A revista norte-americana de mercado Production Weekly, fechada para assinantes, anunciou em sua última edição, entre as novidades que soube em relação ao mês de dezembro deste ano, que o grão-mestre David Lynch estaria desenvolvendo uma série pra Netflix, que começaria a ser produzida a partir de maio do ano que vem no Calvert Studios, onde também filmou partes da terceira temporada de Twin Peaks. Wisteria também é referida como Untitled David Lynch Project e aparentemente é uma série com episódios sem relação entre si – e não tem nenhuma relação com Twin Peaks, como o cocriador da série, Mark Frost, fez questão de frisar no Twitter (o que não diminui a expectativa sobre uma possível quarta temporada). No meio do ano, Lynch deu uma entrevista para o site Daily Beast sobre a guinada YouTuber que o diretor deu durante a quarentena e ameaçou, de forma enigmática, que “talvez tenham coisas vindo aí que possam significar que poderei gastar menos tempo com o canal”. Lynch já começou o ano com um pé no serviço de streaming, quando lançou o curta What Did Jack Do?, em que ele mesmo interrogava um macaco.
Depois de ajudar Criolo a parir seu Nó na Oreia, dar um chão ao Metá Metá com seu baixo implacável e condensar seu lirismo em canções intimistas (em seu primeiro álbum solo Motor), Marcelo Cabral aproveitou a quarentena para enveredar pela música eletrônica. “Já faz um tempo que tenho usado o Protools como laboratório de ideias e me dei conta que estava sempre fuçando o sintetizador, sampleando e picotando tudo, mas sem fazer qualquer triagem disso, às vezes só pelo exercício de dichavar os tutorias ou só apertando e girando todos os botões possíveis pra ver onde iria dar, mas sem pensar exatamente num disco”, lembra. O canal para seu segundo disco, Naunyn, que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (e que ele antecipa mostrando a faixa “Mariannen” em primeira mão para o Trabalho Sujo.
“O sintetizador te dá todas as ferramentas. Dependendo de como você mexe num timbre, uma nota pode virar uma caixa, um chimbal ou bumbo e etc, além do banco de timbres melódicos que já vem nele. Teve um momento que comecei a curtir muito não samplear nada e criar tudo só no synth e fiz algumas assim, que ainda estão na incubadora. A música eletrônica é uma música inventiva, uma linguagem, não é apenas a intenção de querer soar e imitar um instrumento, é um som novo, um novo instrumento e com isso te leva a outros lugares e possibilidades. Curto demais isso desde sempre, é um outro tipo de transe e profundidade que os sons sintéticos chegam, que sempre me pegou muito. Tava tudo guardado só esperando a hora e por qual canal sair”, pondera.
O ponto de partida foi um sintetizador específico, que Cabral relembra seus primeiros contatos. “Por algum motivo eu já estava fuçando o OP-1 pela internet a um tempo e quando gravei em 2019 no estúdio do Bruno Buarque e dei de cara com ele ao vivo. Ele me ofereceu para fazer um test drive caseiro por uns dias. Não peguei no dia, mas isso ficou coçando isso até o começo de 2020, quando enlouqueci completamente, igual criança com brinquedo novo. Não fiz mais nada durante dias e só expremendo ele de todos os lados e vendo tutorias no Youtube, e logo veio aquela voz ‘vai salvando que tem assunto ae’, e quando vi já tinha uns 4 ou 5 esqueletos que eu tava curtindo e fiquei alimentando cada um e notei que poderia sair um disco dali”, remonta o baixista.
O disco é influenciado diretamente pela estada do baixista em Berlim, na Alemanha, onde passou um ano e meio entre 2018 e 2019. “Primeiro teve a paixão pelos sons sintéticos que curto desde sempre, mesmo bem antes de pensar em ser músico, eles já estavam presentes em muita coisa que ouvia desde muleque”, conta. “Mas sem dúvida foi a experiência dos clubs e festivais de Berlim somado as pesquisas que fiquei fazendo por lá que bateu essa instiga mesmo. Quando caiu o OP-1 na mão, foi só deixar fluir tudo isso e arrematando os cantos.”
O nome do disco vem da rua em que morava com sua companheira, a designer Manuela Eichner, durante essa estada. “É uma rua de três quadras bem no meio de Kreuzberg, tipo paralela à Augusta deles, de maioria turca e bem tranquila em meio a dois rios, Landwehr Canal e Spree, e a uma quadra do Görlizter Park e com clubs de todos tamanhos e estilos pra todos os lados. Fui muito também na Hard Wax, que ficava a duas quadras do nosso apê pra pesquisar e ficar ouvindo e fazendo cara de que ia comprar e não comprava nada, só com o Shazam ligado e anotando os sons”, lembra, rindo.
Pergunto sobre o inevitável impacto da quarentena nesta produção e Cabral reflete: “Tem uma viagem diferente e profunda em fazer um disco absolutamente sozinho, sem nem perceber emendava a tarde com noite e a noite com a madrugada, só com o fone e totalmente imerso no som, sem ninguém pra conversar, no lockdown entre março e maio, ou dispersar.”
E quando comento sobre a sonoridade oitentista do disco, que traz elementos de pós-punk, new wave e hip hop daquele período, Cabral concorda. “Não é consciente no sentido de querer fazer pra que soe de tal forma ou pertença a algo, mas no sentido ter conhecimento e vivência nestes três estilos que você citou e mais alguns se somaram. São sons que eu trago naturalmente dentro de mim da minha infância e adolescência toda andando e competindo de skate. Era o boom do pós-punk e new wave e também o começo do rap, era só o que eu ouvia, junto com punk e o hardcore. Fiquei também ouvindo e conhecendo mais do mundo techno, tanto de Detroit como do resto do mundo, mas principalmente de Berlim, além do universo do Richie Hawtin e seus projetos – Plastikman e F.U.S.E. – que já é um cara que deu uma mexida em tudo isso.”
Cabral não pensa em fazer shows com esse trabalho e vê esse disco funcionando melhor na mão de DJs. “Talvez este isolamento me traga alguma idéia de como levá-lo para o palco”, cogita, “o Motor também teve isso, eu não me via fazendo um show e cantando e depois achei este caminho que estava adorando e que espero ansiosamente voltar, então todas as possibilidades estão em aberto.”
E se Ayn Rand e Slavoj Žižek se juntassem para fazer um dueto. Dois extremos da filosofia política foram reunidos em dois duetos feitos por computador e dividem vocais em “I Got You Babe” da dupla Sonny & Cher e “Barbie Girl” do grupo Aqua.
A façanha é culpa do canal Vocal Synthesis, que coloca dispositivos de transcrição de texto para voz treinados a partir dos padrões de discursos de vários personagens históricos para colidir conceitos e criar paradoxos improváveis como esses. E o canal tem muito mais disso por lá…
“Shameika” é uma das músicas mais fortes do ótimo Fetch the Bolt Cutters que Fiona Apple lançou de surpresa no primeiro semestre deste ano – enquanto martela o piano desenfreadamente, ela relembra dos dias de escola, quando era vítima de brincadeiras pesadas de outros alunos, revidando também de forma agressiva, enquanto contava os segundos riscando-os um a um no caderno na sala de aula. Até que uma colega de classe, que nem era amiga direito de Fiona, chegou para ela e disse que ela tinha potencial. “Shameika me disse que eu tinha potencial”, repete o extático refrão que carrega o nome da música e de sua conhecida na escola. “Foi como se eu tivesse tentando mandar isso para ela de forma telepática”, Fiona contou ao site Pitchfork, “Como se eu tivesse querendo fazer que a música chegasse de alguma forma a seu cérebro, que ela tivesse um retorno… Um voto de confiança. Ou apenas um obrigada.”
Shameika Stepney, uma rapper que já se apresentou como Dollface e Chyna Doll, ficou sabendo da canção por uma professora das duas na época, Linda Kunhardt, que dizia: “Shameika, espero que esta carte lhe encontre bem durante a quarentena. Eu tive que te escrever porque eu não sei se você se lembra desta garota Fiona McAfee. Você disse para ela não dar atenção para os brigões e que ela tinha potencial. Eu só queria lhe agradecer. E queria que você soubesse que suas palavras proféticas se transformaram numa linda canção com seu nome.”
As duas se encontraram algum tempo depois e se deram bem a ponto de Fiona participar de uma nova música que a rapper lançou com seu próprio nome, “Shameika Said”.
E, por sua vez, Fiona chamou Shameika para participar de uma nova versão de “Shameika” transformada em vídeo:
Que massa.
Projeto dos sonhos de Anelis Assumpção, o Museu Itamar Assumpção finalmente saiu do papel. O projeto virtual, primeiro museu dedicado a um artista negro no Brasil, celebra a importância de seu pai e o coloca na devida perspectiva afrobrasileira, para além dos circuitos intelectuais, que o classificam como “excêntrico”, “vanguarda” ou “difícil”. Não por acaso o museu, conhecido pelo genial acrônimo MU.ITA, foi inaugurado nesta sexta-feira, dia da consciência negra, reunindo inúmeros registros sobre a vida e obra do mestre Beleléu em versão virtual e também é o primeiro museu brasileiro com tradução para iorubá. O lançamento foi marcado por um show apaixonado que Anelis assumindo fez no Teatro Sérgio Cardoso – com todos os protocolos de segurança e sem púbico, claro – cantando as canções de seu pai acompanhada por sua banda, com direção magistral de Ava Rocha. Sente o drama:
“Nosso Pai”, com Denise Assunção
“Mulher Segundo Meu Pai”
“Receita Rápida”
“Meus tempos de criança”
“Filho de Santa Maria”
“Batuque”
“Nega Música”
“Persigo São Paulo”
“Ir pra Berlim
“Que tal o impossível?”
“Milágrimas”
“Beleléu Via Embratel”
“Devia ser proibido”
Que maravilha
A cantora maltesa Yasmin Kuymizakis revisita o hit do Bananarama “Cruel Summer” com seu projeto eletrônico Joon – a versão já havia sido mostrada na coletânea After Dark 3 do selo Italians Do It Better e agora ganha um clipe pós-pandêmico…
“Strange voices are saying… What did they say?…”
Nem tudo que eu e Pablo Miyazawa gravamos no Altos Massa vai para a edição final – e como Pablo é quem edita o programa, ele foi separando conversas anteriores para essa edição sazonal que apelidamos de #tapaburaco. A conversa não segue um tema, mas de alguma forma segue, pois falamos sobre apps de relacionamentos, como lidar com o capitalismo na internet, o que podemos aprender com as plantas, shows que não perdemos, ser kitsch com orgulho, a obsessão dos fãs pelo Metallica, egoísmo, meia-idade, ficar preso no banheiro morando sozinho, lidar com doenças na família e como funcionam os canais no YouTube. Vem com a gente!
A dupla Body Music, que conta com o Rapture Vito Roccoforte na formação, põe todo mundo pra dançar com o single de “Head in the Clouds”, inspirado no mestre Roy Ayers.
Não dá pra ficar parado!
Depois de muita espera, a banda paulistana In Venus começa a mostrar seu segundo álbum, sucessor do ótimo Ruína, lançado em 2017. E Sintoma, anunciado para o início do ano que vem (e já em pré-venda pela gravadora No Gods No Masters), começa a se mostrar com o clipe filmado em VHS da faixa “Ansiedade”, uma das dez novas canções anunciadas, que vai para além da seara gótica que a banda já dominava. Rumo aos extremos noise do pós-punk, a banda entrelaça vocais berrados, riffs frenéticos, afinações dissonantes, bateria bate-estaca e visão distópica de mundo, ecoando uma versão curta e barulhenta de um 2020 claustrofóbico.
Em uma participação remota feita para o programa da radialista inglesa Annie Mac na BBC, Kevin Parker fez seu Tame Impala a revisitar o hit “Say It Right” de Nelly Furtado, em mais uma deliciosa versão ipsis literis que o prodígio australiano faz para hits do R&B contemporâneo.
E ele sempre manda bem…









