Grimes segue colhendo os frutos de seu excelente Art Angels, lançado no final de 2015. Ela se reúne novamente com Janelle Monáe para transformar a deliciosa “Venus Fly” das duas em um curta – dirigido por ela mesma – que mistura cultura oriental, estética de ficção científica e movimentos de filmes de ação às já características sensibilidade plástica e psicodelia fashion de nossa querida heroína canadense. Mas o delírio mesmo deste novo clipe é a versão em baixa velocidade da mesma música, escondida na cena de créditos, que começa em quase cinco minutos do vídeo – que filé!
O lançamento do clipe também foi motivo para que ela falasse sobre fazer arte em tempos pesados como os atuais, em um post no Instagram:
“Às vezes parece fútil fazer arte neste clima político cruel e extremo, mas alguns dos momentos mais iluminados dos últimos meses para mim e para muito de vocês, suspeito, veio de ver a incrível e positiva visão que Janelle Monáe tem do futuro, especialmente quando estamos sendo apresentados a tantas possibilidades de futuros distópicos. Obrigado por dar tanto tempo, energia e criatividade para este projeto. Como diretora, editora e diretora criativa, eu também acho que seja meu trabalho mais forte, e não vejo a hora de compartilhar com vocês.”
Ela também publicou a playlist Grimes’ Deep Vibes no Tidal, que alguma boa alma subiu também no YouTube, e que reúne Smashing Pumpkins, Lana Del Rey, Harry Nilsson, Rihanna, Fifth Harmony, Deftones, entre outros:
Não consigo deixar de admirar esse sujeito: canta um sambinha e emenda três covers do Bowie… Quem mais?
Mais uma coluna minha na revista Caros Amigos resgatada pra cá – esta da edição de dezembro do ano passado, sobre a importância do Sabotage.
Fim do capítulo
Com o disco póstumo de Sabotage, encerra-se a fase de amadurecimento do rap nacional
O rap brasileiro sempre nos fez esperar pelos novos discos. A espera por Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MCs, era palpável – todos sabiam da importância do grupo para o gênero e ansiavam pela novidade que certamente elevaria o patamar de qualidade da cena local. Os quatro anos entre Raio X do Brasil e o disco de 1997 só não foram mais tensos que os cinco que o sucederam, antes do lançamento do épico ostentação Nada Como Um Dia Após o Outro Dia.
A lenta espera também marcou o lançamento dos discos do RZO na virada do século, o segundo disco solo de Marcelo D2, o segundo do Z’África Brasil, o primeiro do coletivo Quinto Andar, o segundo disco do coletivo Instituto, os discos de estreia de BNegão e Black Alien e, claro, os doze anos que separam Nada Como Um Dia… de Cores e Valores, lançado em 2014, pelos Racionais MCs. Mas nenhuma espera foi tão aguardada quanto a do segundo disco do rapper Sabotage – e a razão é evidente.
Porque Mauro Mateus dos Santos, uma das raras unanimidades no rap brasileiro e assumidamente agente fundamental para tirar a cena hip hop nacional da adolescência, foi assassinado no dia 24 de janeiro de 2003, três meses antes de completar trinta anos e bem no início da gravação de seu segundo disco. O primeiro, Rap é Compromisso, lançado três anos antes, havia chocado o consenso do gênero ao levar o estilo musical para além do território gangsta, pavimentado durante os anos 1990 ao som de tiros e sirenes de polícia. Sabotage flertava com o samba, com o soul, com o funk e seu impressionante fl ow de palavras conquistava até os neófi tos. Sem contar sua presença: um poço de carisma que hipnotizava rodinhas de improviso, plateias de milhares ou qualquer um com quem parasse para conversar olhando no olho.
Logo após Rap é Compromisso, que vendeu quase 2 milhões de cópias pela gravadora dos Racionais MCs, Cosa Nostra, Sabotage passou a explorar novos rumos. Flertou com a moda, a publicidade e o cinema, quebrando uma série de tabus em relação à presença do hip hop. Se os Racionais haviam erguido um muro contra tudo que eles entendiam como uma continuação velada da escravidão, Sabotage pulava este muro sagazmente para mostrar que era preciso ganhar aqueles que eram considerados inimigos.
O cinema proporcionou seu momento-chave, quando entrou para o filme O Invasor, adaptação de Beto Brandt para o cinema do livro de Marçal Aquino, quase como penetra. Foi chamado para participar da trilha sonora depois que o diretor o viu em um clipe de seus padrinhos do RZO e não conseguiu disfarçar o riso quando viu o ator e músico Paulo Miklos interpretando alguém da periferia. Começou a dar dicas para o diretor e para o ator e logo foi efetivado na equipe como consultor para o filme. Foi a deixa para que ele participasse do filme fazendo o papel dele mesmo. A elogiada participação no filme de 2002 o garantiu um convite para trabalhar na adaptação que Hector Babenco fez do livro de Drauzio Varella, Carandiru, que estreou no ano em que o rapper morreu.
Foi nos bastidores do primeiro filme que Sabota, como era mais conhecido pelos amigos, consolidou o laço com os produtores Daniel “Ganjaman” Takara, Rica Amabis e Tejo Damasceno, que haviam começado a lançar-se como Instituto. Ao perceber o potencial que os produtores tinham para reunir pessoas e músicos interessantes, o rapper instigou os três para irem ao palco e assim reuniram-se para poucas apresentações ao vivo – algumas históricas, como no Sesc Santo André ou no Sesc Pompeia. Era o início do ciclo ao vivo de um dos polos de produção mais intensos do Brasil na primeira década do século – que aos poucos foi se separando amigavelmente à medida em que Ganjaman começou a se envolver com a carreira de Criolo – e uma forma de Sabotage explorar novos limites e horizontes musicais.
Essa evolução foi interrompida com a morte estúpida do rapper, que tomou quatro tiros dados por alguém ainda anônimo, que deixou uma máscara preta ao lado de seu corpo, no bairro da Saúde, em São Paulo. A notícia pegou toda a cena hip hop de surpresa e, em choque, ela perdeu o rumo conduzido pelo agora mártir. Anos se passaram para retomar o rumo, que contaram com o surgimento de outros rappers e coletivos inspirados no trabalho de Sabotage com o Instituto. Nomes como Quinto Andar, Emicida, Rappin’ Hood, Kamau, Rael, Parteum, Marcelo D2 e os próprios Racionais começaram a moldar um novo rap para o século 21, claramente inspirados pelos horizontes abertos por Sabotage.
Enquanto isso havia a espera de um disco que vinha sendo feito há mais de dez anos, usando os vocais que o rapper havia gravado pouco antes de morrer e reunindo os principais nomes da cena e amigos de Sabotage .O disco, que finalmente foi lançado este semestre com apenas o nome do rapper, levou treze anos para sair, mas reúne a nata de uma cena cada vez mais madura e coesa. Conduzido pelos três integrantes originais do Instituto (que, com a saída de Ganja, finalmente lançaram o seu próprio segundo disco no ano passado, Violar), o novo disco conta com onze faixas que juntam nomes tão importantes quanto Negra Li, Lakers, Mr. Bomba, BNegão, Céu, DJ Cia, Funk Buia, Dexter, Helião e Sandrão do RZO, Fernandinho Beatbox, Rodrigo Brandão, Rappin’ Hood, DJ Nuts e Tropkillaz, entre outros, e tem o peso que esperávamos deste lançamento, revelando-se um disco tão importante para esta década como o anterior foi para a passada.
Este mesmo grupo de luminares – mais outros tantos, como Emicida, Criolo, Fióti, Black Alien, João Gordo e os filhos de Sabotage, Sabotinha e Tamires, entre outros – se reuniu no Salão dos Arcos do Teatro Municipal de São Paulo para a primeira audição ao vivo do disco, quando cada um dos amigos e participantes do álbum póstumo foi ao microfone para saudar a importância do maestro do Canão para a maturidade atual do rap brasileiro – e vários discursos arrancaram lágrimas ao lembrar como o Sabotage, mais que importante, era querido. O disco póstumo é o legado vivo de sua obra, que certamente infl uenciará os próximos rumos do rap que vem por aí. Um fi m de capítulo que valeu cada minuto da espera.
“I’m not Rihanna, I’m not Madonna I’m not Mariah or Ariana / I’ve been around in this world causing drama”, canta a cingalesa M.I.A. em seu recém-lançado single “P.O.W.A.”, que veio junto com um clipe de coreografia à Chemical Brothers.
Eis o primeiro samba absurdo composto pela parceria tripla de Rodrigo Campos, Juçara Marçal e Gui Amabis.
A ideia do projeto nasceu de Rodrigo Campos que, inspirado pelo livro O Mito de Sísifo, de Albert Camus, resolveu encarar o absurdo como tema – e para isso chamou Juçara Marçal para cantar e Gui Amabis para disparar beats e samples no palco. As letras das canções foram compostas por Nuno Ramos. Os três contam como Sambas do Absurdo – que vai virar disco – nasceu no vídeo abaixo:
Vi na Bravo.

Mítico disco do Television, Marquee Moon continua como um segredo escondido quatro décadas após seu lançamento, completas nesta terça-feira. Escrevi sobre o disco no meu blog no UOL.
Há 40 anos, o Television encerrava uma era e iniciava outra com seu clássico Marquee Moon
Entre os anos 60 e 70, a maior cidade dos Estados Unidos havia se tornado o inferno na terra. A especulação imobiliária, uma crise fiscal inédita e o braço dado dos políticos com as grandes corporações haviam sacrificado vizinhanças inteiras, transformando Nova York em uma cidade violenta e destruída. Um antro decadente que empilhava seus pobres nas periferias e transformava o metrô num centro nervoso da insegurança que espalhava-se por suas ruas, abandonadas pelo poder público – “Bem-vindo à cidade do medo”, dizia um panfleto que recepcionava os turistas da época. Era o cenário que inspiraria distopias como os filmes Fuga de Nova York, Blade Runner e Warriors – Guerreiros da Noite e daria origem a movimentos culturais que redefiniriam a cultura ocidental do final do século passado, como o hip hop, a cultura gay e, claro, o punk rock. Mas no coração deste último, especificamente na espelunca que viu nascer o movimento urbano que salvou o rock da autoindulgência, havia um palácio de luz que unia toda a importância do rock até o meio dos anos 70 transformando-se em um farol para a criatividade de artistas nas décadas seguintes. Estas qualidades tornaram-no uma das obras mais importantes da história da música popular, embora Marquee Moon, o disco de estreia da banda Television, lançado há exatos 40 anos, seja passado de geração em geração como um segredo bem guardado.
Mas não há segredo algum. Num álbum esplendoroso com parcas oito canções somando menos de cinquenta minutos, Tom Verlaine conduz seu pequeno exército de instrumentistas reunindo lições aprendidas no jazz experimental, no folk e no rock clássico que abririam o rumo para artistas que redefiniriam a música nos anos seguintes a partir da grande transformação provocada pelo punk. Não é exagero dizer que Marquee Moon é o primeiro disco de rock alternativo, aquele que cogita uma nova relação com a música produzida a partir do casamento de guitarras, baixo e bateria com o ímpeto adolescente de se fazer percebido. O disco de 1977 não apenas consolida o arquétipo da banda nova-iorquina que reúne predecessores como o Velvet Underground, os Modern Lovers e os New York Dolls, contemporâneos como Patti Smith e os Talking Heads e sucessores como o Sonic Youth e os Strokes. Ele também abre possibilidades novas e improváveis para um gênero musical entusiasmado com o próprio virtuosismo que fucionariam como alicercespara carreiras inteiras de grupos como Joy Division, R.E.M., Pixies, Echo & the Bunnymen, Wilco e Radiohead.
Foi Tom Verlaine que descobriu o CBGB’s. Thomas Miller era um moleque de Nova Jérsei que havia se mudado para Nova York para reinventar-se como artista seguindo os passos de Dylan dez anos antes – trocando, como Dylan, seu sobrenome original por o de um escritor clássico, o poeta simbolista francês Paul Verlaine. Sua formação musical havia começado no jazz quando era aprendera a tocar saxofone quando era criança, mas foi “19th Nervous Breakdown” dos Rolling Stones que o fez abraçar a guitarra elétrica. Músico dedicado, Verlaine vinha na contramão do gênero que ajudaria a colocar no mapa. Sua principal ligação com o punk clássico não era musical e sim autoral – foi sua convicção em tocar do jeito que queria que o levou a bater na porta do bar de Hilly Kristal, um bar de motoqueiros que só tocava rock tradicional, pedindo para que lhe cedesse o palco para sua nova banda.

O Television era a segunda versão da banda que Verlaine havia fundado com seu conterrâneo Richard Meyers, com quem havia fugido para Nova York. Como Tom, Richard mudara seu sobrenome para Hell e em Nova York começaram a tocar como Neon Boys, ao lado do baterista Billy Ficca, que conheceram na cidade. Tom queria um segundo guitarrista para alternar solos de guitarra, enquanto Hell segurava um baixo tão impreciso e sem compromisso como a personalidade que reinventava com seu novo sobrenome. Foi Hell o primeiro daquela turma a usar roupas rasgadas, pendurar alfinetes, medalhas e broches aleatórios em casacos do exército com furos de bala, coturnos com solas descolando, calças jeans remendadas. Seu visual é a assumida inspiração do inglês Malcolm McLaren – que à época tentava recriar o New York Dolls atrelando-o ao imaginário comunista – para a cara não apenas do Sex Pistols mas de todo o punk inglês. Depois de tentar nomes como o futuro Dee Dee Ramone e Chris Stein (que formaria o Blondie em seguida) para a vaga de segundo guitarrista, Tom encontrou seu músico em Richard Lloyd, amigo da banda que viu a primeira formação dos Neon Boys surgir.
A obsessão da banda em tocar bem a colocou em ensaios contínuos que duravam até seis horas todos os dias da semana à exceção do domingo. Foi esta necessidade de tocar que levou Verlaine ao CBGB’s, um bar cujos gêneros musicais apreciados – country, bluegrass e blues – eram representados em sua sigla de batismo. A banda não queria apenas fazer um show e sim um lugar em que pudessem tocar com frequência para treinar. Quando apresentaram-se pela primeira vez em março de 1974, o grupo já havia construído uma reputação no underground nova-iorquino a ponto de levar os habitués de casas noturnas como o Max’s Kansas City e do Mercers Arts Center a visitar aquele novo lugar no East Village. A terceira apresentação do Television, em abril, trouxe Patti Smith e Lenny Kaye pela primeira vez ao local, onde tocariam a primeira vez com o Patti Smtih Group meses depois. Depois era a vez dos Ramones, dos Stilletos que mais tarde se tornariam o Blondie e dos Talking Heads. Estava formada a base do punk nova-iorquino, que, a partir de 1975, começaria a materializar-se em disco – primeiro veio o seminal Horses de Patti Smith no final daquele ano, seguido do explosivo primeiro dos Ramones, no ano seguinte.
O Television, no entanto, demoraria para sair do papel. A perseverança da banda rumo a uma musicalidade exímia havia transformado o show do grupo em um transe absoluto movido por guitarras. Verlaine e Lloyd alternavam-se nos papéis de guitarristas base e solo e reinventavam aos poucos o papel do instrumento na história do rock. Assim solos de guitarra não eram meras exibições de virtuosismo nem demonstrações de força. Havia uma dramaticidade parente do blues e do folk nos solos dos dois guitarristas, mas que traziam aquele sentimento para a cidade grande, para a noite em uma metrópole. Achados e perdidos ao mesmo tempo, o cruzamento daquelas duas guitarras bebiam da escola dos Rolling Stones, de Jimi Hendrix, do Pink Floyd e do Grateful Dead ao mesmo tempo em que enveredavam pelos altos improvisos de jazzistas como Miles Davis, Albert Ayler e Ornette Coleman. A obsessão pela técnica fez Verlaine expulsar Hell, cada vez mais problemático, da banda e em seu lugar veio Fred Smith, que havia acabado de formar o Blondie, mas que era fã de ir em todos os shows do Television.
A demora em lançar o primeiro disco não era descaso das gravadoras e sim capricho de Verlaine. A banda foi cortejada ainda em 1974 pela gravadora inglesa Island, que colocou-os no estúdio com Brian Eno, que produziu “Friction”, “Venus”, “Prove It” e “Marquee Moon”, mas o guitarrista não ficou satisfeito com o som da produção, considerando-o frio. A gravadora Arista tentou contratar a banda no ano seguinte, mas só em 1976 que o grupo assinaria o contrato para seu primeiro disco, desta vez com a Elektra. A gravadora atendeu a exigência de Verlaine para produzir seu primeiro disco, mesmo nunca tendo produzido nenhum outro disco na vida, e deixou-o contratar o engenheiro de som que quisesse. Verlaine e Lloyd escolheram Andy Johns, que já havia trabalhado com o Humble Pie, o Free, Jethro Tull e o Led Zeppelin, especificamente pelo som de guitarras que havia tirado no disco Goat’s Head Soup, dos Rolling Stones.
Gravado em setembro de 1976 nos estúdios A&R em Nova York, Marquee Moon não demorou para ser concluído, mesmo com a banda tendo tempo à vontade para passar no estúdio. Mas o grupo estava tão afiado devido a anos de shows e ensaios ininterruptos que algumas músicas, inclusive a emblemática faixa-título, com seus solos magistrais e mais de dez minutos de duração, foram gravadas ao vivo, sem superpor instrumentos ou refazer determinadas partes. O próprio Billy Ficca achou que estivessem apenas ensaiando a canção quando a gravaram, que o co-produtor Johns tentou regravar – mas Verlaine não deixou.
O disco foi lançado no dia 7 de fevereiro de 1977 com a banda estampando a capa com uma foto tirada por Robert Mapplethorpe. Mas a imagem foi manipulada posteriormente numa máquina de Xerox, quando Richard Lloyd levou a foto para fazer cópias e espalhá-las pela cidade. As cópias originalmente seriam em preto e branco, mas o operador tirou uma versão colorida e Lloyd gostou do resultado artificial das tonalidades. Pediu para o garoto tirar mais cópias enquanto mexia nos controles da máquina de olhos fechados. Entre as várias fotos de cores saturadas uma delas foi parar na capa do disco.
A capa parece contradizer o conteúdo. Marquee Moon é uma viagem romântica e beat por uma cidade decadente, Verlaine contrapondo seus solos com vocais quase falados, por vezes gritados, pouco cantados, que descreviam “olhos como telescópios” e uma “Broadway medieval”, como se os prédios espelhados fossem paredões geológicos de uma nova era, fria e quase robótica, essencialmente desumana. Verlaine age como o bardo desta nova era, arauto de uma transformação brutal mas comodista, violenta a ponto de não provocar reação. As guitarras costuram uma paisagem vertiginosa como as torres do então recém-inaugurado World Trade Center, obelisco gêmeo de uma nova era faraônica, mas cheias de detalhes barrocos e ornamentos mouriscos, como plantas que atravessam o concreto.
E do moquifo que deu origem ao punk, do sovaco elétrico da boemia nova-iorquina, surgia um disco épico e heróico, mas ao mesmo tempo introspectivo e existencialista, que questionava não apenas o niilismo da cidade que viu aquele novo movimento cultural nascer mas também o próprio papel do rock nesta nova fase. Consciente de sua importância, Marquee Moon é o divisor de águas que encerra a fase clássica do rock e abre o novo testamento pós-punk, mas sem precisar tripudiar ou negar o passado. E mesmo assim segue à miúda, em segredo, quase como um código que vai sendo transferido de geração em geração.
O primeiro disco solo do Kiko Dinucci já pode ser baixado em seu site oficial – e, como eu disse, é uma pedrada.
A capa é uma imagem de Kiko tomando um enquadro da polícia. Uma imagem representativa dessa época bizarra que estamos vivendo.
A primeira imagem divulgada da segunda temporada de Stranger Things chama os Caça-Fantasmas à ativa – falei mais sobre isso no meu blog no UOL.
Depois de muito mistério finalmente teremos mais pistas sobre a segunda temporada de Stranger Things neste domingo, quando acontece a final do campeonato de futebol americano, o famoso Super Bowl. A transmissão é conhecida pois vários comerciais de TV ganham atenção global pelo simples fato de que este jogo é um dos programas de TV mais assistidos nos EUA.
E a imagem acima, trazida em primeira mão pela Entertainment Weekly, mostra parte do elenco infantil – o Mike de Finn Wolfhard, o Dustin de Gaten Matarazzo e o Lucas de Caleb McLaughlin (Lucas) – vestidos com o uniforme dos Caça-Fantasmas em uma festa de Halloween da escola. A imagem mexe tanto com as referências aos anos 80 que ajudaram a impulsionar a fama do seriado quanto resume a primeira temporada ao transformá-los nos caçadores de fantasmas de uma pequena cidade do interior dos EUA. Mas a fantasia não é gratuita, repare ao fundo: é dia das bruxas.
O pouco que se sabe sobre a nova temporada do seriado produzido e escrito pelos irmãos Duffer é que ele terá uma cara de continuação, como se fosse a sequência de um filme, e se passará em 1984, um ano após os incidentes da primeira temporada. No elenco duas presenças mais conhecidas de outros papéis também estão entre os atores por terem feito sucesso também nos anos 80: Paul Reiser é mais conhecido como o marido da série Mad About You, sucesso nos 90, mas também atuou no filme Aliens, dirigido por James Cameron. Já Sean Astin é mais reconhecido por viver Samwise Gamgee nos filmes O Senhor dos Anéis mas também é o jovem Mikey Walsh, dos Goonies.
Sobre a história da nova safra de episódios, o produtor Shawn Levy já deu declarações falando que a nova temporada ser “maior e mais sombria”. E esta semana ele também anunciou o que pode ser um dos slogans da nova série, algo como “o Demogorgon foi destruído mas o mal não foi”.
O YouTuber norte-americano Evan Puschak, dono do canal NerdWriter, analisa, usando Louis C.K. como ponto de partida, a forma que comediantes agem na área cinzenta da moral justamente para testar seus limites – se arriscando em nome da sociedade.
Muito bom.
Hora de trazer algumas das minhas colunas mais recentes publicadas na revista Caros Amigos pra cá – e começo com o texto que escrevi na edição de novembro sobre o festival Fora da Casinha, realizado pelo Mancha, e a importância de sua Casinha para a cena independente brasileira.
Começa com uma pessoa
A Casa do Mancha se consagra como um dos principais palcos independentes do Brasil e já está dando passos largos para o futuro
Tudo começa com uma pessoa. Alguém que tem uma ideia e chama alguns amigos para colocá-la em prática. A execução atrai mais gente e aos poucos um senso comunitário vai surgindo ao redor daquela primeira ideia da primeira pessoa, e a partir daí tudo pode acontecer. Empresas, ideologias, fi losofi as, países, manifestações, seitas, passeatas, partidos, greves, cultos, impérios, religiões e movimentos artísticos começaram assim, num misto dúbio de modéstia com a ambição de que uma pessoa com uma ideia pode mudar tudo.
Mancha é uma destas pessoas. De cabelo comprido e barba por fazer, mais baixo que alto, mais escuro que claro (daí o apelido), camiseta de banda, tênis, às vezes boné e bermuda, outras, camisa de flanela e jeans. Ele não é muito diferente dos milhares de skatistas ou integrantes de bandas que nascem em São Paulo como mato. Nativo do interior do interior do estado – uma cidade chamada Castilho –, quase na divisa com o Mato Grosso do Sul, ele viu a cena independente brasileira crescer durante os anos 1990 à distância e quando chegou a São Paulo, quis dar sua modesta contribuição a essa história.
Sem o complexo de épico característico destas decisões, Mancha simplesmente botou a mão na massa. Não criou um selo, nem uma banda, muito menos dirigiu clipes ou organizou um festival. Ele só abriu sua casa para receber bandas e novos artistas e aos poucos a transformou em um dos palcos mais importantes da cidade. Lógico que isso não aconteceu como num passe de mágica. Foi um processo lento de quase dez anos que acompanhou o renascer de uma cena paulistana, ao mesmo tempo em que o transformava em um de seus agentes mais ativos. O segredo foi a chave de seu tamanho.
O nome de seu estabelecimento – Casa do Mancha – deixava clara a dimensão de sua proposta. Era uma banda tocando em uma sala de estar de uma casa na Vila Madalena. A princípio, bandas do tamanho de uma sala de estar, tocando como se estivessem fazendo o primeiro show de suas vidas. Algumas estavam. Outras não. Mas se sentiam tão à vontade como se estivessem tocando para amigos em sua própria sala de estar. E a maioria estava.
A Casa do Mancha virou uma segunda casa para muitos fãs da música produzida às próprias custas na cidade. O caráter doméstico era fundamental para essa referência. Não havia distância entre banda e público – nem na altura do palco, que fica no chão, nem de áreas separadas. Os artistas sempre ficam no meio do público, conversando e bebendo antes e depois dos shows; e muitas vezes são o público – além daquele mesmo público, por inspiração ou osmose, acabar também virando artista. E por mais que o tempo amadurecesse a Casinha – como é conhecida por seus frequentadores – para que ela recebesse atrações de maior porte e até internacionais, elas não descaracterizaram a proposta original.
E além de casa de shows, a Casinha também funciona como incubadora musical, sala de ensaio e até estúdio. Bandas como Holger e Maglore trabalharam seus discos por lá, antes de ir para gravar em um estúdio bancado por uma gravadora. Outros artistas, como Juliana Perdigão e Gui Amabis, usaram o espaço para talhar melhor apresentações ao vivo, e outros ainda como Bárbara Eugênia, Rock Rocket e Stela Campos, gravaram seus discos ali mesmo.
A comunidade que continuava se formando ao redor da Casinha, no entanto, não parava de crescer e cada vez mais fi cou comum, não apenas lotações esgotadas de shows – com o público se aglomerando do lado de fora –, como shows duplos na mesma noite, alguns até improvisados. O caráter caseiro da noite facilita a retirada do público da primeira sessão para a entrada de um novo público, que chegava mais tarde.
Mas como crescer continuando do mesmo tamanho? Mancha até cogitou ir para um estabelecimento maior em outro momento, mas preferiu expandir suas fronteiras mantendo sua base intacta.
Primeiro, levou o nome da Casa para fora da casa em festas e depois em um festival. O Fora da Casinha foi materializado como uma edição comemorativa dos oito anos da Casinha longe do ponto original, como seu nome deixava claro. Realizado primeiro no Centro Cultural Rio Verde, em 2015, ele teve sua segunda edição realizada este ano na Unibes Cultural, indo de dois para três palcos simultâneos. Em duas edições, Mancha pode reunir artistas como Juliana Perdigão, Carne Doce, Dustan Gallas, Gui Amabis, Jaloo, Maglore, Maurício Pereira, Anelis Assumpção, Twinpine(s), Ventre, Stela Campos, Cidadão Instigado, Soundscapes, O Terno, Supercordas, Kiko Dinucci, Hurtmold, Luiza Lian, As Bahias e a Cozinha Mineira e Boogarins. Cobrando barato a entrada e sem contar com nenhum patrocínio.
O Fora da Casinha é o começo de uma expansão da Casa do Mancha para outras capitais. Depois de fazer o palco da Casa do Mancha no festival goiano Bananada, um dos principais do País, Mancha quer levar a curadoria de um palco para outros festivais indies pelo Brasil a partir do ano que vem, como o paraense Se Rasgum, o pernambucano Coquetel Molotov, o paulista Contato e o potiguar DoSol. “O Fora da Casinha é o irmão mais novo”, brinca Mancha, usando a idade do festival para justifi car sua modéstia. Não precisa. Sozinho, ele ajudou a cena paulistana – e, em seguida, a brasileira – a se erguer com uma autoestima intacta, mesmo quando quase não há rádios que toquem este tipo de música, os cadernos de cultura de jornais viraram agendas culturais comerciais, que as grandes gravadoras ignorem estes novos artistas ou que a mídia tradicional sequer perceba sua existência. Para o segundo semestre de 2017, ele planeja a terceira edição do Fora da Casinha e outra coisa para comemorar seus dez anos em atividade – mas ele nem tem ideia do que quer fazer ainda. Ou tem e prefere não falar… E sim fazer.








