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edobrien

Depois de apresentar dois singles no ano passado, o guitarrista do Radiohead Ed O’Brien finalmente oficializa seu disco solo ao lançar mais uma canção, “Shangri-la”:

O disco se chamará Earth e será lançado em abril (e já está em pré-venda). O guitarrista inglês, que inspirou-se no tempo que morou no Brasil para compor o álbum, preferiu anunciá-lo apresentando um novo nome, chamando-se apenas de EOB. Ele contou com alguns convidados ilustres para o disco, como o baixisata do Radiohead Colin Greenwood, Laura Marling, Adrian Utley do Portishead, Glenn Kotche do Wilco e David Okumu do grupo The Invisible. No vídeo abaixo, ele fala mais sobre o processo que inspirou o álbum.

Além de “Shangri-la”, a música “Brasil”, que apresentou no fim do ano passado – com seu clipe de ficção científica – também está no disco, cuja capa e ordem das músicas pode ser vista abaixo. Ele tirou a primeira música que mostrou em público, a ambient “Santa Teresa”, da seleção final das músicas.

Tudo muito bonito, mas tudo meio sem gosto, sem alma, não acharam?

eob-earth

“Shangri-La”
“Brasil”
“Deep Days”
“Long Time Coming”
“Mass”
“Banksters”
“Sail On”
“Olympik”
“Cloak of the Night”

Foto: @edgardscan

Foto: @edgardscan

Quando soube da morte de Andy Gill, Edgard Scandurra não escondeu a influência guitarrista do Gang of Four em sua forma de tocar seu instrumento e despediu-se do inglês chamando-o de “irmão mais velho do pós-punk”. Aproveitei a deixa e pedi para ele escrever sobre a importância de Gill para ele mesmo e para a cena paulistana dos anos 80 e ele lembrou que seu nome foi inclusive sonhado para produzir um disco do Ira!. Imagina…

Até o fim do anos 80 existia um espaço-tempo cultural de cinco anos entre os acontecimentos artísticos do primeiro mundo e o que acontecia no Brasil. Foi nesse gap que conheci o som da banda Gang of Four, na casa de um amigo de um amigo, repleto de discos de Frank Zappa e Miles Davis. Há sons que você precisa vivenciar pra compreender.

E essa primeira audição foi uma das sensações musicais mais loucas que tive. Eu era um jovem guitarrista, com 19 pra 20 anos, e a guitarra errante e a pegada anti-heróica e absolutamente imprevisível de Andy Gill mudou o que já vinha se transformando em mim desde o punk, no que dizia respeito ao virtuosismo guitarristico. A escola que vinha do blues, nomes como Jimi Hendrix, Jimmy Page, Jeff Beck e tantos outros, era substituída por notas trepidantes, harmônicos dissonantes, algo parecido com o partir de uma guitarra ao chão. O ruído do captador, o riscar das cordas em contato com o pedestal de microfone – uma ruptura que me pegou em cheio.

Desde então, eu – que nunca escondi o nome de meus ídolos – abracei a causa sonora, política e estética da turma dos quatro, que tirou seu nome da Camarilha dos Quatro que foi responsável pela revolução cultural comunista na China, entre 66 a 76.

O primeiro álbum, Entertainment!, nãoacertou em cheio não só a mim! Foi audível a influência da banda e de seu guitarrista na cena new wave paulistana e brasileira naquele início dos anos 80. Inclusive no teor político: da anarquia do movimento punk a uma concepção mais crítica e marxista, o pensamento daquele pós-punk parecia mais refinado, uma sútil troca de Ramones por Erik Satie, da guitarra rock and roll, por um minimalismo cerebral e ao mesmo tempo visceral representado pelo Gang of Four e seu genial guitarrista. Sua guitarra influenciou Paul Weller a partir do disco Sound Affects, de 1980.

Tive o prazer em assisti-lo por três vezes, em distintas formações nos shows do Gang of Four no Brasil e na última vez, no Sesc Pompeia, tive uma triste sensação de que assistia ao show de Andy Gill e não mais à banda (Andy era o único remanescente da fundação original) – e toda aquela cena revolucionária não mais se repetiria. Agora com morte recente, pude me aprofundar em seus discos solo e nos discos que produziu, como discos dos Stranglers (Written in Red, de 1997), do Killing Joke e o primeiro dos Red Hot Chili Peppers. E pensar que o Thomas (Pappon, do Fellini) chegou a sugerir que ele produzisse um disco do Ira!…

Na minha opinião, o segredo maior e o grande desafio mod é superar o original e Andy conseguia superar a si mesmo. Descanse em paz, querido irmão mais velho da cena pós-punk de todo o mundo.

SharonVanEtten2020

Sharon Van Etten lançou um discaço ano passado, mas isso não é motivo para descanso – e acaba de lançar a ótima “Beaten Down” como single, sem anunciar se pertence a um álbum futuro ou não.

Mas com uma música dessas, o importante é que ela siga compondo e gravando, independente de qual formato.

Flu metal

Foto: Rogério Ferrari

Foto: Rogério Ferrari

Depois de anos trabalhando como produtor eletrônico solitário, o ex-baixista do Defalla, foi aos poucos integrando amigos e conhecidos à execução de suas músicas, culminando com seu disco mais recente, Rocks (2013), quando montou diferentes grupos a partir de vários músicos no estúdio. Desta vez ele resolveu assumir de vez a natureza de banda no processo criativo e anuncia o lançamento de Mundo Novo, um disco em que também divide as canções com o mesmo grupo de músicos, batizado de Flu & Amigos: “O Marcelo Fornazier é meu parceiro musical desde o tempo do Defalla em 1992, nos entendemos bastante musicalmente. O Luciano Ganja entrou no século 21 pra turma e já é honorário. O mais novo é o Cláudio Calcanhoto que apesar de sermos amigos dos anos 80 nunca tinha chamado ele pra turma”, me explica o músico e produtor gaúcho por email, lançando o primeiro single deste disco, a singela e pesada “Porco”, em primeira mão no Trabalho Sujo. “Apesar de muita coisa ter feito sozinho rabiscando nuns brinquedinhos eletrônicos, o resultado final é criação de banda. Por isso resolvi virar banda e não mais artista solo. Eu mostro as bagunças e bagunçamos juntos pra dar um resultado final!”, ele continua.

Ele explica a escolha da música de apresentação do novo disco: “Desde que a gente começou a tocar eu via um grito de porco no riff de guitarra. Daí colocamos de brincadeira e foi ficando. Mas é aquele porco de quadrinhos, tipo o que o Max Sieber desenhou mesmo. Mundo divertido e infantil As crianças são muito espertas e sagazes”, ele explica, se referindo à capa do single, feita pelo filho do amigo Allan Sieber, Max Sieber.

flu-porco

“A sonoridade vai ser bastante variada”, ele prossegue, dizendo que ainda está fechando os arranjos finais. “Mas certo que vai ser mistura de locurinhas eletrônicas com riffs de guitarras, mais alguns rocks e umas de viola. A ideia de mundo novo é a de que tudo pode. Então vamos meter bronca nessa liberdade de criação!” O título do disco veio de uma região perto de Maquiné, no Rio Grande do Sul, onde ele passou um tempo longe da cidade. “O mato nos dá força e nos mostra que somos mais poderosos que a gente imagina”, ele se empolga, “É um olhar mais maluco sobre tudo, sem medos e receios desse momento fascista.”

Ele tem outros amigos em vista para agregar ao grupo inicial. “Além da banda base, por enquanto, chamei o amigo Diego Medina, que foi da banda Video Hits, baita artista. O Gabriel Guedes, do Pata de Elefante e Cumbia Negra, que fez o solo final do próximo single. Ainda conversando com o Paulo Beto pra desenvolver uma parceria que tinha começado com o Miranda e precisa de muitos ajustes”, ele explica, falando que está armando a vinda para São Paulo em um show na Casa do Mancha, em São Paulo. “Ao vivo sempre é bem rock. As firulas eletrônicas se transformam em riffs de guitarras e fica bem pesado!”, conclui.

marcelodolabela-

Aproveitando o show desta sexta-feira, pedi para o Paulo Beto, o mentor do Anvil Fx e amigo de Marcelo Dolabela, que será homenageado neste show, para que ele escrevesse sobre a importância do escritor e poeta, que morreu no mês passado:

Sou muito ruim de datas, mas foi ou em 2016 ou no início de 2017, que tive a felicidade de encontrar o Marcelo tomando uma cervejinha num bar em plena Avenida Paulista. Ele me viu e me gritou. Estava acompanhado de sua adorável Regina. Conversamos um pouco, mas foi rápido. Ele me disse que ia passar uns dias e trocamos contato pra nos ver mais e bater um pouco de perna em SP.

Acho q ele já sabia que eu tinha incorporado no meu repertório ao vivo uma versão de “Aqui Aqui” do Divergência Socialista. Eu disse que ele precisava conhecer a Bibiana Graeff, vocalista da minha banda, e uma noite acabou rolando. Ele se encantou bastante com ela, até porque ela já era bastante fã de sua poesia. Nesse período dele aqui, me mandou um email com duas poesias que ele havia escrito num tempo ocioso no hotel. Me enviou a seguinte mensagem:

“Paulo Beto

bom dia
quarta-feira, como estava livre, fiquei em casa.
ouvi várias vezes a demo-tape sua e da Biba.
ela está ótima.
de tanto ouvi-la, rabisquei estes dois esboços de letras.
se servirem, usem.

As lágrimas vermelhas de Olga B. (tanka # 2016A)

A cara desta fera é a usura

a peste desta festa infesta

a cura deste vício é a fúria

A besta saiu da floresta

a procura é o que nos resta

A cara desta fera é a usura

a peste desta festa infesta

a cura deste vício é a fúria

A besta saiu da floresta

a cultura é o que nos resta

A cara desta fera é a usura

a peste desta festa infesta

a cura deste vício é a fúria

A besta saiu da floresta

a loucura é o que nos resta

*

Louise Brooks voltou a sorrir

A máquina de tua maquiagem

o sexo: anexo? Convexo?

a brita que te faz tão bonita

na grata

greta

grita

grota

gruta

quem escuta tua imagem?

quem vê tua luta na paisagem?

quem lê tua bruta mensagem?”

Eu fiquei absolutamente chocado com a qualidade e conteúdo do material. E num email seguinte ele me disse:

“são duas, mas podem virar uma letra só.
o mote é o mesmo.
beleza (Louise Brooks) + verdade (Olga Benário) + realidade (Brasil-Hoje).
como disseram os românticos alemães: ‘a beleza é a única verdade / a verdade é a única beleza’.”

Fora esse texto ele me enviou livros e impressos e me incentivou a experimentar música com seus poemas.
Com grande amor à obra desse poeta fascinante, que com sua atitude/poema/punk fez minha cabeça explodir no único show que vi de sua banda em 1988 no DCE da UFJF de Juiz de Fora, e desde então Divergência se tornou pra mim uma influência fundamental.

Em sua carreira, Dolabela publicou mais de 30 livros. Entre eles, o ABZ do Rock Brasileiro, considerado a principal referência enciclopédica do rock nacional até a década de 2000. Ele ainda é o autor de Radicais e Adeus, América, que chegou a virar filme sob direção de Patricia Moran.

Estudioso, colecionador e influenciador de várias gerações da música underground de Belo Horizonte, Marcelo Dolabela fundou, em 1983, o Divergência Socialista, banda pilar da cena alternativa da capital mineira. A partir dela várias outras nasceram, dividindo os mesmos integrantes e ensaiando no mesmo espaço, como o Sexo Explícito, R Mutt, Ida e os Voltas, O grande Ah!, entre outras, e anos mais tarde o Pato Fu e o Tetine. “A gente meio que orbitava em torno do Marcelo. É mestre de muitos outros, de outras gerações”, publicou Ulhoa em uma rede social.

Em sua carreira como roteirista, assinou o texto do curta-metragem Uakti: Oficina Instrumental, do cineasta Rafael Conde, que faturou os prêmios de melhor filme e melhor montagem no Festival de Gramado de 1987. O artista também é responsável pelos roteiros dos filmes Arnaldo Batista: Maldito Popular Brasileiro e Adeus, América, ambos de Patrícia Moran.

Fará muita falta esse grande Mestre agredador e professor da arte inconformista, vanguardista e provocadora.
Seu conhecimento precisa ser perpetuado e difundido, porque durante décadas lá esteve ele acumulando, observando, ensinando e principalmente pensando muito a respeito do rock, do pop, da arte e da poesia.
Que se mantenha acesa a luz e o fogo de Marcelo Dolabela.

belchior

O jornal Nexo fez uma reportagem sobre a renascença de “Sujeito de Sorte”, de Belchior (que é a base de “Amarelo” de Emicida e está no disco Acorda Amor, na voz da Letrux) e pediu meus comentários, além de falar com o biógrafo do cantor cearense Jotabê Medeiros e com a jornalista Kamille Viola, sobre o assunto – confere lá.

gil2020

Em entrevista dada ao Le Monde Diplomatique Brasil no começo do ano, nosso melhor ministro da cultura Gilberto Gil fala sobre a política de verdade do século 21.

kaytranada-kali-uchis

O mestre haitiano-canadense Kaytranada lança a versão em vídeo para uma das melhores músicas de 2019, “10%”, sua parceria com a irresistível cantora colombiana Kali Uchis.

Pra sair deslizando na pista…

kirk-douglas

O Coronel Dax em Glória Feita de Sangue, o Van Gogh em Sede de Viver, o personagem-título de Spartacus… Kirk Douglas, que morreu nesta quarta depois de 103 anos bem-vividos, atuou vivendo homens de personalidade forte ou, como ele mesmo dizia, “fiz minha carreira interpretando filhos da puta”, mas meu filme favorito com ele é um de seus primeiros sucessos, quando vive o escrotaço Chuck Tatum no imortal A Montanha dos Sete Abutres (1951), um marco no cinema dirigido por Billy Wylder por retratar o jornalismo de forma crua e sem floreios, funcionando como um dos grandes marcos da história do cinema (ao lado de pelo menos O Homem que Matou o Facínora). E Kirk está ótimo!

hayleywilliams-dualipa

Tô falando pra ficar de olho na carreira solo da vocalista do Paramore, Hayley Williams… Saca essa versão que ela fez pra ótima “Don’t Start Now” da Dua Lipa num programa da BBC.