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Jornalismo

Uma das bandas mais importantes da cena independente dos anos 80 nos Estados Unidos também era uma de suas bandas mais perigosas. O grupo foi alvo de um dos melhores documentários sobre bandas de rock já feitos, o inacreditável The Hole Truth And Nothing Butt, lançado este ano, em que as histórias escabrosas do grupo são contadas por eles mesmos com sordidez e dor ao mesmo tempo em que o diretor Tom Stern faz o próprio grupo olhar para o abismo que os transformou naquele caos agressivo em movimento em um filme doloroso e apaixonado. Os remanescentes do grupo – o vocalista Gibby Haynes, o guitarrista Paul Leary, o baixista Jeff Pinkus e o baterista King Coffey – não se reencontravam desde o último show em 2016, quando desistiram de apresentar-se ao vivo por cansaço, cogitando a possibilidade de fazer um último disco no ano seguinte, sem sucesso. A banda se dissolveu sem anunciar um fim e voltou a se rever justamente por conta do documentário de Stern, que entrevistou todos eles e contou com a participação de todos na divulgação do filme. O que culminou com a estreia comercial do documentário – que até então só estava sendo exibido no circuito de festivais, inclusive no brasileiro In Edit deste ano -, que aconteceu nesta terça-feira quando, após a exibição no Egyptian Theatre, em Hollywood, na Califórnia, o grupo voltaria a se encontrar para um bate-papo com o diretor, mas que acabou culminando na primeira apresentação ao vivo do grupo em oito anos, quando tocaram “Cherub”, “The Colored FBI Guy” e “The Shah Sleeps in Lee Harvey’s Grave” para deleite e incredulidade dos presentes – ainda mais que o grupo esteve recusando ofertas de centenas de milhares de dólares para voltar aos palcos. Tomara que eles voltem de vez, mesmo sabendo que, como sempre, será outra dose de mais pesadelos na estrada.

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Claudia Cardinale, sinônimo de musa, de mulher independente e do cinema italiano, nos deixou nesta terça-feira, aos 87 anos. Joia da cultura da Itália apesar de nascida na Tunísia, La Cardinale surgiu como deusa idealizada pela sétima arte nos anos 70, foi a partir de 1963 que atingiu um novo patamar, ao estrelar, quase que simultaneamente, dois monumentos do cinema da península mediterrânea erigidos por dois de seus maiores nomes: o épico O Leopardo de Luchino Visconti e o pós-moderno 8 e 1/2, obra-prima de Federico Fellini. Estrelar estes dos dois filmes a elevou a um patamar que apenas Sophia Loren, entre suas conterrâneas contemporâneas, teve neste mesmo período. Foi a partir destes dois filmes que parou de ser dublada (os diretores anteriores tinham vergonha de seu sotaque, abraçado pelos autores dos dois filmes citados) e começou a usar seu estrelato como uma forma de mostrar como uma nova mulher estava pronta para surgir e dominar o mundo, longe da família, maternidade e afazeres domésticos. Esta fama a leva para os EUA naquele mesmo ano, quando realiza o primeiro filme da série A Pantera Cor de Rosa (de Blake Edwards, com Robert Wagner, Peter Sellers e David Niven) e torna-se um nome recorrente em filmes do período. Sua fase áurea terminou com Era uma Vez no Oeste, de 1968, Sergio Leone, mas ela seguiu fazendo filmes e recusando-se a fazer cirurgias plásticas ou intervenções cosméticas para disfarçar a idade, atuando ao lado de Brigitte Bardot, outro ícone do período, no faroeste As Petroleiras (1971), e sob a batuta insana de Werner Herzog em seu épico amazônico Fitzcarraldo (1982). Defensora dos direitos das mulheres desde cedo, ela foi mãe após ser vítima de um estupro ainda adolescente e teve de fingir nos primeiros anos de sua carreira que seu filho era seu irmão mais novo – e sustentá-lo foi o motivo de aceitar trabalhar no cinema. Ao assumir a maternidade após ter se tornado um nome de peso na indústria de seu país, ela passou a vocalizar necessidades e exigências femininas na década em que transformações sociais eram impostas pela base da sociedade. Ela trouxe essas discussões para o cinema, principalmente nos bastidores. E morreu cercada pelos dois filhos, Patrick e Claudia, que nasceu após o casamento com o diretor Pasquale Squitieri, falecido em 2017, que considerava seu único amor.

Linda a apresentação que Lea Taragona fez nesta terça-feira no Centro da Terra, quando trouxe o novo repertório de seu projeto solo Dibuk ancorado por uma banda azeitadíssima formada por Elke Lamers no baixo, Vitor Wutzki tocando violoncelo e Guilherme Paz na bateria. No espetáculo Uivo, ela pode reger seu pequeno e forte conjunto a partir de seu violão minimalista e sua bela voz, puxando melodias que podiam ser mínimas e delicadas ou intensas e expansivas, contando com o silêncio tácito do público cúmplice, que deixava canções escorrerem de uma para outra sem a interrupção das palmas, mantendo o clima reverente e apreensivo por toda a apresentação, que ainda contou com o belo desenho de luz – por vezes noturno, outras solar – de Cyntia Monteiro.

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Dibuk: Uivo

Satisfação receber nesta terça-feira, o projeto Dibuk, idealizado pela cantora, compositora e artista sonora Lea Taragona, que exercita canções que deverão estar em seu terceiro disco. Como ela mesma explica, o espetáculo Uivo traz canções de ninar ruínas, cantigas de roda e folk livre minimalista em que ela entrelaça voz, violão, eletrônica e palavra. Influenciada por Svitlana Nianio, Öldrich Janota, Walter Franco e Brannten Schnüre ela apresenta-se ao lado de Elke Lamers (baixo), Vitor Wutzki (violoncelo) e Guilherme Paz (bateria). O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos estão à venda no site do Centro da Terra.

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Autores de um dos melhores discos do ano passado, a dupla Magdalena Bay acaba de soltar um teaser sobre seu próximo lançamento, o single “Second Sleep”, que eles tocaram ao vivo no início deste semestre. Embora tenham anunciado uma versão em vídeo para o excelente Imaginal Disk, já reforçaram que não irão lançar uma versão deluxe do disco, o que leva a crer que o novo single pode ser o primeiro de um novo álbum (ou apenas um teaser para mais um dos minimixes que eles costumam lançar de vez em quando). A música é ótima e a data de lançamento foi marcada para essa sexta-feira e só pelo teaser dá pra ver mantiveram o nível do disco anterior (veja abaixo, junto com a capa do single): Continue

Desde o ano passado Chappell Roan vem incluindo a clássica “Barracuda”, do grupo Heart, em seus setlists, mas neste domingo, quando tocou no Forrest Hills Stadium em Nova York, ela teve uma participação especial digna dos shows da Dua Lipa, quando convidou a guitarrista do grupo original, Nancy Wilson, para tocar um dos riffs mais memoráveis de sua carreira. Ficou foda.

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João Barisbe terminou em grande estilo sua temporada Turismo Inventado no Centro da Terra, quando trouxe músicos que participaram de outras apresentações reunidos em uma mesma pequena orquestra para visitar as canções que apresentou nestas quatro segundas-feiras. O clima desta última noite, que teve lotação esgotada, foi ainda mais suntuosa que os outros concertos e além de reunir Thais Ribeiro, Guizado, Helena Cruz, Filipe Nader, Biel Basile, Beto Angerosa, Gabriel Milliet, Pedro Abujamra e Loreta Colucci, encerrou a leva de shows com sua épica “Cometa Javali’, que funcionou como música-tema da temporada, com a última vocalista elevando ainda mais o volume e o nível de tudo, para deleite do público. Obrigado João, foi maravilhoso!

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Quatro noites em Nova York e quatro homenagens à música da cidade e à própria biografia. Assim Dua Lipa celebrou sua passagem pelo Madison Square Garden quando, na quarta-feira, abriu a série de tributos à cidade ao resgatar um vídeo de quando ela ainda era adolescente e cantava “No One”, de Alicia Keys, música escolhida para iniciar as homenagens à cidade. Na quinta-feira foi a vez de saudar a cena punk e new wave da cidade ao pinçar “One Way or Another” do Blondie como escolha da noite. Depois, no sábado, ela teve a presença de um dos homenageados ao convidar o mestre Nile Rodgers para tocar “Le Freak”, maior clássico disco de sua banda Chic, e no dia seguinte chamou ninguém menos que Lenny Kravitz para dividir o palco em sua melhor canção, a balada irresistível “It Ain’t Over ‘til It’s Over”. Veja os vídeos abaixo: Continue

Eis o trailer de Ozzy Osbourne: No Escape From Now, o documentário que relata os últimos seis anos do vocalista fundador do Black Sabbath. Dirigido por Tania Alexander, o documentário começou como o registro de turnê de despedida antes da pandemia, que teve de ser interrompida em 2019 após Ozzy ter sofrido uma queda. O acidente trouxe uma série de questões de saúde à tona, tornando-o infeliz e insatisfeito com a vida até que sua esposa Sharon Osbourne propôs que ele fizesse um concerto para despedir-se dos fãs, seu principal arrependimento, além de ter largado os palcos. O filme então conta como Ozzy superou a barra de sua péssima saúde com a ajuda da família e retomou a vontade de viver a partir da realização do espetáculo Back to the Beginning, último adeus do vocalista e de sua banda com a formação original, que aconteceu em sua cidade–natal em julho deste ano, além de mostrar seus encontros com grandes nomes do metal que apresentaram-se no evento para celebrar sua importância até sua morte – previsível mas inesperada – no dia 22 de julho deste ano. O documentário deverá estrear no dia 7 de outubro no canal de streaming Paramount+, mas bem que podia ir para os cinemas para ampliar a catarse – e o luto – coletivo.

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Entre os vários revivals noventistas que estamos assistindo neste 2025, vale pinçar a volta dos Charlatans, que lançaram o ótimo single “We Are Love” para marcar o anúncio do lançamento do disco de mesmo nome que irão lançar no final de outubro, o primeiro disco do grupo inglês desde Different Ways, de 2017. Agora eles reforçam a mesma canção em um remix feito pelo MGMT que, como todo bom remix deveria fazer, abre novas possibilidades sonoras a partir da canção original – que marca uma produção inédita entre o clássico Stephen Street e o moderno Dev Hynes -, quando a dupla norte-americana estica o single em oito minutos, reforçando a natureza da psicodelia indie-dance típica do grupo em seus primeiros anos. Bem bom.

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