
O que Juliana Perdigão está fazendo no Centro da Terra em sua temporada Em Caráter Experimental é de uma riqueza ímpar na cena musical contemporânea – e ela mostra que é uma artista maiúscula ao transcender a criação musical para além da música. Ao reduzir suas parcerias em duplas nesta leva de apresentações, ela primeiro transformou o teatro em uma pista de dança ao lado de Dudu Tsuda e depois transcendeu imagem e sim em um mesmo vetor criativo com a artista visual Ciça Lucchesi. Nesta segunda-feira, ela descortinou outra fronteira, desta vez estritamente musical, quando chamou outro conterrâneo mineiro – o violonista e cientista analógico Gustavo Infante, que hoje reside em Campinas – para desbravar um território emocional descoberto num pacote de guardanapos! Antes de começar a viagem, Juper explicou que ao comprar a resma de papel num mercado na Liberdade, reparou que havia, na estampa em alto relevo de cada guardanapo, um texto em ideogramas que fez sua curiosidade acionar o tradutor do Google, que revelou uma série de poemas milenares chineses da época da dinastia Sung. Daí o título da apresentação: Sung Songs, que brinca inclusive com as duas formas que a dinastia é apresentada em nosso alfabeto. Pilotando gravadores de fita cassete em que dlsparavam loops físicos, os dois pintaram uma longa onda ambient com texturas pré-gravadas, mescladas com os sopros de Juper e o violão de Gustavo, além do canto mineiro dos dois, melódico e melancólico, descrevendo situações corriqueiras e paisagens mentais que transportaram o público a uma dimensão particular, descoberta num encontro de um guardanapo com um tradutor eletrônico – e colorida pela intensidade e delicadeza luzes e vídeos derretidos por Gabriela Luiza. Uma noite mágica.
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O senhor Fernando Sanches avisa que acaba de produzir mais uma obra dos Hurtmold. A veterana e venerável banda paulistana de pós-rock tem a incumbência de começar 2027 bem com o lançamento de seu primeiro disco de inéditas desde Curado, que dividiu com o formidável percussionista mineiro Paulo Santos, do grupo Uakti, há dez anos.

Marque na agenda: a próxima Agoritmo acontece no dia 16 de outubro no Porta, mais uma vez com entrada gratuita e vamos dançar… 2026!

Conferi há pouco tempo o último show do primeiro disco do Vera Fischer Era Clubber em São Paulo e nesta quinta vi o primeiro show do segundo disco do quarteto carioca, Veras II. E ao comparar discos e shows é nítida a evolução nos dois casos: se em disco, soam ainda mais pesados e dance ao mesmo tempo que no primeiro disco, no show a banda sobe tudo para este novo patamar. E no show com luzes precisas de Mau Schramm, que transformou o Sesc Avenida Paulista do início da noite numa balada de madrugada que encarna o aura da banda. No palco, as quatro carregam cada uma um elemento de sua sonoridade: a baixista Malu ergue o peso e o groove quadrado do pós-punk, a maestra eletrônica Pek0 traz os beats eletrônicos da pista de dança, os teclados de Vickluz flertam com a darkwave, o rock gótico e o tecnopop dos anos 80, enquanto Crystal é o rosto – e corpo e o carisma – desta entidade noturna não-binária, transformando as canções numa performance física em que seu rosto transfigura-se em diferentes emoções, às vezes paradoxais, em expressões faciais – ela carrega êxtase, pânico, torpor, loucura, ressaca, segredos, cansaço, alívio, gozo e delírio como se vivesse todas estas sensações ao mesmo tempo. Seu corpo, por sua vez, induz todos ao transe dance que contagiou o público que esgotou os ingressos da noite – e vestida com a camisa vermelha de Lula Presidente, ainda fez várias menções ao momento histórico que vivemos. Além de tocar todas as músicas do disco novo pela primeira vez ao vivo, a banda ainda contou com participações especialíssimas, quando trouxe primeiro Kiko Dinucci para dividir “Amor de Anjo” (e a guitarra de Kiko, ainda mais afiada por motivos de Medusa, abriu uma outra camada, entre a no wave e o noise, na sonoridade da banda), depois o produtor dos dois discos Augusto Feres subiu para tocar guitarra em “Vesúvio” e encerrando a noite com a presença da dupla Katy da Voz e as Abusadas, quando Katy e Palladino Proibida subiram no palco para transbordar ainda mais o clima quente da noite – e Crystal ficou só de biquíni na música escolhida para o encerramento, “Calcinha Gozada”. Mas o povo pediu bis e elas voltaram para o palco com os quatro convivas da noite, para uma versão barra pesadíssima da música-tema do grupo. Showzão.
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Uma das bandas mais importantes do pós-punk acaba de marcar mais duas passagens pelo Brasil no ano que vem, quando o Gang of Four reaparece por aqui para tocar em São Paulo (dia 13 de março, no Cine Joia em São Paulo) e dia 14 (no Cine Lido, em Curitiba). É a quarta vez que o grupo vem ao país (todas após sua volta em 2004, quando o grupo ressurgiu com a mesma formação depois do fim oficial em 1983): da primeira vez, 2006, dividiu uma improvável turnê com os Cardigans, já veio sem o baterista original, Hugo Burnham, substituído por Mark Heaney. A outra vez, em 2011, tocaram de graça no Parque do Ipiranga no festival da Cultura Inglesa, em uma das edições em que fui curador do evento. Desta vez, só o guitarrista Andy Gill e o vocalista Jon King faziam parte da formação original. A última vinda do grupo, em 2018, quando tocaram no Sesc Pompeia, já marca a fase dos anos 2010 do grupo, quando Gill seguiu tocando o grupo como único integrante original. Quase dois anos após a morte de Gill, no início de 2020, King e Burnham retomaram o grupo com o slint David Pajo na guitarra e a baixista Sara Lee, que entrou no lugar do baixista original Dave Allen ainda na primeira fase da banda, em 1981. Mas depois de alguns shows em 2021, voltaram à atividade, inclusive gravando músicas novas, em 2025, com Gail Greenwood (que tocava no Belly e no L7) no baixo e Ted Leo (líder dos Ted Leo & The Pharmacists) na guitarra. É esta formação que passa por aqui no ano que vem, numa turnê pela América do Sul que ainda tem passagens por Buenos Aires (dia 16, no Uniclub) e Santiago (18, no Metrónomo). Os ingressos já estão à venda. Continue

Depois de transformar o palco do Centro da Terra em pista de dança, Juliana Perdigão misturou música e imagem com sua comadre Ciça Lucchesi, com quem já fez várias apresentações. Mas nesta terça-feira, segunda noite de sua temporada Em Caráter Experimental, elas ressuscitaram o projeto Versom, em que ambas mesclam suas disciplinas específicas num espetáculo sinestésico de altíssimo nível. Mais do que simplesmente improvisar conjuntamente, elas apresentaram módulos de som e imagem que funcionavam, ao mesmo tempo, como clipe e canção – muitas vezes distanciando-se do formato tradicional desta última para trabalhar novas criações em durações de tempo específica, mostrando possibilidades diferentes para o casamento da música com o cinema. A imagem era projetada na tela de cinema do teatro, enquanto as duas, às vistas do público na coxia da primeira fila, iam trabalhando com seus instrumentos o que víamos na tela, que passava de fotos de São Paulo a abstrações geométricas. O ponto alto da apresentação foi quando Juper subiu ao palco para tocar “Crack pra Ninar” de Kiko Dinucci seu clarinete em frente à tela, enquanto Ciça fazia um holofote às avessas com a imagem, antes de entrar no poema “Só Com Muito Vento” de Bruna Beber e outras duas instrumentais próprias que acabaram de levar todos para uma outra dimensão. Foi incrível.
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A transição de Rodrigo Carneiro para a literatura não o tirou da música. Por mais que o eterno vocalista dos Mickey Junkies esteja mais exercendo sua palavra – seja impressa ou falado – no mundo das letras, seu vínculo com a música é perene – e foi assim que o velho camarada Paulo Beto aproximou-se para verter um livro em disco, quando, juntos, transformaram o segundo livro de Carneiro, o pandêmico Afetos Sísmicos, em um disco com o mesmo nome, que será lançado no próximo dia 12 e surge no palco dois dias depois, quando os dois o apresentam gratuitamente no Sesc 24 de Maio a partir das 19h. E Carneiro antecipa um dos poemas musicados em forma de clipe – “Da Criação de Monstros (De Novo o Amor”) – em primeira mão para o Trabalho Sujo. “Desde o lançamento, em 2022, o livro só me trouxe alegria e o deleite se renova agora com o desdobramento dele em um álbum”, conta o poeta-vocalista. “E, que beleza, na companhia do meu camarada de tempos imemoriais, Paulo Beto, um sujeito cuja obra e a persona sempre me impressionaram.” PB explica porque escolheram esta música para começar a apresentar o disco: “Ela tem um veneno, um perigo”. E Carneiro arremata: “Se deixasse por mim, algum tema mais lacrimoso seria o eleito”, resume, antes de rir de si mesmo, “gótico suave, né?”
Assista abaixo: Continue

E no meio disso tudo o Lollapalooza Brasil acaba de anunciar suas datas pra 2027, quando o festival será realizado nos dias 19, 20 e 21 de março. Entre os principais nomes destacam-se a já esperada vinda da Charli XCX, Queens of the Stone Age e Fontains D.C. lançando discos novos e um inesperado Prodigy, mas tem um monte de filé nas letras pequenas, do aguardado show do Geese (!!) ao Avalanches (!!), passando pelo Mike D (!!!), Angine de Poitrine (!!), Ninajirachi (!!), Four Tet (!!), Adéla, Slayyyter, Tomora, Raye, Die Spitz (!!), Boys Noize e a Violet Grohl. Do lado brasileiro, o festival repete a acertada missão deste ano, ao trazer nomes diretamente do underground para seus palcos, como Rakta, Deafkids, Real No Ficción, Brime, Paira, Joaquim, Bebé, Zepelim e o Sopro do Cão e Psilosamples, além de nomes já estabelecidos como Buhr, Criolo, Amaro e Dino, Rodrigo Amarante e Nação Zumbi. Mandaram bem – e os ingressos já estão à venda,.

É muito bom ver como um estilo musical criado a partir da negação de uma revolução estética conseguiu criar referências sonoras profundas que atravessaram décadas erigindo a fundação de um novo gênero musical. O pós-punk, que surgiu a partir da reinvenção do punk do final dos anos 70 por artistas ingleses tão diferentes quanto Joy Division, Fall, Cure e Public Image Ltd., entre outros, segue firme e intacto em artistas como a banda paulistana Inês é Morta, que apresentou seu próximo disco, Sala de Espelhos, em primeira mão no Centro da Terra nesta terça-feira, trazendo ecos de um futuro próximo. Todos os preceitos musicais básicos do gênero encarnam-se perfeitamente na atmosfera musical conduzida pelo pulso firme do baterista Danilo Grilo, o baixo cavalgado constante de Lucas Jimenez, a guitarra ruidosa, rítmica e melancólica de Daniel Lima e a voz grave e soturna, além da presença de palco cativante de Camila Kohn, que ecoam não apenas o clima apocalíptico oitentista das bandas originais do gênero como de seus pares contemporâneos paulistas, como Mercenárias, Voluntários da Pátria, Fellini, Akira S & As Garotas Que Erraram e Smack, com letras que combinam com esses dias pesados que atravessamos em 2026. A banda encerrou a noite de músicas inéditas com “Dias de um Futuro Esquecido”, primeiro single do novo trabalho, que estreia na próxima sexta-feira e abre uma sequência de novas canções que, até o fim do ano, pavimentam o caminho para o novo disco da banda, que deve ser lançado ainda no mês de janeiro. A pedidos, voltaram prum bis não combinado com o hit “Noite Vazia”, uma das faixas de seu EP Abismo, de 2019.
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Na primeira terça-feira de outubro, a banda pós-punk paulistana Inês é Morta estreia no palco do Centro da Terra mostrando músicas do trabalho que vêm finalizando. Batizando a apresentação com o mesmo nome deste futuro disco, Sala de Espelhos traz o grupo refletindo sobre a sensação de presente contínuo que atravessa nossos dias, ao mesmo tempo em que cantam sobre a desconexão entre pessoas, natureza e contexto social. Para esta apresentação, o grupo formado por Camila Kohn (voz), Daniel Lima (guitarra), Lucas Jimenez (baixo) e Danilo Grilo (bateria) conta com a participação de Fidelis Costa (teclados e guitarra base). O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.
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