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Loki

Ainda tive disposição pra ir no meu querido Centro Cultural São Paulo pegar um gostinho da Virada Cultural, quando a monumental Lydia Lunch apresentou-se na Sala Adoniran Barbosa. “Deus foi o primeiro polícia!”, começou a noite cuspindo sua tradicional verborragia violenta, confrontando os senhores da guerra, governos, o sistema, o patriarcado e o capitalismo em fluxos de consciência transformados em textos, que guardava em um envelope que deixava junto a uma poltrona. A cada série de golpes de palavras, ela voltava para esta poltrona e folheava seu próximo ataque, enquanto o baixista Tim Dahl e o saxofonista Matt Nelson, usando muitos pedais e microfonia, adensavam o palco para cada novo esporro da matriarca do spoken-word do punk nova-iorquino. Enquanto ela falava, todos os olhos estavam grudados nela, silêncio solene que só se rompia quando ela encerrava o parágrafo da vez, voltando-se para sua poltrona. Um grito de alerta, um dedo na cara e um sermão pelo clima de fim de mundo que vivemos – todos saíram eletrizados.

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C6Fest mais uma vez confirma sua dianteira como melhor festival em São Paulo. Finda sua quarta e mais ousada edição no fim de semana, o evento quase tirou os pés do indie rock e do neo soul que pautaram as edições anteriores, reforçando seu compromisso com a contemporaneidade do pop nos quatro palcos. Não fui nos shows da quinta e sexta e temi, como muitos, que o fim de semana fosse consagrado com uma tempestade daquelas, o que felizmente só comprometeu poucos shows (especialmente no início do sábado). Perdi Horsegirl e Amarae, mas cheguei a tempo de ver o fanfarrão do Baxter Dury mostrar sua persona sobre a base pós-punk dançante, começando bem o festival. Depois emendei com o melhor show da noite, quando meus favoritos Wolf Alice – donos do melhor disco do ano passado, The Clearing – mostraram que ainda é possível fazer rock clássico no século 21 sem soar datado ou referencial – e sua vocalista, a gigantesca Ellie Rowsell, é uma estrela perfeita deste gênero. O BaianaSystem mostrou porque é uma das melhores bandas do Brasil e foi quem soube melhor usar o telão nas costas do Auditório Ibirapuera em todo o evento, culminando com uma fala fulminante da atriz Alice Carvalho. O vocalista do National, Matt Beringer, foi comendo pelas beiradas e no meio do show se jogou no meio da plateia e foi até o fundo do público, cantando com o microfone sem fio, para encerrar com uma versão rock de “Blue Monday” do New Order. O Xx quase fechou o sábado com um show maravilhoso. Sem inéditas e vários números solo de seus integrantes, afagaram os fãs com músicas de seus três discos, cantadas às vezes em coro, outras ouvidas em silêncio (se você estivesse perto do palco). Mas o melhor momento do show foi quando o produtor Jamie Xx pegou pesado no som ao soltar seus dois números solo, transformando o palco a céu aberto numa pista de dança. A violoncelista guatemalteca Mabe Fratti fechou o sábado inaugurando o palco Lab no Auditório Ibirapuera num show aquém do resto da programação, com alguma ousadia, mas por vezes monótono – e pouco público. Mas no domingo as coisas seriam bem diferentes…

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Pelo jeito é a regra do novo jogo de Charli XCX: depois de lançar um novo single, lance um lado B em seguida, de preferência completamente antagônico ao lado A. Foi assim com a singela “I Keep Thinking About You Every Single Day and Night”, lado B da afrontosa “Rock Music”, quando tornou público sua segunda conta no Instagram justamente para mostrar esses segundos tempos (chamada, didaticamente, de @b.sides). E agora depois de “SS26”, ela vem com o punk-pop “Playboy Bunny”, roquinho dançante ainda mais perto do gênero que batizava o single anterior. Ela vai só deixando as pistas…

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Duas viagens eletrônicas nesta quinta-feira no Inferninho Trabalho Sujo no Picles. A primeira começou com a dupla Pão de Ló, formada pela dupla de cientistas malucos da Tubo de Ensaio Lorenzo Zelada e Lorena Wolthers. Lorenzo deixa a guitarra de lado para dedicar-se apenas aos synths que monta, enquanto Lorena derrama-se pelos teclados e synths, além de tocar uma guitarra com baquetas e soltar alguns vocais esporádicos. O clima psicodélico e eletrônico vem de bases techno e electro que logo são convertidas em loops hipnóticos em que efeitos sonoros deslizam para deleite da noite. Nesta sua segunda apresentação ao vivo, a dupla ainda contou com a participação de dois cúmplices: Gibaa, que tocou um theremin fabricado em casa acoplado a alguns pedais de efeitos, e Gabriel Golfetti, ex-Stratus Luna, que assumiu o baixo e efeitos para encorpar ainda mais a loucura da dupla. Trip pesada!

Depois foi a vez da também recém-formada Canaflash FX, formada por Charlie Tixier e Lello Bezerra, que funde os beats do primeiro, tocados numa MPC em chamas, e os riffs em loop do segundo, que, por mais que caiam nas raias do improviso livre, mantém-se preso ao ritmo ditado pelo beatmaker, que puxa mais pra pista de dança do que para a abstração sonora, deixando tudo muito aterrado e sacolejante. Enquanto Charles esbalda-se enfurecidamente (mas sempre com um sorriso no rosto e sem parar de dançar) na bateria eletrônica, Lello vai abrindo frases melódicas que se repetem em outras frases, abrindo parênteses musicais com outras melodias, que ecoam tanto as guitarras do Mali quanto levadas caribenhas e nordestinas, que vão ao delírio psicodélico à medida em que vai cortando o tempo e acelerando tudo com o ritmo – tocando a guitarra com as mãos e com os pés, que não param de acionar os pedais. O mais legal é ver os dois claramente se divertindo com essa parceria recém-descoberta. Delírio!

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Na quinta, dia 21, o Picles vai fritar com uma edição eletrônica do @inferninhotrabalhosujo, quando reunimos duas duplas que se apresentam pela primeira vez na festa. A noite começa com o duo Pão de Ló, experimento de fritação synth formado por dois lokis da Tubo de Ensaio, Lorenzo Zelada e Lorena Wolthers, que mergulham nos sons sintéticos pra todo mundo viajar bonito. Depois é a vez de outro experimento elétrico, mas formato por beats, efeitos e guitarra, quando o guitar hero Lello Bezerra une forças com o produtor Charles Tixier, que fazem todos dançar com seu recém-formado Canaflash FX, em que grooves latinos sintéticos misturam-se com riffs em loop e não deixam ninguém parado! E depois dos dois é a vez de eu e a Fran seguirmos com a pista de dança até altas madrugadas. Lembrando que quem pegar o ingresso online e chegar antes das 21h30 não paga pra entrar! Vamos?

Eis “SS26”, mais uma página do novo capítulo que Charli XCX está escrevendo depois de fechar sua fase Brat no ano passado e misturar o ocaso desta com seu entreato cinéfilo (em que esteve envolvida na produção – e em diferentes papéis – de SETE filmes na virada do ano passado para esse). No novo single ela mantém a textura rock que explorou no anterior, “Rock Music”, mas sem os beats ou os efeitos que vinham no refrão desta. A textura de guitarras e o riff roqueiro seguem presente, mas o ritmo é lento (beats quase discretos) e a canção é quase uma balada pop num contexto rock. E as referências à moda são extramusicais – ela desfila na passarela do clipe depois de abençoada pela ex-editora-chefe da Vogue Paris Carine Roifield como se estivesse numa semana da moda e embora o título aluda a uma referência deste universo (“primavera-verão 2026”), a faixa não fala sobre moda como a anterior falava sobre rock. Aos poucos ela aplaina seu discurso para tentar pegar na veia da contemporaneidade deste ano e em breve deve soltar mais pistas do álbum que está preparando na encolha.

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Desde que A Tábua de Esmeraldas foi redescoberto nos anos 90 há um clamor por uma versão ao vivo do disco, algo que seu autor, o imbatível Jorge Ben Jor, sempre achou desnecessário. Seu Acústico MTV, lançado há quase um quarto de século, chegou a bater na trave, como outros projetos que pediam que ele voltasse ao violão ou pelo menos ao repertório daquele disco e parece que o mais perto que conseguiram chegar foi anunciado nesta quinta-feira, quando foi revelado o projeto Alquimia Popular Brasileira, que vai trazer o mestre em um show inédito no estádio do Palmeiras no dia 17 de outubro. Não se sabe se será um show único ou se outras datas poderão ser anunciadas. Só dá pra saber que os ingressos começam a ser vendidos entre os dias 25 e 27 de maio. E por mais que tenha “alquimia” no título e que a campanha toque músicas do clássico disco de 1974, na imagem do cartaz Jorge aparece como sempre com sua guitarra elétrica. Em todo caso, imperdível.

Ao cogitar seu quinto disco solo, Paulo Miklos resolveu atacar de intérprete e transformou a seleção das canções do novo álbum em uma “playlist afetiva” – daí o título Coisas da Vida, pinçado da conhecida faixa de Rita Lee (uma das escolhidas), do álbum que lança nesta sexta-feira. “As escolhas são muito pessoais e elas vêm de diferentes experiências de vida – e de momentos e épocas diferentes também”, explica o eterno titã. “Incluí a primeira música que eu aprendi no violão, a música que cantava no bar Café Teatro A Pulga antes dos Titãs, a música que eu sofri o luto pela perda de um ente querido e assim por diante…”

Para instigar o lançamento, ele liberou o clipe que fez para “Mestre Jonas”, épico prog-bíblico de Sá,Rodrix & Guarabyra em primeira mão para o Trabalho Sujo. “Sinto uma identificação muito grande com ‘Mestre Jonas’”, ele explica falando da escolha da canção. “Estive, e ainda estou, num processo de reconstrução da minha vida e a baleia é aqui o meu apartamento, novo endereço, pra onde, aos poucos, eu trouxe tudo o que é meu. Agora está mais parecido com um lar. Mas não pretendo ficar no isolamento como o Jonas, quero sim, levar pra o mundo esse novo projeto que está lindo demais!”

“Além disso, ‘Mestre Jonas’ sempre me impressionou muito”, continua falando sobre a faixa que abre o disco. “A fúria do órgão e do piano do Zé Rodrix é contagiante! Adoro Sá, Rodrix & Guarabyra! Nunca vi show deles ao vivo, mas fez parte do meu imaginário na adolescência.” Assista ao clipe abaixo, além de ver a capa e as outras músicas que escolheu para seu novo repertório: Continue

Dona de um dos melhores discos do ano passado (a colisão de música eletrônica com hiperpop de I Love My Computer), a produtora australiana Ninajirachi confirmou em um papo em seu canal no Discord que está vindo tocar no Brasil. Não há detalhes de locais e datas, mas estamos esperando…

Camadas e camadas

Entre me levantar da poltrona em que vejo a apresentação até cumprimentar os artistas em seguida (algo que leva entre cinco e dez segundos), ouvi três vezes comentários que usavam a palavra “camadas” – sempre no plural – logo após a terceira noite da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. vem fazendo no Centro da Terra, em que receberam o produtor de Guarulhos MNTH e o conterrâneo carioca Lcuas Pires. Só a configuração de palco já foi radicalmente diferente das noites anteriores, em que seus respectivos convidados (Kiko Dinucci e Deafkids) trouxeram guitarras e incitavam a percussão. Esta última até esteve presente na noite, embora tocada com apenas um atabaque e disparadores mecânicos de beats. Em sua terceira segunda-feira, a temporada Acontecimento mergulhou na eletrônica, distorcendo timbres, letras, sequências e até transmissões de rádio para criar justamente as tais camadas mencionadas em voz alta por vários dos presentes após a noite, criando uma trama ambient de noise que abriu uma outra dimensão na textura sonora do grupo. Hipnose de fim de mundo.

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