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Loki

mogwai2017

Depois de lançar duas trilhas sonoras no ano passado, a primeira, chamada apenas Atomic, para o documentário da BBC Storyville – Atomic: Living in Dread and Promise e a segunda para o documentário de Leonardo Di Caprio sobre o aquecimento global Before the Flood (esta ao lado de nomes como Trent Reznor, Atticus Ross e Gustavo Santaolalla), o grupo de pós-rock escocês anuncia seu próximo álbum propriamente dito desde o disco Rave Tapes, de 2014. Every Country’s Sun, que o líder da banda, Stuart Braithwaite, classificou como um disco de recuperação. “Nós estamos vagamente nos recuperando do referendo escocês, da morte de David Bowie, do Brexit e de Trump”, disse ao anunciar o disco. “O disco foi composto numa época muito turbulenta e intensa, por isso talvez sinta que ele funciona como um escudo contra isso.” O álbum sai apenas em setembro (e já está em pré-venda no site da banda), mas o grupo já adiantou o primeiro single do disco, “Coolverine”.

nickdrake

O músico e jornalista Thomas Pappon assistiu a um bate-papo com o produtor Joe Boyd em Londres e não esperava ser surpreendido por uma bomba intercontinental: Nick Drake teria se inspirado em João Gilberto para buscar sua própria sonoridade, uma das assinaturas musicais mais fortes da música britânica, mesmo que registrada em parcos três discos e gravações esparsas. Ele contou brevemente a história em seu perfil no Facebook e pedi para que ele compartilhasse sua descoberta aqui no Trabalho Sujo. Valeu Thomas!

Peter Paphides e Joe Boyd (foto: Thomas Pappon)

Peter Paphides e Joe Boyd (foto: Thomas Pappon)

Trilhas da Hammer e cocktail jazz: a conexão Nick Drake – João Gilberto

O que era para ser um programinha bacana num fim de tarde chuvoso de domingo trouxe uma bomba, pelo menos para os jornalistas de música: Nick Drake, o trágico bardo depressivo que morreu no ostracismo para ser redescoberto nos anos 80 e influenciar deus e o mundo – de Robert Smith a Renato Russo – passava horas no quarto ouvindo João Gilberto.

Pelo menos é o que sugeriu Joe Boyd, o produtor americano que descobriu Drake na Grã-Bretanha e produziu seus dois primeiros álbuns, num evento no bar/restaurante audiófilo Spiritland, em Londres.

Boyd participou de uma conversa sobre Nick Drake, respondendo a perguntas feitas pelo jornalista Peter Paphides e, ao final, de membros do público.

Ele contou como conheceu Drake: através de um bilhete de Ashley Hutchings, baixista do Fairport Convention, deixado sobre sua mesa com um número de telefone e um nome. Hutchings tinha visto Drake tocar num concerto contra a guerra do Vietnã na noite anterior (uma das raras apresentações ao vivo del, pelo visto) e ficara impressionado.

Boyd ligou, chamou Drake ao escritório, ouviu suas músicas e assim começa a trajetória de três álbuns lançados pela gravadora Island, Five Leaves Left (69), Bryter Layter (71) e Pink Moon (72). Drake morreu em 1974, aos 26 anos, de overdose de antidepressivos (30 comprimidos, o que levou muita gente, inclusive a irmã dele, Gabrielle, a acreditar que foi suicídio).

“Com os anos, fiquei surpreso em ver que muitas pessoas próximas pintavam um quadro de Nick bem diferente do que eu conheci”, disse Boyd. “Diziam que ele era popular na faculdade (Cambridge), que participava de corridas (atletismo)…o Nick que conheci era bashful (Boyd usou essa palavra ao menos duas vezes para descrevê-lo, significa ‘relutante em chamar atenção sobre si, tímido, reservado’).

Boyd deu detalhes sobre as gravações. Falou do fiasco dos arranjos de cordas de Robert Hewson, que tinha trabalhado com James Taylor, e do alívio que Drake sentiu quando soube que Boyd também não tinha gostado. Sobre a tímida indicação de Drake – “tem um amigo meu de Cambridge que conhece minhas músicas” -, Robert Kirby, que acabou cuidando dos arranjos de cordas, parte tão orgânica das canções.

E contou que Kirby se recusara a fazer o arranjo para River Man, talvez música mais conhecida – e reverenciada – do repertório de Drake.

“Kirby era ligado a música barroca. Ela não se sentia à vontade para fazer um arranjo de uma música em (andamento) 5 por 4. Haendel não tinha 5 por 4”, disse Boyd.

“Quem acabou sendo chave nessa história foi o engenheiro de som, John Wood. Wood perguntou a Drake: ‘Que tipo de arranjo de cordas você quer?’ ‘Algo tipo Delius (compositor britânico)’. Wood era o dono do estúdio e estava acostumado a gravar trilhas sonoras de filmes. Ele conhecia um cara que fazia arranjos imitando qualquer compositor. Se você precisa de uma trilha tipo Mahler, ele fazia. Tipo Wagner, ele fazia.”

Esse cara era Harry Robinson, “que compunha trilhas para os filmes de terror da Hammer”.

“Eu e Nick fomos de carro conhecê-lo. Nick levou um violão e um gravador cassete. Ele tocou o cassete com o violão de ‘River Man’ e tocou, junto, a ideia que tinha de arranjo. Portanto Harry Robinson fez o arranjo a partir da ideia de Drake e do pedido de fazer algo ‘tipo Delius’.”

Boyd contou que tudo foi gravado em um só take ao vivo: Nick Drake, voz e violão, e o grupo de cordas executando as partituras de Harry Robinson, ao vivo. “O John Wood diz que a voz de Drake foi gravada depois, ms não é essa a lembrança que tenho”.

Depois, veio a bomba: “A forma como a voz e o violão parecem ter duas vidas próprias segue o estilo do cantor e violonista brasileiro João Gilberto”.

“Isso só me ocorreu mais tarde. Mas um amigo de Drake, da Universidade de Cambridge, me disse que ele ouvia João Gilberto, que tinha discos dele”.

O comentário passou batido, menos para mim e meu amigo, o também jornalista Rogério Simões, fã de longa data de Nick Drake. Não tínhamos ideia…

Na sessão de perguntas do público, o Rogério perguntou por que os discos de Nick Drake não venderam (nem 5 mil cópias cada) na época.

Boyd deu, como pista, uma resenha que tinha saído na época na Melody Maker, do álbum Bryter Layter, que dizia que a música “parece uma mistura esquisita de folk e cocktail jazz”.

E depois, o serviço da casa foi interrompido, para que os pouco mais de 100 presentes pudessem ouvir, à meia-luz em em silêncio total, à mistura esquisita – e mágica – de folk e cocktail jazz do Bryter Layter.”

cornelius

Há onze anos sem lançar nada de novo, o mago japonês das colagens Cornelius de som anuncia o disco Mellow Waves – e o primeiro single, o melancólico e levemente perturbador “あなたがいるなら (If You’re Here)” mostra, com um casamento incrível entre som e imagem, que ele não voltou à toa.

Essa é a capa do disco e o nome das músicas vem logo a seguir. O disco sai em CD no final de junho apenas no Japão – e chega às plataformas digitais no final do mês seguinte.

cornelius2017

“あなたがいるなら (If You’re Here)”
“いつか / どこか (Sometime / Someplace)”
“未来の人へ (Dear Future Person)”
“Surfing on Mind Wave pt 2”
“夢の中で (In a Dream)”
“Helix / Spiral”
“Mellow Yellow Feel”
“The Spell of a Vanishing Loveliness”
“The Rain Song”
“Crépuscule”

Are_You_Experienced

Escrevi para o meu blog no UOL sobre o mítico primeiro disco que Jimi Hendrix lançou com seu trio Experience, que completa meio século neste dia 12 de maio – e como Are You Experienced? captura todo o poder revolucionário do músico.

É fácil entender porque Jimi Hendrix ainda é um ícone imbatível da cultura, mesmo passado meio século desde o que o primeiro registro de sua força emocional e sonora foi disponibilizado em escala industrial. Are You Experienced?, que chegou às lojas de disco no dia 12 de maio de 1967, concentra as principais qualidades do guitarrista, mas, visto à distância, cinquenta anos depois, é essencialmente um disco pop. Canções como “Purple Haze”, “Fire”, “Foxy Lady” e a faixa-título já se embrenharam na textura sonora do inconsciente coletivo a ponto de serem consideradas, sem dúvida, hits. Fora a figura encantadora de Hendrix, um trickster armado com uma guitarra, um soul man psicodélico, um xamã elétrico.

Difícil, no entanto, é entender o impacto que Jimi Hendrix exerceu sobre os anos 60 – e como sua presença foi capital para sincronizar dois continentes em uma nova perspectiva de vida, alinhando a contracultura de Londres (e consequentemente a da Europa) à de Nova York e da Califórnia (e consequentemente a da América) ao redor de o despertar de uma nova consciência. Não por acaso o disco foi lançado no mítico 1967 – é um dos discos que ajudou a transformar aquele ano numa época de ouro para a música, para o rock e para a cultura contemporânea, como um todo.

E isso aconteceu num estalo. Um ano antes de seu lançamento, Jimi Hendrix sequer era Jimi Hendrix. Tocava em uma banda chamada Jimmy James and the Blue Flames onde exercitava todo seu virtuosismo rock aprendido na marra ao lado de titãs da música negra, como os Isley Brothers e Little Richards, de quem foi guitarrista de suas bandas de apoio. Mas estava longe do alienígena musical que se transformou em poucos meses. Já estava acompanhando o que seus contemporâneos brancos dos Estados Unidos e da Inglaterra estavam fazendo, principalmente Dylan, uma de suas principais influências, e os Beatles. Mas a barreira racial o impedia de ir para além da fronteira onde atuava, até que Linda Keith surgiu em sua vida.

A história de Linda com Hendrix parece um conto de fadas. Ela o viu se apresentando no Cafe Wha, em Nova York, e imediatamente reconheceu seu talento cru. Modelo e it girl inglesa, Linda era namorada de Keith Richards dos Rolling Stones e passava uma temporada na costa leste americana quando percebeu que poderia lapidar aquele guitarrista. Foi ela quem o convenceu a deixar o cabelo crescer e a cantar, usando Dylan como parâmetro para estas mudanças no guitarrista. Ela insistiu que adotasse seu verdadeiro sobrenome e não se escondesse atrás de uma banda – além de assinar seu prenome de forma singular, Jimi, e não como todos os outros James, que assinavam o próprio apelido como Jimmy. Ela lhe sugeriu que usasse roupas menos comportadas e que experimentasse o ácido lisérgico. Em outras palavras, Linda lhe aplicou uma dose expressa da Swinging London, a transformação comportamental que tirava Londres do pós-guerra e puxava a capital inglesa para a era psicodélica. O encontro de Jimi e Linda é crucial para a transformação de Hendrix em um ícone da música e da contracultura global.

Ela usou suas conexões para tentar chamar atenção da indústria fonográfica para o músico, mas nem Andrew Loog Oldham (empresário dos Rolling Stones) e Seymour Stein (dono da gravadora Sire Records) não viram grande coisa no guitarrista. Foi preciso que Linda o apresentasse a um amigo músico que estava insatisfeito com a vida dos palcos e queria experimentar a vida nos bastidores, empresariando um novo artista. Chas Chandler, ex-baixista dos Animals, havia ouvido a música “Hey Joe” e sabia que ela seria o hit do primeiro artista que empresariasse. E ele conseguiu ver exatamente o que Linda dizia quando assistiu Jimi Hendrix ao vivo.

Mitch Mitchell, Jimi Hendrix e Noel Redding

Mitch Mitchell, Jimi Hendrix e Noel Redding

Chandler é a segunda ferramenta para a ascensão de Hendrix. É ele quem banca a viagem do guitarrista para Londres, suas primeiras apresentações. É Chandler quem apresenta Hendrix a seus novos músicos, os ingleses Noel Redding, guitarrista que começava a tocar baixo, e Mitch Mitchell, baterista que também havia tocado com uma banda chamada Blue Flames (Georgie Fame and the Blue Flames). A química entre os três é instantânea e logo que eles começam a gravar, Chandler vê que não precisa alugar sala de ensaio para os três, que agora se chamavam The Jimi Hendrix Experience, pois os novos músicos aprendiam rapidamente as músicas de Jimi logo que estavam testando os instrumentos no estúdio.

O impacto ao vivo de Jimi Hendrix em Londres, ainda em 1967, foi avassalador. Guitarristas contemporâneos, como Jeff Beck, Eric Clapton e Pete Townshend sentiram o baque na hora e em menos de um mês todos os instrumentistas da cidade se viam confrontados com um novo patamar de excelência – todos mesmo, inclusive músicos que não se consideram virtuosos, como integrantes dos Beatles e dos Rolling Stones que puderam assistir aos primeiros show de Hendrix na Inglaterra.

Em frente a uma plateia progressista e sem preconceitos, o guitarrista explorava todos os limites de sua performance, assumindo o holofote como Linda Keith havia profetizado, não apenas como instrumentista, mas como showman, líder carismático no palco. Ele e sua guitarra Fender Stratocaster eram um só e ele ficava cada vez mais consciente e confiante de sua força artística, seja cuspindo frases de apresentação no começo de suas músicas ou narrativas melódicas completas nos intervalos entre os refrões. A guitarra também era a batuta com a qual regia a microfonia, o barulho dissonante dos instrumentos elétricos que Hendrix aos poucos domou. Hércules sonoro, desafiava bestas sonoras inomináveis e transformava estas lutas em solos memoráveis, deslumbrantes, transcendentais.

Era uma força ancestral. O que Hendrix mostrava para os ingleses era a versão atual da geração de músicos norte-americanos que a Swinging London venerava. Uma geração que surgiu com o rock’n’roll de Elvis Presley, Chuck Berry, Buddy Holly e Little Richards, mas que logo foi atrás dos discos anteriores, dos primeiros bluesmen elétricos, dos discos da gravadora Chess. Hendrix era um daqueles monstros sagrados, só que não vivia no passado, mas no presente, apontando para o futuro.

Sua importância é maior do que apenas para o rock. Hendrix faz a ponte entre as ragas indianas mencionadas por John Coltrane e o espaço sideral de Sun Ra com as viagens intergaláticas de George Clinton e a força política de Sly & The Family Stone. Não à toa foi parar com Miles Davis no momento em que o Picasso da música norte-americana começava sua fase elétrica. Hendrix não é apenas a consagração da união das novas consciências na cultura pop da América e da Europa, a consolidação do que Dylan dizia quando batizou um de seus discos de 1965 de “trazer tudo de volta pra casa”, em relação à cultura urbana que teria sido “roubada” pela geração dos Beatles. Ele também é a evolução improvável de uma consciência musical, que, por mais difícil que possa parecer, soa facílima uma vez apresentada pelo guitarrista e vocalista. E está tudo ali, encerrado no primeiro disco de seu power trio. “Você já experimentou?”, pergunta desafiador na faixa-título, para responder sorrindo. “Eu já.”

duascidades-vinil

BaianaSystem fecha com a Vinyland o lançamento da versão em LP do seu excelente disco Duas Cidades, um dos melhores discos do ano passado. A nova versão vem com uma faixa a menos (a vinheta “Mercado”) e uma capa diferente da versão em CD, além de ser capa dupla.

vinilbaianasystem

As encomendas podem ser feitas por aqui. E não custa lembrar que o Baiana toca junto com a Nação neste sábado, no Áudio. Já me conformei que vou perder, porque sábado é dia de Noites Trabalho Sujo.

BR-135

Atualizando mais uma rodada de republicações das minhas colunas na Caros Amigos, resgato a coluna que escrevi para a edição de janeiro deste ano, sobre o festival maranhense BR-135, que aconteceu no final do ano passado. Antes do texto, os vídeos que fiz durante a passagem por lá:

Reerguer o Maranhão
Há cinco anos, o Festival BR-135 ocupa o centro histórico de São Luís e ajuda a cultura independente local a ganhar voz

O centro histórico de São Luís, uma das cidades mais antigas do Brasil, padece. O lugar é o centro nervoso da capital maranhense e ali ficam algumas das principais instituições da cidade – a prefeitura, a junta comercial, a capitania dos portos, o centro de criatividade, o mercado, o teatro João do Vale, a igreja matriz. Construções coloniais seculares, erguidas entre ruas de calçamento numa cidade fundada por franceses no século 17, completamente abandonadas pelo poder público e político, convertida em uma região em que poucos se arriscam após a noite, devido à falta de segurança que caracteriza os centros de dezenas de cidades de grande porte no Brasil.

Mas durante alguns dias de novembro, este mesmo centro foi tomado por populares de todas as idades, classes, etnias e gêneros. Uma autêntica mistura humana espalhava-se pelas pequenas ruas de um bairro outrora abandonado sem o menor tumulto, sem o menor alarde. Por trás daquela motivação erguia-se um festival de música que, por três dias, trouxe artistas veteranos e novatos, locais e de outras cidades, para dois pequenos palcos colocados em dois pontos estratégicos daquele centro, além de promover rodadas de negócios entre agentes, empresários e bandas, debates e palestras, exibição de documentários, discotecagens e apresentações de costumes tradicionais da cultura local. Uma transformação brusca e feliz, espalhando boas vibrações para esquinas da capital maranhense que normalmente se evita.

E tudo isso começou por conta da vontade de um casal. “Nós começamos na raça, na camaradagem e vontade coletiva de fazer algo”, explica Luciana Simões, metade da dupla Criolina, responsável pela criação e produção do festival BR-135. “Cobrávamos um ingresso de R$ 10 no Circo da Cidade para pagar um bom som e organizávamos cada edição conforme a adesão dos artistas. O bacana dessa época é que reuníamos a velha guarda e os jovens artistas, brechó, poesia, cultura popular. Era um palco para quem tinha trabalho pra mostrar.”

Nesta fase, o BR-135 era um projeto local e mensal – tinha foco no futuro, mas Luciana e seu parceiro Alê Muniz sabiam que era preciso começar no trabalho de base. E ela continua, praticamente ditando um manual de como sondar uma cena e criar algo com corpo. “Ali era também um laboratório para melhorar. Iniciamos sabendo que reunir a cena era o mais urgente, então fizemos dois anos sem convidados de fora, apenas identificando a cena local, fortalecendo e tentando conectar as bandas novas aos mestres da cultura popular. Nesses dois anos homenageando compositores antigos, resgatando com shows temáticos álbuns antigos que fazem parte da nossa formação musical como o Bandeira de Aço, disco de Papete, lançado em julho de 1978, pela Discos Marcus Pereira, e show em homenagem a João do Vale interpretado pela nova cena local.”

Mas há três anos, o festival deu um salto e deixou de ser uma atração mensal para tornar-se um grande evento anual. “No terceiro ano percebemos que já conseguíamos reunir a cena e contribuir para que nossa música entrasse no mapa. Convidamos as pessoas de outros estados para conhecer o que estava acontecendo aqui, oferecendo um ambiente de encontro, de troca de ideias, de discussões e espaço para shows”, continua. “Em 2014, abrimos com show de Céu, pela primeira vez em São Luís, no Teatro Arthur Azevedo, e nos dias seguintes ocupamos duas praças do centro histórico reunindo maranhenses e artistas convidados de outros cantos do país: os paraenses Felipe Cordeiro e Dona Onete, a banda pernambucana Mombojó, além de 14 grupos selecionadas entre 273 inscritas. Paralelamente começamos o Conecta Música, com palestras, workshops, oficinas e rodada de negócios. Chamamos Roger de Renor, do Ocupe Estelita, o músico Marcelo Yuka e Maurício Bussab, da Tratore, além de André Martinez, da Aprax e Marcelo Arêde, do conexão Vivo. Nos anos seguintes: Arnaldo Antunes,Orquestra brasileira de Música Jamaicana, Siba e Curumim. No Conecta Música recebe os jornalistas Patrícia Palumbo, Otávio Rodrigues e Roberta Martinelli, os produtores musicais Melina Hickson, Otávio Argento, Paulo André, Marcelo Damaso e Anderson Foca”.

Fui convidado para participar de uma das mesas da edição deste ano – e para conferir a visível transformação que o casal está impondo à própria cidade. Criada em 2006, a dupla Criolina nasceu em São Paulo, quando os dois maranhenses Luciana Simões e Alê Muniz começaram a compor juntos para “fazer um som que desinfetasse os ouvidos da musica maçante e corriqueira da velha MPB e MPM – a música popular maranhense”, explica Luciana. A dupla lançou seu primeiro disco em 2006, talvez o ano mais complicado para quem trabalha com música desde a explosão do download livre na virada do sécul. “A Criolina nasceu na época da quebra das gravadoras e da mudança do formato de CD pra MP3, pirataria, etc. Aí veio a angústia de querer saber como a banda iria entrar em contato com o público, uma banda independente, sem contrato com gravadora, sem lenço, sem documento. Não havia estrutura pra circular, levar a gente de um lugar para outro. Aí pensamos numa saída que se mostrasse viável: formar bandas com músicos das cidades por onde a gente desejava passar, incorporando a cultura desses locais e conhecendo o país de uma forma mais profunda.”

A transformação começou lentamente e localmente, primeiro com os shows mensais e depois com o festival anual. A edição de 2016 reuniu nomes de peso tanto da velha guarda, quanto da música contemporânea e do novíssimo pop brasileiro, além de várias bandas locais. Assim, pude ver shows do veterano Di Melo, do duo Strobo, da poderosa Nação Zumbi (tocando seu clássico Afrociberdelia na íntegra), dos chapados Du Souto, a dupla de DJs Venga Venga, a cantora Lei Di Dai e da sensação Liniker e os Caramellows, que fechou o festival levando o público ao delírio. Entre as atrações de fora, locais como Nubia, Nathalia Ferro, Beto Ehongue, O Vórtice, Royal Dogs e números tradicionais como o Boi de Santa Fé, o Tambor de Crioula de Mestre Felipe, a Orquestra de Berimbaus Mandigueiros do Amanhã e o High Vibes Sound System, comandado por Tarcisio Selektor, misturavam-se a um mercado de produtos independentes, barracas de comida local, artistas de rua, performances e DJs. Tudo sob um calor firme de trinta e quase quarenta graus e um clima de paz e tranquilidade, entre pessoas de todas idades, classes sociais e orientações sexuais. “Nos surpreendemos com o público que sempre entendeu e abraçou a proposta do festival e que só cresce a cada ano”, comemora Luciana, contando quase 50 mil pessoas nos três dias de festival. “Percebemos que as pessoas estão sedentas por ver seus artistas preferidos, de perfil independente, que nunca vieram aqui e que dificilmente viriam” – e, principalmente, no centro esquecido da capital. “Escolhemos ocupar o centro histórico por ser a alma da cidade, um território cultural querido e à margem. Era uma forma de conectar as pessoas à esse espaço através da música, da arte”, conclui a produtora e artista, fazendo planos para 2017. “Ano que vem queremos ampliar a ocupação do centro histórico de São Luís e aumentar a programação, crescendo sem perder a identidade de promover diálogos, trazer a cena do Brasil e apresentar a nossa, sempre com uma festa de som, amor e paz, mantendo o diferencial de convidar artistas nacionais importantes e valorizar a cena local contemporânea que tem uma identidade rica e diversa, destacando o reggae e a cultura popular, principalmente bumba meu boi e tambor de crioula.”

“Temos muita admiração pela luta dessas cidades que conseguiram essa sinergia, como Recife, Salvador e Belém”, explica. “Por isso nos preocupamos em estimular diálogos com produtores, gestores e jornalistas desses lugares. Temos consciência de que ainda não chegamos no nível deles. Mas São Luís pela força da sua cultura popular e a vocação cultural pode num período curto ser tão conhecido quanto essas cidades. Nós temos uma voz própria e ela há de ser ouvida num tempo muito mais curto do que muita gente imagina. O Festival BR135 briga por isso e acreditamos e estimulamos em nossas falas que qualquer artista pode e deve assumir um papel de protagonismo, como vem acontecendo com outros artistas e seus projetos , outros projetos devem acontecer para fortalecer e validar a cena.”

Já é uma tradição do palco Sunset, do Rock in Rio, reunir diferentes nomes da música que nunca trabalharam juntos num mesmo show. O encontro da Nação Zumbi com Ney Matogrosso é uma das promessas da edição deste ano e os dois acabam de lançar a versão que fizeram para “Amor”, clássico dos Secos e Molhados:

A conexão, no entanto, ficou aquém do esperado. A junção entre os vocais de Jorge Du Peixe e Ney deixou ambos deslocados, como coadjuvantes em busca de um protagonista, e a guitarra pesada de Lucio Maia dá uma conotação errada para o verso “suave coisa nenhuma” imortalizado pela canção. Acho que se enfatizassem no lado mais doce e bucólico do disco mais recente da Nação e deixassem claro que Ney é a estrela do encontro (como ele é em qualquer situação em que esteja), as coisas fluirem melhor e soariam mais fluidas. Tomara que azeitem melhor isso.

mgmt

A dupla norte-americana MGMT, formada por Andrew VanWyngarden e Ben Goldwasser, acaba de anunciar que está com disco novo prestes a sair – e fez isso através de sua conta no Instagram, compartilhando um vídeo com trechos de algumas músicas novas e avisando o nome do disco: Little Dark Age. O título pode ser traduzido como Pequena Era Sombria ou Pequena Idade Média, que é uma visão interessante sobre a época que estamos vivendo. O problema é que a Idade Média original durou mil anos, o que não dá pra ser propriamente otimista se pensarmos que esta época cogitada pelo nome do novo disco seja propriamente breve…

A banda já tocou músicas do novo disco em seu show mais recente, como anuncia a página da apresentação do grupo no festival Memphis’ Beale Street Music Festival, sexta passada, no Setlist.fm: “Little Dark Age”, “James”, “Me and Michael” e “When You Die”. Duas delas foram registradas por fãs, veja só:

New MGMT #mgmt

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MGMT

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pjharvey2017

Em meio à turnê norte-americana de seu disco do ano passado, PJ Harvey lança um single com duas músicas que sobraram das sessões do ótimo The Hope Six Demolition Project, “A Dog Called Money” e “”, ambas carregadas com o mesmo sentimento político pesado e melancólico, embora cada uma delas corra para um caminho diferente – a primeira é mais impositiva, a segunda mais bucólica:

adogcalledmoney

mombojo-laetitia-sadier

O Mombojó finalmente lança o EP que gravou com a vocalista do Stereolab, Laetitia Sadier. O disco pode ser ouvido e baixado no site que o grupo fez para o projeto, chamado de Summer Long. Abaixo, um minidocumentário sobre o encontro.