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Loki

deerhoof-2017

A banda californiana Deerhoof anuncia para setembro seu novo disco, Mountain Moves, e lança o primeiro single, a faixa “I Will Spite Survive”, que conta com a participação de Jenn Wasner, líder do Wye Oak, nos vocais:

Não é a única participação especial do disco, que ainda conta com as presenças da ex-vocalista do Stereolab Lætitia Sadier, da multiinstrumentista Xenia Rubinos, da compositora argentina Juana Molina e da jazzista Matana Roberts, entre outros, além de versões para músicas de Bob Marley, Staple Singers e Violeta Parra, num disco de forte teor político. “Vivemos simultaneamente em dois mundos, uma monocultura maníaca inclinada ao inferno que está guiando a humanidade rumo à extinção e um movimentado submundo lotado de ideias e cheio de otimismo e de vontade de continuar e sobreviver. Mountain Moves recusa o primeiro ao celebrar o último em êxtase”, escreveram na apresentação do disco, cuja capa e ordem das músicas vem abaixo (e o disco já está em pré-venda).

deerhoof-mountain-moves

“Slow Motion Detonation (feat. Juana Molina)”
“Con Sordino”
“I Will Spite Survive (feat. Jenn Wasner)”
“Come Down Here And Say That (feat. Lætitia Sadier)”
“Gracias A La Vida (Violeta Parra Cover)”
“Begin Countdown”
“Your Dystopic Creation Doesn’t Fear You (feat. Awkwafina)”
“Ay That’s Me”
“Palace of the Governors”
“Singalong Junk (feat. Xenia Rubinos)”
“Mountain Moves (feat. Matana Roberts)”
“Freedom Highway (The Staples Singers Cover)”
“Sea Moves (feat. Chad Popple, Devin Hoff)”
“Kokoye”
“Small Axe (Bob Marley Cover)”

element

Clipe novo de Kendrick Lamar, “Element” não é estiloso apenas por estética. Dirigido pelo próprio Kendrick e pelo fotógrafo alemão Jonas Lindstroem, o vídeo emula o olho clínico e social do fotógrafo Gordon Parks, uma das assinaturas visuais do movimento pelos direitos civis nos EUA nos anos 50 e 60.

radiohead-glastonbury

E o Radiohead voltou ao topo do festival inglês Glastonbury vinte anos após ter tocado na mesma posição pela primeira vez na história do evento com um showzaço que pode ser ouvido na íntegra na BBC (a partir do trigésimo minuto, quando a transmissão da rádio dedica-se ao show, registrado ao vivo). As câmeras da BBC também registraram parte do show no vídeo abaixo, que infelizmente começa lá pela metade do show (a partir de “Idioteque”). Se alguém encontrar uma versão na íntegra em vídeo manda o link aí…

Watch live video from GlastonburyFestival on www.twitch.tv

Olha o setlist, que maravilha:

“Daydreaming”
“Lucky”
“Ful Stop”
“Airbag”
“5 Step”
“Myxomatosis”
“Exit Music (For A Film)”
“Pyramid Song”
“Everything In It’s Right Place”
“Let Down”
“Bloom”
“Weird Fishes/Arpeggi”
“Idioteque”
“You And Whose Army?”
“There There”
“Bodysnatchers”
“Street Spirit”

Primeiro bis
“No Surprises”
“Nude”
“2+2=5”
“Paranoid Android”
“Fake Plastic Trees”

Segundo bis
“Lotus Flower”
“Creep”
“Karma Police”

Que banda! Que show!

twinpeaks-s03e08

Com um único episódio de Twin Peaks, David Lynch revoluciona mais uma vez a cultura contemporânea – escrevi sobre esse momento mágico do século 21, sem spoilers, no meu blog no UOL.

O oitavo episódio da terceira temporada de Twin Peaks, que já está disponível no Netflix brasileiro, é um marco tanto da história da arte quanto do entretenimento. David Lynch empurrou o público em uma hora exasperantemente bela em que até a noção de tempo e o fôlego se perdia com o passar das cenas. Se cenas dos episódios anteriores desta temporada, como a da caixa de vidro, a do espaço sideral e a do bar sendo varrido, deixaram todos impressionados com a maestria e a ousadia do diretor em reger nossa expectativa como se fôssemos cobaias em um laboratório, neste novo episódio Lynch mostrou que não está pra brincadeira mesmo. E que ele não é um mestre do cinema, o cinema é só sua ferramenta, seu veículo. David Lynch é um Mestre do Tempo.

Recomendo a qualquer um a atravessar esta hora de explosões e implosões psicológicas e físicas mesmo sem nunca ter assistido nenhum episódio. Mesmo sem ter a menor vontade de saber o que é Twin Peaks. A experiência de assistir ao capítulo chamado “Got a Light?” (“Tem fogo?”, numa tradução informal) é transcendental mesmo que você não entenda o contexto. E nem estou falando do contexto da série – e sim do contexto de um seriado de televisão em 2017. Imaginar que um executivo de uma emissora de TV tenha concordado em bancar este momento solene mexe com a nossa esperança sobre a possibilidade de nossa cultura sair da estagnação repetitiva que vivemos desde que a cultura pop atingiu escala industrial.

As cenas vão sendo apresentadas uma atrás da outra sem a menor cerimônia, sem a mínima preocupação de revelar algo (embora nos dê a nítida sensação de estarmos vendo várias revelações) ou de que alguém as entenda. Lynch entrou numa magistral espiral de luz e som que conquista pela beleza estética ao mesmo tempo em que provoca sentimentos desconfortáveis em diferentes escalas. Perguntas críticas à nova temporada da série (quando Cooper vai voltar a si? De onde veio Dougie? Quem é Richard Horne? Cadê Audrey? O que é aquela caixa? O que está acontecendo na cidade de Twin Peaks?) tornam-se minúsculas comparadas aos questionamentos erguidos nesta exuberante hora de surrealismo abstrato sombrio: Existem outras dimensões? Alguém está nos observando? De onde vem o Mal? Como abrimos a caixa de Pandora da humanidade? O que está acontecendo – em tudo?

O oitavo episódio aprofunda-se em questionamentos artísticos provocados pelo diretor em seus inúmeros filmes incompreensíveis, como Eraserhead, Cidade dos Sonhos, Estrada Perdida, Império dos Sonhos. Se Twin Peaks parecia conversar com a linguagem da TV tradicional, ela agora foi para além do mero entretenimento para as massas. Me refiro à Arte com A maiúsculo, aquela que inspira reflexões sobre nossa própria existência. Em uma hora de televisão – com direito a (microspoiler, vai) cinco minutos de Nine Inch Nails -, Lynch reinventa o medo, a expectativa, o mau agouro, a esperança, a violência, a agressividade, a noção de realidade.

Intercalando cenas coloridas com cenas em preto e branco, este episódio mais recente da série sozinho já é a hora de televisão mais ousada do entretenimento moderno. É uma pintura em movimento que confronta nossa própria noção de ser. Se na primeira vinda de Twin Peaks, Lynch mostrou que a televisão podia ser menos didática, mais complexa e não precisava propriamente agradar para atingir seu público, com “Got a Light?” o diretor norte-americano pode ter aberto um mundo de possibilidades para o entretenimento dos próximos anos – mostrando para os novos autores que, sim, eles podem fazer arte sem necessariamente pensar em público, em audiência e em números. Porque, no fim, é a arte que fica.

E agora ficamos duas semanas sem nenhum novo episódio. Até lá, o que pode acontecer? Que época para se viver!

thiago-franca-depois-a-gente-ve-orquestra

Culminando o junho de improvisos regidos por Thiago França em sua ocupação das segundas-feiras do Centro da Terra, o saxofonista reúne a Orquestra Instantânea de Sopros, um coletivo acústico de instrumentos de sopro formado na hora do espetáculo – inclusive com a presença de integrantes do público que trouxerem seus instrumentos, mesmo não sendo músicos profissionais. Thiago explica melhor no papo que tivemos como funciona o improviso desta segunda ao mesmo tempo em que explica porque nesta segunda-feira não tem cortesia nem meia entrada.

Como é que funciona a Orquestra Instantânea de Sopros? Qualquer um pode tocar?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-funciona-a-orquestra-instantanea-de-sopros

Como reger um improviso coletivo desta natureza?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-como-reger-um-improviso-coletivo-desta-natureza

Fale sobre a questão do dinheiro arrecadado nesta noite.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-fale-sobre-a-questao-do-dinheiro-arrecadado-nesta-noite

O que achou da experiência de improvisos no Centro da Terra?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/thiago-franca-depois-a-gente-ve-o-que-achou-da-experiencia-de-improvisos-no-centro-da-terra

Rumo ao PicNik

picnik-2017

Chego em Brasília neste fim de semana para conferir a edição anual do festival PicNik, uma festa que cresceu, virou mercado, já se espalhou por outras cidades e agora faz um dos festivais mais legais da minha terrinha. A edição deste fim de semana tem Mustache e os Apaches, Bixiga 70, O Terno, Tagore, Ava Rocha, Firefriend, Blank Tapes, Glue Trip e outros tantos. De graça, na Torre de TV, sábado e domingo – mais informações aqui.

washedout

Mais um single do novo disco do grupo de Ernest Greene e “Hard to Say Goodbye” confirma um Washed Out cada vez mais solar e veraneio, como parece ser o clima deste seu Mister Mellow, seu primeiro disco desde Paracosm, de 2013, que sai no final deste mês.

https://soundcloud.com/washedoutofficial/hard-to-say-goodbye

poolside-heat

Disco novo do Poolside na área, Heat é o som que precisamos pra fugir desse inverno tropical do meio do ano. Aumenta o som!

Foto: Carina Zaratin (Divulgação)

Foto: Carina Zaratin (Divulgação)

“Tenho visto e ouvido coisas emergentes na música e no cenário onde a praticamos. Novos grupos revelando novos caminhos. Outras atitudes. Outros ângulos sonoros. A música em si será como sempre foi; feia ou bonita dependendo de quem a ouve. Mas a maneira de ser dessa tribo que está ocupando espaços, traz um ar novo, animador e importante: conteúdo com a qualidade alguns pontos acima” – quem descreve este cenário é Renato Teixeira, ícone vivo da música de raiz brasileira, que acaba de encontrar-se com a banda de rua Mustache e os Apaches para um encontro ao redor de uma de suas canções, “Rio Abaixo”.

A conexão entre as duas gerações foi feita pela filha de Renato, Antônia, amiga pessoal do grupo. “‘Rio Abaixo’ é uma das músicas do Renato que a gente mais gosta”, explica o vocalista da banda, Pedro Pastoriz. “E chegamos nela em uma conversa muito rápida. A princípio é uma música que o Renato não toca muito nos shows, é de um repertório antigo e a composição é de Geraldo Roca e Paulo Simões.”

Renato continua: “A música por ser invisível e inodora, repousa na gravidade da terra eternamente. As clássicas, por exemplo, continuam soando mais belas a cada dia enquanto gerações inteiras vão passando por ela. Reinventar, renovar-se, ampliar horizontes, qualificar a vida dos humanos, são missões musicais. Ouvir música, qualquer uma, é praticar auto ajuda. Os tempos mudam o comportamento conforme a humanidade evolui e é dentro dessa lógica que a arte se orienta para também avançar. Sem ter que ser obrigatoriamente um caleidoscópio de possibilidades nunca vistas de sonoridades inimagináveis, a arte musical jamais se comprometeu com qualquer tendência para ser eficiente. Basta ser do agrado de todos e o assunto estará resolvido. Uma banda como Mustache e os Apaches, a canção do Roca e do Simões, aquele arranjo certeiro que o Sergio Mineiro criou lá nos porões dos anos oitenta mais a vivencia que as canções adquirem com o passar dos anos, tudo isso somado, possibilitou que descontraidamente a gente revisitasse a canção numa manha sol na serra da Cantareira e nos divertíssemos muito com ela.”

“‘Rio Abaixo’ tem lá uma certa ironia, como quase tudo que passa pelo Roca. Tem também um que de deboche que o Simões gosta de camuflar nos seus dizeres. Quando ouvi pela primeira vez, achei que Elis iria gostar; marquei uma visita do Roca na casa dela. Elis ouviu mas não se ligou; então eu gravei no meu disco Garapa. Ficou lindo. Espero que esse numero musical venha agora trazer uma gostosa reflexão filosófica sobre a vida vivida nesse pais tropical onde ‘Rio Abaixo’ é o nome de uma determinada afinação da viola e serve também de dizer popular, quando a gente vê a viola em cacos e nao pode mais deter a evolução dos fatos”, empolga-se o velho compositor.

“Renato é uma figura engraçada, cheio de histórias”, continua Pastoriz. “Ele tava muito curioso pra saber como funcionava essa coisa nossa de tocar na rua, enfim, passamos um dia muito gostoso entre amigos. No final do dia gravamos a música num por do sol incrível com todas aquelas araras, micos e tucanos da Cantareira. Espero que a gente toque juntos algum dia ao vivo, seria legal no futuro gravar mais algumas coisas, veremos!” O próprio Renato vai além e já traça planos: “Pensei inclusive em regravar um dos meus primeiros discos, o “Paisagem” com os Mustaches.”

donletts-inedit

O principal articulador da conexão entre o reggae e o punk, o lendário documentarista Don Letts esteve em São Paulo participando do In-Edit Brasil e eu pude conversar com ele para o meu blog no UOL, veja lá.

“Eu não tinha a intenção de registrar, de documentar, de fazer história”, me explica Don Letts em entrevista por telefone logo que chegou ao Brasil. “Eu simplesmente saía filmando, tinha uma necessidade de fazer aquilo”. Aquele ímpeto que ainda motiva o cineasta o colocou no centro do punk rock inglês – e da edição 2017 do festival de documentários de música, o já consagrado In-Edit, que acontece neste e no próximo fim de semana.

“Você sabe que este ano completamos os quarenta anos do punk inglês e fiz esse documentário Two Sevens Clash – Dread Meets Punk Rockers (que está sendo exibido na programação do festival) para reforçar que estávamos vivendo aquela cena, mais do que simplesmente a registrando”, me explica o cineasta, que firmou-se como um dos principais narradores daquela cena transformadora pelo simples fato de ter acesso às ferramentas de registro. Ele me conta que o contato com uma câmera de vídeo, muito menos sofisticada que as poderosas câmeras digitais ou mesmo que os aplicativos de fotos de nossos celulares hoje em dia, foi o suficiente para que ele começasse a filmar tudo que acontecia ao seu redor.

Letts estabeleceu-se para o público em geral a partir de seu documentário The Punk Rock Movie, de 1978, em que consolidava sua amizade com a banda The Clash em um dos registros mais intensos do movimento faça-você-mesmo que abalou as estruturas do rock tradicional e da indústria fonográfica. Foi o punk que abriu o caminho para o mercado independente que hoje espalha-se por todo o planeta, principalmente pela ramificação da internet e que destruiu as fundações de um rock que estava aos poucos se transformando em uma caricatura de sua fagulha revolucionária nas décadas anteriores.

Mas Letts é um dos principais personagens da cena pop inglesa não apenas por seu papel como cineasta e diretor de clipes (dirigiu trabalhos de bandas como Psychedelic Furs, Pretenders, Elvis Costello, Eddy Grant, Black Grape e Gap Band, além do Clash) e documentários. Filho de jamaicanos, ele foi um dos primeiros ingleses a entender o caráter revolucionário da música que vinha da terra de seus pais e aos poucos tomava conta do planeta. E ele foi instrumental ao traçar a inusitada conexão entre o punk e o reggae.

“Deixa eu te contar minha história com Bob Marley. Quando o conheci, em 1975, ele achava toda essa história de rock e de punk rock uma bobagem, coisa de moleques, que não ia dar em nada. Mas eu expliquei a motivação daquelas bandas, que eles não eram ricos de classe média e tinham muito a ver com o que acontecia na Jamaica. Ele prestou atenção e passou a ver as coisas de outra forma”. Pouco depois o Clash gravou o hit jamaicano “Police and Thieves” como se fosse um punk rock e semanas depois Bob Marley lançava um single cujo lado B não apenas se chamava “Punky Reggae Party”, como listava nominalmente bandas como o Clash, o Jam, o Damned e até o Dr. Feelgood, reforçando que “no boring old farts” (nenhum velho chato) estaria lá. Menciono que os 40 anos do punk acontecem junto com os 40 anos de Exodus, o primeiro disco de Bob Marley amplamente político, e ele concorda “não foi por acaso, tudo estava conectado.”

O cineasta Don Letts durante um debate nesta sexta-feira na Galeria Olido (divulgação: In-Edit)

O cineasta Don Letts durante um debate nesta sexta-feira na Galeria Olido (divulgação: In-Edit)

Don Letts é a atração da mostra 40 Anos do Punk, que acontece dentro da nona edição do In-Edit Brasil, não apenas com a exibição de seus filmes mas com conversas com o diretor. Uma delas aconteceu na sexta-feira, na Galeria Olido, e a outra acontece neste sábado, às 18h, na Cinemateca. Nesta oportunidade, Letts conversa com o ex-VJ da MTV Gastão Moreira, ele mesmo autor de um documentário sobre o punk brasileiro, Botinada!, também exibido na mostra. Após o debate, às 19h, haverá a exibição do filme Two Sevens Clash de Don Letts, seguido de uma discotecagem do diretor, que também tem uma carreira musical: após o fim do Clash, foi um dos integrantes da banda Big Audio Dynamite, formada pelo ex-guitarrista do grupo inglês, Mick Jones.

Letts, no entanto, não é otimista em relação à onipresença de câmeras em nossa sociedade digital. Ele diz que as pessoas estão apenas preocupadas em registrar a si mesmas, sem dar contexto ou tentar ampliar sua área de atuação. “Acho importante lembrar que tudo que filmamos e colocamos na internet ocupa um espaço ‘na nuvem’. Então aconselho sempre a pensar se aquilo que você está publicando vale mesmo à pena ser publicado, estar ocupando aquele espaço”, ele me conta, antes de lembrar que há sim novos documentaristas que sabem valorizar o instrumento que têm em mãos. Mas reforça que é preciso ter foco.

A programação do In-Edit Brasil, que começou nesta quarta-feira e vai até o dia 25 de junho, pode ser vista no site oficial do evento.