Marcelo Frota é o contraponto perfeito para os Supercordas. Juntos, ambos fecham todo o espectro de emoções necessário para chamarmos de nova psicodelia carioca. À frente de seu projeto solitário Momo, ele tem as mesmas características do quinteto liderado por Bonifrate e Valentino: carioca, vintage, lisérgico, denso, retrô, chapado, ensolarado e muito sério. Mas enquanto os Supercordas se divertem com os Mutantes e Syd Barrett num chá da tarde no Sítio do Picapau Amarelo, o Momo nos carrega para as profundezas da alma, abismos sentimentais existencialistas em que a solidão é a única opção. E por mais que beba no folk deprê de bardos filhotes de Nick Drake, como Elliott Smith, Bill Calaham e Will Oldham (papas da mesma cena folk que deita-se sobre São Paulo), é no Brasil dos anos 70 que se encontra sua matriz musical. Apesar da primeira referência musical ser o soberbo disco de estréia do Clube da Esquina e os primeiros trabalhos de Lô Borges e Flávio Venturini, o som do Momo bebe tanto do Pessoal do Ceará (Ednardo, Fagner, Belchior) quanto dos momentos mais hippies dos Novos Baianos e de Raul Seixas e dos discos ingleses de Gil e Caetano. E em oposto à festa sorridente dos Supercordas, Marcelo é sempre triste, taciturno, melancólico, mas seu segundo disco consegue erguer a cabeça e, mesmo com um onipresente clima de fim de festa, parece que estamos vendo o fim dos Beatles. É um big bang em câmera lenta, um espelho se espatifando em pedaços musicais tão diferentes quanto Pink Floyd ou Geraldo Azevedo, Love ou Marcos Valle, James Taylor ou Chico Buarque. Buscador em vez de cair na espiral depressiva da Estética do Rabisco (seu primeiro disco) propõe-se deixar a melancolia para trás, nem que, para isso, tenha de fazer canções tristes mas otimistas – o que pode melhor resumir o disco do que uma música chamada “Tristeza” cujo refrão abre a canção sobre o canto de passarinhos, afirmando, firme “e o Sol nascerá”? O Momo já é um dos novos trabalhos mais promissores da música brasileira atual – com disposição para tornar-se um dos nomes mais importantes da próxima década.
19) Momo – Buscador
Lost é uma série de ficção científica?
Se antes havia um consenso entre o público de Lost, hoje há dois, bem distintos. Parte de seus telespectadores comemora o fato da série estar passando por sua temporada mais complexa, alinhando cenas dos quatro anos anteriores com acontecimentos inéditos que já haviam sido citados no passado mais a algumas novas narrativas coletivas. São os flashbacks explicados por Faraday, o vai-e-vem entre passado e futuro pelas metáforas pop de Hurley, a saga dos Oceanic Six para voltar para a ilha, a história de Hawking e Widmore e a da Iniciativa Dharma. Para a outra parte do público, no entanto, isso é tudo enrolação, papo furado – os autores se distanciaram dos personagens principais para criar uma história cheia de blábláblá pseudo-científico para explicar o encantamento daquilo que encantava justamente por ser inexplicável. Esta última reclamação reside numa afirmação falsa: que Lost começou a se perder ao tornar-se uma série de ficção científica.
Duas mentiras: Lost sempre foi uma série de ficção científica. O fato de não se passar em um planeta distante ou de não ter alienígenas ou robôs (ainda…) não tira a série do gênero. Do urso polar num ambiente tropical ao monstro de fumaça passando pelos hieróglifos, pelos Outros e pela Iniciativa Dharma, a ilha não pressupunha só mistério, mas também sua explicação. O gênero literário que sempre sublinhou Lost pressupunha a solução para as questões absurdas propostas pela série. Fosse nativo de outra escola narrativa – o realismo fantástico, a mitologia épica ou o teatro do absurdo –, todos os mistérios de Lost seriam simplesmente aceitos e não mais questionados.
A outra afirmação falsa é que Lost nunca foi uma série só de ficção científica – mas gosta de misturar diferentes elementos da tal “caixa mistério” proposta por seu produtor, J.J. Abrams. Não é simplesmente descobrir o que há dentro da caixa, mas o jogo de tentar acertar o que há lá dentro. Antes mesmo da série começar a viajar no tempo (o principal motivo dos atuais detratores se desinteressarem pela série e finalmente perceber o quanto ela é uma ficção científica), Lost já mostrava outros tipos de mistérios quase sempre também abordados pela ficção científica, como eletromagnetismo descontrolado, cura fantástica de doenças, civilização perdida, “o escolhido”, crianças com superpoderes, falar com os mortos.
Se analisarmos a história da ficção científica, ela quase sempre é metáfora para questões existenciais e filosóficas. Das viagens propostas por Julio Verne e H.G. Wells ao monolito de 2001, passando pela cidade-mecânica de Metropolis, os andróides de Blade Runner e os delírios de Philip K. Dick, quase toda a ficção científica pressupõe os clássicos questionamentos feitos pela velha filosofia: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, se existe vida após a morte, etc., mas sempre transformados em alegorias sobre outros desconhecimentos – sejam alienígenas, robôs ou viagens no tempo. Em Lost, estas perguntas ressurgem de outra forma, com a ilha mágica assumindo o papel de principal ponto de partida.
He’s Our You veio nos lembrar de outro aspecto relacionado à ficção científica, personificado na figura do Dr. Oldham – o uso de drogas psicodélicas como recurso de expansão da consciência. Essa referência é explicitada quando o pequeno Ben leva um sanduíche para o prisioneiro Sayid junto com o livro Uma Nova Realidade, de Carlos Castañeda. Mais adiante, vemos um pôster da banda Geronimo Jackson que mostra a lagarta fumante de Alice no País das Maravilhas. Logo depois, os Dharma levam o iraquiano para a tenda do místico da Iniciativa, quando Sawyer/LaFleur solta a frase que batiza o episódio: “Ele é o nosso você”, para depois mostrar que os métodos de tortura Dharma não necessariamente infligem a dor para atingir seus intuitos. E assim Sayid é submetido ao método Oldham de interrogatório, graças a uma certa substância que ele força o iraquiano a ingerir.
O que nos leva a repensar o próprio papel da Iniciativa Dharma. Aparentemente, a equipe era formada por um monte de hippies reclusos numa certa ilha dispostos a aprender mais sobre as propriedades sobrenaturais do lugar para o desenvolvimento da humanidade. Mas os caras têm um torturador de plantão? Uma equipe de segurança? Uma cadeia? Fora a trégua com os Outros – tudo indica que estamos longe (ou melhor, cada vez mais perto) de sabermos as reais intenções dos Dharma. Lembre-se que já vimos pelo menos uma cena de lavagem cerebral, quando o namoradinho de Alex, Karl, foi capturado há algumas temporadas. Também vimos a Dharma definir, em consenso, pela morte de uma pessoa. Ou seja: por melhores que sejam suas intenções, elas não são propriamente boas…
Também assistimos à captura de Sayid e a apresentação da personagem Ilana, que aparentemente era uma policial e que agora sabemos ser contratada por alguém (as suspeitas caem sobre Ben, óbvio) para colocar o iraquiano no Ajira 316. Ou seja: Ilana não foi para a ilha por acaso, como creio que Caesar também não.
No mais, o episódio trouxe o que parecia ser uma longa enrolação sobre a relação entre Sayid e Ben, que culminou com o momento “e se matássemos Hitler?” da série. Mas não era em vão – os produtores queriam mostrar as diferenças e semelhanças entre os personagens mais perigosos da série até aqui. O iraquiano e o principal vilão de Lost até aqui se reencontraram em situações diferentes, em que Ben sempre sublinhou a natureza assassina de Sayid – explorada logo no início, quando, ainda na cidade-natal de Saddam Hussein, o pequeno Sayid mata uma galinha para seu irmão, ecoando outra cena de formação de caráter na série, quando Mr. Eko tem de matar uma pessoa para que seu irmão seja salvo. He’s Our You também trata da natureza de Ben – que passa por alguns maus bocados na mão de seu pai, Roger. Assim, aos poucos compreendemos o que ambos têm em comum – e o que faz Sayid tomar a resolução trágica no final do episódio.
Os rumos desta resolução vão ser definidos nos próximos episódios, mas, caso Ben sobreviva, já sabemos de onde ele conhece os personagens principais da série – de sua própria infância (o que explica seu apreço por Juliette, sua familiaridade com Jack, Kate e Hurley e, claro, o fato de ele saber tanto sobre a natureza da Sayid).
Mais quinta temporada de Lost:
Interrompo minhas férias só pra dar um alou sobre o primeiro show que vi aqui na gringa – e o Of Montreal matou a pau na apresentação com a maior quantidade de Whiskey Tango Foxtrot por minuto que eu vi em anos (graças, em parte, a uma trupe de figurantes bizarros que invadiam o palco fantasiados de Buda, Jesus Cristo, Papai Noel, ninjas, porcos e tigres). Psicodelia pesada, como é característico das bandas do coletivo Elephant 6, o show circulou entre as várias fases da banda, com ênfase óbvia ao último disco da banda, o espetacular Skeletal Lamping (algo como se o Pet Sounds fosse um disco tão esquizofrênico quanto o Fantasma, do Cornelius). E o grupo ainda apresentou uma música nova, batizada provisoriamente de “Coquet Coquet”.
Kevin Barnes é um frontman genial – carismático e blasé ao mesmo tempo – e segura uma banda azeitadíssima, com músicos que vão bem além do clichê da banda indie. Sem contar que são freaks como ele, todos devidamente montados para chocar o público. O show ainda contou com a participação da banda da cantora Janelle Monae (imagine se a banda do clipe de “Hey Ya” existisse – e fosse liderada por uma cantora de soul de cair o queixo), que dividiu a última música com o Of Montreal para uma homenagem catártica a David Bowie (“Moonage Daydream”, numa senhora versão).
Tem mais vídeos lá na TV Trabalho Sujo – só me deixa um tanto cabreiro pensar que, no Brasil, um show desse só iria funcionar num Sesc da vida ou no Clash. Num palco muito grande, como o de um grande festival ou de uma Via Funchal, ele perderia todo o impacto. É uma pena não termos casas de médio porte que abram espaço para a música pop no país… Mas isso não quer dizer que irei parar a campanha que comecei no início do ano.
Agora deixa eu voltar pro modo offline – se tiver mais alguma nova (domingão tem Sonic Youth com John Paul Jones e segunda tem Lily Allen), eu aviso. Se não, só dia 4 de maio mesmo.
A Santa Ceia do Leonardo Da Vinci é uma das imagens mais lembradas da história da humanidade – e seu impacto cultural pode ser medido pela quantidade de paródias, subversões e homenagens a que foi subvertida. A seleção abaixo (que inclui zumbis, Super Mario, Dali e Sopranos, entre outros) é só uma pequena amostra do que o carinha do Popped Culture teve a manha de reunir. Impressionante.
Tem (muito) mais aqui.
Pra muitos, o Dodô é só o baterista da PELVs, que tinha um programa de rádio com o Lariú, o College Radio, no início dos anos 90. Mas essa é a lenda que ele deixou construírem ao seu redor e não se esforçou nem um pouco para mudar. Dodô, no entanto, finge-se de coadjuvante para optar pela cada vez mais importante função de autobiógrafo – esse agente híbrido de narrador e protagonista que, graças à autopublicação, à velocidade da troca de dados e à facilidade de se transitar por diferentes esferas e estilos permitida pela vida moderna, vem tomando o espaço que já foi do diretor de cinema, do cronista, do rockstar e do fotógrafo, registrando a vida e seu tempo do jeito que consegue.
E assim, em vez de lançar produtos, é protagonistas de processos, o que inclui sua própria preguiçosa banda, que lança um disco a cada cinco anos, o bloco de carnaval Monobloco, a festa Pessoas do Século Passado, que lhe permitiu alguns luxos fúteis, como selecionar músicas nas primeiras temporadas do Big Brother (você não ouviu errado: era Second Come mesmo), botar algumas beldades célebres para dançar, falar mais que o Jô Soares, passar uma tarde com Kurt Cobain no Brasil e tornar-se personal iPodder. Discotecando, fez suas festas ganharem novas dimensões – o que poderia ser apenas uma festa de hits do passado se desdobrou num livro, site e disco e sua habilidade em escolher músicas para os outros ouvirem deram origem a um segundo livro.
Mas o Pessoas do Século Passado começou como uma brincadeira em estúdio que fez com que Dodô começasse a pensar no que a virada de século faz com a cabeça das pessoas. Compôs um disco inteirinho à base de samples, cantou suas letras pela primeira vez e, em vez de tentar lançar, receoso de algum problema legal decorrente do uso de músicas alheias, diagramou as letras num encarte recortado à mão, queimou alguns CD-Rs e mandou para os amigos. Batizou o projeto de Alguma Coisinha e nunca mais tocou no assunto.
Até que outro dia ele veio me perguntar se eu tinha o disco. Ter eu tenho, mas estava encaixotado junto com vários outros CDs esperando a hora de mudar de um apartamento para o outro. Perguntei por que ele estava procurando a gravação e ele respondeu que queria publicá-la, mais de dez anos depois. Me prontifiquei a ser o veículo de divulgação: meu entusiasmo com a gravação original já tinha me provocado a reproduzir os discos e até regravar para alguns poucos compadres.
Eis que finalmente Alguma Coisinha vem a público. Dodô até fez um MySpace para torná-lo público, mas deu exclusividade para OEsquema, tornando-se este então o segundo lançamento do nosso título (o primeiro, por coincidência, também é de um carioca se esbaldando em trechos de músicas alheias, o Big Forbidden Dance, do mítico João Brasil). e meu presente para vocês antes de sair de férias.
Apesar de Dodô rotular seu disco como um Paul’s Boutique punk (como assim? Os Beastie Boys eram punks!), arquivo Alguma Coisinha como uma versão do segundo disco dos B-boys sim, mas uma versão indie. E indie no sentido de indie-brasil, esta cena inclassificável que reúne os rejeitados por gravadoras com os que não estão se preocupando com elas, soando brasileiro, roqueiro, hardcore, eletrônico, pop, indie e até com lampejos de hip hop na mistura. Alguma Coisinha depois fez com que Dodô levasse adiante seu projeto de definir a própria geração, mas também fotografa um momento especial do rock independente brasileiro – que já se deliciava com as possibilidades abertas pelo computador, mas ainda não havia experimentado a novidade da velocidade da internet.
Para baixar o disco, é só clicar aqui.
Abaixo, um papo que tive com ele sobre o disco.
Lembro quando você me mandou o Alguma Coisinha… Conta a história.
Quando, em 95, chegou ao estúdio Freezer, uma versão programa SoundForge, a gente pirou. Começei a fazer loops como quem jogava Nintendo. O Simplício Neto levou pra mim uns CDs que iriam dar uns loops fodões. E deram. Batizamos o projeto de os Homens Verdes. De brincadeira. Em 97, pós gravação do Members to Sunna, da PELVs, nosso melhor disco tecnicamente até hoje, eu estava afim de dar uma pirada sozinho no estúdio. Encontrei os loops perdidos numa pasta. Criei melodias, compus canções em português, uma heresia naquela época. Era proibido entrar no estúdio onde eu gravava porque eu morria de vergonha. Tinha que beber, e muito, pra tomar coragem e cantar. Quando ficou pronto, não mostrei pra quase ninguém: apenas pra jornalistas porra loucas como você e pedi segredo, pela vergonha do resultado e por causa do uso radicalísssimo e indiscriminado de loops. Era um Paul’s Boutique Punk, o Alguma Coisinha.
Essas músicas depois reapareceram quando o Pessoas do Século Passado virou disco, não?
Sim! Sempre compus metade das músicas pra PELVs pro Gustavo Seabra cantar. Uma vez que o Pessoas, o CD de 2003 e inclusive o livro, de 2001, foi baseado na letra de Alguma Coisinha, de 97, achei que devíamos gravar essas canções do modo clássico, comportado. Assinávamos todos os integrantes. Como faz o R.E.M. e o Radiohead
O Alguma Coisinha que você recebeu foi a semente de tudo. A malaise do personagem da música título é transcrita para o livro letra por letra e, por sua vez, de volta para o CD Pessoas do Seculo Passado letra por letra. Você pode ver que as outras letras do Alguma Coisinha vêm com os mesmos temas que viriam a ser abordado pelo livro. Vide a “Fax” e a “Versus”, que é a malaise de fim de século.
Alguma Coisinha – “Alguma Coisinha“
Você citou o Paul’s Boutique, mas não era só ele, né? No final dos anos 80, quando o sampler apareceu, vários discos surgiram aproveitando essa brecha dos direitos autorais. Hoje, estamos vendo uma coisa mais ou menos parecida, só que mais instantânea e massificada. Queria que você comentasse esse momento atual – e como ele influiu no seu interesse em relançar o Coisinha.
Hoje, Matias. Tudo é loop de tudo. ESSA é a Vertigem do século 21. A perda da vergonha em loopar, mashupar e botar na rede assumindo que é loop e mashup deixou a Arte, com A maiúsculo mesmo, mais honesta. Antes, os artistas copiavam os outros contando que “ninguém iria descobrir”. Quadros inteiros do Thomas Gainsborough, pintor do século 17, contém LOOPS da obra do Anthony Van Dyk. E o que não eram as colunas do Paulo Francis senão MASHUPS bacanas dos escritos do Menken e das falas dos personagens do romance Contraponto, do Huxley?
Foi ao perceber isso que pensei no Alguma Coisinha. Não tinha nenhuma cópia mais em casa. Não o escutava a uns 9 anos. Mas tinha a impressão que ele já trazia uma reflexão radical do que esta acontecendo hoje. Aí corri atrás de alguma cópia.
E sabe como estamos lidando com essa Vertigem da arte sincera? MUITO BEM. Essa é a beleza da coisa. Não estamos tontos. Estamos sabendo muito bem processar tudo e produzir arte.
Mas tem gente – os artistas que ainda ficam melindrados com o uso de samples nao autorizados – que não tem lidado tão bem com essa Vertigem da Arte Sincera… Ou não?
Claro que existem. O Metallica não gostaria. Já o Tom Zé, o Beck, o Stereolab, o Caetano, não. E isso é pessoal e psicológico. Já ouvi escritores me dizerem que sou maluco de ficar falando sobre uma idéia que tive prum livro porque poderiam roubar a idéia. Essas pessoas têm uma constituição psicológica específica, comum até. Tô querendo dizer que é humano demasiadamente humano não lidar bem com liberar samplers e loops gratuitamente. Já pensou se Deus fosse cobrar os direitos autorais sobre o som de um tambor? Do osso no couro esticado?
Mas você acha que estamos vivendo uma época tão rica quanto o final dos anos 80? Ou mais rica até?
Não dá pra dizer até a gente descobrir quantas demos foram engavetadas nos anos 80 pela galera que sampleou com medo de processo.
Tem esse outro aspecto também, né… Hoje em dia, neguinho nem espera, já publica. Assim, a vida acaba tendo um quê de reality show… Fico pensando em artistas que têm toda sua carreira registrada e o que poderia acontecer com os Beatles (ou qualquer um) se eles aparecessem antes de estarem prontos…
Fascinante isso. Pra citar um exemplo recente. As demos dos Los Hemanos, que o fantástico Alex Werner sempre levava para o estúdio Freezer, eram terríveis. Não daria nem um MySpace decente. As demos da Mallu no MySpace sao melhores que as demos que tenho dos Hermanos. A pergunta que fica é: será que a proteção que os Hermanos tiveram, de só ir pra campo quando prontos, não os potencializou até o Bloco do Eu Sozinho? Será que o reality show da Mallu não vai esgotá-la e lhe dar uma vida curta? Olha, pensa bem, TODAS as bandas da geração internet, que já tem sete anos, tiveram vida CURTA. CSS, Bonde do Rolê e Klaxons são excelentes exemplos disso.
Exato – e estão gravando o terceiro disco no mesmo tempo em que as bandas “clássicas” estavam entrando no estúdio pela primeira vez.
E sabe qual vai ser a conseqüência disso? Depois que morrerem os integrantes de Stones, U2, R.E.M., Radiohead, assim que falecerem Madonna, Paul McCartney e Michael Jackson, acabou essa historia de maior banda do mundo, de maior artista do mundo. As carreiras vão ser curtas. Qualidade vai haver. Vão ser todos cometas. E não vai ser o fim do mundo: vamos saber lidar bem com isso.
Alguma Coisinha – “Toda Glória do Mundo“
Vou além: talvez não são as carreiras que vão ficar curtas, mas os artistas que vão se especializar em outras áreas – mesmo porque “disco”, “livro” e “filme” são conceitos que tendem a morrer com essa safra de artistas – ou não?
O Peter Greenaway vem falando isso desde o século passado. É tachado como fanfarrão pela galerinha do cinema de sandálias. Porém o mercado insiste. DVD da Roberta Sá, livro novo do Chuck Palahniuk, a nova peça do Felipe Hirsh estão aí, conceituadas como DVD, livro e peça de teatro. Estão reeditando tudo em vinil. E sabe o que eu escuto em casa? Meu gramofone. Tenho um tesão pelo objeto, pelo vinil 78, pelo som crepitado, pela acústica sem eletricidade. Comprei outro dia um livro de cinco quilos chamado “The Kubrick Arquives” e estou de olho numa edição de 1900 Portuguesa do Tratado de Arquitetura do Vitrúvio. Meu carro, até ontem, era um Karmann Ghia 1968 conversível vermelho com estofado branco de couro. Acho que o século 20 passou tão rápido que só agora a gente está parando pra degustar seus melhores produtos. Acredito na sobrevida dessas mídias do século passado por conta disso.
É muito comum ver quem não entende o que está acontecendo menosprezar a situação atual como transitória ou, pior, vir com aqueles papos de “o fim da arte”, etc. Na verdade, o que estamos vendo não é o fim da arte – mas o fim da autoria, pelo menos, como a conhecemos.
Autoria não só ainda existe como ainda mais identificável. Vik Muniz é um autor e sampleia geral embora seja decepcionante saber que o próprio proíba que tirem fotos de suas sobras. Godard sampleava e mashupava o cinema americano e por isso foi o grande autor dos anos 60. E Godard creditava seus samplers sem a menor cerimônia. Pelo contrário, demonstrava que se tratava antes de tudo de um erudito. Inventou o punk antes dos punks. A invenção do jump cut por ele equivale a invenção do cut/paste em música nos anos 80. Então a arte prossegue e a autoria prossegue. O CD experimento Alguma Coisinha é meu trabalho mais autoral e punk, por exemplo.
A internet, por outro lado, torna tudo rápido demais – tanto a descoberta quanto o desencanto. Como lidar com isso?
Devemos lidar com isso da mesma forma que os europeus alfabetizados na idade média passaram a ter, depois da invenção da imprensa, 20 livros para ler por ano ao invés de um, acessível apenas se você tivesse a manha de entrar numa biblioteca da igreja. Na história da humanidade mudanças de paradigmas muito mais dramáticas aconteceram. Você imagina que antes de inventarem um gravador e um vinil NUNCA um ser humano tinha ouvido uma opera ou um adágio, que não fosse executado ao vivo? O terror das pessoas era tanto ao ver o gramofone reproduzindo sozinho todo o som de uma orquestra que as primeiras exibições de gravações de vinil tinham que ser acompanhadas de imagens em cinema de músicos tocando. Mais ainda: até época da invenção do gravador e reprodutor de música o homem estava a 40 MIL ANOS condicionado a só entender a música tocada ao vivo, por um outro homem, ali, na frente dele. Imagina a emoção louca que era naquela época levar debaixo do braço toda a Filarmônica de Berlim para ser executada dentro de casa? Ou seja, a mudança de paradigma que estamos vivendo é fichinha. Não é necessário lidar com isso conscientemente. Naturalmente tudo tem se ajeitado.
Alguma Coisinha – “Fax“
O que você tem feito atualmente?
Meu dayjob hoje é: Gerente de Comunicação e Educacional e professor de Literatura. Meu nitejob é ser DJ, daqueles caros, marrentos, que um dia já foi humilde hoje se acha o melhor do mundo. No intervalo, estou compondo as músicas pro segundo disco do Pessoas do Século Passado, e escrevendo três livros: dois por encomenda e o interminável livro sobre minha viagem pelas rotas que o Jack Kerouac fez para escrever o On The Road, pra descobrir o que de Beatnik e contracultural ainda há na américa do século 21. O livro está ficando tão bom que eu escrevo três páginas e fico prostrado, apaixonado por aquelas três páginas durante seis meses. Não dá vontade de terminar. Outro dia tive um sonho onde eu continuaria escrevendo esse livro só pra mim até morrer, só pra não perder o prazer de lidar com essa história tão incrível que tive a sorte de acontecer comigo.
O lançamento de Alguma Coisinha pode dar origem a um Alguma Coisinha 2?
Seria um belo projeto pra 2010, junto com um segundo livro Pessoas do Século Passado. Refletir sobre uma década que passou tão rápido, em que os ingênuos vão se apressar a dizer que nada aconteceu de relevante salvo 11 de setembro, pode dar um grande barato. O mundo mudou nos últimos 10 anos mais do que nos últimos 30. É missão dos que perceberam isso explicar tim-tim por tim-tim pra moçada que sofre de vertigem.
É Páscoa, mano:































