Em mais uma colaboração para a Trip – ou, melhor dizendo, para sua revista-irmã TPM -, conversei com a rapper curitibana Karol Conká sobre o primeiro sinal de vida de seu aguardado segundo álbum, Ambulante, quando, sexta que vem, ela lança sua versão para a música “Cabeça de Nego”, do Instituto com o Sabotage, produzida pelos próprios Tejo e Rica do Instituto ao lado do produtor do novo disco de Karol, Péricles “Boss in Drama” Martins. Um trecho da conversa:
Regravar uma música do Sabotage no Brasil de 2018 tem um teor político. Qual seu papel nessa história?
É mostrar força pra quem pensa em sucumbir. As mensagens que recebo diariamente são muito tristes. Depois da morte da Marielle Franco muita gente está sem esperança. Conversei com a MC Carol, que foi candidata à vereadora e ela estava muito em choque, até fez uma música sobre isso. A gente se perguntou o que podia fazer. Chorar só escondido. Não dá pra ficar mostrando abalo, não é isso que a Marielle queria. É força, luta. É uma perda muito grande, a dor é imensa, fico arrasada, mas a gente tem milhares de pessoas que nos usam como referência. Não somos protagonistas à toa. Agora é a hora da gente juntar mais força ainda, focar realmente na solução. So-lu-ção. Mas como fazer isso? Mantendo contato com pessoas que têm essa mesma disposição, que estão quase sucumbindo. Como artista, também fico numa posição de risco, por ser porta-voz. A morte de Marielle foi tipo um aviso, foi um cala-boca pra todo mundo, “parem de encher o nosso saco”. Nunca me envolvi com política, não falo sobre isso, mas as pessoas sabem qual é a minha posição, tá escancarado na minha cara.
A íntegra da entrevista você lê no site da TPM.
Guizado está prestes a finalizar seu novo álbum e começa a mostrar as novidades a partir desta quinta-feira, às 21h, no Centro Cultural São Paulo, reunindo uma banda de cobras (Regis Damasceno na guitarra, Zé Ruivo nos teclados, Meno Del Picchia no baixo e Richard Ribeiro na bateria), além de contar com a presença ilustre do mago Negro Leo (mais informações aqui). Vamos lá?
“Não estamos indo atrás do ocultismo, nós somos ocultos, frequentadores obscuros da música”, respondem em conjunto Guilherme Pacola (bateria, efeitos e voz) e Vinícius “Cebola” Patrial (baixo, voz e efeitos), que juntos são o lendário duo de improvisação noise paulistano Vermes do Limbo. Seu novo disco, O Sol Mais Escuro, lançado nesta segunda-feira em primeira mão no Trabalho Sujo, foi inspirado na enciclopédia ocultista Ciências Proibidas, lançada nos anos 80 pela editora Século Futuro em bancas de jornais, que trazia títulos como “Os Símbolos Secretos: Simbologia e Interpretação”, “Magia: Os Poderes Secretos”, “Astrologia: O Código das Estrelas”, “Iniciação ao Espiritismo”, “Morte e Reencarnação”, “Grandes Mistérios de Nosso Tempo”, entre outros.
A inspiração veio do lixo. “Achamos na rua alguns volumes da enciclopédia Ciências Proibidas e pegamos para fazer colagens com as ilustrações”, explicam. “Nos livros haviam muitas frases legais principalmente sobre viagens transcendentais, espaço-tempo, coisas do nosso cosmos e da nossa mente. Na real essa enciclopédia leva ‘proibidas’ no nome porque a religião dominante e a sociedade condenavam essas praticas e ainda condenam essas formas não tradicionais de entender coisas da natureza humana que ainda são tabus. A partir daí resolvemos construir um disco baseado nisso.” O resultado é um disco mais tenso e lento que o ruído tradicional dos Vermes, com algumas doses pesadas de bad vibe.
A dupla acha que a escolha quase aleatória reflete a fase deprimente que vivemos no país. “Esse nome ocultismo é puro preconceito com varias formas não convencionais de se entender a mente humana e sua espiritualidade, foi uma coincidência que veio a calhar nesse período obscuro em que vivemos, onde o sol mais escuro ainda não deixou de brilhar. Queremos luz, raio, estrela e luar… Para evitar que arte se transforme em ciência proibida”, explicam, citando Wando.
A dupla contou com o guitarrista Fabio Fujita, que fazia parte da formação original da banda, e o disco foi gravado em três sessões. “Como se fossem EPs”, explicam. “Tudo foi criado do zero sem saber exatamente o que fazer até o momento do registro e depois fomos lapidando com overdubs. Tínhamos a vontade de tocar uma enciclopédia como inspiração de onde saíram as letras, nomes das músicas e o astral cósmico.” Além de Fujita, o disco também conta com as mãos de Adauto Mang na mixagem e Nick Smith na masterização. “Sempre que gravamos convidamos pessoas para participar, no dia a dia Vermes é baixo e batera, mas sempre cabe mais um, dois, três…”
Ao vivo as coisas podem fugir do riscado. “No show a ideia é tocar o disco na integra com alguns convidados especiais pro lance virar uma festa… E aí a coisa pode debandar pro improviso também.”
A segunda edição do ciclo Concreto, que reúne bandas clássicas e novas da cena punk e pós-punk de São Paulo no Centro Cultural São Paulo, recebe as presenças do mítico Olho Seco, uma das principais bandas da história do faça-você-mesmo paulistano, e do grupo Cankro, neste domingo, a partir das 18h (mais informações aqui).
Criador do rock gaúcho, produtor dos Raimundos e jurado na TV: Miranda foi fundamental na música brasileira, como eu descrevo neste tributo que escrevi para o UOL. Um trecho:
Jornalista ativo, detectava as pautas ao mesmo tempo em que as fazia acontecer de fato, e assim mudou a cara da música brasileira. Como o próprio Carlos Imperial ou Nelson Motta anos depois, Miranda está umbilicalmente envolvido com a cena de seu tempo e inventou esse pop bizarro e torto que hoje sobrevive à margem da música mais despudoradamente comercial produzida no Brasil.
Tive a felicidade de ser seu amigo e conversei com ele nesta quinta-feira mesmo, quando ele me ligou para falar da péssima fase de saúde que, acreditava, estava saindo. Passamos uma hora no telefone, quando ele me falou do que estava ouvindo (amou a música que a MC Carol lançou homenageando a vereadora assassinada Marielle Franco) e dos planos para após sair daquela má fase. Quase desabei quando, no meio de um show, fiquei sabendo que ele havia morrido, subitamente, entre seus familiares.
É um dos nomes mais importantes da música brasileira dos últimos trinta anos e uma das cabeças mais abertas – e gentis – que pude conhecer. Além de um exímio gozador e de gostar de ver o circo pegar fogo. Fui ao seu velório e ver seu corpo ali sem vida inevitavelmente mexeu comigo, mas logo pensei em sua vozinha contorcida fazendo troça comigo: “Tira um selfie agora comigo, Matias”. Chorei e sorri. Sorri ainda mais ao sair da cerimônia e, na esquina, me deparar com o mesmo Maksoud que Miranda quase havia posto abaixo há um quarto de século. O dia estava claro, o sol forte e bateu uma alegria de saber que ele havia vivido a vida que quis. Sorte nossa.
Era uma longa conversa. Miranda ligava e continuava o papo como se não tivéssemos ficado horas, dias ou meses sem se falar. “Matias, velhinho, a gente tem que…” e disparava falando sobre o que estava lhe incomodando e seu plano para contornar esse incômodo, recheando o papo de causos, opiniões e notícias que lhe vinham à cabeça. Conheci Miranda quando ele havia acabado de dar o principal golpe de sua vida – sua transformação de jornalista em produtor musical, no começo dos anos 90, é um dos capítulos mais divertidos tanto do jornalismo quanto da indústria fonográfica brasileira. E apesar de ter se tornado um dos principais produtores do país, nunca deixei de vê-lo – e tratá-lo – como jornalista. Ele fazia pouco, ironizava, mas dava aquela olhadinha de baixo pra cima, apertando os olhos como se estivesse sorrindo, conformado com a vocação de uma das profissões que exerceu em seus longos e bem-vividos 56 anos.
Miranda sabia de tudo que lhe interessava – e sabia da importância da troca, da doação, do contato próximo, dos vínculos afetivos, dos relacionamentos pessoais. Era assim que as notícias e as novidades chegavam para ele: através de uma intensa rede de amigos e contatos, ele era um para-raio de maluquices e de boas vibrações, captando frequências invisíveis ao olho nu e as retransmitindo para o mundo. Sabia que o segredo da vida residia nisso – e o camuflava (ou o cobria) – de cultura, arte, música, cinema, programas de TV, revistas em quadrinhos, bonequinhos, equipamentos, camisas floridas e histórias inacreditáveis. Sorte nossa.
Ele não era só um olheiro de novos artistas, puxando para o holofote bizarrices, maravilhas, estranhezas e talentos inusitados, mas também um sábio dos bastidores, se apropriando de brechas, reinventando a norma, desafiando o consenso, desdenhando dinheiro. Tinha raros desafetos e, mesmo sobre esses, raramente gastava saliva ou neurônio. Preferia espalhar boas novas. Não que gostasse de tudo e não criticasse nada. Miranda guardava seu lado ferino e maldoso para os poucos amigos próximos, destilando um delicioso fel em histórias que rendiam gargalhadas altas. Dois dos milhares de ensinamentos que tive com ele se confundiam numa lógica bem particular: “bata no forte e ajude o fraco” era uma linha de raciocínio irmã de “elogie para todos, critique para poucos”, um credo que deveria ser seguido por todos em um país que não sabe a diferença entre opinião e fato, em que a maioria das pessoas confunde “é bom/é ruim” com “eu gosto/eu não gosto”.
Sabia que ele andava mal de saúde mas não tinha a noção da gravidade. “Vi que tu tinha me ligado, mas naquele dia não dava”, continuou a conversa na manhã desta quinta-feira, quando passamos mais de uma hora ao telefone. Passei-lhe um considerável sabão sobre o péssimo hábito que tinha de sumir quando estava mal e ele dissecou todo o processo que culminaria com sua morte súbita, no fim daquele mesmo dia. “Mas agora tá tudo bem, ontem pela primeira vez saí sozinho, fui cortar o cabelo, aparar a barba”, contava feliz, depois de falar que passou semanas sem conseguir levantar da cama ou mudar de posição no sofá. Tinha sido seu aniversário e ele comemorava a liberdade do dia anterior como um novo começo. “Agora passou a má fase, sempre passa”, disse, pouco antes de eu perguntar se não dava para a gente se encontrar logo – aquelas lorotas deliciosas e o abismo da morte abrindo-se à sua frente me deu uma saudade braba de vê-lo pessoalmente. “Espera passar a Páscoa, eu vou renascer com o Cristo”, ironizou.
Naquele instante, senti a vontade de agradecer-lhe por tudo, uma sensação que me veio logo após a morte de outro mestre e amigo, Kid Vinil. Quando Kid morreu no ano passado vi todos derramando lágrimas e louvando sua importância pelas redes sociais e fiquei pensando em como ele gostaria de ter sabido daquilo tudo. Lamentei não ter dito para ele pessoalmente isso e a sensação de fazer o mesmo com Miranda veio no instante em que ele falou sobre a possibilidade de morrer. Mas pensei que poderia causar uma má sensação, dar ideia de despedida (que eu nem cogitava, tamanha felicidade em sua voz), e deixei pra lá. Só não me arrependo mais porque pude dizer isso pessoalmente quando passei a conviver com ele diariamente no tempo em que trabalhei na Trama. Foi por essa época que Miranda deixou de ser um amigo e virou um irmão – foi por essa época em que a conversa deixou de ser pontual e virou um imenso diálogo, interminável, que não para de ecoar na minha cabeça e nunca terminará. Saíamos para banquetes que duravam horas, passeios de carro por todos os cantos de São Paulo e a pé por diversas cidades do Brasil, sempre puxando um disco, uma HQ, um filme e comentando como se tivesse descoberto a pólvora.
“Matias, velhinho, eu preciso escrever esse livro”, lamentou para mim inúmeras vezes, depois de lembrar, sempre às gargalhadas, de todas as merdas que fazia. “Escreve, porra!”, brigava. “Eu começo a escrever, paro pra ler e fico pensando: ‘mas esse cara se acha!’, se criticava. “Mas Miranda, tu se acha!”, brigava de novo. “Não, cara, você que tem que escrever esse livro, tu escreve bem melhor que eu, fora que tudo que tu escreve fica bonito, parece que aconteceu de verdade. Se eu escrever todo mundo vai ficar achando que é mentira”, gargalhava.
Tá bom, Miranda. Eu escrevo – um dia. Por enquanto vamos deixar a tristeza de lado e o vazio de ter perdido uma figura tão importante num outro plano e nos concentrar em fazer o que ele mais gostava: fazer coisas que se gosta. Essa simples regra pode ter tirado-lhe a vida mais cedo pois era afeito a excessos, mas ajudou-o a reinventar a cultura brasileira, que hoje é o que é muito por seu atrevimento, ousadia e alto astral. É a lição que devemos carregar.
Maior satisfação receber nesta quinta-feira, a partir das 21h, a banda pós-punk do mestre Paulo Barnabé (mais informações aqui).
MC Carol não deixa barato e mais uma vez volta a botar o dedo na ferida, desta vez com a faixa “Marielle Franco”, em homenagem à vereadora carioca assassinada na semana passada, que transforma em um hino contra “o poder machista branco”.
Pesado – como 2018 vem pedindo.
“São muitas armas e acho que elas devem ser usadas, essa é a nossa função”, me conta Bia Bittencourt, criadora da Feira Plana, explicando o aspecto multimídia (e multicultural) de seu filhote, a Feira Plana, que agora se rematerializa como um festival para além da mera venda e troca de publicações impressas independentes. O evento chega à sexta edição neste fim de semana, apresenta-se como um festival mais do que uma feira e reúne diversas manifestações culturais, incluindo apresentações musicais, uma mostra de cinema e vários debates e palestras que reforçam a importância da arte e da cultura como ferramenta de resistência, principalmente nesta época que estamos vivendo. A Plana ocupa a Cinemateca nos dias 23, 24 e 25 deste mês (veja a programação completa no site do evento) e eu bati um papo com a Bia num café perto da Paulista (note o barulho) sobre a importância da realização deste evento.
A partir desta edição que a Feira Plana abrange além do impresso?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-a-partir-desta-edicao-que-a-feira-plana-abrange-alem-do-impresso
Como surgiu a ideia do tema desta edição, a volta ao nada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-como-surgiu-a-ideia-do-tema-desta-edicao-a-volta-ao-nada
Então a troca entre curadores acontece durante o evento?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-entao-a-troca-entre-curadores-acontece-durante-o-evento
A questão do consumo te incomoda?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-a-questao-do-consumo-te-incomoda
A Plana tenta buscar formatos menos “produtizáveis”?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-a-plana-tenta-buscar-formatos-menos-produtizaveis
Arte e produção artística é ativismo e resistência no Brasil em 2018?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-arte-e-producao-artistica-e-ativismo-e-resistencia-no-brasil-em-2018
Como a Feira Plana se banca?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-como-a-feira-plana-se-banca
Qual o papel do artista nesta fase política que o Brasil está atravessando?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-qual-o-papel-do-artista-nesta-fase-politica-que-o-brasil-esta-atravessando
O público brasileiro é conservador? Como você o compara com o da Plana?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-o-publico-brasileiro-e-conservador-como-voce-o-compara-com-o-da-plana
Quais são os destaques desta edição?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/plana-2018-quais-sao-os-destaques-desta-edicao

Foto: Twitter do Yo La Tengo
There’s a Riot Going On, o recém-lançado décimo quinto disco do Yo La Tengo, é o álbum menos previsível da banda em anos, por amparar-se, principalmente, na faceta quieta e discreta do grupo. As ondas de microfonia tornam-se horizontais e o disco deságua num oceano de placitude típico dos momentos mais pacatos do trio de Hoboken, mas também acenando para os mares ambient da Europa continental (“Shortwave”, “You Are Here”) e da ilha britânica (“Dream Dream Away”), jazz (“Above the Sound”), doo wop (“Forever”, “Let’s Do It Wrong”), poesia beat (“Out of the Pool”), hinos tristes (“What Chance Have I Got”, “Ashes”, “Here You Are”), bossa nova (“Esportes Casual”) e as baladas típicas da banda (“Shades of You”, “For You Too”, “Polynesia #1”), rompendo, como de costume, as fronteiras entre a música pop, o rock clássico, o punk rock, o indie, o folk e o experimental. A atmosfera suave certamente tem a ver com a nova técnica de gravação que o grupo teve de aprender na marra, depois que a licença do programa de edição de som que usavam expirou e eles não sabiam mais usar a versão mais recente. Mas o mais notável aqui, principalmente em um disco batizado com o mesmo nome de um clássico funk carregado nas cores políticas, é como o aparente sossego sonoro de todas as faixas refletem uma espécie de tensão reprimida, uma espera à espreita mais que um momento de tranquilidade. Todo o disco aperta feridas, mas de leve, como se apenas a lembrança de sua dor fosse necessária para inibir qualquer reação. O trio formado por Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew já era vivo na época do disco original de Sly & the Family Stone e claramente faz os paralelos entre o final dos anos 60 e a época em que estamos vivendo hoje, como se Trump fosse uma versão turbo de Reagan e pudessem nos avisar para não repetirmos o mesmo erro de cinquenta anos atrás.











