da série vem do casamento de dois talentos: J.J. Abrams, o criador de Lost e Fringe, além de ter ressuscitado Jornada e Guerra nas Estrelas para o novo milênio, e Johnathan Nolan, responsável pelos roteiros dos filmes de seu irmão Christopher Nolan. O primeiro é mestre em instigar a curiosidade, provocar o espectador, abrir teorias e propor possibilidades. O segundo brinca com duplos sentidos, lineraridades temporais e sabe concluir bem as histórias. Os dois já haviam trabalhado juntos na ótima Person of Interest, uma série mais modesta em termos de produção e de narrativa, e agora podem ousar graças à liberdade dada pela HBO. Nolan chamou a esposa Lisa Joy (que já havia assinado as séries Pushing Dasies e Burn Notice) para ajudá-lo na criação daquele novo universo.
Até o fim da semana volto ao tema explicando ainda mais as teorias da série e mostrando como Westworld pode ser muito mais do que apenas a melhor série deste ano. Por enquanto recomendo que você que ainda não assistiu dê um jeito de ver os nove episódios antes do próximo domingo e você que está acompanhando comente a série abaixo. E já deixo de sobreaviso aos comentaristas incautos – por favor avisem sobre spoilers antes de fazer seus comentários sobre a série para não estragar a surpresa de quem não assistiu ainda.
É bem interessante perceber que, nesta nova fase da música independente brasileira (autogerida, estruturada, sem preconceitos estéticos e ávida por conexões), o fluxo criativo começa a sair das capitais e aparecer em cidades menores que, mesmo sem a vida agitada dos grandes centros, consegue estar perfeitamente sintonizada com tudo que vem acontecendo no Brasil e no mundo – não apenas informada, mas agilizada. Um dos melhores exemplos desta etapa é a gravadora gaúcha Honey Bomb Records, que chega em São Paulo com seu primeiro minifestival nos dias 8 e 9 de de dezembro, trazendo duas bandas de seu elenco (Bike e Catavento) além de duas atrações internacionais (a norte-americana Winter e a dupla chilena Holydrug Couple) – mais informações aqui.
Com base em Caxias do Sul, a gravadora possui em seu elenco artistas locais (como a Catavento, a Cuscobayo, a Mingarden – todos de Caxias – e Supervão – de São Leopoldo), de outros estados (os capixabas My Magical Glowing Lens, os paulistanos Bike e os curitibanos do Marrakesh) e até uma banda norte-americana (Blank Tapes, da Califórnia) e aos poucos vem se especializando em rock psicodélico, além de mexer na cena local. Conversei com o Jonas Bender Bustince, um dos capos do selo, sobre o momento que a Honey Bomb tem passado.
Conte o começo da história do selo.
A ideia de se criar um selo na cidade já pairava no ar entre as bandas que criavam som autoral independente aqui em Caxias do Sul. Em 2012, eu participei do primeiro lançamento da minha vida como músico, baterista, e ao mesmo tempo produtor executivo. A banda se chamava Slow Bricker – pegamos o último suspiro da era Trama e organizamos nosso próprio show de lançamento convidando a Loomer de Porto Alegre. Isso já era um sinal de que podíamos movimentar a cena alternativa ali na cidade por nossa conta e esse lance da autogestão tava em todas as bandas! O que rolou foi que com a pausa na minha banda eu foquei todas as energias nas outras bandas que também seguiam acreditando no próprio som, como a Catavento, banda na qual meu irmão é baterista, uma geração mais nova que a minha. Eles começaram a ensaiar no quartinho dos fundos da onde eu morava com a minha família. Eu acompanhei a banda desde o início e a amizade com eles começou a aumentar e eu decidi seguir essa fagulha mais um pouco.
Aí em 2013 fizemos uma reunião em 3 bandas – Slow Bricker, Catavento e Descartes – e decidimos juntarmos tudo num mesmo guarda-chuva. Eu tava formado em Comunicação – morrendo numa agência de Publicidade atrasadíssima como redator – e o Leonardo Lucena – da Catavento e Descartes, com 24 anos – e Eduardo Panozzo – da Catavento, 24 anos – também trabalhavam em agências e são artistas visuais incríveis.
Aí vieram os lançamentos, as validações que vamos recebendo da mídia independente e do público apreciador desse nicho. Começamos a circular e conhecer membros de outras bandas em festivais, lançar e trazer artistas de fora da nossa cidade, do nosso estado, do nosso país graças à bendita rede mundial de computadores, fazemos conexões e um grande remix começa: viajamos e conhecemos gente que faz isso há muito mais tempo do que você e pessoas mais novas que se inspiram e começam a fazer isso e aí a vontade de largar os trampos fixos aumenta, todos se suicidam socialmente perante a estabilidade tão apreciada pelos seres industriais que aqui habitam Caxias do Sul e começamos a viver de freelas, com produção, criação, som, shows, festas, eventos e aí seguimos nesse fluxo até agora, aprendendo a cada instante nesse caos guiado pela vibração da música. Abrimos mão de muita coisa do ponto de vista “padrão da sociedade classe média de curso superior completo”, mas fazemos o que gostamos e temos vontade de seguir nesse fluxo por mais tempo. A música é o que nos move, sendo no palco ou na produção.
A Honey Bomb está se especializando em psicodelia?
A gente realmente se aprofundou na psicodelia desde o primeiro lançamento, mas foi de uma forma natural na criação estética e contemporânea. A ideia nunca foi delimitar, tanto que nesse ano lançamos Cuscobayo, uma banda que finca os pés nas raízes da região do Prata, te manda uma mensagem política forte, mas com a animação frenética tipicamente esperançosa do sulamericano. Não é lisérgico, mas te faz viajar! A curadoria segue num padrão muito espontaneamente também. Já passamos por folk, surf, garage, “grunge”, post-hardcore, trip hop, dream pop, indie pop, space, post-rock e por aí vai e acredito que a psicodelia pode estar presente em todos esses gêneros e sub-gêneros do rock alternativo. Ano que vem queremos apostar mais em gente que faz beats, mais rap, muito mais groove, muito mais minas, muito mais raízes e ao mesmo macro, mas que transporte para um pequeno universo singular que é o momento eterno de ouvir música em casa, numa festa ou num show ou em qualquer momento que ela te acompanhe e te envie pingos de esperança pra manter a chama viva no peito. Acho que a gente assistiu muito Cosmos, tomou muito banho de cachoeira e acabou soltando isso dessa forma mesmo.
Como você vê a atual fase do rock psicodélico no Brasil?
Acho que a cena independente do Brasil vem desde 2012 recebendo uma vibe lisérgica poderosa parecida com a de artistas clássicos da MPB dos anos 70 mais o fator globalização e acesso infinito a informação e muito mais referências fizeram surgir essa nova onda, mas acredito que é cíclico. Eu mesmo ouvi o Piper at the Gates of Dawn pela primeira vez com 12 anos, meu pai, também músico, tinha esse CD na sua coleção e desde então minha vida não mais a mesma. Acho que esses momentos que nos conectam com a música em cada fase da vida são ciclos. Eu ouço o Moon Safari hoje em dia de uma outro jeito, daí veio o Tame Impala e o Pond e renovaram isso e respigaram em bandas latinas também, o Flaming Lips sempre renovando essa vibe, enfim.
Aqui no sul temos o Júpiter Maçã que fez isso à sua maneira. Atualmente bandas como Catavento, Boogarins, Bike, Tagore, Supercordas, Frabin, Van der Vouz, Supervão tem psicodelia na sua música mas de um jeito único também, não existe uma cartilha, acho que é uma espécie de olhar contextual. Acredito que esse ciclo está sempre começando e terminando, vejo que os momentos atuais de ódio e transição para dentro do buraco negro da incerteza do mundo estão tomando conta das as cores e isso também faz parte do processo, vamos ver pra onde vai isso tudo dentro da criação desses artistas brasileiros que chamaram a atenção em inserir isso no som. Vai ficar mais sujo, mais limpo, mais eletrônico, mais grooveado, mais raíz, mais “pagão”? Não faço ideia. Aí vai de cada banda ou artista, mas que aquela camada de imprevisibilidade do som continue viva na alma.
O que é uma gravadora numa época em que quase ninguém mais compra discos? Como é o trabalho de vocês?
Nós criamos uma marca para validarmos e difundirmos nossa própria produção artística como um todo, como curadores, seja num show, numa festa, numa camiseta ou num pôster, num CD ou qualquer mídia física – que produzimos com cada vez menos frequência, porque as pessoas não precisam mais possuir isso, a música está na internet. As necessidades em tempos de crise fazem a diferença. Nós funcionamos atualmente mais como difusores e produtores de shows e lançamentos digitais e temos um braço forte com circulação. Tentamos cada vez mais colocar artistas em festivais e fazer a experiência rolar no ao vivo, nessa situação a venda de merchs se acentua mais, mas o selo não chega a ser algo sustentável a todos que se envolvem nele. Não nos limitamos a criar só em Caxias do Sul, somos móveis como abelhas, desculpe o trocadilho. Eu mesmo tenho que trabalhar em diferentes projetos para continuar fazendo ações com o selo. Mas ano que vem começaremos parcerias fortes com produtoras audiovisuais para que o fator “clipe” e a assinatura artística do selo siga impactando pela qualidade. Queremos ter um festival próprio na cidade também para recebermos todas as pessoas e artistas maravilhosos que conhecemos em cada viagem de uma forma mais confortável para sentirem a vibe daqui que acabou gerando algo legal pra fora daqui.
Se um artista quiser tentar entrar no selo o que ele precisa fazer?
Gostamos de ter relações próximas com os artistas que lançamos, nos engajamos e acreditamos no potencial. O artista tem que ter uma postura mais próxima do autoconhecimento constante e tem que controlar suas expectativas, além de saber autogerir sua carreira em conjunto com o selo. Um trabalho bilateral mesmo. Apostamos em artistas que se aprofundam na música de uma maneira autêntica e conceitual, mas muito bem referenciada e diversificada, tanto de passado, como de presente e de futuro. Tem que ser inquieto e surpreender, seja pela linguagem musical, visual, verbal ou pela vibe.
Como foi a aproximação com as bandas estrangeiras que vão tocar no festival? Vocês vão lançar os discos delas também?
Nós conhecemos a Samira Winter pela internet e em 2014 ela fez uma turnê aqui com seu trabalho solo, acompanhada por dois músicos americanos e um curitibano. Como ela tem essa ligação forte com Curitiba, uma cidade que também gostamos muito, fizemos três shows deles por três cidades do Rio Grande do Sul e aí quando ela voltou pros EUA a conexão seguiu. A gente distribuiu o primeiro LP deles no Brasil e também ajudamos na comunicação com a mídia local do lançamento aqui. Ela curtiu nossa vibe e indicou o selo pro The Blank Tapes, outra banda da Califórnia que lançamos dessa forma. Vamos lançar o próximo da Winter aqui sim. Essa turnê deles aqui aconteceu graças ao próprio investimento deles virem pra cá passar o fim de ano. Aí a gente começou a fechar muitos shows, incluindo esse nosso minifest em SP e o Picnik em Brasília, um festival que tem uma conexão já muito forte com o selo. Nos identificamos muito em vários aspectos com a curadoria artística desse festival.
Por que fazer um festival de um selo gaúcho em SP?
Foi algo que caiu de paraquedas e eu fui juntando as peças. Eu e a Catavento estamos indo para o Sim São Paulo, a Winter vai estar no Brasil, o Holydrug Couple é uma banda chilena que curtimos muito – e que com certeza pretendemos lançar no Brasil – que o Picnik em Brasília animou trazer, o Bike representa a psicodelia da cena local de Sampa. Surgiu a parceria com a Breve e a nova plataforma de venda de shows Mais Shows, uma iniciativa de dois amigões e parceiros nossos do estado, grandes fãs entusiastas, produtores, comunicadores e artistas visuais. Aproveitamos tudo isso e o momento e apostamos que a cidade tem muita gente que admira a música de uma forma mais curiosa, além de já ter uma pequena base de fãs que acompanham o trampo desses artistas pela internet. Somos gaúchos, da serra gaúcha, um frio do caralho, mas uma cidade emergente que se torna global a cada ano. Nós somos daqui, mas transitamos pela rede seja ela física ou virtual. Gostamos de passear pela babilônia sentir o cinza e depois voltar. Algo como um enxame barulhento que sai da colmeia para polinizar.
Conversei com Jorge Du Peixe no Maranhão e ele me adiantou que o próximo disco da Nação Zumbi será de versões – dei mais detalhes do projeto que hoje chama-se Radiola NZ – mas pode mudar de nome – lá no meu blog no UOL.
Principal atração do primeiro dia do festival BR 135, que começou nesta quinta-feira, dia 24, em São Luís, no Maranhão, a banda pernambucana Nação Zumbi está encerrando o ciclo de comemoração dos 20 anos do disco Afrociberdelia, segundo álbum da banda, lançado em 1996, para começar um novo projeto, ainda com título provisório de Radiola NZ. O novo álbum trará versões para músicas favoritas do grupo, tanto brasileiras quanto internacionais, e o repertório poderá ter faixas de Amy Winehouse, Last Shadow Puppets, Mutantes, Velvet Underground, Clash, Erasmo Carlos, David Bowie, Roxy Music, entre outros. “Ainda estamos definindo tudo, mas já começamos a rascunhar algumas versões, como ‘Ashes to Ashes’ de David Bowie e ‘Love is the Drug’ do Roxy Music”, me contou o vocalista do grupo, Jorge Du Peixe.
O gatilho para este novo disco, que deve começar a ser gravado neste fim de semana, em Fortaleza, foi o show que o grupo fez no Festival da Cultura Inglesa deste ano, quando foram convidados a fazer versões de músicas em inglês. O grupo tocou versões para “Tomorrow Never Knows”, dos Beatles, “A Message To You Rudy”, dos Specials, “Time of the Season” dos Zombies e “China Girl”, de Iggy Pop e David Bowie. A partir daí a banda começou a cogitar novas versões e o projeto ganhou título e forma, embora ainda esteja em seu estágio inicial.
Versões não são novidades para a Nação. Além de ter dois de seus maiores hits escritos por outros artistas (“Maracatu Atômico” de Jorge Mautner e “Quando a Maré Encher” da banda olindense Eddie), o grupo já dividiu um disco com os conterrâneos e contemporâneos Mundo Livre S/A, quando um tocava músicas do outro, além de manter o projeto paralelo Los Sebosos Postizos, em que tocam músicas do período clássico de Jorge Ben. O novo álbum deve ser lançado no ano que vem, mas a banda não tem pressa. “Temos nosso tempo e precisamos respeitá-lo”, conclui Jorge.
A notícia já estava meio no ar e os mais próximos da banda já sabiam o que os cariocas dos Supercordas oficializaram neste sábado em sua página no Facebook: o fim de suas atividades. A data escolhida foi a de de aniversário de lançamento de seu primeiro álbum, o já clássico Seres Verdes ao Redor, e a despedida não macula a amizade dos quatro integrantes, que seguem trabalhando com música, mas deixaram um senhor legado tanto para o rock independente brasileiro quanto para nosso cânone psicodélico. Abaixo, a íntegra da nota de adeus:
Hoje, dia 26 de novembro de 2016, faz exatamente dez anos que lançamos nosso primeiro LP com um concerto memorável no Centro Cultural São Paulo.
Desde então, nos mantivemos rodando o Brasil, fazendo shows, gravações, filmagens, experimentos, conhecendo novas bandas, fazendo novas amizades e nos apaixonando.
Todas as pessoas que acompanharam a banda neste tempo puderam ver o quanto fomos felizes fazendo tudo isso, e o quanto fomos transparentes e comprometidos com a cultura alternativa.
Nunca fomos o tipo de grupo que “estoura” e atinge grandes públicos em pouco tempo, construímos nossa historia com perseverança e em desencontro aos caminhos mais fáceis do mercado musical.
É complexo se manter como uma “entidade underground” por tantos anos. E é cada vez mais difícil estarmos abertos e disponíveis à experiência da viagem roqueira e da nossa criação musical em grupo, ainda que estejamos vivendo um ponto alto da nossa trajetória em muitos aspectos.
Acreditamos, então, ser um bom momento para anunciar que estamos encerrando nossas atividades como Supercordas.
Continuaremos tocando nossos demais projetos, e outros que ainda estão por vir.
Nunca deixaremos de existir através da música e militar em defesa de toda esta doideira que é sonhar.
Ficam aqui intensos raios de psicodelia e amor para todas e todos que nos acompanharam nesses 13 anos, pelo carinho e pela recepção. E para todos que pela banda passaram ou com ela trabalharam e contribuíram com música e dedicação, particularmente: Regis Argüelles, Eduardo Ps, Katia Abreu, Kauê Ravaneda, Sandro Rodrigues, Rodrigo Lariú,Pamela Leme, Francine Ramos, Ynaiã Benthroldo, Luccas Villela, Marcelo Callado, Caca Amaral, Wil Son, Giuliano Gerbasi, Gui Jesus Toledo e Bernardo Pacheco.
Abaixo, dois shows da banda que filmei, o da primeira edição do Fora da Casinha…
…e o show que fizeram ao lado dos Boogarins no início deste ano.
Grande banda.

















