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Low, 40 anos

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Escrevi lá no meu blog no UOL sobre Low, o disco que mudou a carreira de David Bowie e inaugurou sua trilogia de Berlim, que completa quatro décadas neste sábado.

À beira de um colapso mental, David Bowie fugiu de Los Angeles para Berlim, no final de 1976, para escapar de uma possível tragédia. O inglês vivia seus dias mais intensos e pesados, atraindo para perto de si todo tipo de má referência e carga negativa enquanto encarnava mais um personagem inventado artisticamente: o Thin White Duke era uma espécie de versão má do próprio David Bowie e ao mesmo tempo em que se entupia de cocaína e estudava o satanista Aleister Crowley, aplaudia o fascismo, chamava Hitler de “o primeiro rockstar” e aprofundava-se nas ciências ocultas. O resultado daquele período, o disco Station to Station, é uma das obras-primas do artista, que ele não alegava não ter nenhuma recordação do período de sua gravação ao mesmo tempo em que declarava ser sua obra com mais referências ao ocultismo, conexão que ele lamentava ter sido solenemente ignorada pela crítica.

Era um artista no auge. Depois de anos tentando entrar no panteão do rock clássico vestindo diferentes personas, ele finalmente tornou-se um ícone pop ao inventar a história do alienígena Ziggy Stardust, que vem para o planeta Terra e torna-se um popstar. O personagem criado em 1972 dera ao artista inglês as possibilidades de explorar os limites da música, como a geração da qual era caçula, compondo, tocando, cantando e produzindo as próprias músicas. Mas, além disso, lhe conseguira permissão para reinventar-se quando queria, elevando as transformações de personalidade que a geração do rock dos anos 60 atravessou em declarações estéticas. Cada disco era uma nova chance de começar tudo de novo e reunir novas referências, novas inspirações, novos padrões artísticos. Seus inúmeros interesses pessoais eram a desculpa perfeita para criar uma múltipla personalidade em público, encarnando, como um ator pós-moderno, as tendências que pairavam sobre o inconsciente coletivo.

E foi o instinto artístico de Bowie que o salvou de se tornar Elvis de si mesmo nos proverbiais cinco anos da faixa que abria o disco Ziggy Stardust. Em vez disso, mudou-se de Los Angeles para Berlim com Iggy Pop a tiracolo, querendo mudar radicalmente a paisagem. E apesar dos inúmeros excessos que a dupla inevitavelmente causaria na cidade alemã, à época ainda dividida pelo muro construído após a Segunda Guerra Mundial, ninguém ligava. O que causava ultraje e gerava manchetes na capital do showbusiness norte-americano era visto de forma trivial pelos habitantes da cidade alemã. Era só um roqueiro inglês e seu amigo americano fazendo besteiras. Tanto faz.

Iggy Pop e David Bowie

Iggy Pop e David Bowie

Essa reação quase esnobe foi um choque para David Bowie. Em Berlim ninguém se interessava por ele, sua fama era artificial, um sucesso de plástico criado e alimentado pela indústria de entretenimento visto como um teatro vazio que não impressionava uma cidade escorraçada por duas guerras mundiais. Aquilo fez que Bowie começasse a repensar quem ele realmente era, por baixo de tantas máscaras. O fato de Berlim ser uma cidade intocada pela cocaína obrigou o artista a parar de cheirar e a droga preferencial da cidade, heroína, não batia com a cabeça do inglês. Foi o início de um processo de introspecção e amadurecimento que ficou conhecido anos depois como “a trilogia Berlim”, formada pelo conjunto de três discos inspirados pela cidade e o primeiro deles foi lançado há exatos 40 anos. Low, que chegou às lojas menos de uma semana após o aniversário de 30 anos de seu autor, mudou o pop definitivamente, embora esta mudança não tenha sido assimilada de uma vez só.

Gravado em sua maioria no Castelo de Hérouville, na França (onde Bowie havia gravado, em julho de 1973, o disco de versões Pin Ups e produzido o primeiro disco solo de Iggy Pop, The Idiot), e parte no Hansa Studio em Berlim, Low é um disco cujas raízes já podem ser encontradas em Station to Station. O disco do ano anterior funciona como um preâmbulo à trilogia Berlim e a paixão de Bowie pela sonoridade alemã daquele período – de grupos de rock progressivo tortos como Neu!, Can, Tangerine Dream e o essencialmente eletrônico Kraftwerk – já podia ser ouvida nas composições da fase Thin White Duke. É aquele tipo de som – sintético, metronômico, intenso e absorto que os alemães chamavam de Kosmiche Musik e os ingleses de krautrock – que faz Bowie escolher Berlim como sua visão de futuro – ou pelo menos de seu próprio futuro.

Brian Eno e David Bowie

Brian Eno e David Bowie

Mas Bowie foi pego de surpresa ao descobrir uma cidade e um elemento estético que não queriam ser emulados. Para isso, chamou dois velhos amigos para encarar esta nova jornada: Brian Eno, ex-tecladista do Roxy Music que estava começando a compor seus primeiros discos solo criando um gênero chamado ambient music (compondo obras para funcionarem como trilhas sonoras para aeroportos e supermercados), e Tony Visconti, produtor com quem Bowie já vinha trabalhando desde o final dos anos 60 (e que produziria seu derradeiro disco, ★).

Apesar dos dois terem créditos de produção, o papel de ambos foi bem diferente durante as gravações. Eno trabalhou mais como um diretor artístico do disco, conduzindo David Bowie para uma sonoridade que transcendia as amarras do rock – e até mesmo da canção. Personificada principalmente no lado B do disco, a presença de Brian Eno aludia justamente às condições frias e sem rodeios da personalidade alemã, mas sem ritmo, sem letra, sem refrão. O experimento que os Beatles fizeram no final de seu álbum branco, quando John Lennon, George Harrison e Yoko Ono superpuseram vários pedaços de fita emulando uma colagem de vanguarda musical chamada “Revolution 9”, atingia um novo patamar no segundo lado de Low. As faixas “Warszawa” (a faixa mais embleática do disco, composta por Eno e com vocais sem letra improvisados por Bowie), “Art Decade”, “Weeping Wall” e “Subterraneans” pareciam vir de um outro planeta, uma outra dimensão, desenhando um horizonte improvável para o futuro da música pop.

David Bowie, em 1977

David Bowie, em 1977

O lado A voltava-se para o soul plástico do Thin White Duke do ano anterior, mas a presença pesada da erma paisagem criada por Bowie e Eno no lado B pairava sobre os momentos mais tradicionais do disco, como as faixas “Breaking Glass”, “What in the World” – com vocais de Iggy Pop -, “Always Crashing in the Same Car” e “Be My Wife”, além de, claro, o hit “Sound and Vision”. O lado era cercado por duas instrumentais que não deixavam dúvida sobre o rumo do disco: as deliciosamente repetitivas “Speed of Life” e “A New Career in a New Town”, que respectivamente abrem e fecham o primeiro lado de Low são as tentativas mais próximas da banda de Bowie – formada à época pelos guitarristas Carlos Alomar e Rick Gardiner, o baixista George Murray, o tecladista Roy Young e o baterista Dennis Davis, além do próprio Bowie (que tocava de saxofone e xilofone a “violoncelos de fita”) e de Brian Eno (tocando diferentes tipos de sintetizadores) – de soar como as bandas alemãs. Acrescente isso a produção de fato de Tony Visconti, que, auxiliado por um aparelho chamado Eventide Harmonizer (que repetia partes recém-gravadas, como um pré-sampler, criando um eco alienígena por todo o disco), criava naquele e nos dois discos seguintes da trilogia (“Heroes” lançado ainda em 1977 e Lodger, de 1979) toda uma sonoridade que ficaria reconhecida na década seguinte como pós-punk. Os timbres de bateria cheios de eco e peso às guitarras cruas e reluzentes ao baixo quase sempre pronunciado depois encontrariam discípulos em bandas tão diferentes e contemporâneas como Cure, R.E.M., Joy Division, Sonic Youth, Echo & the Bunnymen, Talking Heads e Smiths.

À capa, Bowie, de perfil, aparecia em uma imagem tirada do filme de Nicolas Roeg O Homem que Caiu na Terra, estrelado por ele no ano anterior, repetindo a mesma fórmula de Station to Station. Mas ao chamar o disco de Low e colocar-se de perfil logo abaixo do título, Bowie criava um trocadilho visual para explicar que naquele disco ele preferia a estética minimalista, em busca de sua essência como cantor e compositor ao mesmo tempo em que ampliava os próprios limites estéticos – e, simultaneamente, os da cultura pop. Seu lado B revela-se a cada ano mais eterno e profético, mostrando que até a sonoridade de vanguarda pode ser pop – e não necessariamente agressiva. Um disco que não só salvou David Bowie de uma possível tragédia pessoal como reinventou sua carreira – e, mais uma vez, ampliou os horizontes do pop.

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Conversei, lá no meu blog no UOL, com o Lô Borges sobre a recriação de seu clássico disco de estreia, tocado pela primeira vez ao vivo neste fim de semana no Sesc Vila Mariana.

“A coisa mais certa que eu podia fazer foi a largar a indústria fonográfica aos vinte anos de idade depois de compor 25 músicas para dois álbuns, para o Clube da Esquina e pro disco do tênis”, lembra o mineiro Lô Borges, em entrevista por telefone, sobre o início de sua carreira em 1972. “Foi a melhor coisa que eu fiz! Se eu continuasse gravando um disco a cada seis meses, eu ia enlouquecer! Eu não queria sobreviver de música, eu queria que a música sobrevivesse em mim!”

Um dos principais nomes da cena mineira que se revelou no disco Clube da Esquina, Lô Borges era o segundo autor do disco que reunia músicos e compositores que hoje são bastiões da música brasileira, como Flávio Venturini, Toninho Horta, Fernando Brant, Beto Gudes, Wagner Tiso e Milton Nascimento. Creditado a ele e Milton, o disco apresentava uma nova cara para o pop mineiro, recriando-o a partir de influências da então novíssima MPB e do rock contemporâneo à época, hoje reverenciado como clássico. E após o lançamento do disco, Lô seguiu a boa fase lançando seu primeiro disco solo quase em seguida. Batizado apenas com seu próprio nome, o disco de 1972 é conhecido pelo par de tênis em sua capa e por aprofundar-se ainda mais nas profusões musicais daquela cena criando um registro que hoje é clássico da psicodelia brasileira. Um disco que nunca foi tocado ao vivo por seu autor, falha que será corrigida a partir deste fim de semana, quando Lô recria o clássico disco em três shows – já com ingressos esgotados – no teatro do Sesc Vila Mariana, em São Paulo.

“O disco do tênis nunca se misturou ao meu repertório ao longo dessas décadas todas. Ele ficou preservado. Nunca toquei músicas do tênis nos setlists dos meus shows, que contemplam quase todos discos meus, mas nunca entraram músicas do tênis”, explica o músico e compositor. O motivo é tão simples quanto revelador: uma vez submetido às pressões do showbusiness, Lô teve que tirar um disco que se comprometeu a lançar por contrato a fórceps e depois de terminado, decidiu abandonar tudo para viver a vida.

“Esse disco não teve lançamento. Quando eu acabei de gravar o disco, eu era um pouco mais que um adolescente, eu tinha vinte anos. Tinha feito o Clube da Esquina no começo de 72 e o disco do tênis no meio de 72 e ele foi feito como se fosse uma oficina criativa instrumental e poética, mas também feita no sufoco”, continua relembrando. “Eu tinha um contrato com uma gravadora que dizia que eu fizesse um disco logo depois do Clube da Esquina. Sabe o que eu tinha? Eu não tinha música nenhuma! Eu assinei o contrato sem ter música nenhuma! O processo do disco do tênis era o seguinte: eu fazia a música de manhã, meu irmão (Márcio Borges) fazia as letras à tarde e à noite ia pro estúdio, fazia os arranjos e gravava tudo valendo! Foi um disco muito urgente! Eu não tinha vinte, quinze anos de composição, eu tava compondo há dois anos e minhas músicas foram canalizadas pro Clube da Esquina. Então foi uma loucura! A música ‘Pensa Você’, por exemplo, eu cheguei no estúdio sem ter nada e compus a música no estúdio, no dia de gravar.”

A pressão responsável pelo processo de criação do disco também lhe deu uma aura colaborativa, em que todos entraram no ritmo em que criação, composição, arranjos e gravação faziam parte de um mesmo processo, nada linear. “Eu acho que uma das características mais legais do disco do tênis é a coisa de ele ter sido feito caoticamente. Eu não tinha as músicas e tinha que criar. Isso botou minha cabeça pra funcionar de um jeito que ela nunca funcionou”, continua Lô. “Eu tive a curiosidade de ver a ficha técnica desse disco anos depois e vi que a produção é do Milton Miranda e Maestro Gaia, que já devem ter falecido há mais de trinta anos, mas eu nunca vi nem o Milton Miranda nem o Maestro Gaia no estúdio quando estávamos gravando. A gente produziu tudo sozinho. Eu ficava meio na direção musical, apresentando as músicas e as ideias e os meus amigos, os músicos, acrescentavam as ideias delas às minhas. Foi uma oficina de cooperação criativa. Agradeço demais a todos que contribuíram na gravação, porque se não fossem eles, não teria acontecido esse disco.”

“É um disco totalmente inspirado que aponta pra vários lados: tem baião, tem canção, tem música que eu canto quase chorando…”, ri. “Acho que ele sugere muitas tendências que estavam contidas na minha cabeça. É meio psicodélico, meio progressivo, tem uma coisa meio Hermeto Pascoal.” A tônica do disco foi embalada pela expansão da consciência típica do período. “As drogas tiveram total influência nisso, porque o mundo estava vivendo em estados alterados de consciência. Todos os artistas, os ingleses, os americanos, Jimi Hendrix, os Beatles, os Rolling Stones, os Emerson Lake & Palmer, os Crosby Stills Nash & Young… O mundo inteiro usavam substâncias alteradoras de consciência, como eu e a turma que gravou comigo também. Todo mundo o tempo todo com o estado de consciência alterado. Eu gostava muito das lisérgicas, tinha gente que gostava mais de álcool, tinha gente que gostava mais de maconha e tinha gente que gostava de tudo o tempo todo”, lembra.

E depois de gravar o disco, em vez de colocá-lo na rua, ele preferiu largar tudo. “Sabe quem foi pra rua? O Lô Borges”, continua. “Eu fiz o disco e larguei tudo. Falei que não queria saber mais de gravadora, não queria saber mais de carreira, de disco, vou voltar pra Belo Horizonte e fazer as coisas que as pessoas da minha geração estão fazendo. Eu virei hippie! Fui pra Arembepe na Bahia, pra Porto Alegre, não sei onde mais, viajando pelo Brasil de ônibus com alguns exemplares do disco que eu entregava pras pessoas nas rodinhas de violão. Eu praticamente abandonei minha carreira.”

Lô não se arrepende do surto, que considera a melhor decisão que fez em sua carreira, retomada quase seis anos depois, com o disco A Via Láctea, de 1979. “Passei cinco anos na vida libertária de hippie e me estruturando como compositor. Quando eu voltei, seis anos depois, eu tinha música pra caramba!”, recorda-se. “Não tinha que fazer música de manhã, letra de tarde e gravar à noite. Quando eu voltei com o Via Láctea em 78 eu tinha música pra caramba, eu ensaiei o disco, que foi produzido pelo Milton, foi muito mais relaxado.”

A decisão de abandonar o meio artístico surgiu logo após ele ter finalizado seu disco de estreia, por isso em vez de seu rosto, há o par de tênis na capa. “A ideia do tênis da capa é minha. Quando o disco ficou pronto e fomos discutir a capa, eu disse que estava saindo da indústria fonográfica e queria colocar o tênis pra simbolizar isso. Não ter colocado a minha cara e sim um tênis, que era eu dizendo que ia pegar a estrada: eu vou pegar a estrada e tô saindo do Rio de Janeiro, tô saindo do showbusiness, tô saindo do circuito. Eu tenho vinte anos apenas e não quero essa obrigação de gravar um disco a cada seis meses. Até hoje eu autografo o disco do tênis dizendo ‘com um pé na estrada’.”

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972

Lô Borges (em frente, ao centro) em frente à banda montada por Pablo Castro (segundo à esquerda) para reproduzir o clássico disco de 1972

Trancado na própria memória de Lô, o disco nunca mais voltou aos palcos ao mesmo tempo em que criava sua reputação de forma paralela, tanto no Brasil quanto no exterior. Até que, no ano passado, após um show, alguns músicos haviam lhe perguntado sobre a importância do disco, o que lhe fez voltar a pensar no álbum. Mas a decisão de voltar ao disco surgiu quando ele conheceu o músico mineiro Pablo Castro. “Ele é um cara que escreveu dez páginas do meu songbook e que fui conhecer num show que eu fiz com o Samuel Rosa num festival aqui em Belo Horizonte quando ele tocou antes de mim e do Samuel. Eu fiquei interessado no som dele, trocamos ideias ali no camarim. Depois eu convidei ele pra minha casa, gostei muito do disco dele, e qual a minha surpresa quando ele pegou um violão e começou a tocar todas as músicas do disco do tênis! E tocou todas as músicas dos lados Bs dos discos meus, ele era um especialista em lados B de Lô Borges.”

A ideia de recriar o disco começou a ser gestava, mas havia um agravante: “Refazer o disco do tênis é um processo tão complexo, porque o disco é uma engenharia, uma oficina instrumental, em que a gente botou cravo, Hammond, pedais, pianos acústicos… E pra reconstruir o disco do tênis teria um trabalho muito grande. Mas ele disse, ‘Lô, eu sou um cara que teve por anos bandas cover de Beatles, além de ser cantor e compositor eu sou especializado em reconstituir discos, toquei no Cavern Club em Liverpool, em Nova York. Se você quiser eu faço isso com a minha banda!”‘

Pablo, que além do próprio trabalho autoral, também teve três bandas cover de Beatles em Minas Gerais, The Silver Beatles, Sgt. Pepper’s Band e Free as a Beatle, fala sobre esta experiência e como ela lhe aproximou ao disco do tênis. “É um estudo muito interessante reproduzir à risca um arranjo. Primeiro porque estimulamos o ouvido a memorizar e decodificar o som. Segundo porque é uma prática de banda muito específica, onde há um efeito preciso a se almejar, incluídos aí os vocais, sua timbragem, harmonização, jeito de interpretar, etc. Terceiro, porque os detalhes são importantes para a fruição dos aficcionados. É uma espécie de ‘música de concerto’, só que popular. E, em última instância, valorizar o arranjo, em vez de apenas a canção, é uma maneira de homenagear todos os músicos envolvidos criativamente na confecção de uma faixa, não apenas os compositores. Tudo isso foi uma experiência valiosa para meu trabalho de direção musical no show do disco do tênis. Evidentemente, as harmonias de Lô são mais complexas e arrojadas do que as dos Beatles. Mas a análise dos timbres, camadas de instrumentos, texturas, frases, tudo isso é importante nesse tipo de reconstituição. Penso que a experiência com os Beatles me ajudou nesse aspecto.”

“O mais difícil nesse tipo de reconstituição são as partes que, na gravação original, foram meio que improvisadas, não seguem um padrão definido, mas que abrilhantam a faixa”, continua Pablo. “Os solos de guitarra são o exemplo mais evidente disso, mas normalmente os solos estão em primeiro plano, de forma que não é tão difícil transcrevê-los. Mais complicados são aqueles detalhes de instrumentos não solistas mas cujas frases aparecem aqui e ali, e contribuem para o efeito geral da música. Além disso, o disco do tênis tem vários vocais de 4 vozes, às vezes mais, e não é tão simples fazer isso funcionar no palco. É preciso ensaiar bem pra timbrar, equilibrar e afinar tudo a contento no palco. Outro aspecto importante, e dos mais criativos nesse tipo de trabalho, são adaptações de finais para as músicas que originalmente terminam em fade-out. Isso quase nunca funciona no palco, de forma que fizemos finais completos para essas faixas no show. Tenho gostado de todas, mais acho que ‘Aos Barões’, por ser uma música tão inusitada, meio perturbadora, está entre as mais instigantes do disco e do show. ”

Lô deu a carta branca para Pablo tocar o disco e depois foi chamado para assistir à execução. “Comecei a participar dos ensaios em dezembro. No primeiro ensaio eu não acreditei, eu tava em 1972 e não sabia! Eu nem toquei, só escutei! Tudo igualzinho! As guitarras do Beto Guedes, as minhas guitarras, os Hammonds do Tenório Júnior, os violões do Nelson Ângelo, o baixo e a guitarra do Toninho Horta. Eles fizeram a reconstituição fidedigna igual. Aí eu entrei na história e virou o projeto e a história de tornar público nosso encontro.”

Pablo explica que manteve a concisão do disco que tem 15 músicas e pouco mais de meia hora de duração. “Há algumas canções com as formas expandidas, mas não muitas. Não queríamos descaracterizar o aspecto hai-cai dessas canções . É um charme uma composição incisiva que passa rápido como uma borboleta em vôo. Faremos também, na segunda metade do show, todas as canções de Lô do disco Clube da Esquina, igualmente em seus arranjos originais, de forma que o show, além de repleto de outras canções decisivas na obra de Lô, não será tão breve quanto o disco do tênis.”

Depois dos shows em São Paulo, o grupo quer rodar com o disco pelo país. “Cair na estrada!”, comemora Lô, que ainda não tem shows agendados para esta nova fase, embora a próxima apresentação deva acontecer em alguns meses, em Belo Horizonte.

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O primeiro episódio duplo dos Simpsons faz paródia com a máquina do hip hop, a série Empire e terá Snoop Dogg – mais detalhes lá no meu blog no UOL.

Já havia comentado aqui neste blog que um dos maiores desafios para os Simpsons era lançar seu primeiro episódio de uma hora de duração, um assunto sempre cogitado entre os roteiristas do clássico desenho mas sempre descartado na hora de aprovação das sinopses, pois eles sempre encontravam assunto, diálogos e piadas sobrando, que poderiam ser cortados ainda na fase de criação. Queriam uma história que justificassem a hora cheia (que tradicionalmente tem 23 minutos) de desenho e parece que encontraram ao anunciar o segundo episódio da série em 2017, que irá ao ar no próximo domingo, nos EUA, chamado de “The Great Phatsby”. Assista ao trailer (sem legendas em português):

A ideia do episódio é misturar o universo ostensivo da indústria fonográfica por trás do milionário mercado do hip hop nos EUA com o clima festivo e igualmente ostensivo do clássico livro de F. Scott Fitzgerald, O Grande Gatsby. O vínculo entre estes dois universos é a premissa da série Empire, uma das séries mais bem-sucedidas atualmente, que desde 2015 acompanha os passos de uma família que funda e comanda uma uma gravadora fictícia de hip hop (que leva o nomeda série), em Nova York. Essa é a deixa para os Simpsons mergulharem no complexo mundo do rap norte-americano, contando com suas tradicionais participações especiais.

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No episódio, o senhor Burns quer vingar-se contra um misterioso executivo da música com a ajuda de Homer, Bart, do rapper Jazzy James (dublado pelo comediante Keegan-Michael Key, que faz o programa Key & Peele) e pela ex-mulher do executivo (dublada pela atriz Taraji P. Henson, da série Empire). O episódio ainda conta com os rappers Snoop Dogg, RZA e Common fazendo os papéis de si mesmos. O episódio – que tecnicamente são dois – o episódio 12 e 13 da 28ª temporada – ainda conta histórias paralelas envolvendo Marge (que abre uma estranha butique), Lisa (que começa a ser flertada pelo garoto mais rico de Springfield) e Smithers (que inicia uma perigosa jornada).

Lanny, na boate Stardust, tocando com Hermeto Pascoal (de costas) (Divulgação)

Lanny, na boate Stardust, tocando com Hermeto Pascoal (de costas) (Divulgação)

Conversei com o Guilherme Held sobre o show tributo que ele está organizando para celebrar a importância de Lanny Gordin, o mago guitarrista do tropicalismo. O show deve dar início às comemorações do centenário de sua carreira, que está completando cinquenta anos e ainda terá dois filmes sobre sua importância – falei sobre tudo isso no meu blog no UOL.

Por mais que Lanny Gordin seja festejado como um dos grandes músicos brasileiros e um dos principais personagens da psicodelia brasileira, tal reconhecimento não está à altura de sua importância. Guitarrista de timbre e frases ímpares, Lanny não só é um dos principais temperos do tropicalismo como esteve envolvido com artistas, discos e canções que estão na fundação da música brasileira da segunda metade do século passado. Esteve presente em discos como Expresso 2222 de Gilberto Gil, Carlos, Erasmo de Erasmmo Carlos, Araçá Azul de Caetano Veloso, Fa-tal de Gal Costa, além de ter tocado com Rita Lee, Elis Regina, Jair Rodrigues, Antonio Carlos e Jocafi (é sua a guitarra de “Kabaluerê”) e Itamar Assumpção, entre outros.

Mas um fiel escudeiro do guitarrista quer resolver essa pendência com o mestre e reuniu-se com outros dois discípulos. “Acredito que o merecido reconhecimento, à altura da genialidade do Lanny, ainda não aconteceu”, explica o guitarrista Guilherme Held, que gravou dois discos ao lado de Lanny numa banda chamada Projeto Alfa, no início do século. “Porém ele influencia diversas gerações da música brasileira deixando uma discografia respeitada no mundo todo”, continua o músico, que se reuniu aos irmãos Tulipa e Gustavo Ruiz para agendar um show que celebra a importância do guitarrista.

O espetáculo deve acontecer no próximo mês e reunirá grandes nomes da música brasileira para cantar sua obra em dois shows, nos dias 2 e 3 de fevereiro, na Comedoria do Sesc Pompeia, em São Paulo. “Vamos formar uma banda com direção musical minha e do Gustavo Ruiz para acompanhar artistas que tiveram ligação ou tem afinidade com o mestre. A banda será formada por mim e Gustavo tocando guitarra, Sérgio Machado na bateria), Fábio Sá no baixo, Pepe Cisneros no teclado, Mauricio Badé e José Aurélio na percussão e o DJ Nuts”, conta o guitarrista, em primeira mão. Fábio e José Aurélio também integraram o Projeto Alfa ao lado de Held. O show ainda deve contar com participações especiais de nomes como Jards Macalé, Tulipa Ruiz, Chico César, Rodrigo Amarante e o grupo Metá Metá.

Lanny Gordin e Gui Held

Lanny Gordin e Gui Held

Lanny – Alexandre é seu nome de batismo – começou sua carreira tocando na casa noturna Stardust, que era de seu pai, em São Paulo, e com isso pode tocar, ainda adolescente, ao lado de feras como Hermeto Pascoal e Heraldo do Monte, com quem gravou o mítico disco instrumental Brazilian Octopus. Ele é sempre referido como “o Jimi Hendrix brasileiro”, um título injusto por limitar suas influências musicais ao rock e ao rhythm’n’blues norte-americano. Diferente de Hendrix, Lanny bebia tanto no jazz mais experimental quanto na música erudita e entre seus guitarristas favoritos estão nomes como Jeff Beck, Syd Barrett e Jimmy Page. A cancha de músico de noite elevou sua musicalidade a um patamar que ia muito além da melodia e da canção.

“Lanny é um músico com muita personalidade artística e muito desprendimento de regras” coninua Held, “esta busca dele pelo transe musical influencia quando você o ouve tocar e isto com certeza faz parte da minha busca também”. Os dois músicos compartilham a mesma data de aniversário (28 de novembro) e moraram juntos por quatro anos, primeiro em um apartamento na Vila Mariana e depois numa casa em Perdizes, em São Paulo. Entre os discípulos diretos e indiretos do guitarrista, Held cita nomes como Sergio Serra, Toninho Horta, Luiz Chagas, Fábio Sameshima, Kassin, Pedro Sá, além do próprio Gustavo. Irmão e produtor dos discos de Tulipa, Gustavo pode trazer Lanny para o estúdio, quando o guitarrista participou da música “Expirou”, do disco Dancê, de 2015.

Lanny Gordin

Lanny Gordin

Além dos shows, ainda há dois documentários que falam da importância do guitarrista nascido em Xangai, na China. “São dois projetos diferentes”, continua Held. “Participei do longa Herois da Guitarra, no qual me encontro com o Lanny em uma cena, foi muito especial. Foi um dos dias mais marcante e especiais da minha vida. Já o filme Inaudito: Com/Por Lanny Gordin, de Gregorio Gananian, é um filme/ensaio com Lanny que estimula o lado criativo dele hoje. Metade do filme foi rodado em Xangai e metade em Sao Paulo. Fui consultor no Inaudito, o que deu origem a uma amizade com Greg, que inclusive será responsável pelo kinografia – o projeto de projeção e luz – do show comemorativo.”

Twitter: Mark Hamill

Twitter: Mark Hamill

Mark Hammil, conhecido por dublar o Coringa, lê tweets de Donald Trump – postei lá no meu blog no UOL.

Se Donald Trump se elegeu presidente dos Estados Unidos fazendo o papel de supervilão de histórias em quadrinhos, o ator Mark Hamill, o eterno Luke Skywalker, acertou este nervo com precisão cirúrgica ao ler um tweet de Trump com a voz de um dos grandes personagens do século passado, o Coringa do Batman. O tweet escolhido por Mark para começar o que ele anunciou como um projeto chamado de “Trumpster”, foi o que Trump, na véspera do ano novo, escreve: “Feliz ano novo para todos, incluindo para meus muitos inimigos e aqueles que lutaram contra mim e perderam tanto que nem sabem mais o que fazer. Amor!”:

Hamil, cujo segundo maior personagem de sua carreira é a versão dublada (em videogames e desenhos animados) do Coringa, foi convocado pelo comediante Patton Osvalt a partir da ideia de seu irmão caçula, Matt, que twittou: “UMA IDEIA DE UM BILHÃO DE DÓLARES! Um aplicativo que pode transformar todos os tweets de Donald Trump para serem lidos com a voz do Coringa de Mark Hamill. De nada!”

Hamil reagiu prontamente: “Agora que aprendi a twittar em áudio, eu estou AMANDO! Ninguém escrever melhores diálogos de supervilões do que #Trumputin! #KremlinCandidate”. O resultado final é inacreditável:

Que Hamil promete ser uma série, que venham os próximos!

O governo Trump nem começou e sua relação com o mundo do entretenimento torna-se cada vez mais belicosa. Ontem, durante o prêmio Globo de Ouro, a atriz Meryl Streep fez referência ao novo presidente num discurso emblemático:

“Houve uma interpretação esse ano que me deixou atordoada, afundou suas garras no meu coração, mas não porque fosse boa –não havia nada de bom nela. Mas foi eficaz e cumpriu sua função. Fez seu público-alvo rir e colocar as garras de fora. Foi aquele momento em que a pessoa pedindo para sentar no lugar mais respeitado do nosso país, imitou um repórter deficiente, alguém a quem ele [Trump] superava em privilégio, poder e capacidade de revidar. Partiu meu coração quando vi isso, e ainda não consegui tirar da minha cabeça, porque não era um filme.

E esse instinto para humilhar, quando é demonstrado por uma figura pública, por alguém poderoso, afeta as vidas de todo mundo, porque dá permissão para que outras pessoas façam o mesmo. Desrespeito convida a mais desrespeito, violência incita violência. Quando os poderosos usam sua posição para fazer bullying, nós todos perdemos.”

A fala da atriz poderia ser resumida emm outro trecho, quando ela se refere aos planos de Trump de expulsar os estrangeiros dos EUA: “”Hollywood está cheia de forasteiros e estrangeiros, e se expulsarmos todos eles, vocês não vão ter nada para assistir além de futebol americano e Artes Marciais Mistas (MMA), que, aliás, não são arte”. A íntegra do texto você lê na cobertura que o UOL fez da premiação.

Mas uma das melhores bravatas contra Trump veio do ator Alec Baldwyn, que interpreta o futuro presidente nas paródias do programa Saturday Night Live a ponto de enfurecer o próprio não-político. Ele mandou fazer um boné que repete o slogan “Make America Great Again” só que escrito no alfabeto russo, em referência à influência do premiê Vladimir Putin na campanha de Trump à presidência. E postou em sua conta no Instagram:

baldwin-trump

Traduzido via Google Translator, diga-se de passagem.

david-bowie-no-plan

O aniversário de 70 anos de um dos maiores artistas do século passado é palco para lançamento de seus últimas gravações. Dá para ouvi-las no post que escrevi no meu blog no UOL.

Há um ano, numa sexta-feira, David Bowie nos presenteava com o enigmático disco ★, lançado de surpresa no dia de seu aniversário de 69 anos. A obra, saudada como seu melhor disco em décadas, foi decifrada dois dias depois, numa segunda, quando sua morte, que acontecera no domingo seguinte ao lançamento do disco, foi tornada pública. Era uma personalidade tão marcante e sensível, um artista tão versátil e presente, que a notícia de sua morte prematura ainda é um choque que muitos não conseguiram assimilar.

Exatamente um ano depois, surge online a primeira obra póstuma de David Bowie, um igualmente enigmático EP chamado de No Plan, com três músicas que ficaram de fora de ★. Além da faixa-título, ainda há “Lazarus”, uma das faixas mais fortes de seu disco de despedida, e as canções inéditas “Killing A Little Time” e “When I Met You”. As quatro faixas fazem parte do musical “Lazarus”, peça que David Bowie escreveu e viu estrear em seu último ano de vida. São as últimas gravações que Bowie fez antes de morrer.

“No Plan”, a desiludida balada escolhida para anunciar o novo EP, encontra David Bowie vagando no pós-vida como um astronauta perdido no espaço. O clipe escolhe uma imagem marcante do século vinte (pessoas se aglomerando em frente a uma vitrine cheia de aparelhos de TV, que perde todo o sentido na era das telas nos bolsos que vivemos) para que Bowie cante suas impressões sobre a vida após a vida.

“Here
There’s no music here
I’m lost in streams of sound
Here
Am I nowhere now?
No plan

Wherever I may go
Just where
Just there
I am

All of the things that are my life
My desires
My beliefs
My moods
Here is my place without a plan

Here
Second Avenue
Just out of view
Here
Is no traffic here?
No plan

All the things that are my life
My moods
My beliefs
My desires
Me alone
Nothing to regret
This is no place, but here I am
This is not quite yet”

Traduzo abaixo a letra desta última canção, uma música que também fala bastante sobre o que esperar de 2017.

“Aqui
Não há música aqui
Estou perdido em ondas de som
Aqui
Estou em lugar nenhum agora?
Sem plano

Onde quer que eu possa ir
Apenas onde
Apenas ali
Eu sou

Todas as coisas que são minha vida
Meus desejos
Minhas crenças
Meus humores
Aqui é o meu lugar sem plano

Aqui
Segunda Avenida
Apenas fora de vista
Aqui
Não há tráfego aqui?
Sem plano

Todas as coisas que são minha vida
Meus humores
Minhas crenças
Meus desejos
Eu só
Nada para se arrepender
Este não é um lugar, mas aqui estou
Isso ainda não é”

Feliz ano novo!

doors

Abrindo o calendário de comemorações dos fantásticos discos de 1967 que completam meio século este ano está o fabuloso disco de estreia do Doors – escrevi sobre ele no meu blog no UOL.

No dia 4 de janeiro de 1967 um segredo bem guardado pela cena rock de Los Angeles tornou-se público. Gravado em apenas uma semana em agosto de 1966, o primeiro disco dos Doors abriu a sequência de álbuns que transformaria aquele ano num dos pilares centrais da cultura pop, mesmo cinquenta anos depois (Sgt. Pepper’s e Magical Mystery Tour dos Beatles, Between the Buttons e Their Satanic Majesties Request dos Rolling Stones, O Bidú: Silêncio no Brooklin de Jorge Ben, Younger than Yesterday dos Byrds, os dois primeiros do trio Jimi Hendrix Experience, o primeiro do Captain Beefheart, Something Else dos Kinks, o primeiro dos Mutantes, o Sell Out do Who). E por mais que os outros discos que compõem esta safra fizessem parte de uma lenta e perceptível evolução da música popular que começara dois anos antes, ninguém na época estava preparado para o choque que foi aquele disco gravado praticamente ao vivo. Só outros dois discos de estreia têm o peso deste primeiro registro da banda californiana – a impressionante estreia do Pink Floyd e o ousado primeiro disco do Velvet Underground. Contudo, a estreia dos Doors elevaria o rock a um outro nível, costurando um impensável cânone que incluía teatro grego, música de cabaré alemão, música erudita, bossa nova, blues elétrico, poesia, blasfêmias e jazz.

Os Doors eram um produto natural da evolução pela qual o rock’n’roll atravessou em seus primeiros anos de vida. Ele já havia abandonado suas tradições iniciais – a cruza de country com rhythm’n’blues forjada por jovens brancos e negros nos EUA – quando os Beatles conquistaram os Estados Unidos e depois o mundo transformando aquela novidade que Elvis Presley difundira nos anos 50 na trilha sonora de uma juventude consciente de seu próprio movimento (abandonando quase sem querer o sufixo “‘n’roll” da nomenclatura do gênero). À medida em que ganhava mais territórios vendendo uma nova abordagem musical para os anos 60, o rock passava a explorar novos territórios artísticos e musicais que o elevaram para sua terceira fase, a psicodelia. Iniciada por outra banda inglesa – o Pink Floyd – mas difundida mundialmente pelos Beatles, a exploração das fronteiras estéticas e linguísticas desta nova etapa funcionaria como uma carta branca de possibilidades para jovens músicos e compositores espalhados pelo planeta.

A Califórnia, que seria o polo norte-americano da psicodelia, buscava uma sociedade alternativa e cunhou o conceito do hippie como conhecemos hoje. A mítica esquina das ruas Haight e Ashbury, em São Francisco, logo tornaria-se a o centro de tração de hippies de todo o planeta, transformando a cidade que anos depois sediaria o Vale do Silício na meca do zen-hippismo nos EUA. Da fundação do clube The Matrix (inaugurado com o primeiro show do Jefferson Airplane) à transformação da banda Warlock no Grateful Dead, São Francisco viu nascer uma cena essencialmente hippie, que pariria nomes fundamentais para a psicodelia norte-americana como Santana, Big Brother & the Holding Company (liderado por uma jovem vocalista chamada Janis Joplin), Moby Grape, Flamin’ Groovies, Quicksilver Messenger Service, Country Joe and the Fish, entre outros.

Em Los Angeles, ao sul daquele estado, as coisas eram diferentes. A plasticidade da jovem metrópole concebida para simbolizar o tesouro no fim do arco-íris da busca pelo extremo oeste da época dos caubóis – em parte desenhada pelas nascentes indústrias do disco e do cinema, esta última mais forte que a primeira -, tornava sua cena cultural em busca de uma identidade própria, mesmo em seu próprio rock’n’roll, ainda visto como subgênero do entretenimento local, mesmo que tenha firmado-se nacionalmente ao lançar toda a cena surf que surgiu na esteira dos Beach Boys, como Jan and Dean, Bel-Airs e Surfaris, que pavimentaram o caminho para bandas de garagem como Seeds, Leaves e Music Machine. A cena local girava em torno de uma rua chamada Sunset Strip, uma das principais da cidade, lar para algumas das principais casas de shows de lá (especificamente o Whisky a Go Go, o Roxy, o Pandora’s Box e o London Fog). Porém, enquanto a cena de São Francisco poderia ser vagamente rotulada como “acid rock”, devido à influência do ácido lisérgico nas letras e na sonoridade das bandas, que aos poucos ficava cada vez mais parecida, em Los Angeles não havia uma tendência musical que prevalessesse, reunindo bandas tão diferentes quanto os Byrds, o Love, Buffalo Springfield, Strawberry Alarm Clock e os forasteiros Frank Zappa e Captain Beefheart – e cada uma delas soava completamente diferente das outras.

The Doors: John Densmore, Robbie Krieger, Jim Morrison e Ray Manzarek

The Doors: John Densmore, Robbie Krieger, Jim Morrison e Ray Manzarek

Como os Doors. Formado pelos dois irmãos do tecladista Ray Manzarek (que entrou depois), a banda Rick & the Ravens logo tornou-se o principal veículo do músico, que convidou dois amigos que conhecia de lugares diferentes para entrar para o grupo: Ray conhecia o baterista John Densmore, que tocava jazz, de aulas de meditação e o futuro vocalista Jim Morrison no curso de cinema da UCLA. Ainda com o antigo nome, a banda contava como Ray, Jim, John e os irmãos de Ray, Rick na guitarra e Jim na gaita, além da baixista Patty Sullivan. Como um sexteto, o grupo gravou uma demo, mas os irmãos de Ray não gostaram o resultado e saíram da banda, seguidos por Patty. Ray, pianista de formação erudita, não teve dificuldade de assumir o baixo da banda tocando-o com a mão esquerda em um teclado elétrico, enquanto convidou outro amigo, Rob Krieger, que estava começando a aprender a tocar violão flamenco para assumir a guitarra. A nova formação inspirou o vocalista a mudar o nome da banda para The Doors – nome tirado do título do livro As Portas da Percepção, de Aldous Huxley, sobre suas experiências com drogas psicodélicas, título que, por sua vez, havia saído de uma frase do poeta inglês William Blake que dizia que “quando as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá como realmente é: infinito”.

Era uma outra banda. Por mais que ainda vagassem pelos standards de blues e garage rock em seu repertório (como “Louie, Louie”, “Money” e “Hoochie Coochie Man”), aos poucos eles começavam a compor suas próprias músicas e, ao contrário das bandas de São Francisco, iam para longe dos clichês do rock da época. Era um baterista de jazz, um guitarrista de flamenco, um tecladista de blues de formação erudita e um vocalista que, ainda tímido, cantava de costas para o público. Toda a psicodelia caía sobre as letras de Jim, que encarnava um trovador que improvisava versos surrealistas sobre as jam sessions cada vez mais extensas da banda, que chegavam a ultrapassar os dez minutos. Estas foram responsáveis por levar o grupo do London Fog, onde tocavam com mais frequência, para o palco do Whisky a Go Go, o principal da Sunset Strip. Foi ali que Jim finalmente conseguiu encarar o público e liberar seu lado performer, entregando-se às apresentações como um ator desesperado.

A banda assinou com a hoje mítica gravadora Elektra, que à época começava a apostar em música pop e abraçaria o rock do final dos anos 60 como sua principal bandeira (depois dos Doors, assinou com a Paul Butterfield Blues Band, o Love, os Stooges de Iggy Pop, o MC5, Tim Buckley e Bread, entre outros). O fundador da gravadora, Jac Holzman, chamou o produtor Paul A. Rothchild (que assumiria o papel de George Martin dos Doors, produzindo cinco de seus seis discos) para capturar a essência daqueles shows. E a gravação do disco de estreia da banda, que foi batizado apenas com seu nome, foi praticamente um show no estúdio Sunset Sound Recorders, com quase todas as músicas gravadas ao vivo em uma mesa de quatro canais (com apenas três usados). As duas primeiras canções gravadas (“Moonlight Drive” e “Indian Summer”) foram limadas da edição final e só foram aparecer nos discos seguintes da banda.

As que ficaram são a matéria que compõe a lenda. O grupo emplacou três hits logo de saída: “Break On Through (To the Other Side)”, “Light My Fire” e “The End”, sendo que as duas últimas eram das jam sessions intermináveis que deram fama à banda. “Break on Through” abre o disco misturando o teclado grave de “What I’d Say” de Ray Charles com a levada de bossa nova, apresentando formidavelmente a banda. “Light My Fire”, a primeira canção composta por Krieger, teve de ter sua letra mudada em apresentações ao vivo para evitar problemas com a moral e os bons costumes norte-americanos, que não aceitavam que se cantasse sobre ficar chapado àquela época. E a épica “The End”, em que Jim Morrison encarnava o Édipo Rei para maldizer seus próprios pais, teve o verso “fuck” soterrado nas gravações.

Além destas, o grupo mostrava-se hábil na composição de curtas músicas feitas para dançar – sem perder nem a poesia lisérgica, nem os devaneios lúdicos instrumentais. Faixas como “Soul Kitchen”, “Twentieth Century Fox”, “I Looked at You” e “Take It as It Comes” eram pérolas do rock de garagem norte-americano que fariam a fama de bandas de um hit só. As viajantes “The Crystal Ship” e “End of the Night” abriam as janelas para viagens mais transcendentais, enquanto as duas únicas versões do disco “Alabama Song (Whisky Bar)” (composta pelo dramaturgo alemão Bertolt Brecht e musicada por seu conterrâneo Kurt Weill na peça Mahagonny-Songspiel ,em 1927) e “Back Door Man” (composta pelo blueseiro Willie Dixon em 1960) esticavam as asas do grupo entre Chicago e Berlim, trazendo álcool e sexo anal para a mistura intensa de um surpreendente disco de estreia.

Depois disso, os Doors partiram para outras viagens, até que Jim encerrou a carreira da banda precocemente ao morrer em uma banheira em Paris no dia 3 de julho de 1971. O trio remanescente até que tentou continuar sem o vocalista original por dois discos, sem sucesso. Afinal, a essência da banda estava naquele disco mágico e improvável que inaugurou 1967 como um dos grandes anos da história da cultura pop, quando os quatro músicos conseguiram transformar o rock em parte de um mitologia ancestral.

Revisitando 2016

2016-blogodomatias

O ano está chegando ao fim e eu aproveitei pra recapitular 2016 a partir de post que fiz no meu blog no UOL durante estes 365 dias.

Não vou tentar resumir tudo que aconteceu em 2016 num único post: vou me ater ao que foi assunto nos últimos doze meses aqui neste blog, que está prestes a completar dois anos aqui no UOL. Em vez de fazer uma relação de melhores discos, filmes ou séries, vou me ater a separar o que achei de melhor e de pior no ano que está chegando ao fim. Entre os piores momentos estão inevitavelmente algumas das mortes que ajudaram a temperar este ano tão complicado, mas que também trouxe grandes momentos para uma cultura em plena transformação. Separei um parágrafo do texto original de cada item escolhido e o título do item linka para o post específico, caso você não o tenha lido quando eu escrevi. De brinde, reuni os textos de 10 discos clássicos que comemoraram aniversário este ano. As três listas seguem o mesmo padrão de contagem regressiva.

Os 10 melhores de 2016

10) Rua Cloverfield, 10

Mary Elizabeth Winstead e John Goodman

Mary Elizabeth Winstead e John Goodman

“Rua Cloverfield, 10 é da escola de filmes de terror que flertam com o pop e experimentalismo cinematográfico ao mesmo tempo, como Psicose, O Despertar dos Mortos, O Massacre da Serra Elétrica, Bruxa de Blair, O Homem de Palha, o espanhol [REC] e A Morte do Demônio – embora não seja propriamente um filme de terror. Não é uma obra-prima com algum dos filmes que citei e chafurda na vulgaridade B da literatura pulp e dos seriados dos anos 60 que tanto encantam J.J. Abrams (sua conclusão é o melhor exemplo disso). Mas suas atuações convencem o espectador e a direção transcende o trivial teatro filmado, com closes fortes e ritmo crescente.”

9) Capitão América – Guerra Civil

De frente

De frente

“A Marvel vai mostrando a cara de sua nova fase. Não é necessariamente um universo mais sombrio e opressor como os sinais dados pelas séries em parceria com o Netflix davam a entender. O novo filme aproxima o universo Marvel da realidade, deixando-o menos infantilizado e mais adulto. Mas isso não quer dizer que o tom seja sério e que não há espaço para o humor – muito pelo contrário. O humor agora não é feito mais para rir e sim para aliviar as cenas de tensão e de ação, dividindo a audiência do filme entre a apreensão calada e a comemoração sorridente. Cenas como a do Visão falando sobre comida, a do Homem Formiga conhecendo os outros heróis ou as piadinhas do Gavião Arqueiro ajudam a quebrar o gelo ao mesmo tempo em que mostram uma outra forma de encarar os super-heróis. Mas nada pode nos preparar para o Homem-Aranha.”

8) House of Cards

F.U.

F.U.

“Em seus dois últimos episódios, a quarta temporada de House of Cards abandona qualquer resquício de fraqueza que havia mostrado nos episódios anteriores e ressurge grandiosa, operática, bélica. O drama shakespereano dá lugar a um mosaico político que faz Maquiavel e Sun Tzu sentarem-se em um xadrez brutalmente tenso, impassível entre bombas, metafóricas ou literais. E o gesto final de Underwood trava a temporada num impasse moral que desnuda completamente o jogo político e pode fazer a próxima temporada ser a última da série (embora ninguém tenha confirmado isso). O fato da temporada começar com uma cena de masturbação em uma cela na cadeia e terminar com um assassinato e uma cena de tortura psicológica coletiva diz muito sobre o tom da temporada.”

7) Novos Baianos e Wilco (empatados)

Imagem: Manuela Scapra /Brazil News

Imagem: Manuela Scapra /Brazil News

“Era claro que a noite era voltada para 1972 e os grandes momentos foram os daquele disco. E se Paulinho brilhou nas delicadas “Mistério do Planeta” e “Swing de Campo Grande”, Baby e Pepeu se reencontravam como um casal musical nos solos rasgados de “A Menina Dança” e “Tinindo Trincando”, como fizeram em seu emocionante reencontro no Rock in Rio do ano passado. O único senão era a voz de Moraes Moreira, que não possui aquele antigo doce timbre e em alguns momentos soa sofrível, chegando quase a estragar “Preta Pretinha”. Felizmente, num dos principais momentos da noite, ele canta num tom abaixo e sua volta por um instante a sintonizar com seu timbre do passado – e a faixa que batiza o álbum clássico foi um dos momentos mais tocantes de toda a noite.”

Imagem: Flávio Florido/UOL

Imagem: Flávio Florido/UOL

“Ao lado de Jeff (Tweedy), o guitarrista Nels Cline é o franco-atirador da banda, que eleva o título de guitar hero a um nível de pós-doutorado. Cline sozinho é um show à parte e seus solos traçam uma conexão clara entre Tom Verlaine e Neil Young, ampliando horizontes a cada nota sangrada no palco. O guitarrista Pat Sansone – outro guitar hero – é uma espécie de arma secreta do grupo, revezando-se entre teclados, guitarra, banjo e vocais de apoio. O pulso firme do baterista Glenn Kotche certifica-se que está tudo sob controle enquanto o tecladista Mikael Jorgensen prepara a atmosfera necessária para cada canção. Isso sem contar o desfile de guitarras (são 70 instrumentos de cordas, entre guitarras, baixos e violões), um deleite para os fãs do instrumento, e o apreço pelo detalhe – se eles quisessem que ouvíssemos o som de uma agulha caindo no palco ouviríamos. O som, outro ponto alto desta pequena turnê, estava tão cristalino quanto no Rio.”

6) Dr. Estranho

Benedict Cumberbatch

Benedict Cumberbatch

“É o filme mais maduro da Marvel até agora e, coincidentemente, sua produção mais psicodélica. Toda aura mística e espiritual do médico que sofre um acidente que o impossibilita de continuar seu trabalho era traduzida em imagens grandiosas e espetaculares nos quadrinhos, publicados principalmente na virada dos anos 60 para os anos 70, auge da experimentação lisérgica da cultura pop. Os autores da Marvel do período – especificamente Steve Dikto, que recebe o crédito de autoria do personagem do novo filme – aproveitavam cores e formas para expandir os limites dos quadrinhos em páginas duplas épicas, cheias de detalhes.”

5) Stranger Things e Coquetel Molotov 2016 (empatados)

Onze e a turma

Onze e a turma

“E esse é o grande segredo da série – não é apenas uma coletânea de referências, é uma história bem contada. Não é uma história nova (qual história é propriamente nova?), mas Stranger Things não cai no erro de Vinyl de achar que basta ambientar bem um período e transformar arquétipos em personagens para que as coisas funcionem sozinhas. A motivação de todos os personagens é bem definida e seus atores estão muito à vontade nestes papéis, mesmos aqueles com menor envolvimento com a trama principal (o núcleo adolescente, por exemplo, mereceria uma série própria). Só o Brenner de Mathew Modine que é mal explorado e um personagem que pode ser tão profundo quanto o Walter Bishop de Fringe vira só um vilão do Scooby-Doo. Talvez tenham guardado seus segredos para uma segunda temporada, que parece inevitável.”

Jaloo (Foto: Beto FIgueiroa/Divulgação)

Jaloo (Foto: Beto FIgueiroa/Divulgação)

“Um quarto de século depois dos primeiros rascunhos do mangue beat, a décima terceira edição do festival pernambucano Coquetel Molotov foi a materialização daquela utopia imaginada no início dos anos 90, quando os primeiros agitadores culturais que criaram aquele movimento hoje histórico começaram a se conhecer. Eles imaginavam uma Recife conectada ao resto do estado, do país e do mundo sem fazer escalas pela ponte Rio-São Paulo, refletindo a atmosfera naturalmente moderna da capital pernambucana em uma conversa internacional e moderna, colocando artistas e público numa sintonia alheia às demandas ou exigências do mercado.”

4) Bowie – ★

A capa do último disco de David Bowie

A capa do último disco de David Bowie

“Todo o simbolismo e o hermetismo que Bowie havia colocado em seu vigésimo quinto álbum foi revelado com a notícia de sua morte na manhã da segunda-feira passada. Soubemos que Bowie já vinha se tratando em relação a um câncer por dezoito meses e que gravou o disco como um testamento para os fãs. Daí a ausência da capa. Eis a estrela negra – a própria morte. Encenada e transformada em arte.”

3) Rogue One

Felicity Jones

Felicity Jones

“É um filme de guerra, com cenas de batalhas espetaculares, mas também um filme sobre um universo em expansão: na primeira meia hora somos apresentados a paisagens e planetas novíssimos, que em breve serão habitados em filmes futuros. Mas também há doses pesadas de emoção – dá pra segurar o choro em pelo menos duas cenas – e a palavra de ordem é esperança. Esperança não apenas para o futuro da história nos filmes (afinal, ele antecede a primeira trilogia, iniciada em 1977), mas também para o rumo que a Lucasfilm está levando sua série. E prepare-se para a terceira parte do filme, que ela é de tirar o fôlego – em vários momentos.”

2) Westworld

Evan Rachel Wood

Evan Rachel Wood

“E a HBO conseguiu mais uma vez. Westworld vem superando todas as expectativas, episódio a episódio, e caminha para se tornar o grande evento da TV em 2016, fazendo a emissora recuperar-se do fiasco que foi a primeira temporada de Vinyl e a promissora mas fria The Night Of. Um enorme quebra-cabeças magistralmente montado em frente aos nossos olhos, intercalando a frieza de máquinas com o calor do velho oeste norte-americano, reinventando completamente uma premissa simples de um filme dos anos 70 para o século 21 e enfileirando monólogos magistrais, atuações impecáveis, cenas intensas, diálogos esclarecedores, teorias complexas e revelações sensacionais.”

1) Radiohead – A Moon Shaped Pool

A enigmática capa do disco mais recente do grupo inglês

A enigmática capa do disco mais recente do grupo inglês

“Mesmo que não seja seu último disco (torço que não seja), A Moon Shape Pool entra para a discografia da banda como seu disco mais maduro e mais apaixonado, mesmo que estas paixões venham corroídas. É um disco suave e tenso ao mesmo tempo, de sonoridade grandiosa recolhida em pequenos frascos de som. Por vezes soa folk, por outras árcade e o tempo todo nos conduz com o coração. Mais um disco perfeito produzido por uma banda que segue no auge há vinte anos.”

Os 10 piores de 2016

10) Esquadrão Suicida

Jai Courtney, Margot Robbie, Will Smith, Karen Fukuhara, Joel Kinnaman, Adewale Akinnuoye-Agbaje e Jay Hernandez

Jai Courtney, Margot Robbie, Will Smith, Karen Fukuhara, Joel Kinnaman, Adewale Akinnuoye-Agbaje e Jay Hernandez

“No fim, Esquadrão Suicida parece ser uma versão dos Guardiões da Galáxia vivida pelo Slipknot (nome, aliás, de um dos supervilões secundários). É intenso, é barulhento, faz rir e passar raiva como uma criança birrenta – porque no fundo, ele é só isso: um filme bobo. Tem bons momentos (nenhum deles com o Ben Affleck), mas não vale o preço do ingresso no cinema – nem no pay per view. Espera passar na TV, que é o lugar certo pra um filme desses – faz o tempo passar, dá pra ir no banheiro ou para a geladeira sem precisar apertar o pause ou dormir no meio sem culpa. Ou seja, é melhor que Batman vs. Superman.”

9) Vinyl

Bobby Cannavale

Bobby Cannavale

“Usar uma gravadora como ponto de observação daquela década parecia tão apetitoso quanto assistir às transformações da década anterior a partir de uma agência de publicidade (a premissa da excelente Mad Men). O problema é que, pra começar, Vinyl usava isso apenas como pano de fundo. Misturava biografias e mitologias diferentes em uma narrativa que parecia sofrer dos principais problemas da década. Só quem se beneficiava era a trilha sonora e a direção de arte (que também sofria do exagero da década). Todo o resto era humilhantemente constrangedor.”

8) O fim da tira Chiclete com Banana

Última tira Chiclete com Banana, publicada no dia 8 de maio de 2016, na Folha de S. Paulo

Última tira Chiclete com Banana, publicada no dia 8 de maio de 2016, na Folha de S. Paulo

“Desligar Chiclete com Banana é uma forma de manter-se vivo. Se continuasse, Angeli poderia ficar ainda mais existencialista e a acidez do passado iria dissolver-se num eterno amargor que começaria a lhe fazer mal. A nos fazer mal. Mal, com letra maiúscula. Felizmente, ele percebeu a tempo de fechar o ciclo. E, com o fim de um ciclo, começa outro – será que agora vamos ver graphic novels ou telas imensas feitas por um sujeito que começou desenhando nas páginas de jornal? Grandes artistas passam por grandes mudanças, algumas vezes sem ter a consciência disso, e conseguem se superar mudando completamente o ritmo do próprio trabalho – Picasso, Rothko, Chuck Close, Lichtenstein, Crumb. Talvez o fim de Chiclete com Banana dê início a uma nova fase para Angeli. Estou na torcida.”

7) Batman vs. Superman

Lixo

Lixo

“Não perca seu tempo nem seu dinheiro vendo este filme. Não recomendo nem que você espere passar na TV aberta para assisti-lo dublado. Porque é um dos piores filmes deste século, tranquilamente. Mas eu sei, você é fã de quadrinhos e fã de filmes de super-herói e vai pagar pra assistir a esse filme no cinema, mesmo com todos os pés atrás possíveis. A gente precisa ver pra ter certeza que não estragaram essa mitologia que crescemos vendo, afinal gastaram tanto dinheiro com isso, né? Não pode ser tão ruim. Pois pode. Pode e é. É o cúmulo do lixo filmado, tudo que está errado em Hollywood atualmente, mais um filme de ação hiperbólico rodando em falso. Mas não mata o gênero super-herói nos cinemas, especialmente se a Warner tirar Zack Snyder da jogada.”

6) A morte de George Michael

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“Mais uma vítima deste trágico 2016, George Michael, que morreu no dia de Natal, aparentemente parece não pertencer ao mesmo panteão dourado que reuniu David Bowie, Prince e Leonard Cohen com o passar do ano. Mas, sim, o jovem de parcos 53 anos é um ícone de semelhante estatura. O que talvez tenha a ver com a natureza de sua musicalidade – compositor refinado e popular ao mesmo tempo (características quase excludentes hoje em dia), ele exaltou as culturas dance e gay e ele elevou a música pop a outro patamar.”

5) A morte de Leonard Cohen

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“Não há, no entanto, tristeza, nem lamento, nem arrependimento, nem dor. Velho desde jovem, Cohen morre tão enfático, decidido e sutil quanto em seus primeiros discos, uma alma quase fantasmagórica que agora vive para sempre em uma curta (14 discos em quase meio século) mas profunda obra. Por isso não chore. Não ceda às emoções. Não entregue-se ao pessimismo. A morte de Leonard Cohen era tão certa quanto foi seu nascimento. Não sofra por um futuro sem ele, iríamos viver isso. Aproveite este último capítulo para celebrar sua existência e comemorar a sua própria maturidade.”

4) A morte de George Martin

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“O barateamento das tecnologias de gravação, o surgimento do hip hop e da música eletrônica e a excelência dos atuais programas digitais de edição de som permitiu que as gerações de produtores seguintes se inspirassem no legado de Martin com os Beatles e fossem além. Hoje há pelo menos três gerações de músicos que não tocam instrumentos musicais e sim outros músicos – um espectro gigantesco que abrange Brian Eno, Dr. Dre, Teo Macero e Lee Perry, que ainda inclui multiinstrumentistas como Prince e Brian Wilson – que deve sua existência ao casamento pioneiro entre os Beatles e George Martin. São dois legados diferentes que se misturam, mas igualmente importante para a cultura atual: o do grupo e o do produtor.”

3) A morte de Carrie Fisher

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“Não era mais uma donzela em pânico esperando ser salva por seu herói, mas ela mesma era uma heroína e fazia parte da gangue. E em Carrie Fisher a personagem cresceu significamente – ao ser interpretada por uma atriz nascida no showbusiness (filha do cantor Eddie Fisher e da atriz Debbie Reynolds), a personagem ganhava uma dose de cinismo, arrogância e despeito que nunca estiveram em uma personagem mulher num filme que atingira um público tão grande. Ela era herdeira direta das protagonistas dos filmes da nouvelle vague francesa: Luke, Leia e Han Solo pareciam ser uma versão norte-americana do trio protagonista do Jules e Jim de Truffaut e uma frase do próprio Godard (“Tudo que você precisa em um filme é de uma garota com uma arma”) é a base para sua presença na tela durante os três primeiros filmes da saga Skywalker. E, claro, assistir as transformações sociais do mundo nos anos 60 ainda criança fez que ela levasse aqueles valores para um personagem que iria mudar a forma como as mulheres se viam fora do cinema.”

2) A morte de Prince

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“Era uma versão masculina da Madonna que tocava todos os instrumentos que queria aprender, um George Clinton que pilotava uma espaçonave sexual, inventor de um funk sintético recheado de soul music e coberto pela estética do rock. Ele ajudou a soul music e a discoteca a se transformarem no R&B moderno ao acompanhar a evolução apontada pelo hip hop tocando instrumentos em vez de discos. Um explorador sônico que usava timbres eletrônicos como desculpa para desbravar ambientes musicais improváveis – e grudentos.”

1) A morte de David Bowie

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“Bowie transformou a sensação de estranhamento que todos nós sentimos – em maior ou menos escala – em grande arte. Estranhamento em relação ao mundo, à sociedade, à vida, a si mesmo. Contemporâneo da geração de ouro da história do rock (era cinco anos mais novo que Paul McCartney, dois anos mais novo que Pete Townshend e Eric Clapton), ele chegou tarde nos anos 60 para garantir presença no panteão que mudou a história da cultura ocidental. Mas não sem motivo. Ao lançar a própria carreira no final da década do rock clássico, ele a sincronizou com um momento único na história da humanidade e fez-se notar pela primeira vez lançando uma música sobre a solidão no espaço sideral e o olhar frio e distante sobre o planeta, a Terra, o mundo, nós mesmos.”

Dez discos clássicos que fizeram aniversário em 2016

10) 25 anos de Bandwagonesque

bandwagonesque

“Sem pretensões mercadológicas, planos de negócios, shows em estádios ou discos de diamante, o Teenage Fanclub conseguiu sintetizar a essência da canção pop em um disco ousado por sua despretensão e marcante por sua simplicidade. Doce e direto, Bandwagonesque sobrevive não apenas como um registro do início do fim da era da canção ou como souvenir nostálgico daquele período, mas como um disco de música pop deveria soar, por definição. Essencialmente humano.”

9) 40 anos do primeiro disco dos Ramones

ramones

“A essência dos Ramones era sua unidade: tudo soava como uma coisa só. Não importavam os instrumentos, baixo, guitarra e bateria seguiam o mesmo ritmo. Os temas das músicas menos ainda – podiam estar cantando sobre nazismo ou sobre dançar, o tom era sempre o mesmo. As músicas pareciam as mesmas e duravam dois minutos cada. Os músicos pareciam o mesmo e seguiam mal encarados independentemente da reação da plateia. O baixista gritava “1-2-3-4″ e as músicas começavam com a mesma grosseria que terminavam. Os Ramones eram repetitivos, monótonos, barulhentos, ameaçadores – essa era sua magia. Aos ouvidos do século 21 os Ramones soam quase inofensivos, mas no meio dos anos 70 era o patinho feio, uma mancha grosseira na bela paisagem do rock de então. Foram eles que plantaram a semente que mudou tudo.”

8) 25 anos de Nevermind

Nevermind

“Foi aí que a ficha caiu: a brecha havia rompido o muro. A partir dali a indústria fonográfica e as rádios começaram a perder o controle (mesmo transformando a geração do Nirvana em uma cena comercial, tal como o proverbial bebê engolindo a isca da capa do disco) e as pessoas começaram a conhecer mais músicas. A partir de Nevermind, a brecha, que era um segredo, tornou-se pública e o mundo descobriu o submundo do pop quando ele já era adulto. O Nirvana era só o caçula daquele novo mercado que começaria a transformar completamente a cara do pop a partir dos anos 90. Quando o computador chegou pra facilitar a gravação de discos em casa e a internet chegou para facilitar distribuí-los, toda aquela safra de novos artistas que alimentaria aquele novo sistema já estava pronta. E a música nunca mais seria a mesma.”

7) 25 anos de Loveless

loveless

“Por toda sua extensão Loveless é um sonho tocado no último volume. O estranho assobio produzido pela forma de tocar guitarra de seu líder Kevin Shields é apenas um dos elementos únicos que definem a banda, como a onipresente parede elétrica de microfonia anestesiada, os doces vocais que sussurram no abismo, o acúmulo de instrumentos, a presença quase sutil de uma bateria montada na pós-produção, em loop eletrônico, o efeito entortado que o uso da alavanca de tremolo dá aos acordes secos e multiplicados, as eventuais ondas de ruído que parecem funcionar como abóbodas de catedrais.”

6) 25 anos de BloodSugarSexMagik

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“Todas as faixas daquele novo disco duplo de quase 75 minutos repensavam o delírio adolescente e fazia a banda confrontar os dilemas da vida adulta – principalmente de natureza espiritual e sentimental. Faixas como “Breaking the Girl” e “I Could Have Lied” mostravam um Red Hot Chili Peppers gravando baladas pela primeira vez e um poema de Kiedis encontrado amassado no chão por Rick Rubin foi transformado em um dos grandes carros-chefe da banda, a balada anti-heroína “Under the Bridge”.”

5) 25 anos de Screamadelica

screamadelica

“”Este é um dia lindo… Um novo dia…”, bradava o reverendo sobre uma base borbulhante, “Nós estamos juntos… Nós estamos unidos… E todos de acordo… Porque quando estamos juntos temos força… E podemos tomar decisões… No programa de hoje ouviremos gospel e rhythm & blues e jazz. São apenas rótulos. Sabemos que música é música”, formalizando Screamadelica como um novo artefato pop: um disco de protesto para dançar e viajar, sintetizado neste discurso sampleado. Uma lição que não tem idade – seja em 1956, 1967, 1972, 1978, 1991, 2016 ou em qualquer outra época – afinal, se Jesse Jackson nos lembra que tudo é música, a própria psicodelia e o Primal Scream, também nos lembram que o tempo não existe.”

4) 30 anos de The Queen is Dead

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“Foi assim que os Smiths abriram um caminho alternativo para o rock, quase trinta anos após sua criação nos anos 50. No momento em que o aspecto guerreiro e trovador do formato se transformava em caricatura ou em algo pior – um mero produto -, o grupo inglês reanimou aquela formação musical para que ela pudesse persistir por mais algumas décadas, apontando para valores considerados secundários no gênero, como a sensibilidade, a timidez, a revolta interior. Um legado imensurável.”

3) 50 anos de Pet Sounds

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“Mesmo que o disco tenha azedado sua relação com seu primo Mike Love, causando o principal cisma na história do grupo, ele é o ápice da carreira de Brian Wilson e dos Beach Boys. A provocação foi entendida pelos Beatles do outro lado do Atlântico, quando Paul McCartney – nascido apenas dois dias antees que Brian – ouviu o disco com a mesma sensação que Brian ouvira Rubber Soul, provocando-o a ser ainda mais ousado com os Beatles, o que lhe fez criar o conceito do disco Sgt. Pepper’s Lonely Heart Club Band, lançado em 1967. Foi apenas um entre os vários artistas influenciados por um disco que foi crucial na transformação que aconteceu nos anos 60 e até hoje faz novos fãs – e que, sem exagero, mudou a cara do pop, que teve no álbum a certeza de que era possível ser mais artístico, autoral e comercial ao mesmo tempo.”

2) 50 anos de Blonde on Blonde

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“São músicas que estão entre as grandes músicas daquele período, independentemente do gênero musical, e, em sua maioria, clássicos do século passado. Da jocosa “Rainy Day Women #12 & 35″ – que abre o disco como uma banda marcial chapada, com Dylan repetindo o trocadilho raso “everybody must get stoned” às gargalhadas, em que brincava com o duplo sentido da palavra “stoned” (apedrejado ou chapado) – à pesarosa “Sad Eyed Lady of the Lowlands”, que ocupa todo o último lado do segundo disco, somos apresentados a um desfile tão impressionante de músicas boas que parece inacreditável que pertençam a um mesmo disco: “Pledging My Time”, “Visions of Johanna”, “One of Us Must Know (Sooner or Later)”, “I Want You”, “Stuck Inside of Mobile with the Memphis Blues Again”, “Leopard-Skin Pill-Box Hat”, “Just Like a Woman”, “Most Likely You Go Your Way and I’ll Go Mine”, “Temporary Like Achilles”, “Absolutely Sweet Marie”, “4th Time Around” e “Obviously 5 Believers” estão todas entre as melhores canções de Dylan e em todas ele consegue equilibrar a autoridade e altivez da arte com a força e crueza do rock.”

1) 50 anos de Revolver

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“A experimentações iam para todos os lados. Solos de guitarra invertidos, canções gravadas em uma velocidade e tornadas mais lentas no estúdio, instrumentos eruditos e estrangeiros, colagens e efeitos sonoros, metais, percussão, microfones colocados em lugares inusitados, cordas inspiradas nos filmes de Truffaut e Hitchcock, letras sobre drogas, morte, sonhos, impostos e um submarino amarelo. Sonatas perfeitas, saudações à vida, composições inspiradas pelos Beach Boys, por Bob Dylan e LSD, romances críveis, palavras de ordem, sentimentos expostos e uma viagem à Índia. Três músicas de George Harrison e uma cantada por Ringo, um conjunto de músicas que não estão entre os grandes hits da banda mas que moram no coração de qualquer fã do grupo.”

E assim despeço-me deste ano que, apesar de tudo, teve seus momentos. O blog volta à ativa no dia 9 de janeiro (ou se acontecer algo urgente, a qualquer momento). Obrigado pela companhia e feliz 2017!

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Escrevi lá no meu blog no UOL sobre como a intérprete da Princesa Leia criou o ícone feminista definitivo.

Infelizmente não foi apenas um susto. O ataque cardíaco que Carrie Fisher sofreu em um voo entre Londres e Los Angeles na última sexta-feira a vitimou definitivamente nesta terça-feira, encerrando uma curta mas intensa biografia de uma atriz que tornou-se um dos principais rostos da história do cinema devido a um único papel. Mas por mais que a princesa Leia possa ter sido um fardo em sua própria carreira, ela sempre soube da importância da nobre imaginada por George Lucas. Mais do que um símbolo cultural incontestável, ela foi o ícone definitivo do feminismo para as massas.

Porque a princesa Leia é a grande novidade da primeira trilogia Guerra nas Estrelas. Como Matrix trinta anos depois, o terceiro longa-metragem de George Lucas não era uma história original e sim um imenso mashup de referências e iconografias de ícones pop do passado. O cenário era semelhantes às das aventuras de Buck Rogers e Flash Gordon nos anos 30, Luke Skywalker tinha um quê de Príncipe Valente, Han Solo era um caubói reimaginado no espaço sideral, Obi-Wan Kenobi um novo Gandalf e Darth Vader e o Império ecoavam as tropas nazistas. George Lucas escreveu o filme com a Jornada do Herói de Joseph Campbell debaixo do braço, mas um elemento especifico neste amálgama de citações era completamente novo: a princesa.

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Não era mais uma donzela em pânico esperando ser salva por seu herói, mas ela mesma era uma heroína e fazia parte da gangue. E em Carrie Fisher a personagem cresceu significamente – ao ser interpretada por uma atriz nascida no showbusiness (filha do cantor Eddie Fisher e da atriz Debbie Reynolds), a personagem ganhava uma dose de cinismo, arrogância e despeito que nunca estiveram em uma personagem mulher num filme que atingira um público tão grande. Ela era herdeira direta das protagonistas dos filmes da nouvelle vague francesa: Luke, Leia e Han Solo pareciam ser uma versão norte-americana do trio protagonista do Jules e Jim de Truffaut e uma frase do próprio Godard (“Tudo que você precisa em um filme é de uma garota com uma arma”) é a base para sua presença na tela durante os três primeiros filmes da saga Skywalker. E, claro, assistir as transformações sociais do mundo nos anos 60 ainda criança fez que ela levasse aqueles valores para um personagem que iria mudar a forma como as mulheres se viam fora do cinema.

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Por isso não entendo o mimimi de machistas desmamados que reclamam da forte presença feminina nos dois filmes mais recentes da Lucasfilm. Rey (do Episódio VII) e Jyn (de Rogue One) são herdeiras diretas do vigor da princesa Leia, de um feminismo que não apenas reivindica a igualdade entre os gêneros, mas que proclama sua autossuficiência, e que ensinou para gerações de meninas que ser princesa (ou melhor, ser mulher) não era sinônimo de uma fragilidade indefesa. E que ensinou para gerações de meninos que as princesas não estão apenas esperando serem salvas passivamente, mas que são parceiras no sentido literal da palavra – alguém com quem você pode contar.

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E isso sem abrir mão da beleza e da delicadeza femininas, embora a Leia de Fisher sempre também tenha deixado claro o quanto ficava desconfortável no papel de mulher-objeto. Uma das principais revelações da primeira trilogia é a revelação que Luke e Leia são irmãos – e o filme do final de 2015 deixa no ar a possibilidade de Leia (e talvez Rey) também poder ser Jedi. O Episódio VIII já foi filmado e estreará daqui um ano – e é bem possivel que teremos uma confirmação deste tipo durante o filme. E que deve ser a confirmação do grande legado da atriz: que a mulher pode ser o que ela quiser, pois a Força também está com ela.

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Escrevi lá no meu blog no UOL o meu tributo a um dos principais artistas pop da virada do século.

Mais uma vítima deste trágico 2016, George Michael, que morreu ontem, no dia de Natal, aparentemente parece não pertencer ao mesmo panteão dourado que reuniu David Bowie, Prince e Leonard Cohen com o passar do ano. Mas, sim, o jovem de parcos 53 anos é um ícone de semelhante estatura. O que talvez tenha a ver com a natureza de sua musicalidade – compositor refinado e popular ao mesmo tempo (características quase excludentes hoje em dia), ele exaltou as culturas dance e gay e ele elevou a música pop a outro patamar.

George Michael era Pop com “P” maiúsculo – “P” de popular. Músicas reconhecíveis por diferentes gerações, refrões que todos nós sabemos cantar, um buquê de hits que poucos conseguem equiparar. Mesmo com a fugaz dupla Wham!, com quem lançou apenas dois discos ao lado de Andrew Ridgely no meio dos anos 80, já havia deixado sua marca, enfileirando músicas que estão no tecido musical dos anos 80, como a irresistível “Wake Me Up Before You Go-Go”, “Everything She Wants”, a primeira versão de “Freedom”, “Last Christmas” e a imortal “Careless Whisper”, que, por um capricho de algum executivo de gravadora, foi relançada como música solo (abrindo com o clássico solo que, na versão original, entrava só pela metade). Mas a versão original da balada que George Michael compôs aos 17 anos havia sido registrada ainda na dupla que o apresentou ao planeta.

Sua carreira solo, no entanto, não deixa dúvidas. Um rosário de hits que embalou a virada dos anos 80 para os anos 90 com finesse e personalidade, levando para as massas conceitos que, se lançados por outros artistas, talvez não tivessem o impacto que tiveram. “Freedom 90”, “Faith”, “Heal the Pain”, suas versões para “Killer”, “Papa Was a Rolling Stone” e “As”, “Too Funky”, “I Want Your Sex” – é música para não deixar ninguém parado. A imagem que criou para si mesmo – um galã sofisticado que não tinha pudor em descer até o chão – foi o principal veículo para suas canções, mas elas, por si só, eram pérolas que poderiam ter sido escritas por Elton John e Freddie Mercury, dois dos maiores ídolos de George Michael, sem precisar se ater à fórmula ou à estética do rock.

Essa é uma de suas grandes contribuições para a nossa cultura: um compositor vigoroso e requintado que abandonava as amarras do rock em busca de uma nova musicalidade. Ele a encontrou na pista de dança e foi um dos grandes nomes – ao lado de outros titãs dos anos 80, como Michael Jackson, Prince e Madonna – a reinventar a dance music como uma das principais linguagens na transformação musical que aconteceu durante os anos 90. Se esta cultura não é mais vista como subproduto pop ou como uma cena descartável, é inegável a importância de George Michael nesta transição.

Isso sem contar seu papel como baladeiro – e não estou falando de noitadas e sim de grandes composições quase em sua maioria compostas ao piano. Compositor escolado na tradição da canção do século passado, escreveu baladas que, sozinhas, já garantiriam seu status ao lado de nomes como Irving Berlin, Hoagy Carmichael & Stuart Gorrell, Stephen Sondheim, Billy Joel, Leonard Bernstein, Carole King, Elton John e Paul McCartney. “Father Figure”, “One More Try”, “Jesus to a Child”, “Older”, “Kissing a Fool” – música para embalar corações apaixonados ou despedaçados.

E há, claro, toda a questão ligada à sua sexualidade. George Michael passou grande parte de sua carreira escondendo sua orientação sexual, que era clara para seus fãs e detratores – o ícone tornou-se inclusive sinônimo derrogativo para os gays. Não é exagero dizer que ele foi tão – ou mais – importante para seus pares que Madonna. Enquanto a cantora norte-americana abraçava a cultura gay como ponta de uma transformação social que finalmente saía do armário nos anos 90, George preferia colocar-se acima desta discussão, talvez por considerá-la irrelevante para sua carreira. Mas seus fãs sabiam que não era e o abraçaram desta forma, mesmo que ele não quisesse transformar-se em uma bandeira deste movimento.

Talvez tenha sido melhor assim. Deixando sua vida pessoal fora, ele reforçou a importância de sua grande musa – a música. E, com tantos hits e canções grudadas em nosso inconsciente coletivo, talvez ele possa ser resumido na versão que fez em 1990 para o quase-hit “Freedom”, catapultando-a para uma das músicas mais emblemáticas de nossa era. Uma música que foi lançada sem a presença do cantor no videoclipe, contrariando todas as exigências do mercado de entretenimento da época. Saindo de cena, ele deixava a música brilhar sozinha. E a letra, que traduzo

I won’t let you down
I will not give you up
Gotta have some faith in the sound
It’s the one good thing that I’ve got
I won’t let you down
So please don’t give me up
Because I would really, really love to stick around

Heaven knows I was just a young boy
Didn’t know what I wanted to be
I was every little hungry schoolgirl’s pride and joy
And I guess it was enough for me
To win the race, a prettier face
Brand new clothes and a big fat place
On your rock and roll TV
But today the way I play the game is not the same, no way
Think I’m gonna get me some happy

I think there’s something you should know
I think it’s time I told you so
There’s something deep inside of me
There’s someone else I’ve got to be
Take back your picture in a frame
Take back your singing in the rain
I just hope you understand
Sometimes the clothes do not make the man

All we have to do now
Is take these lies and make them true somehow
All we have to see
Is that I don’t belong to you
And you don’t belong to me
Freedom
I won’t let you down, freedom
I will not give you up, freedom
Gotta have some faith in the sound
You got to give what you take
It’s the one good thing that I’ve got, freedom
I won’t let you down, freedom
So please don’t give me up, freedom
Cause I would really, really love to stick around

Heaven knows we sure had some fun boy
What a kick just a buddy and me
We had every big-shot goodtime band on the run boy
We were living in a fantasy
We won the race, got out of the place
Went back home got a brand new face for the boys on MTV
But today the way I play the game has got to change oh yeah
Now I’m gonna get myself happy

I think there’s something you should know
I think it’s time I stopped the show
There’s something deep inside of me
There’s someone I forgot to be
Take back your picture in a frame
Take back your singing in the rain
I just hope you understand
Sometimes the clothes do not make the man

Well it looks like the road to heaven
But it feels like the road to hell
When I knew which side my bread was buttered
I took the knife as well
Posing for another picture
Everybody’s got to sell
But when you shake your ass
They notice fast
And some mistakes were build to last
That’s what you get
I say that’s what you get
That’s what you get for changing your mind
And after all this time
I just hope you understand
Sometimes the clothes do not make the man

I’ll hold on to my freedom
May not be what you want from me
Just the way it’s got to be
Lose the face now
I’ve got to live

Valeu por tudo George Michael. Descanse em paz.