“True Love Will Find You in the End” – que triste notícia.
Bacurau não é só um filme. Engendrado por uma década pela dupla pernambucana Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, ele ocupa o espaço de duas horas em uma tela audiovisual para contar uma tensa saga de vingança e violência, mas isso é uma camuflagem. O que ele propõe ao espectador é muito mais importante que a história que está contando – como Kleber já havia feito em seus dois filmes anteriores, O Som ao Redor e Aquarius, só que desta vez com muito mais eficácia. Cada detalhe, cada frase, cada referência funciona como um gatilho para que o espectador faça uma série de questionamentos sobre o que realmente está assistindo. O contexto brasileiro é essencial para que se sinta todo seu efeito.
Olhando de fora (e o filme começa assim), Bacurau é ficção científica. Por mais que envolva-se com inúmeros outros gêneros pelo percurso, sua abertura mirando o espaço e mostrando a curvatura do planeta, conversa com a abertura de todos os Guerra nas Estrelas e o desfecho de 2001 (além de provocar o terraplanismo), enquanto uma canção de Caetano Veloso cantada por Gal Costa sublinha as intenções a se ver com um objeto não-identificado. A localização temporal (“daqui a alguns anos…”, como no início do curta Recife Frio, que Kleber lançou em 2009) e as aparições dos drones em forma de discos voadores de filmes dos anos 50 só reforçam a prateleira em que os diretores colocam seu filme, embora pelo resto da história pouco nos faz lembrar de que estamos olhando para o futuro (e quando o faz, faz gelar a alma).
Acompanhamos a volta de Teresa (Bárbara Colen) para sua cidade-natal, a minúscula vila que batiza o filme. Ela e outros personagens nos servem como guias para conhecer a população local: heterogênea, peculiar e intimamente ligada à cultura, como o filme nos lembra com frequência. É uma vila que, se muito, ultrapassa a centena de moradores e certamente não chega ao milhar – não dá nem para se referir como cidade, embora hospede um microcosmo universal. Mas, como explica o pai de Teresa, Plínio (Wilson Rabelo), logo no funeral que inicia o filme, são pessoas que vivem suas próprias histórias como querem e as levam para todos os lados do mundo – e que orgulham-se de sua honestidade. A apresentação de Bacurau e seus habitantes é lenta e arrastada, como a rotina numa cidade daquele tamanho, e mostra personagens que são alegorias e amálgamas de personalidades estranhas, curiosas e conhecidas de qualquer brasileiro, desenhando uma estranha desordem que permite que aquele lugar sobreviva.
Entre eles e o que chamamos de realidade há o prefeito do município, Tony Júnior (Thardelly Lima), um dos poucos vínculos da vila com o mundo exterior. A forma como a população (des)trata o prefeito é sintomática do principal paralelo que o filme quer estabelecer com o Brasil: a separação de classes. Bacurau não é só uma vila, um estado ou uma região inteira do Brasil – é toda uma parte da população vista pela outra como mão de obra e fonte de diversão (muitas vezes, ao mesmo tempo, como na cena em que o prefeito, cruel e indiferente, leva uma pessoa embora). Isolada do resto do mundo – o termo “Brasil do Sul” é pronunciado apenas uma vez, logo no início, e não sabemos se é uma realidade geopolítica ou à forma como se referem à região -, Bacurau depende de uma série de recursos de fora – da água trazida para a cidade por um caminhão-pipa a doações feitas por políticos com motivos eleitoreiros – que incluem até remédios tarja preta. É uma alegoria, mas é muito real – a cena do caminhão de livros é especialmente crua e cruel.
A rotina da cidade é atravessada por uma série de assassinatos que mudam o enredo do filme. A entrada de novos personagens – e novos idiomas – em sua história faz com que o ar rural e o aceno à ficção científica ceda a uma avalanche de referências a filmes de ação, filmes sobre cangaceiros, road movies, filmes de guerra, filmes de terror e até filmes de super-herói. Os diretores desfilam sua paleta de referências ao nos apresentar ao grupo antagonista da pequena Bacurau, nos levando finalmente ao confronto final – e à catarse do público.
É nesta parte que conhecemos Lunga, de Silvero Pereira. Personagem central na história, Lunga só surge de fato em seu terceiro ato e converge um anti-herói específico da história do Brasil, atualizado para o século atual. Lunga é Lampião e Zumbi, Madame Satã e o Bandido da Luz Vermelha, um Antonio Conselheiro da guerrilha, de unhas pintadas, anéis e maquiagem, que é referido pela primeira vez no filme pelo pronome feminino. Pronto para entrar na mitologia do cinema brasileiro, ele não é o único protetor da pequena Bacurau (é a união da própria vila – aliada ao já clássico “poderoso psicotrópico” – que a torna resistente, como a aldeia gaulesa dos quadrinhos de Asterix), mas sua presença paira por todo o filme como uma ameaça – e quando ela surge, torna-se gloriosa. Um personagem naturalmente clássico, exuberante e ameaçador como uma lenda do folclore brasileiro, nascido de uma interpretação que pede pelo menos um filme a mais só sobre sua importância. Pelo menos.
A tensão imprevisível que sobrevoa cada um dos minutos do filme à primeira vista torna-se ainda mais profunda à segunda vez que o filme é assistido, pois ela vai para além da própria história. Na primeira vez, entramos ingênuos em todo aquele universo, tateando personagens e cenários como se cada degrau pudesse abrir um alçapão. À segunda vez, tornamo-nos cúmplices de seus agentes – primeiro da cidadezinha, depois dos forasteiros e finalmente do povo da cidade.
A sensação incômoda que encerra o filme atinge muito mais profundamente o espectador que os criticados finais das duas produções anteriores de Kleber (que eu, pessoalmente, nem considero tão problemáticos assim). A náusea, o desnorteamento e a esperança que se alternam durante todo o filme concentram-se na mesma sensação no minuto em que o filme termina e o estranho sentimento que nos deixa boquiabertos ou extasiados após a sessão vem com a constatação de nossa letargia e falta de dinâmica política, que passa a ser instigada pela provocação intensa que atravessa suas horas. E perdura.
Assim, cada cena, cada personagem, cada fala, cresce exponencialmente na memória – e Kleber e Juliano deixaram pistas e pistas (algumas até inconscientes, como o número da distância na placa que localiza Bacurau no mapa) espalhadas pelo filme. Como comentei na abertura do Vida Fodona mais recente, pegue apenas o exemplo de “Bichos da Noite”, música de Sérgio Ricardo escolhida para o cortejo fúnebre que abre a história. A canção foi originalmente composta para uma peça de Joaquim Cardozo, poeta e dramaturgo pernambucano que começou tardiamente a vida artística, lançando seu primeiro livro de poemas aos 50 anos de idade, época em que passou a escrever suas peças. “Bichos da Noite” foi escrita para a primeira peça de Cardozo, O Coronel De Macambira, antes de Sérgio Ricardo ser chamado para compor a trilha sonora de dois clássicos brasileiros que ecoam em Bacurau, Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, de Glauber Rocha. Cardozo, antes de se assumir poeta, era engenheiro civil e foi o responsável por transformar em cálculos matemáticos boa parte dos devaneios arquitetônicos de Oscar Niemeyer – incluindo aí parte de Brasília e especificamente o Palácio do Planalto. Numa única canção, que menciona nominalmente o título do filme, Kleber e Juliano plantam referências ao Cinema Novo, ao governo federal, à cultura pernambucana, à construção de Brasília, à paisagem nordestina.
Dezenas de outros exemplos surgem durante todo o filme: de uma escola chamada João Carpinteiro (traduza o nome para o inglês e temos uma das principais referências cinematográficas do filme) à singela foto de Sônia Braga e Lia de Itamaracá juntas ainda jovens, passando pela estranha substância ingerida pelos habitantes da vila, pelo destino do infame prefeito, pelo final dos invasores. Tudo tem pista, tudo tem subtexto, tudo vai para além da história. Isso tudo num filme que une sexo, nudez, drogas, palavrões, tiros, perseguição e uma exaltação à cultura e às ciências humanas (à culinária, à música, à dança, à museologia, à televisão, ao teatro, às letras), tornando-o potencialmente tão grande quanto Cidade de Deus e Tropa de Elite antes dele (e, de alguma forma, antevendo, como os dois, a década que veremos no futuro?).
Bacurau é um vírus e quem sintoniza-se em sua frequência sai do cinema infectado – pedindo mais. Como um vírus, sua principal função é a replicação – e aí o filme tem um caráter de meme, repetindo-se como uma ideia que, depois de plantada na cabeça do espectador, perdura por horas, dias. Em pouco tempo o filme estará online e nas bancas de camelô pelo Brasil todo e sua narrativa flerta com uma situação que todo brasileiro pode se identificar. Sua sobrevida vai para além do universo ficcional e encontra-se com o Brasil de 2019 quase como um desafio, como se o futuro e o filme – o principal acontecimento cultural de 2019 até agora – nos perguntasse: vai deixar assim, é?
O filósofo eslavo fala sobre ideologia em sua análise sobre o ótimo They Live, um dos melhores filmes de John Carpenter: “Você vê a ditadura na democracia, a ordem invisível que sustenta sua liberdade aparente”.
A cena acima é um trecho do filme O Guia Pervertido do Cinema, conduzido pelo filósofo e dirigido por Sophie Fiennes em 2006.
No lindo forrozinho “Meu Primeiro Amor”, primeiro single de seu próximo álbum, O Céu é Velho Há Muito Tempo (que será lançado no dia 18 de outubro), o baiano Lucas Santtana convida a pernambucana Duda Beat para tentam conciliar as metades separadas do Brasil, uma discreta balada que torna-se um manifesto apaixonadamente político (citando nominalmente Lula) e com os gêneros espertamente trocados entre os dois vocais.
“Quanta violência dá pra fingir que não há?”, nos questiona o jovem mestre Siba Veloso, que saca de sua capanga mais uma obra-prima: Coruja Muda, sucessor (e “disco irmão”, como ele me diz na entrevista abaixo) do forte De Baile Solto, até então seu disco mais contundente, que está sendo lançado nesta sexta-feira. Sua força permanece categórica, mas o disco soa mais macio e fluido que seu antecessor, principalmente pelo trançado cada vez mais firme entre sua guitarra de tons africanos e o andamento manhoso das tradições pernambucanas – e quando bate mais forte, musicalmente, requebra pro lado, dando um sorriso acanalhado que não surgia no disco anterior. “O Baile nasce da perplexidade”, me explica, enquanto “Coruja já nasce na consequência daquilo tudo”.
É um disco vivo e feito pra dançar, mas que pisca cúmplice para o ouvinte seus duplos sentidos, suas analogias animais e seus pés arrastando no chão. Comparando gente e bicho em quase toda sua extensão, recupera-se do susto antevisto com a ascensão do autoritarismo para comentá-lo de forma mais aguda, mas sem cara feia. “Só é gente quem se diz”, Coruja Muda parece resumir-se no título de uma de suas canções centrais, que de alguma forma conversa com uma cena que parece menor do recente fenômeno cinematográfico Bacurau, quando uma personagem ouve a resposta quando pergunta como se chamam os nascidos naquela cidade fictícia. Bati um papo com ele sobre o novo disco e não pude deixar de perguntar se ele havia visto o filme de seu conterrâneo Kleber Mendonça Filho: “Não vi e adorei”, respondeu com um sorriso no rosto. Logo depois ele comenta o disco faixa a faixa.
“Coruja Muda” – “Foi inspirada em um áudio de Fábio Trummer solicitando ao fotógrafo José de Holanda as condições meteorológicas perfeitas para uma foto a ser feita. Discorre sobre o que por ventura venha a ser uma parte de minha parte bicho nessa história toda. Quem canta no final a voz da Coruja é Chico César e o Pajé é Mestre Nico.”
“Só é Gente Quem Se Diz” – “A música se divide em duas partes. A primeira é uma embolada em décimas, a segunda um arremedo irreconhecível de axé. A bicharada deita e rola superando a humanidade, em coerência e dignidade, ao longo da letra.”
“Tamanqueiro” – “É uma carta real, escrita em ritmo de embolada, com o objetivo de encomendar um tamanco para uso diário. É verdade esse bilête. Na parte instrumental em que o tamanco é fabricado, escuta-se Arto Lindsay, Edgar, Rafael dos Santos e Dustan Gallas trabalhando com dedicação.”
“Daqui Pracolá” – “Fauna e flora de minhas vivências de infância no agreste pernambucano brincam de vida e lutam de morte. Tive essa sorte de ter família com lastro forte no interior, natureza fofinha não é muito a minha…”
“O Que Não Há” – “Dou um passo em direção ao verso não metrificado, embora não chegue longe. Tem muito mais influência das longas canções de Franco com a banda OK Jazz nos anos 70 do que seria capaz de esconder. Fala da violência muda da classe média brasileira.”
“Azda (Vem Batendo Asa)” – “É um atestado definitivo da cara de pau e falta de noção deste poeta em se meter a fazer uma versão de um clássico da música congolesa que sempre o assombrou pela beleza. Antes de desistir descobri que a música era na verdade um jingle de Franco para uma loja da Volkswagen em kinshasa. Nada é tão sério assim, afinal de contas. ”
“Barato Pesado” – “É um frevo abolerado ou o contrário. Panfleto místico de exortação à conversão imediata e absolutamente necessária a qualquer forma de culto à vida e à alegria do presente. Hino da festa como elemento básico de exaltação religiosa.”
“Tempo Bom Redondin” – “É correria inútil contra o tempo que a tudo atravessa. Hino à preguiça e atualização da cansada tese de que não vale a pena levar nada tão a sério. Quem toca synth nela é Dustan Gallas.”
“Carcará de Gaiola” – “Tem bicho que não foi feito pra gaiola. Quando está preso, carrega muitos pra dentro consigo. Não consegui evitar o Baque Solto, nem nesse disco. Na orquestra, Galego do Trombone, Roberto Manoel e Maestro Minuto, da Fuloresta.”
“Meu Time” – “É a segunda faixa extra do disco. Tá aí porque cresceu muito com as versões e os anos de estrada e pra provar que não sou oportunista. Fiquei calado na Copa e relancei a faixa fora de época mais uma vez.”
“Toda vez que eu dou um passo / O mundo sai do lugar (Slight Return)” – “É a versão atualizada desta música que sou obrigado a tocar mesmo quando não quero. Atravessou todas as mutações que meu trabalho sofreu desde que ela existe. É a música que fecha os shows também.”
Quando Tika e Kika me procuraram para contar que estavam se transformando numa dupla, minha reação deve ter sido parecida com a da maioria das pessoas e cogitei que a aproximação vinha apenas da sonoridade dos nomes únicos e rimados das duas cantoras. Mas a aproximação das duas mostrava camadas que iam para além do jogo de palavras do novo nome artístico e como elas se complementavam: multiinstrumentistas, professoras de canto e de formação clássica, elas também cuidam dos aspectos executivos das próprias carreiras elas mesmas – Kika, melodista de raiz reggae, construiu sua reputação ao compor dois discos deliciosos (Pra Viagem e Navegante), enquanto Tika, de voz clara e timbre macio, reuniu diferentes convidados em seu disco de estreia, Unwritable. Propus uma temporada com as duas no Centro da Terra há quase um ano e a temporada chamada Colar agora gera seu primeiro fruto, quando elas lançam o single “Onda de Amor”, que quiseram aqui no Trabalho Sujo, que apresentam ao vivo nesta quinta-feira, no Sesc Avenida Paulista (mais informações aqui). O single foi produzido por Fabio Pinczowski e o show terá as participações dos músicos Lenis Rino, Igor Caracas e Pipo Pegoraro, todos convidados da temporada que gerou a dupla.
O cantor e compositor paraibano Chico César antecipa seu próximo disco, O Amor É um Ato Revolucionário (veja a capa abaixo), com o reggae de protesto “Pedrada”, que chega às plataformas digitais nesta sexta e pode ser ouvido em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. Na canção, Chico não mede palavras para falar contra esse 2019 perverso que estamos assistindo e fala dos “cães danados do fascismo” e do “fruto podre do cinismo”, dando a dica que “a bola incendiária está no ar” e conclamando “fogo nos fascistas! Fogo Jah!”.
“Eu compus essa canção comprando produtos de limpeza no supermercado. Ao voltar pra casa, no caminho, fui amadurecendo e ao chegar em casa, gravei uma versão dela e soltei nas redes sociais”, explica Chico. “Essa canção não é sobre um governo, um partido, é sobre a sociedade: uma sociedade que foi se tornando violenta e intolerante, uma sociedade que pode chegar ao cúmulo de defender a aniquilação física do outro”. A música foi produzida por Eduardo Bid, que chamou a banda Leões de Israel para acompanhar Chico nessa rara canção de protesto em 2019. Que inspire outras.
Boa notícia! Lúcio Ribeiro acaba de confirmar que o Metronomy, liderado por cantor e compositor Joseph Mount, como atração de sua Popload Gig de dezembro. O grupo inglês vem mostrar o novo disco, Metronomy Forever, que por sua vez vai ser lançado na semana que vem, passando por São Paulo no dia 7 (no Audio), em Curitiba no dia 9 (na Ópera de Arame), no Rio de Janeiro dia 11 (no Sacadura 154) e em Porto Alegre dia 13 (no Opinião). Os ingressos começam a vender dia 9, no site Ticketload.
Morre um dos maiores nomes da história do samba.
O mestre Neil Young e seus fiéis escudeiros do Crazy Horse anunciam o lançamento do disco Colorado, o primeiro desde o épico Psychedelic Pill, de 2012, com a melancólica e forte “Milky Way”.
O disco, que já está em pré-venda, será lançado no dia 25 de outubro. Abaixo, sua capa e o nome de suas músicas – e a torcida pra que pelo menos duas delas tenham mais de dez minutos:
“Think Of Me”
“She Showed Me Love”
“Olden Days”
“Help Me Lose My Mind”
“Green Is Blue”
“Shut It Down”
“Milky Way”
“Eternity”
“Rainbow Of Colors” (studio version)
“I Do”














