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Loki

Timbres e beats

Em mais uma incursão sonora ao cerne da guitarra na temporada Abriu o Fuzz que Guilherme Held está fazendo no Centro da Terra, a noite desta segunda assistiu não só a um encontro de dois samurais de seus instrumentos como a primeira vez em que Held dividiu o palco com Lúcio Maia, que admira desde que o conheceu nos primórdios da Nação Zumbi, ainda como ouvinte, nos anos 90. Os dois se conheceram nos bastidores da vida há anos, ficaram amigos mas nunca haviam tocado juntos, falha essa que foi corrigida na segunda noite da temporada de Held no teatro, quando, mais uma vez sob os lasers implacáveis – dessa vez geométricos – do Paulinho Fluxuz, entrelaçaram timbres, riffs e solos muitas vezes a partir de beats que Lúcio ia soltando no meio do derretimento musical que os dois proporcionavam juntos, misturando rock psicodélico com jazz, música ambient com rock progressivo e pitadas de música caribenha, africana e latina, além da banda do groove musical brasileiro. Uma viagem.

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Tudo bem, Lauiz?

Quem também lança disco esta semana é o incansável Lauiz, tecladista e programador dos Pelados que solta seu terceiro álbum, Comece por Aqui, nesta quarta-feira. Seu trabalho mais biográfico, é também o disco que mais traz referências estrangeiras – ele cita Ween, Nine Inch Nails, David Bowie “e até uma Lana Del Rey no meio”, brinca. “É um disco bem pessoal, meio frustrado com o mundo, que levou bem mais tempo pra gravar, é mais longo e mais elaborado e eu me sinto uma pessoa diferente, por mais que tente usar tudo que fiz pra chegar aqui. Afinal, como foi que eu vim parar aqui?”, continua o produtor. “Queria um disco que soasse roubado, como se nunca fosse pra ser lançado pra mais ninguém além de mim: misturo áudios e vídeos velhos no Youtube, é meio PC music e uma versão perturbada dessa estética alt-pop moderna brasileira”. Isso acaba se refletindo na capa: “Tento botar essa ironia e arrependimento capturados em um instante como alguém caindo do telhado e que joga um pouco de sangue falso pra chamar a atenção.” O disco tem participações de seus colegas de banda (Helena Cruz toca em “Comece por Aqui”, Theo Ceccato toca em “Linus Torvalds”, Vincente Tassara em “Nada Direito” e Manu Julian em “Estados Unidos”), além das presenças de Ricardinho Tubarão, Lucas Filmes, Pedro Acost (da banda Bella e o Olmo da Bruxa) e o primo de Lauiz João Barisbe, que toca sopros na faixa “Na Lagoa”, que ele antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo.

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Eis que finalmente Animal Invisível estará entre nós essa semana. O projeto pandêmico do guitarrista gaúcho Guri Assis Brasil que tornou-se uma usina de groove tropical com três singles lançados (“Dendê”, “Didi” e “Que Delícia é Viver”) vê a luz do dia na próxima sexta-feira com a bênção do selo nova-iorquino Nublu – e Guri antecipa a capa em primeira mão para o Trabalho Sujo. “A ideia era brincar com algo que fosse ‘invisível’ mas que estivesse ali o tempo todo, como foi o vírus que que destruiu a vida de tanta gente na pandemia”, explica o guitarrista, contando que a capa foi assinada por seu chapa Rafa Rocha que cuida de toda a parte visual do trabalho. Guri reforça que apesar do período sombrio que o disco foi gestado, ele vem como uma força antagonista a isso. “Ele é solar, dançante, bem distante da tristeza e angústia desses tempos pandêmicos e acredito que seja por isso que o Rafa escolheu aquela tonalidade de azul”, continua o guitarrista, explicando o vidro canelado usado para que seu retrato não tivesse definição, rosto ou silhueta, “e também brincamos de escrever o nome do projeto em japonês, já sou admirador profundo desta cultura e sempre quis ter algo assim. Uma idéia simples, que dialoga demais com o disco.” Rafa conta que a liberdade dada pelo camarada ampliou muito a ideia do projeto, pensando em como dar forma à ideia do invisível, “através de distorções reais, explorando lentes, vidros e superfícies translúcidas dentro do estúdio, criando imagens que se fragmentam e escapam do esperado”, explica o artista, reforçando a natureza não digital da capa. “Esse jogo entre aparecer e desaparecer, entre controle e acaso, guiou todo o processo”, continua, “por isso escolhemos um caminho físico e analógico, deixando espaço para que a imagem acontecesse de verdade, com todas as imperfeições e surpresas que vêm junto com isso.” O disco será lançado na próxima sexta e tem inspiração em viagens instrumentais de maestros brasileiros como Arthur Verocai, Marcos Valle, João Donato, Banda Black Rio e Moacir Santos, incluindo um quarteto de cordas.

Desde o começo do ano corre solto o boato que os Rolling Stones estariam preparando mais um novo álbum para começar mais uma nova turnê no meio deste ano e há algumas semanas algumas pistas começaram a aparecer – tanto na internet quanto nas ruas inglesas, em cartazes espalhados com um QR-code – ligando o grupo a uma banda chamada The Cockroaches (“As Baratas”, em inglês). O nome já foi usado pelos Stones em 1977, quando, promovendo o disco que haviam lançado um ano antes (o ótimo Black & Blue), se apresentaram após o show da banda canadense April Wine com este pseudônimo no clube El Mocambo, com capacidade de apenas 300 pessoas, em Toronto, no Canadá (show que foi lançado pelo grupo como o disco ao vivo El Mocambo 1977, em 2022). O QR-code dos cartazes levava para o site thecockroaches.com que, além de vender uma camiseta com a pergunta “WHO THE FUCK ARE THE COCKROACHES?” no mesmo padrão da camiseta que o guitarrista Keith Richards usava nos anos 70 para tirar onda com o vocalista Mick Jagger, também anunciava que no sábado haveria uma revelação – esta veio na forma de coordenadas geográficas em que era possível encontrar um automaticamente raro vinil da banda em questão, nada menos que os próprios Stones com um single que, pelo que se consta, chama-se “Rough and Twisted”. É uma música no padrão clássico do grupo, mostrando-o afiado mesmo aos 64 anos de carreira. Ainda não há informações sobre o lançamento oficial do single, sobre o novo disco ou sobre a nova turnê. Mas é questão de tempo…

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Um dos maiores clássicos do cinema de horror italiano e a obra-prima do mestre Dario Argento volta às telonas em versão restaurada em 4K. Suspiria, que completará 50 anos no ano que vem, é o melhor exemplo do terror giallo, gênero lapidado pelo gênio precoce italiano que, depois de explorar o suspense hitchcockiano em três filmes notáveis (O Pássaro das Plumas de Cristal de 1970, O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Azul, ambos de 1971), passa a trabalhar com o horror gore, mostrando mortes trágicas e gráficas com cores saturadas, o que se tornou uma característica deste novo formato, iniciado com o ótimo Profondo Rosso (título que explicita seu novo apreço pelas cores – “vermelho escuro” em italiano, que no Brasil saiu como Prelúdio para Matar) de 1975, seguido por Suspiria, que a princípio parece um filme B sobre uma suspeita uma escola de balé que revela-se um antro de bruxas, mas que provoca o espectador justamente por parecer uma película de baixo orçamento (e falado em inglês – mal dublado -, embora apenas a protagonista Jessica Harper originalmente fale esse idioma). Sem contar a trilha sonora absurda do grupo prog italiano Goblin, uma das melhores trilhas de terror já feitas. Suspira chega aos cinemas brasileiros no dia 23 de abril, mas no dia 17 o CineSesc aproveita a nova versão para lançar o Ciclo Dario Argento, que além do filme de 1977 ainda exibirá O Pássaro das Plumas de Cristal, O Gato de Nove Caudas, Prelúdio para Matar, Tenebre (de 1982), Phenomena (de 1985) e Terror na Ópera (de 1987). O relançamento também trará um mimo exclusivo para os fãs, quando o filme será lançado pela primeira vez no país, acredite, em VHS, em uma edição que contará com apenas 100 cópias e estará à venda apenas nas lojas FAMDVD, The Originals e Bazani Geek Store. Imperdível!

O clássico grupo português Buraka Som Sistema anunciou seu retorno às atividades no meio do ano passado, quando disseram que fariam o primeiro show em dez anos no festival Nos Alive, na capital de seu país, no dia 11 de julho deste ano. Apesar de nascido em Portugal, o grupo, que tornou o gênero angola kuduro uma sensação global, é formado por integrantes de diversos países e acaba de lançar “Puro Mambo”, single que marca a volta com sua formação clássica do longo hiato iniciado em 2016: o angolano Kalaf Epalanga, hoje incensado escritor que antes rimava no grupo com seu outro sobrenome, Kalaf Ângelo; o português João Barbosa, mais conhecido como Branko; a cearense Blaya, nascida Karla Rodrigues, que começou como dançarina mas logo passou a cantar; o cubano criado em Angola Andro Carvalho, que tornou-se conhecido como Conductor; e o português Rui Pité, que apresenta-se como Riot. “Puro Mambo”, lançado nesta sexta, é o início de uma série de celebrações ao redor do grupo: além de ser a primeira música lançada em doze anos e de marcar a volta aos palcos dez anos depois do último show, também comemora os 20 anos da gravadora Enchufada, criada por eles mesmos pra lançar seus próprios discos. E o show em Portugal não será único – e eles já estão anunciando shows em outros países. Será que chega ao Brasil?

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Falei outro dia do novo grupo pernambucano Mayara Iara Dimitria e elas liberaram em primeira mão para o Trabalho Sujo a íntegra da live que gravaram no Estúdio Casona, no Recife. Entre a psicodelia, o experimental e o indie rock, o trio formado por Iara Adeodato (guitarra), Mayara (synth) e Dimitria (bateria) é o primeiro lançamento do novo selo Precarian Tapes, do Benke Ferraz, guitarrista dos Boogarins. Elas já estão marcando mais shows e devem começar a rodar pelo Brasil em breve…

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A Roberta Martinelli faz a curadoria do Night Lab,uma noite em que ela reúne personalidades para celebrar um tema no Sesi Lab da minha cidade, em Brasília, e me convidou para participar da 27ª edição do evento, que acontece nesta quinta-feira, 9 de abril, quando discoteco antes do show da Ana Frango Elétrico, que acontece no mesmo local. O tema da noite é alimentação e ela me desafiou a fazer um set só com músicas que falem de comida – e encaro essa com fome de fazer todo mundo dançar. A noite ainda conta com oficina sobre fermentação de bebidas e uma conversa poética com Bel Coelho e Bruna Crioula. Os ingressos já estão à venda.

“Feixe de Fogo é um disco em trânsito”, me explica Buhr sobre seu quinto álbum, o primeiro em que adota apenas seu sobrenome como nome artístico, que chega ao público nesta sexta-feira, e marca mais um lançamento brasileiro de 2026 que indica a ótima safra que vem sendo colhida este ano. O fogo do álbum já vinha aquecendo com o lançamento do primeiro single, “Ânsia”, e agora tem mais uma amostra com o clipe da faixa-título, antecipado em primeira mão para o Trabalho Sujo. O trânsito que se refere não é apenas o de gênero, uma vez que assumiu-se uma pessoa não-binária (daí a troca de nome), mas também pelo fato de ter sido feito em diversas cidades: “Foi gravado de forma independente, por quase dois anos, entre Fortaleza, Sobral, Salvador, Recife e São Paulo, em dez estúdios diferentes”, reforçando que a natureza do disco juntou pessoas de todos esses lugares e além. Produzido por Buhr e Rami Freitas (que toca vários instrumentos no disco), Feixe de Fogo conta com participações de nomes diferentes e conhecidos como Fernando Catatau, Arto Lindsay, Josyara, Regis Damasceno, Russo Passapusso, Edgard Scandurra, o maestro Ubiratan Marques, os baixos de Mau, Izma Xavier e Dadi, os synths de Susannah Quetzal e de Briar Aguarrás, entre outros. . “O momento de escolher a ordem do disco também foi cheia de caminhos, onde botar ‘70 Cigarros’, que é cena de novela, e ‘Oxê’, quase prima da Comadre Fulozinha, que são bem fora da curva das outras? Mas aí são muitas curvas no disco e elas foram se encaixando muito bem”, lembra da natureza mutante do disco. “Eu trocando mensagens com Arto Lindsay, que também tem asas nos pés, e a gente combinando de se achar em alguma dessas cidades – conseguimos em São Paulo! Negadeza, Josyara e Dadi gravando do Rio, me mandando e perguntando ‘tá bom?’”. O disco está nessa vibe – inclusive de astral.

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Ave Varda!

Fila pra pegar fila pra pegar senha pra pegar ingresso: era inevitável que o encontro de Juçara Marçal com a obra da fotógrafa e cineasta Agnès Varda no Instituto Moreira Salles iria causar uma procura gigantesca de curiosos querendo ver as conexões entre estas duas forças artísticas – e a cantora carioca reverenciou a diretora francesa, pioneira da nouvelle vague e falecida em 2019, como gesto final da exposição imperdível (que fica só até domingo, se liga) no próprio IMS, numa programação que o instituto chamou de “comentário musical”, numa esperta justificativa para contrapor autoras distintas – e semelhantes. A própria Juçara contou que teve um certo ceticismo quando recebeu o convite, mas ao mergulhar na obra de Varda, encontrou vários pontos em comum com a sua obra: a atenção ao cotidiano, o olhar voltado para o efêmero, a atenção para o oprimido e o ponto de vista aguçado sobre as conexões da África com o mundo moderno. Dividida em três partes, a apresentação começou com Juçara cantando “Poeira” (de Mariana Aydar e Nuno Ramos) e emendando-a com a sua “Odoyá” e com um ponto pra Oxum, antes de puxar duas canções de uma cantora negra francesa retratada por Vardas, Toto Bissainthe, de quem cantou “Papa Loko” e “Lamize Pa Dous”. Sempre acompanhada de seu compadre Kiko Dinucci na guitarra e da irmã Juliana Perdigão no sax e clarinete, que criavam ciclos musicais repetidos, deixando Juçara à vontade para disparar samples e soltar efeitos. Finda a primeira parte, foi exibido o curta A Ópera-Mouffe (1958) sem a participação dos músicos, que voltaram na parte em que Juçara conectou outra musa inspiradora – Brigitte Fountaine, artista tema de um espetáculo que ela faz com Kiko e a pianista Thais Nicodemo, que também trabalhou com Vardas. Nesta parte cantou o hit “Comme à La Radio” e outra chamada “Brigitte”, entremeando-as com a indefectível “Oi Cats”, do poeta carioca Tantão. E depois da exibição do documentário Os Panteras Negras (1968), ela arrematou a noite com uma sequência arrebatadora de canções brasileiras que cantam “estratégias de resistência” do povo afrodescendente no país, enfileirando uma versão absurda para “Negro Drama” dos Racionais (que ela já havia gravado com seu antigo grupo Vésper Vocal, no disco Ser Tão Paulista, em 2004), outra para “Vela no Breu” do Paulinho da Viola e arrebatando com “Batuque”, de Itamar Assumpção, que terminou com o escárnio do velho Ita à lei áurea assinada pela Princesa Isabel: “Papé!” Que noite!

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