Coluninha do 2 de domingo.
Uma nova trilogia
George Lucas e o sonho de Hitchcock
No fim de semana passado, na convenção C2E2 em Chicago, nos EUA, o diretor de relações com fãs da Lucasfilm, Steve Sansweet, deixou escapar uma ponta de esperança para os fãs da maior saga da história do cinema, Guerra nas Estrelas. Ao responder a questões de fãs sobre os lançamentos dos filmes em Blu Ray, ouviu uma pergunta sobre possíveis “novas aventuras depois do Retorno de Jedi (o terceiro filme da série) com nossos personagens favoritos, Luke, Han e Leia”. Sem pestanejar, ele respondeu: “E você verá, com um novo tipo de animação.”
Guerra nas Estrelas (1977) mudou completamente a história do cinema e do entretenimento do fim do século passado ao colocar o fã como prioridade. Assistente de Francis Ford Coppola, seu criador George Lucas começou a chamar atenção quando seu segundo filme,
Lucas não deixou barato. Imaginou um filme que tivesse a sensação de ficção científica sem que necessariamente fosse cientificamente verossímil. Sua intenção era recuperar a excitação que tinha ao frequentar as matinês de sua infância, em que sagas espaciais como Flash Gordon, aventuras de capa e espada como as de Robin Hood e filmes sobre a Primeira Guerra Mundial faziam crianças e adolescentes delirar na sala escura.
Depois da nouvelle vague francesa nos anos 60, o cinema tornou-se sério e adulto e perdeu o encantamento daqueles dias. Lucas recuperou estes elementos em uma história que muitos achavam que ia dar com os burros n’água. Gastou a maior parte do orçamento de US$ 10 milhões em efeitos especiais e deu maior ênfase a naves, alienígenas e robôs do que a atores. De quebra, conseguiu os direitos de marketing dos filmes e – com o sucesso da saga – fatura alto até hoje com a venda de produtos licenciados.
Tímido, George Lucas enfrenta até hoje a crítica de que é um péssimo diretor por não saber lidar com pessoas. A atriz Carrie Fischer, que vive a princesa Leia, ironizava nos bastidores que o elenco humano era conhecido como “efeito especial de carne”.
E desde o segundo filme, O Império Contra-Ataca (1980), começou uma lenta mudança ao transformar bonecos em atores, ao criar o guru alien Yoda. Quando resolveu fazer a segunda trilogia de filmes (1999- 2005), criou outros tantos personagens em animação computadorizada e, com a anunciada nova trilogia, deve levar isto às últimas consequências, dispensando atores para usar apenas computação gráfica.
Não é apenas um capricho de um nerd que se tornou ícone de várias gerações. Filmes sem atores remetem à máxima de Alfred Hitchcock, que dizia invejar Walt Disney. “Quando ele não gosta de um ator, simplesmente o apaga.” Agora George Lucas pode tentar realizar a tão sonhada utopia do mestre do suspense.
• Site arqueológico • E o dia-a-dia vira história • Digitalização recupera registros do passado • Simpósio sobre acervos terá transmissão online • Máquina do tempo• Personal Nerd: Guerra nas Estrelas • Acta: o acordo que pode mudar a web • Membros do 55chan atacam Estadão• Uma questão complicada: o anonimato na internet• Vida Digital: We Feel Fine •
• Feio, sujo e surreal • ‘Criei o 4chan aos 15 anos’ • Zoológico bizarro • Onde nascem e vivem os memes brasileiros • A história contada por meio de tweets • A biblioteca na era digital • Qual será a próxima música? • Google na América Latina • Personal Nerd: Turbine seu Gmail • Observatório da Web monitora candidatos em sites e redes sociais • Vida digital: Jamie King • Como funciona o Vodo.net •
Minha coluninha que saiu ontem no Caderno 2…
Os blues dos anos 10
O drama do LCD Soundsystem
Às vésperas de lançar seu terceiro disco em maio, o grupo nova-iorquino LCD Soundsystem fez um show surpresa no Webster Hall, em sua cidade-natal, na última segunda-feira. Em dado momento da apresentação, o líder e vocalista da banda, James Murphy, caiu de joelhos no palco e se dirigiu ao público com seriedade. “Se você receber uma cópia do disco e tiver vontade de compartilhá-la com mundo, por favor não faça isso”, disse. “Passamos dois anos fazendo este álbum e queremos lançá-lo quando acharmos que é a hora de lançá-lo. Não estou preocupado com o dinheiro – depois que o disco for lançado, você pode dá-lo de graça para quem você quiser, mas até lá, guarde-o consigo.”
O desabafo vem de um dos artistas que melhor souberam usar a internet para se estabelecer. Mais do que um simples astro lançado no MySpace, o LCD Soundsystem se lançou em singles que foram distribuídos primeiro via MP3 e depois foram remixados por DJs e produtores tanto do selo de Murphy (a DFA) quanto de fora – remixes que corriam a internet afora.
Oito anos depois de lançar sua primeira música (“Losing My Edge”), a banda cresceu o suficiente para se incomodar com aquilo que antes foi seu principal canal de divulgação.
Não é exclusividade deles. Grande parte da geração que se estabeleceu graças à internet agora se vê às voltas com os mesmos problemas dos artistas que já eram grandes quando a internet se popularizou. Em entrevista à revista Rolling Stone brasileira, o vocalista do Franz Ferdinand, Alex Kapranos, comentou que a cantora “Lily Allen foi destruída pela imprensa por dizer que as bandas mais novas sofrem mais com isso”.
Ouvindo This is Happening, o terceiro disco do LCD Soundsystem, percebe-se que a tensão inquieta dos anteriores segue presente, mas misturada com uma tristeza e desilusão que não havia antes. Talvez James Murphy esteja sentindo um novo tipo de blues, uma tensão digital típica dos novíssimos anos 10.
“Cortem a cabeça!”
Alice no iPad
A versão de Tim Burton para o clássico Alice no País das Maravilhas estreia na próxima quarta no Brasil, mas a menina entrou em outro ambiente fantástico na semana passada. Alice in the iPad é um aplicativo em que é possível ler o livro de Lewis Carroll com ilustrações em movimento, que invadem o texto e mudam conforme se mexe com o aparelho, deixando o leitor tão perdido quanto Alice. O aplicativo custa US$ 9.
O episódio da semana do South Park foi o gancho da minha coluna de domingo no Caderno 2.
“Minha avó no Facebook”
A criação de um ambiente virtual
“Até a minha avó está no Facebook!”, comentou com espanto o repórter Filipe Serrano durante o fechamento do Link da semana passada. Na quarta-feira anterior, nos EUA, o desenho animado South Park dedicava um episódio inteiro (You Have 0 Friends) à maior rede social do mundo – e o personagem Stan também ficava impressionado com o fato de suas tias e parentes mais velhos também terem perfis no site.
Criado em 2004 pelo estudante de Harvard Mark Zuckerberg, o site é uma rede social nos moldes do Orkut, só que com layout elegante e uma série de funcionalidades que o transformam em mais do que uma mera rede de relacionamentos.
Ancorado nos aplicativos (pequenos programas criados para rodar dentro do site), o Facebook é uma espécie de ambiente virtual, semelhante ao Windows. Nesse sentido, a grande diferença é que, como o sistema operacional da Microsoft foi criado antes da popularização da internet, foi criado para ser utilizado por uma pessoa por vez, sem conectar-se às outras – é um recinto quase privado. O Facebook age como um grande Windows online, que conecta estes universos virtuais em uma grande área de comunicação e troca de informações e experiências. “Queremos que as pessoas não precisem sair do Facebook para fazer o que quiserem na internet”, me disse seu criador quando veio ao Brasil em agosto do ano passado.
E o site é todo organizadinho. Sua interface clean facilita entender todos os níveis de interação da rede social. É isso que tem tornado o Facebook tão forte e onipresente. Ao contrário do Orkut, do Twitter ou do MySpace, que exigem que o usuário gastasse algum tempo online para entender a lógica por trás dos sites, o Facebook é didático e facilita a vida de quem não queria estar online, mas teve de mudar de planos por motivos óbvios.
Para quem vê de fora, o site parece uma alegoria da vida real, ironizada no episódio de South Park – em certa passagem, o pai de um personagem questionava a amizade com o filho só pelo fato dos dois não serem amigos no Facebook. Mas, seja na rede de Mark Zuckerberg, seja no Google ou em contas de redes fechadas como as da Apple, Nintendo, Sony ou Microsoft, é através dessas redes que aprendemos como funcionará a cultura e a sociedade num futuro próximo.
Por isso, não se espante se a sua avó aparecer no Facebook. Ela não está querendo ser moderninha – ela só percebeu que é na internet que as pessoas se comunicam, se divertem e se informam hoje em dia.
No mural
O Estado de S. Paulo e o Link também estão lá
E por falar em Facebook, esta semana foram inauguradas as páginas do Estado de S. Paulo e do caderno Link na rede social. Ao se tornar fã da página, você passa a acompanhar as notícias publicadas pelo jornal e por seu suplemento de cultura digital direto em seu perfil no site, além de poder comentar e discutir os assuntos abordados nas reportagens. Para adicionar as páginas à sua conta no site é só clicar em http://www.facebook.com/estadao e http://www.facebook.com/linkestadao.
Tudo online
Southparkstudios.com
No ar desde 2008, o site South Park Studios é uma aula de como a televisão pode usar a internet a seu favor. Todos os episódios da série estão disponíveis em streaming – até mesmo “You Have 0 Friends”, que acabou de ser exibido nos Estados Unidos.
• Sem teclado nem mouse • Mudança começou com celular • Quando a tecnologia vira sexto sentido • Os rumos do comando • Meio termo: mouse com supefície tátil • Controle na ponta dos dedos • Análise: Um à frente, dois para trás • Análise: iPad eleva nível da disputa• Projeto de lei do Marco Civil aumenta as responsabilidades dos usuários • Entenda o Marco Civil da internet • A cultura sob a ótica do copyright • A linguagem da internet é o HTML • Vida Digital: Tiger Woods
Eis meu texto de abertura do especial que fizemos pós-iPad no Link desta semana.
Sem teclado, nem mouse
A chegada do iPad é mais um degrau nas mudanças na forma de lidar com o computador. Touchscreen e sensores de movimento são só algumas das tecnologias que já existem
iPad, iPad, iPad. Desde o lançamento do tablet da Apple parece que não se fala em outra coisa quando o assunto é tecnologia, cultura digital ou comunicações. Lançado no início deste mês, o aparelho correspondeu às expectativas que o acompanham desde quando ele era só um rumor que ganhou força no final do ano passado, e só na primeira semana quase meio milhão de iPads foram vendidos.
Longe de ser uma unanimidade, o aparelho sublinha uma mudança maior do que a festejada pela Apple e seus fãs. Afinal, ele é um dos primeiros candidatos a substituir o computador pessoal abrindo mão de dois acessórios que o acompanham desde sua criação: o mouse e o teclado.
Essa mudança começou, não custa frisar, com o iPhone: foi o celular da Apple que levou ao abandono do conceito de telefone, substituído pelo de computador de bolso – o que alterou, inclusive, a forma como a internet se organiza, com a popularização dos aplicativos.
Mas entre o iPhone e o iPad, outras empresas apresentaram novidades que estão mudando completamente a forma de interação com as máquinas digitais.
Touchscreen e sensores de movimento aos poucos tornam a interação com o que está na tela mais intuitiva, menos burocrática e mais natural, liberando as mãos de quem tem de lidar com os aparelhos, sejam eles celulares, notebooks, netbooks ou tablets. Nesta edição, aproveitamos o furor em torno do iPad para falar sobre isto.
• E agora, lan house? • Deputados discutem regulamentação • Inclusão social e digital na prática • Aprendendo com os piratas • Chatroulette nos lembra da natureza aleatória da internet • O iPad de duas caras • Uma orquestra de laptops no ABC • YouTube e Twitter de cara nova • Peças em streaming. Dá certo? • Nuvem suja • App Store no Facebook • Mapa do 3G • Vida Digital: Charles Martinet •
Minha coluna no Caderno 2 de domingo foi sobre o iPad.
Um player de notícias?
O que a Apple quer com o iPad
Começou. Mais uma vez a Apple se dispõe a reinventar um nicho do mercado digital a partir do lançamento de um aparelho. A empresa já fez isso com o MP3 player e com o telefone celular, ao apresentar os aparelhos ao mercado sob os nomes mágicos de iPod e iPhone.
O primeiro tornava fácil e prática a utilização de um tocador de MP3 portátil graças à interface sofisticada característica dos produtos da empresa. Mas a arma secreta do aparelho era uma loja virtual em que era possível comprar música digital às pencas – ou melhor, às faixas. A iTunes surgiu logo depois que a indústria do disco optou por lutar contra a internet em vez de abraçá-la, no início do século, quando processou seus clientes que baixavam discos de graça graças ao software Napster.
E ensinou ao mercado norte-americano – e, posteriormente, ao mundo – que música online não era sinônimo de pirataria. O que, logicamente, fez com se vendesse cada vez mais iPods.
O mesmo aconteceu com o iPhone, quando a Apple transformou o acesso à internet em um recurso básico para a telefonia móvel. E o iPhone não era apenas um BlackBerry para não-executivos – o aparelho também levava para as massas o conceito de aplicativos, pequenos softwares que fazem operações específicas usando a internet.
E assim o telefone virava um dispositivo que pode encontrar seu carro no estacionamento de um shopping, descobrir que música está tocando na estação do metrô ou quais restaurantes ficam mais próximos do hotel em que você está. Como com o iPod, a Apple também lançou um ambiente virtual para reunir estes aplicativos – a App Store.
E agora, com o iPad, lançado ontem nos Estados Unidos, espera-se que o mesmo aconteça com outros tipos de conteúdo, principalmente editorial. Mas não é uma briga com o Kindle, que segue exemplar para a leitura de livros monocromáticos. O novo aparelho da Apple quebra as barreiras entre livro, site, blog, revista, jornal, rádio e TV e propõe à geração produtora de conteúdo editorial – profissional e amadora – a repensar o ambiente em que nos informamos e nos entretemos. Se irão conseguir é outra história.
O Google é conhecido por suas piadas de 1º de abril, mas elas são amadoras se comparadas às da loja online ThinkGeek.com, que todo ano lança produtos falsos para brincar com seus compradores. Este ano, além de um despertador inspirado na série Lost e de um porta iPad que lembra um fliperama, a loja anunciou este “bonequinho” ao lado – o monólito do filme 2001, de Stanley Kubrick, para colecionadores. Genial.
Photoshop para todos
A arte do século 21 em um software
Quem acompanha o mundo digital se surpreendeu na semana passada quando a Adobe revelou um novo recurso de seu tradicional programa de edição de imagens chamado “content-aware fill” (preenchimento com reconhecimento de conteúdo, em inglês).
Para quem não conhece, o Photoshop é o software de edição de imagens mais popular do mundo. Ele não apenas permite que se retoque ou melhore imagens depois de produzidas como também é ótimo para fazer montagens – algumas ficam tão boas que parecem que sempre foram assim. Essa manipulação já está tão incluída no inconsciente coletivo que, sempre que uma imagem parece bonita demais, ela vem seguida do comentário “rolou Photoshop, hein?”.
Voltando ao anúncio da semana, o novo recurso permite que os retoques se tornem automáticos. Nas versões anteriores, se você quisesse, por exemplo, tirar as celulites da coxa de uma mulher, bastava copiar um trecho da pele dela e ir repetindo-o várias vezes, cobrindo as deformações originais – num trabalho árduo, que, literalmente, dura horas. Com o preenchimento automático, basta você selecionar o pedaço que você quer mudar, escolher a função e, em questão de segundos, a mudança é feita.
A Adobe não confirma se o novo recurso virá na versão que foi anunciada para o próximo dia 12, mas garante que será implementada em atualizações futuras desta versão. A novidade deve melhorar, e muito, a qualidade do trabalho de designers, ilustradores e publicitários que lidam diariamente com o programa. Mas a melhor notícia desta mudança não é para eles – afinal, têm estagiários e funcionários que viram noites para fazer tais alterações.
Quem se beneficiará mesmo com o novo recurso são amadores, gente que mexe no Photoshop de brincadeira, para matar o tempo e divertir amigos. São pessoas que já fazem isso, mesmo com poucos recursos e sem intimidade com o software, mas que já mexem na paisagem cultural do novo século.
São montagens com personalidades, desconhecidos que se tornam onipresentes (procure “tourist guy” ou “disaster girl” no Google Images) e mashups de imagens de diferentes contextos. Parece brincadeira, mas no início do século 20, o cinema e o fonógrafo também pareciam. Foi preciso a intervenção da tecnologia para que ficasse mais fácil produzir músicas e filmes. E lá vem ela de novo…
“It’s a trap!”
Livros furados por um sabre de luz
Quem quer um sabre de luz para furar os livros na sua estante? E nem é preciso usar a Força para recuperá-los. A loja do site oficial de Guerra nas Estrelas lançou nesta semana este conjunto de aparadores de livros que faz que a clássica espada de Darth Vader (sabre vermelho, caso você não lembre) pareça que está atravessando sua biblioteca. O conjunto custa US$ 49,99 e já está à venda no site http://shop.starwars.com.














