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Loki
Foto: Helena Wolfenson

Foto: Helena Wolfenson

“Vixe, um monte de coisa, eu tinha a turnê de lançamento do Grandeza em Portugal e mais umas 40 datas entre abril e agosto na Europa”, lembra Sessa quando o pergunto sobre seus planos para esse ano que foram atropelados pela pandemia. Quarentenado em São Paulo, começou a trabalhar nos passos seguintes após seu disco de estreia, antecipando planos e lança em primeira mão no Trabalho Sujo o primeiro single após aquele disco, “Sereia Sentimental”.

“‘Sereia Sentimental’ é uma música que eu já vinha arranjando pensando num som novo pra um próximo trabalho, é um registro de um tatear no escuro por esse som”, me explica o músico paulistano por email. “As músicas do Grandeza ficam na minha cabeça muito ligadas ao jeito que eu fiz o disco, compondo e gravando tudo meio junto, misturado, entre turnês, em sessões curtas de um, dois dias. “Sereia Sentimental” eu fui pensando, fazendo com mais calma, aconteceu essa coisa de eu usar uma bateria numa música minha que é algo que eu nunca tinha feito antes, mas veio nesse processo de caçar um som, eu ficava ouvindo esse chimbauzinho sacana…”

A bossinha molenga foi gravada em plena quarentena num processo à distância com os outros músicos, o baterista d’O Terno Biel Basile e o baixista norte-americano Mikey Coulton. “Gravei as coisas em casa aqui na Consolação com a motos passando, ai mandei pro Biel botar a bateria em cima e depois pro Mikey botar o baixo e mixar em Nova York”, ele continua. “Confesso que foi um pouco esquisito, eu nunca tive muito tesão em tocar todos os instrumentos numa música, sabe? Pra mim gravar sempre foi uma coisa de botar um monte de gente junta no estúdio pra ver onde a coisa ia dar, na bagunça. Agora teve que ser diferente, mas foi legal também. ”

Sessa, como muitos, aproveita a quarentena para uma fase inevitavelmente mais introspectiva da vida. “Tenho tentado cuidar da casa, da comida, da cabeça, do corpo e das pessoas próximas. Dias melhores e dias piores, não é? Tenho também tomado cuidado pra não ficar me cobrando pra sair desse período com um disco escrito. Acho isso meio perigoso, encarar tudo o que está acontecendo, sem nem compreendermos direito o que isso é, já é uma tarefa entanto…”, divaga.

E quando pergunto sobre o que ele está achando deste período, ele vai além: “Bom, no Bolsonaristão, acho que sempre vale reiterar que esse período apresenta um problema sério e real: tem um vírus contagioso, sobre o qual não sabemos muito, matando muita gente por ai. Ai também acho que pode ser uma janela para uma lição de humildade. Fiquei triste em ter tantos shows cancelados, e fico preocupado com a grana e a perspectiva de trabalho, é claro, mas acho que ficar focando só na falta e na perda não ajuda também. Acho que esse freio brusco na máquina do mundo é bom em certo sentido pra gente pensar pra que mundo a gente que voltar, e que seja um mundo mais justo e ecológico.” Tá certo.

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Confia em mim e diga se esse mashup de “Good Times”, do Chic, com “Rime of the Ancient Mariner”, do Iron Maiden, feito pelo Bill McClintockn não ficou demais.

E ele curte umas misturas bem infames, se liga:

E o pior é que funciona… E tem muito mais no canal dele. Dica do Danilo.

kevin-parker

O líder do Tame Impala Kevin Parker participou de uma transmissão ao vivo realizada ao lado de artistas da Oceania para arrecadar fundos para os médicos que estão combatendo a pandemia do coronavírus na Austrália e na Nova Zelândia. E em sua aparição no Music From The Home Front, que ainda teve participações Courtney Barnett, Neil Finn, entre outros artistas daquela região, ele cantou uma versão acústica para “On Track”, do disco mais recente da banda, The Slow Rush.

Não é a primeira iniciativa que Parker faz em relação à quarentena, quando lançou, no começo do mês, uma versão “ao vivo” para o mesmo disco. The Slow Rush In An Imaginary Place foi feito para ser ouvido com fones de ouvido e simula uma apresentação ao vivo, com som ambiente de plateia, para suprir a ausência da turnê do novo disco.

    kiko-thiago

    “Em São Paulo fiz como faço normalmente quando vou pra algum lugar pela primeira vez, costumo pedir pra muita gente muita música – e na bagunça que isso gera, alguma mágica começa a acontecer”, lembra o francês Vincent Moon, que está lançando uma gravação que fez com Kiko Dinucci e Thiago França em 2010 como o EP batizado com o nome dos dois, lançado por seu selo Petites Planètes e apresentado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Vou chamar isso de criar ordem através da técnica do caos. E assim o nome do Kiko aparecia bem no alto das recomendações de muita gente. Não me lembro nem se o Metá Metá já existia. Mas era bem óbvio, eu ouvia o nome dele na voz de todos, por isso decidi gravar algo com ele e na gravação ele chegou com o Thiago.”

    O registro flagra Kiko e Thiago passeando pelo camelódromo do Brás enquanto improvisa entre os transeuntes, captando toda a cacofonia do ambiente. “Esse dia foi muito louco”, lembra Kiko, “o Vincent foi lá em casa, eu dividia o apartamento com o Serginho Machado, e ele queria fazer esse vídeo, sugerindo o camelódromo do Brás. A gente se encontrou na Pinacoteca e foi andando até lá, desceu a rua das noivas ali na São Caetano e na Avenida do Estado já tinha uma entrada no camelódromo. Daí a gente entrou na feira e tocamos no meio das barracas, com a participação de ruídos e gritos, falas e sons do ambiente…”

    Kiko vinha com seu violão pendurado no pescoço e um amplificador de pilha a tiracolo e Thiago o acompanhava de perto, mas não do lado, sendo seguido por Vincent, que registrava o áudio e uma de suas alunas que filmou o percurso. O vídeo não funcionou, mas o registro sonoro é preciso: “”Alguém me disse ‘minhas memórias são minhas gravações’ – talvez tenha sido eu mesmo. Por isso não me lembro muito além os barulhos do mercado, o passeio bagunçado por aquela área, o fluxo incrível da música – quero dizer, que músicos extraordinários esses caras são! Parecia tão fácil para eles, tocar, captar a vibe ao redor e integrá-la à sua própria música…”, lembra Vincent. Kiko se empolga com a memória: “Eu lembro que eu me perdia do Thiago pelas barracas e depois reencontrava. Aí tem uma criança que sopra uma cornetinha no meio da música, gente gritando… O bagulho é caótico e a gente fez umas músicas mais agitadas, pelo camelódromo inteiro tocando – ninguém entendia nada. Foi bem louco.”

    A passagem de Vincent por São Paulo à época foi bem frutífera e rendeu ótimos vídeos, capturando o calor da cena paulistana há dezx anos. “Fui convidado para dar aulas numa escola de cinema, que foi também o motivo de gravarmos essa sessão”, lembra o cineasta. “Obviamente tudo era pretexto pra outra coisa – nesse caso, era uma fantástica oportunidade para circular, gravar todas aquelas pessoas ao redor desta cidade insana – me apaixonei à primeira vista por SP, mas foi mais uma febre urbana na época, mudei um pouco depois disso… Terminei indo pros melhores lugares de samba com a Dona Inah, filmei com Thiago Pethit no Minhocão, passeei numa noite mágica com José Domingos, fui a festas insanas com o Holger, explorei o centro da cidade com M. Takara, filmei Lulina em seu apartamento, dancei na laje do prédio de Tom Zé… Cara, foi pura mágica, sabe? Eu não acredito que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Mas, mais uma vez, é a excitação do desconhecido que motiva nossas almas aos feitos mais puros.”

    Foto: Moana Gangeni (Divulgação)

    Foto: Moana Gangeni (Divulgação)

    Mas logo Vincent se apaixonou pelo Brasil onde viveu por quatro anos até o ano passado, com base no Rio, fazendo registros de rituais transcendentais por todo o país, fazendo o projeto Híbridos, ao lado de sua esposa, Priscilla Telmon. “Exploramos profundamente a relação entre a música e o transe, a música e o sagrado em várias formas de rituais, em todo o país. Acho que filmamos cerca de 60 rituais diferentes, alguns bem pouco conhecidos – como o Almas e Angola no sul – ou bem novos – como a Fraternidade Kayman. Não dá pra se decepcionar em termos de música…”, diz, explicando porque não acompanha mais a cena contemporânea brasileira.

    “Eu lembro que uma vez, durante uma sessão de Umbandaime na praia, todo mundo sob a influência do ayahuasca, incorporando espíritos de animais”, ele lembra, traçando um paralelo entre o mundo ancestral e o moderno. “Foi maravilhoso e completamente maluco ao mesmo tempo e, de repente, eles começaram a tocar uma música do Metá Metá! Foi fantástico – nós ouvimos muito sobre a música sair do uso ritualístico para os chamados usos profanos, mas o movimento contrário é algo que está me fascinando no Brasil – e uma grande inspiração para nossa geração híbrida global, claro.”

    Pergunto sobre como anda a quarentena na França e ele responde aliviado que as coisas vão bem: “Tenho sorte, a situação na França parece razoavelmente fácil de se lidar, pois a sociedade vem desenvolvendo um sistema de saúde pública forte pelas últimas décadas, mesmo que boa parte de nossas riquezas venham da exploração de outras terras por muito tempo. E também não temos um maluco completo no comando”.

    Mas ele é cético em relação à volta para a vida que levávamos antes. “Não acho que iremos voltar ao normal, mas quem seria estúpido suficiente para desejar tal coisa? Eu acabei de publicar um pequeno ensaio sobre isso – The Nyépi-Demic – que discute as muitas questões relacionadas a possíveis evoluções da cena artística, etc.”

    Ele aproveita para explicar o que está acontecendo hoje à luz de sua pesquisa de rituais. “Muitos anciãos por todo o mundo, de diferentes origens indígenas, têm sido muito caros a passar, nas últimas décadas, para nossa geração, este conhecimento profundo – que a realidade externa e material é só um espelho do nível interior da consciência de toda nossa sociedade. É o conhecimento mais antigo da humanidade, provavelmente, você pode ler isso formulado de diferentes formas em todas os caminhos espirituais ancestrais, da Índia a Grécia, do Egito aos xamãs…”

    “O que isso quer dizer?”, prossegue. “Que a imaginação é muito mais importante do que pensamos neste nosso mundo pós-industrial. Que a imaginação é o CENTRO da realidade nesta terceira dimensão. Então é bom que imaginemos o amanhã. Para fazer isso, sugiro que paremos de ler tudo que venha da mídia de massas e que inventemos nossas ficções alternativas.”

    Enquanto a pandemia não passa, ele fala sobre o projeto que vinha trabalhando antes do surto, que quer retomar logo em seguida. “Estou tentando explorar a relação entre o cinema e os estados de transe, vibrações e o código da realidade e criar alguns protocolos de cura para longe do mundo do cinema mas mais com cara de híbridos – nós estamos começando o Teatro da Cura assim que essa pandemia começar a diminuir – uma experiência faça-você-mesmo em que as pessoas, qualquer um, nos convida para suas casas para uma sessão de música, cinema e cura. Vamos continuar a publicar todos nossos trabalhos na internet, sob licenças de código aberto, através de nosso selo de música digital e você pode conferir algumas performances recentes no site da Petites Planètes.

    jaar-2020

    O produtor chileno-norte-americano Nicolas Jaar debruçou-se por duas horas pelas raízes de seu disco mais recente, o enigmático e delicioso Cenizas, em uma transmissão ao vivo em seu canal na TwitchTV, misturando piano bucólico, Ellen McIlwain, drum’n’bass, percussão andina, música da Argélia, reggaeton, “Vitamin C” do Can, Sequentia, Juaneco Y Su Combo e até “Pai Xangô”, do Pinduca, levando-nos do espaço sideral ao centro do planeta, numa viagem que é um sonho dançante – e alguém registrou!

    X is back!

    x-2020

    A mais clássica banda punk de Los Angeles já havia dado sinal de vida no ano passado, quando lançou uma nova versão para a velha “Delta 88 Nightmare”. Os quatro integrantes da formação original da banda, o casal Exene Cervenka eJohn Doe, o baixista Billy Zoom e o baterista DJ Bonebrake se reuniram pela primeira vez em 35 anos em novembro do ano passado, quando a versão inicial tornou-se um EP com cinco faixas recicladas. Mas a empolgação continuou 2020 adentro e mesmo antes da epidemia paralisar o planeta, o grupo conseguiu gravar Alphabetland, que estava agendado para ser lançado em agosto, mas o grupo resolveu antecipar para já. A voz de Exene está ótima e a de Doe parece não ter envelhecido um centímetro, tornando a principal marca registrada do grupo – o jogo de vozes do casal-líder – perfeito mesmo 40 anos depois de lançarem o primeiro disco, produzido por Ray Manzarek do Doors. Discão!

    ceu-carinhoso

    Céu revisita o clássico “Carinhoso”, de Pixinguinha, transformando-o em um simpático reggae – o desenho da capa do single é um autorretrato da própria cantora.

    A música é uma das doze versões que a canção terá dentro de uma nova série do Netflix da Globo, Todas as Mulheres do Mundo, que ainda terá interpretações feitas por Elza Soares, Marisa Monte, Alcione, Ana Cañas, Elis Regina, Maria Bethânia, Nara Leão e mais.

    Yma submarina

    yma2020

    Depois de lançar um dos melhores discos do ano passado, a cantora paulistana Yma começa a ensaiar seu futuro próximo e lança o primeiro single após Par de Olhos nessa sexta-feira, antecipando a balada beatlesca “No Aquário” em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo. A faixa faz parte da coletânea Emaranhado, produzida pelo site Crush em Hi-Fi, que propôs uma espécie de amigo oculto entre cantores e compositores, deixando o acaso formar parcerias. A letra de “No Aquário”, composta pelo músico Lau, do projeto Lau e Eu, foi parar nas mãos de Yasmin Mamedio, que trouxe a letra solitária para o universo misterioso de Yma.

    “Esse single foi uma experiência mágica e inteiramente coletiva”, ela me explica por email. “Quando recebi a letra do projeto Emaranhado, me veio uma melodia de samba, me juntei com o Uiu e o Dreg e fizemos um sambão. Ficou interessante, mas tinha a sensação de que ainda poderia ser outra coisa. Não lembro se foi no mesmo dia, mas Dreg começou arranhar uma harmonia aqui, Uiu foi ajudando e colocando as notas no baixo ali, e eu falei que tinha que ter a onda a graça e malemolência de ‘Grilos’ de Erasmo Carlos. Logo fui soltando a melodia e voi là! Depois de um show que participei da banda de jazz do baterista Marquinho, fomos pro estúdio gravar. Pensa que a sessão de gravação começou 1h da madrugada e o Nando Rischbieter, o produtor, é uma pessoa super matinal. Acho que a parte graciosa e sonhadora do arranjo tem a ver com isso, ele já estava em outro plano naquela hora”, ri.

    Quando pergunto sobre o futuro de seu trabalho após o disco de estreia, ela se estende: “Acho que tem muita novidade em relação ao Par de Olhos. O disco tinha uma amarração, uma atmosfera de voz bem peculiar. E pra mim single é uma oportunidade de ser mais inconsequente, no bom sentido. Testar, entortar as coisas, ver no que dá… Mas sinto que mantém aquela energia surreal, onírica. Acho bem Yma. Vejo esse single dessa forma: uma experiência divertida, gostosa, ao mesmo tempo desafiadora – não foi fácil abrir mão dos efeitos do pedal de voz. É cedo dizer que indica um novo caminho… Não sei. Pode ser. Talvez… Quem sabe?”

    Ela no entanto não tem nada do segundo disco definido. “Tô compondo, sem pressa. Acho que o assunto segundo disco ainda vai pintar no horizonte. Quero experimentar e me aventurar nos singles enquanto isso. Mas é um dia por vez. Agora temos que ser criativos também para resolver a logística de se fazer música e ser artista nessas condições”, conta. Quando pergunto sobre o lançamento acontecer na quarentena, ela me conta que o lançamento já estava previsto para agora, mesmo antes do confinamento começar. “A pandemia virou tudo de cabeça pra baixo e pensei muito no que significa lançar alguma coisa neste cenário”, divaga. “Ouvi recentemente ótimos trabalhos que me trouxeram momentos de paz e alegria e me senti encorajada a seguir em frente. E acabou que a letra de ‘No Aquário’ parece dialogar com tudo isso do isolamento.”

    iggypop

    Iggy Pop resolveu dar o presente pros fãs ao completar 73 anos nesta terça-feira, ressuscitando uma versão que nunca tinha lançado para a clássica “Family Affair”, do Sly & The Family Stone, gravada em 1985 – e que contou com ninguém menos que Bootsy Collins no baixo e Bill Laswell na produção. Muito fino.

    E não custa lembrar que ele acabou de anunciar o lançamento de uma caixa de sete CDs que cobre o período que gravou dois discos clássicos na Alemanha (The Idiot e Lust for Life) sob a tutela de David Bowie.

    novos-baianos

    Com a passagem de Moraes Moreira, o Canal Brasil publica em seu YouTube a edição do programa O Som do Vinil, apresentado por Charles Gavin, dedicada ao clássico Acabou Chorare, dos Novos Baianos, com entrevista com todos os integrantes da banda, numa deliciosa recriação do universo único desse disco mágico e da relação do grupo com seu mestre João Gilberto.