O mestre David Lynch, ativo nestes dias de quarentena mantendo seu próprio programa de meteorologia diário em seu canal no YouTube (falei disso lá no #CliMatias, não tá acompanhando não?) Nosso cineasta favorito publica online seu curta de animação de 2015, o esquisito e envolvente Fire (Pozar).
Escrito, desenhado e dirigido por nosso cineasta favorito, o filme cutuca uma série de elementos caros à sua filmografia, desde o título. Mas além do fogo, há o arco do topo do palco que ilustra seu canal e com o qual ele anunciou o curta num tweet, e que funciona como metáfora para o cinema como linguagem, unindo referências do lado sobrenatural de Twin Peaks ao Club Silencio de seu Cidade dos Sonhos. Neste palco, vemos a criação do fogo e sua influência em nosso imaginário, em que Lynch faz uma conexão abstrata e surrealista entre tecnologia e arte, como se reforçasse que a linguagem audiovisual – eis que surge apenas um olho e um ouvido – fosse o centro do legado humano, unindo estas duas pontas distintas.
É claro que isso é uma interpretação minha – como sempre na obra de Lynch, tudo está em aberto em Fire (Pozar) e é sua natureza experimental e abstrata que o torna tão específico. Com trilha composta pelo polonês Marek Zebrowski e animação feita pelo japonês Noriko Miyakawa, é uma versão artesanal e branda de sua mensagem, estranha e envolvente como sempre.
Como já disse, tenho trabalhado na direção artística do lançamento do terceiro disco do cantor e compositor gaúcho Pedro Pastoriz, Pingue-Pongue com o Abismo, que está na reta final do financiamento coletivo para bancar seu disco. E ele me chamou para participar, nesta quinta-feira, do programa de entrevistas Comitê Linha Cruzada, que está fazendo em sua conta no Instagram – e o tema da conversa é criação e inspiração. O papo acontece nesta quinta, às 16h – cola lá! Tá aí o papo com o Pedro:
Clássico palco de experimentações carioca, a Áudio Rebel começa o festival Rebel Vive, que reúne transmissões ao vivo online de shows de quase 50 artistas em dois fins de semanas a partir de hoje, às 17h. Começando com Negro Léo, o evento ainda conta com Vovô Bebê, Rubinho Jacobina, Joao Donato. Kassin, Kiko Dinucci, Rhaissa Bittar, Humberto Effe, Momo, Samuca e a Selva, Mauricio Pereira, Ana Frango Elétrico, Ava Rocha, Marcelo Callado, Romulo Froes, Duda Brack, Benjão, Mãeana e Bem Gil, entre muitos outros. “O evento surgiu dos próprios artistas que querem ajudar a Rebel”, conta o proprietário da casa de resistência cultural, Pedro Torres. “A gente conversou de tentar passar um pouco do espirito da Rebel para as casas das pessoas, fazer um lance que mantivesse o espirito intimista e pessoal da casa.” Conversamos mais por email sobre como a Áudio Rebel está se mantendo nesta época tão estranha.
Como surgiu a ideia do Rebel Vive?
O evento das lives surgiu dos próprios artistas que querem ajudar a Rebel. O Mihay e a Katia me procuraram porque eles já tinham mais conhecimento nesse terreno, o Mihay trabalha com vídeo… A gente conversou de tentar passar um pouco do espirito da Rebel para as casas das pessoas, fazer um lance que mantivesse o espirito intimista e pessoal da casa.
Como estavam as coisas com a Áudio Rebel antes da quarentena?
As coisas nunca foram fáceis, mas vinhamos uma maré boa, o carnaval nos gerou uma receita de blocos que queriam ensaiar e gravar, e na sequencia os shows voltaram começaram a engrenar bem. Parecia que apesar de todo o contexto externo as coisas iam engrenar bem, tínhamos bons shows agendados. com um bom retorno de público.
O festival é a primeira ação que vocês fazem neste período ou fizeram mais alguma coisa?
A primeira ação foi esvaziar nossa geladeira, como tínhamos uma agenda repleta de bons shows, tinha um dinheiro engessado em produto, e contas pra pagar, sem previsão de volta. Usamos as redes sociais pra divulgar um delivery de bebidas, pelo preço de comercio local da zona sul e em um final de semana vendemos tudo, consegui pagar o salario de um funcionário no final de março com essa ação. A segunda ação foi o delivery de produtos da loja encordoamentos de instrumentos, livros, discos e LPs, que teve uma saída boa também. A terceira ação foi no inicio de abril, quando chegou o inicio de mês e nenhuma perspectiva de trabalho ainda foi um crowdfunding nesse esquema do “pendura invertida”: o cliente adianta o valor para utilizar quando a casa reabrir.
Estão bolando mais algo para essa época de confinamento?
Sim, esse primeiro já foi um sucesso, temos bastante artistas interessados em seguir com o projeto. Seria ótimo que tivesse uma vacina rápida, ou uma solução definitiva de saúde pública, mas acho que não vai ser um processo rápido.
Como vocês cogitam voltar da quarentena? Acham que os shows e os hábitos do público vão mudar?
Acho que as coisas só vão voltar ao normal definitivamente quando tiver uma vacina de amplo acesso para a população. Dependendo do número de vítimas, podemos ter uma população mais temerosa ou menos. Mas o normal acho que vai demorar muito. Já estamos perdendo espaço para as diversões virtuais a anos, esse vírus letal só deve aumentar essa tendencia.
Eis a programação do festival (mais informações aqui):
21 de maio
Negro Léo
André Prando
Renato Piau
David Alfredo
Rubinho Jacobina
Kiko Dinucci
22 de maio
Raquel Coutinho
Arthus Fochi
Federico Puppi
Pedro Mann
Luciane Dom
Udi Fagundes
23 de maio
Gabriel Muzak
jongui
Rhaissa Bittar
Ilessi
Anselmo Salles
Mari Blue e Mário Wamser
24 de maio
MOMO
Babi Sut
Mauricio Pereira
Romulo Froes
Marcelo Callado
Duda Brack
28 de maio
Humberto Effe
Lucas Hawkin
AnaBispo
Benjão
Vovô Bebê
Samuca e a Selva
29 de maio
Marco Homobono
Anna Lú
Bulo
Juliana Linhares
Dionísio
Paola Kirst
30 de maio
Pedro Moraes
Ave Máquina
Elisa Fernandes
Micah
Flávia Chagas
Simone Mazzer
31 de maio
Joao Donato
Kassin
Mãeana e Bem Gil
Ava Rocha
Mihay Vetyemy
Ana Frango Elétrico
O casal Julia Debasse e Rian Batista resolveu assumir a dupla musical que já vinham incubando desde que morava no Rio de Janeiro. Mas a mudança para Fortaleza, em 2016, acabou acelerando este processo e o baixista do grupo Cidadão Instigado finalmente lança seu primeiro trabalho autoral depois de ano tocando com alguns dos principais nomes da atual música brasileira. Assumindo o nome de Mangalarga (“A Julia ama cavalos e me chama assim”, ri Rian), os dois lançam o primeiro single, “A Merda Que Você Fez”, em primeira mão no Trabalho Sujo e contam, numa troca de emails, a história deste processo criativo.
“O grupo nasceu no Rio de Janeiro, mas só atingiu sua configuração atual aqui em Fortaleza”, começa a recapitular Júlia. “Eu e Rian começamos a compor de forma bem descompromissada em 2011 ou 12, pouco depois de nos casarmos. Nós juntamos essas canções novas com composições mais antigas e começamos a brincar de arranjá-las no computador, usando sintetizadores do Garage Band.” Morando no Rio, Rian fez alguns trabalhos para a Globo, enquanto seguia com o Cidadão Instigado e depois de anos tocando com a banda do trio Instituto, liderada pelo maestro Ganjaman. “Vi nascer artistas que estão hoje aí com carreiras consolidas: Céu, Criolo, Karina Buhr, Emicida, Tulipa Ruiz, Vanessa da Mata”, além de passar treze anos tocando com Otto e do Mockers. Júlia, por sua vez, já havia dividido um disco com outro Cidadão Instigado, o guitarrista Regis Damasceno, em seu projeto indie folk Mr. Spaceman, Work For Idle Hands To Do, mas trabalha em artes visuais.
“Foi só quando nos mudamos para Fortaleza, em 2016, finalmente admitimos que precisávamos de ajuda para transformar aquelas ideias embrionárias em algo mais concreto”, continua a vocalista. “Falamos com o Daniel Groove que super comprou a bronca e juntamos a banda que ja vinha acompanhado o Daniel em algumas produções e da qual o Rian fazia parte: o compositor e guitarrista Bruno Rafael na guitarra, Beto Gibbs na bateria/SP-10, Rian no baixo. A ideia é que a banda tenha dois vocalistas mesmo, então tem músicas que eu canto, enquanto em outras o Rian canta. Eu também toco guitarra e violão.”
“Em Fortaleza reencontrei o Daniel Groove, que me chamou para coproduzir alguns artistas da nova cena cearense, como Ilya e Nayra Costa”, segue Rian. “A Julia é compositora desde adolescente, fez algumas gravações muito nova, tocou no Rio, mas nunca chegou a lançar nada, mas jamais deixou de compor. Tanto que nós usamos músicas dela que ela fez antes mesmo de me conhecer.”
“A Merda Que Você Fez”, mesmo sendo uma das músicas mais antigas da dupla, foi escolhida por conversar com a época que estamos vivendo. “É uma canção que funciona em dois níveis, como canção de amor e como canção de protesto, ou pelo menos essa era a intenção da compositora”, ri Júlia. “Eu acho que também mostra bem ao que viemos no sentido de que é uma canção inegavelmente pop, dançante, mas que tem algumas esquisitices, algumas quinas, arestas – seja na letra, seja nas guitarras do Catatau.”
Sem planos em relação a um álbum, eles planejam mais um single para daqui uns meses, uma canção romântica escrita por Rian, embora já tenham material para um disco. Sem poder fazer shows por conta da quarentena, vão se dedicar a divulgar o trabalho online. “Vamos fazer lives, que é o que se faz agora. Temos dois pequenos contratempos, um de quase 3 anos e outro de 9, mas vai dar certo. Eles são bonitinhos!”, brincam.
Conhecendo a natureza da sonoridade do trio norte-americano de funk dub psicodélico Khruangbin, era claro que seu próximo disco seguiria o clima tranquilo e despreocupado dos trabalhos recentes, mas a partir dos dois singles que anunciam o lançamento de seu terceiro álbum, Mordechai, que deve chegar para os fãs dia 26 de junho (e já está em pré-venda), o grupo mostra que consegue deixar as coisas ainda mais sussa. Além dos suingue sinuoso de sua formação, o grupo ainda flerta com sonoridades de todo o mundo – do oeste africano, do oriente médio, do leste asiático, das ilhas caribenhas – a partir de um tripé bem estabelecido: a guitarra clara e deliciosa de Mark Speer, o baixo encorpado e redondo de Laura Lee Ochoa e o peso funky e preciso da bateria de Donald Ray “DJ” Johnson Jr. As duas faixas que o grupo já mostrou do próximo disco (“Time (You and I)” e “So We Won’t Forget”), flagram o trio ainda mais tranquilo, contagiando qualquer ser vivo com seu groove doce e hipnótico.
Abaixo, a capa do novo disco e o nome das músicas do álbum.
“First Class”
“Time (You and I)”
“Connaissais de Face”
“Father Bird, Mother Bird”
“If There Is No Question”
“Pelota”
“One to Remember”
“Dearest Alfred”
“So We Won’t Forget”
“Shida”
Há quarenta anos, uma banda new wave previu que o futuro da humanidade era a “de-evolução”, uma evolução às avessas que nos tornaria cada vez mais primitivos, nos comportando como manadas de bichos. Parte crucial da indumentária desse futuro antevisto pelo grupo Devo eram os domos de energia vermelhos, capacetes de plástico que reteriam a energia do indivíduo inspirado nas pirâmides astecas e no design Bauhaus e que funcionavam como forma de padronizar o grupo dos irmãos Mothersbaughs e Casales e, de quebra, a moda da humanidade do futuro.
Mal sabiam que aquela peça inusitada que muitos se referem como vaso de plantas, teria uma utilidade inusitada ao funcionar como um perfeito acessório para um futuro improvável de uma pandemia global em que o contágio de uma doença poderia ser feito através da respiração. E assim o grupo lança sua versão 2020 para seus domos de energia, com uma viseira de plástico que tapa todo o rosto, fazendo vezes de óculos e máscara para enfrentar o coronavírus. Elas já podem ser encomendadas no site da banda.
O que esperar de um encontro entre Jamie Xx e os Avalanches? Além do conhecimento enciclopédico da pista de dança, se acabar de dançar, claro. Foi o que aconteceu nessa sexta-feira, quando o produtor do grupo inglês Xx convidou a dupla australiana para seu episódio mensal na rádio NTS. Entre pérolas dos Kay-Gees, o hit disco de Carly Simon e bandas com nomes gigantescos, couberam até grooves brasileiros, como a clássica “Comanche”, de Jorge Ben, e a pérola “Lótus 72D”, de Zé Roberto. Aumenta o som!
Jeremy Cunningham – “Sleep”
Robert Ashely – “The Park”
Walter Hawkins & the Love Centre Choir – “Changed”
Moodyman – “Technologystomlemyvinyle”
Jorge Ben – “Comanche”
The Kay-gees – “Celestial Vibrations”
Hamilton Bohannon – “Me and the Gang”
Kay-gees – “Tango Hustle”
Dr. Charles Hayes & Cosmopolitan Church of Prayer Choir – “Jesus Can Work It out”
Theo Parrish – “Early Byrd (original Mix)”
Red Axes – “Arpman”
Manuel & the Music of the Mountains – “Delicado”
Unknown – “Bored to Tears (jamie’s Lockdown Edit)”
Nico Gomez and His Afro Percussion Inc – “Baila Chibiquiban”
Unknown – “White Label”
Zé Roberto – “Lotus 72 D (fast Version)”
Nomo – “Nova”
The Primitive Painter – “Levitation”
Takeo Onuki – “4am”
Tatsuro Yamashita – “Sparkle”
Carly Simon – “Tranquillo (melt My Heart)”
Klaus Wunderlich – “Let’s Do the Latin Hustle”
Betty Everett – “God Only Knows”
The Kay-gees Feat. Something Sweet – “Acknowledgement”
Neil Young começa a mostrar um disco que teria sido lançado há 45 anos não fosse o fim de um casamento. Ao terminar seu relacionamento com a atriz Carrie Snodgress, na virada de 1974 para 1975, ele resolveu engavetar Homegrown, que traz a transição entre seu clássico Harvest e o belo Comes a Time. O disco, finalizado em 1975, contava com as participações de músicos como Levon Helm e Robbie Robertson, além da participação da cantora Emmylou Harris e uma faixa falada. Algumas de suas canções, como “Love Is A Rose”, “White Line”, “Little Wing”, “Star Of Bethlehem” e a a faixa-título, apareceram em discos posteriores, mas as outras sete, com a bucólica “Try”, que ele escolheu para mostrar o disco, são inéditas.
Neil desculpou-se por ter demorado tanto tempo para lançar este álbum, no blog que mantém em seu site:
“Peço desculpas. Este álbum Homegrown deveria estar com vocês alguns anos depois de Harvest. É o lado triste de um caso de amor. O estrago causado. A dor no coração. Eu simplesmente não conseguia ouvi-lo. Queria seguir em frente. Então o guardei para mim, escondido no cofre, na prateleira, no fundo da minha mente … Mas deveria tê-lo compartilhado. É realmente bonito. Foi por isso que eu o fiz em primeiro lugar. A vida dói às vezes, você sabe o que eu quero dizer.
Gravado analogicamente em 1974 e no início de 1975, o Homegrown foi mixado na época com as fitas master analógicas estéreo originais. Essas mixagens originais foram restauradas com amor e carinho por John Hanlon e masterizadas por Chris Bellman na Bernie Grundman Mastering, tornando o Homegrown um álbum completamente original.
Levon Helm está tocando bateria em algumas faixas, Karl T. Himmel em outras, Emmylou Harris canta em uma, Robbie Robertson toca em uma. Homegrown contém uma narração, várias músicas solo acústicas que nunca foram publicadas ou ouvidas até este lançamento e algumas ótimas músicas tocadas com uma banda de meus amigos, incluindo Ben Keith – tocando violão de aço e slide – Tim Drummond – baixo – e Stan Szelest – piano. De qualquer forma, está chegando em 2020, o primeiro lançamento de nosso arquivo nesta nova década. Venha conosco em 2020, pois trazemos a você o passado.”
O disco está programado para ser lançado no dia 19 de junho e já está em pré-venda. Eis sua capa e o nome das suas músicas.
“Separate Ways”
“Try”
“Mexico”
“Love Is A Rose”
“Homegrown”
“Florida”
“Kansas”
“We Don’t Smoke It No More”
“White Line”
“Vacancy”
“Little Wing”
“Star of Bethlehem”
O produtor canadense Dan Snaith, o dono do Caribou, segue deschavando o disco que lançou no começo do ano, o ótimo Suddenly, dando faixas na mão de alguns conhecidos para que eles possam dar seus tratos ao disco. E depois de passar “Never Come Back” na mão do produtor norte-americano Morgan Geist, agora ele passa a mesma faixa para o chapa Kieran Hebden. E o remix que Four Tet faz para a faixa, a mantém no mesmo plano musical, mas a leva para uma estratosfera sônica, enquanto a transforma num sobrevoo noturno… Bem foda.
A primeira vez que Tatá Aeroplano me falou sobre Delírios Líricos, no segundo semestre do ano passado, o disco ainda não tinha nome e tinha acabado de ser gravado – e as novas canções já carregavam uma qualidade ao mesmo tempo solene e solitárias. Meses depois daquele primeiro papo – depois de ele ter mostrado algumas destas novas canções no espetáculo Um Brinde à Mãe da Lua, que fez em novembro no Centro da Terra, e depois de lançar o primeiro single “Alucinações” em março aqui no Trabalho Sujo, dias antes de entrarmos em quarentena -, o mister saca o novo álbum quase que de surpresa e chega a impressionar como a atmosfera do disco conversa com o clima estranho e introspectivo desses dias de quarentena que estamos atravessando.
“É delírio meu valorizar assim a solidão”, cantarola triste o refrão de “Trinta Anos Essa Noite”, reforçando, na faixa-título, que “quando o tempo parou fazia silêncio”, enfileirando canções melancólicas que olham para dentro. “Sinto que algumas músicas conversam com o momento que estamos vivendo, talvez pelo fato de terem sido criadas num momento que eu mergulhei fundo na introspecção”, ele me conta por email. “Semanas antes de lançar o disco eu fiquei lembrando de algumas letras que batem com esse momento atual, são muitos sentimentos juntos. Quando entramos em quarentena eu fiz essa conexão com as canções logo de cara.”
É seu quinto álbum solo e o sexto que grava com a mesma formação de músicos que o acompanha desde o início da década, com Junior Boca na guitarra, Dustan Gallas no baixo e sintetizadores e Bruno Buarque na bateria e percussão (o outro álbum com o grupo foi Vida Ventureira, que dividiu com Bárbara Eugenia), sempre no estúdio Minduca, deste último. “Viramos uma banda, começamos o primeiro álbum em dezembro de 2011 e de lá pra cá nos tornamos amigos, parceiros de discos, de histórias e de estrada”, ele lembra, elencando também um quinto elemento. “O mister Lenis Rino grava com a gente desde o álbum Na Loucura & Na Lucidez, fazendo percussões, capturando o som dos discos e tá colado com a gente nos shows ao vivo.”
Ele conta como o disco começou a tomar forma. “Antes de gravar Delírios Líricos, tivemos a ideia de trazer algumas sonoridades, sensações e viagens dos discos anteriores, não foi uma coisa muito pensada, mas jogamos essa semente”, continua. “Os discos são gravados em uma semana, então é um mergulho intenso no material, buscamos manter o astral lá em cima e fazer tudo com calma. Gravamos as bases ao vivo, eu aproveito pra colocar os vocais. O Bruno Buarque sempre traz novidades pro estúdio, instrumentos e equipamentos novos que acabam entrando no disco. Essa intimidade faz com que a gente muitas vezes nem se dê conta do que estamos fazendo, flui num tipo de loucura boa.” O disco ainda conta com vocais de Bárbara Eugenia e da companheira de Tatá, Malu Maria, que ainda toca flauta na faixa “Cabeças Cortadas”, além do acordeon da gaúcha Biba Graeff em “Amoras Na Beira Do Rio” e do trompete de boca de Beto Lanterna em “O Silêncio das Serpentes”.
Pouco antes da gravação, Tatá começou a compor outras músicas além das que havia trazido originalmente para o estúdio – destas dez primeiras escolhidas, só três acabaram no álbum. “As novas músicas apareceram com muita força, mais introspectivas, mais misteriosas”, lembra-se. “Uma semana antes da gravina, me debrucei nesse novo material e fui arredondando, colocando sentimento, entortando. “Cabeças Cortadas” foi composta dentro do estúdio Minduca, durante a semana de gravação. O disco tomou uma dimensão mais solene, um pouco mais soturna, eu estava escutando muito Nick Cave, Arnaldo Batista e também rolou o fato de que quatro músicas surgiram na mesma madruga. Eu ganhei uma garrafa de pisco do amigo Carlos, integrante da banda Macabea. Numa sexta de julho, lá pelas 23h, lembrei que tinha essa garrafa de Pisco e animei tomar uma dose, peguei o violão e saiu “Alucinações” e “O Silêncio Das Serpentes”, registrei elas no gravador do celular e fui dormir. Quando deu cinco da manhã acordei cantando a melodia de “Amoras Na Beira Do Rio”, fui pra sala, peguei o violão, escrevi ela e quando terminei, veio na sequência, “Réquiem Para Um Sonho”, já era sábado, dia 20 de julho, dia que fizemos um show memorável com a banda toda na Casa do Mancha”.
No repertório, apenas uma música não é de sua autoria, “Alucinações”, de Jorge Mautner. “Eu pirei com o álbum Revirão, escutei demais e “Ressurreições” me acompanhou por infinitas caminhadas. Incluí ela nos meus sets, quando era residente nas noites de sábado no Studio SP nos anos 2008, 2009, 2010 e sempre sonhei em fazer uma versão para ela. Em 2014 eu tirei ela no violão, comecei a tocar nos shows que eu faço no formato voz e violão, e foi uma realização gravar ela pra esse novo álbum.”
Recolhido há dois meses, ele conta sobre como soube da seriedade do drama que estamos atravessando. “Tô em casa desde o dia 12 de março, depois que eu vi uma live do Torturra. Se não engano, foi no dia que foi decretada a pandemia. Me dei conta da gravidade da coisa e me preparei com a Malu Maria para esse período. A gente decidiu não sair mais”, conta. “Nas últimas semanas consegui organizar melhor as ideias, passar cada dia por vez, estabeleci uma rotina, tempo para parcerias, para escutar lançamentos, continuo lendo bastante e escutando muita música. Como eu te falei, tenho acompanhado o Climatias logo pela manhã e curtindo pacas, me dá energia e ânimo pra seguir legal pelo resto do dia. Tive um pouco ansiedade no início e para conseguir manter a cabeça no lugar estabeleci com alguns amigos, trocas de mensagens diárias, com alguns troco emails como se fosse cartas, filosofamos, falamos de música, política e várias coisas, são momentos onde deixo o inconsciente agir.”
Mas apesar dos dias enclausurados, Tatá não para. “Delírios Líricos é um álbum de canções, e já temos uma ideia para o próximo disco, que é fazer algo totalmente fora do que fizemos até agora. Já temos uma parte do material, uns anos atrás começamos a criar coletivamente no estúdio, junto com o DJ Marco, então vamos voltar nesse material que começamos a gravar com ele para produzir um material novo.”











