Ah, você quer se acabar de dançar na quarentena? Então segura essa mixtape que o mestre francês Breakbot pinçou pra gente espantar os fantasmas deste 2020 deslizando e requebrando na sala de estar. Groove finíssimo: soul anos 80, funk anos 70, house fino, R&B e disco music tudo misturado de um jeito que é impossível ficar parado. Sente só:
Um trecho da série Sopranos
The Jones Girls – “Let’s Hit It” (intro)
Finesse – “I Can’t Help Myself”
Rufus & Chaka Khan – “Live In Me”
Fern Kinney – “Groove Me”
The Jones Girls – “Life Goes On”
Donald Byrd – “Love Has Come Around”
Ann C. Sheridan – “Sing it Low”
Breakbot – “Be Mine Tonight (feat. Delafleur)”
Barbara Roy – “If You You Want Me”
Magoo – “Funktime (feat. Eddie Craig)”
Gemini – “Something Special”
Con Funk Shun – “Da Lady”
AM KO – “Just Chilling’ Out”
Dynasty – “Groove Control”
Cerrone – “Soumission”
Breakbot – “Why (feat. Ruckazoid)”
Rhythm Heritage – “Disco Derby (Take Me Dancin’)”
Earth Wind & Fire – “Sing A Song”
Strange Affair – “Love Is A Strange Affair / Fantasy”
Frisky – “You’ve Got Me Dancing In My Sleep”
Carrie Lucas – “I Gotta Keep Dancing’”
Lemon – “A-Freak-A (Remix)”
Paper Doll – “Get Down Boy”
El Coco – “Afrodesia”
Alicia Myers – “I Want To Thank You”
Duncan Sisters – “You Give Me Such A Feeling”
Yuksek – “The Only Reason (feat. Breakbot & Irfane)”
É claro que trechos da live paga que a cantora norte-americana Angel Olsen fez no sábado passado iriam vazar – e entre pérolas do seu repertório com foco nas músicas de seu disco mais recente, versões (de “More than This”, do Roxy Music, e de “Tougher than the Rest”, do Bruce Springsteen), ela também mostrou duas músicas novas, sem título e sem terminar as letras. Algumas músicas desta noite – incluindo as duas inéditas – entraram nesta playlist abaixo:
Que mulher!
“Pegue os alicates”, Fiona Apple canta o refrão da faixa que batiza seu novo álbum como se estivesse capturando a sensação de pressão interna e desespero em relação ao futuro em 2020, “estou aqui há muito tempo”. Ela não está falando da quarentena ou da pandemia – pelo menos não diretamente. Em Fetch the Bolt Cutters ela segue seu papel que mistura a trovadora e a cronista, passando por aquela brecha entre a divindade etérea de Tori Amos, Björk e Kate Bush e a mundanidade rock Patti Smith, PJ Harvey e Cat Power em que poucas – Sharon Van Etten, St. Vincent, Angel Olsen, Lykke Li e Letrux, só pra citar algumas – conseguiram se esgueirar, e segue cantando sobre relações conturbadas, que podem ser, ao mesmo tempo, entre música e celebridade, arte e mercado ou sobre casos e casamentos que tomaram rumos inesperados – muitas vezes drásticos.
Mas ao apressar o lançamento de um disco que vinha sendo prometido há oito anos no meio da quarentena, ela entendeu que havia captado a essência dessa angústia ambígua que marca este 2020 confinado. São canções cujas melodias evidentemente nasceram ao piano, mas no estúdio renasceram percussivas, tornando crucial o ritmo das batidas – sintéticas ou analógicas – para o andamento de todo o disco, que também conversa com o canto cada vez mais falado da cantora nova-iorquina. A estranha mas familiar proximidade de Fetch the Bolt Cutters com o rap torna o disco ainda mais incisivo, mesmo nos momentos mais sutis, embora estes sejam poucos. Quase sempre Fiona canta com um riso no canto da boca e sangue nos olhos, pronta para virar o jogo ao menor deslize do adversário, seja quem ele for: “Pode me chutar embaixo da mesa o quanto quiser, eu não vou me calar”, vocifera em “Under the Table” para depois lamentar à distância “você e eu seremos como alguns cosmonautas, exceto que com muito mais gravidade do que quando começamos” em “Cosmonauts”. E os versos centrais de “Relay” e “For Her” (“O mal é um esporte de revezamento, quando aquele que está queimado volta para passar a tocha” e “Como você sabe que deveria saber, mas não sabe onde é”) parecem comentar especificamente a trágica política deste ano bizarro, acertando em cheio nas caricaturas que deixamos tomar conta de nossas vidas como se mirasse em nós mesmos, sem aliviar nada pra ninguém, enfiando o dedo na cara e na ferida ao mesmo tempo. Um disco tão maravilhoso quanto, desculpem o clichê, necessário.
Preso em isolamento da quarentena, o bardo australiano Nick Cave tem conversado mais ativamente com seus fãs através do fórum de seu site, respondendo a perguntas em textos aprofundados. Um dos temas recentes foi a música mais recente de Dylan, “Murder Most Foul”, um épico de tirar o fôlego que o poeta norte-americano revelou logo no início da quarentena. Disse Cave:
Muitos já escreveram sobre a nova música de Bob Dylan, “Murder Most Foul” – e o interesse é justificável. É uma desconcertante mas bela canção e, como muitas pessoas, fiquei extremamente comovido por ela.
No coração desse épico de dezessete minutos, está um terrível evento, o assassinato de JFK – um vórtice sombrio que ameaça puxar tudo, exatamente como nos EUA em 1963. Girando em torno do incidente, Dylan tece uma litania de coisas amadas – principalmente música – que alcançam a escuridão, na libertação. Na medida em que a música se desenrola, ele lança a linha de vida após linha de vida, de forma insistente e semelhante a um mantra, e somos erguidos, ao menos momentaneamente, livres do acontecimento. A cascata incansável de Dylan feita de referências de músicas aponta para o nosso potencial como seres humanos de criar coisas bonitas, mesmo de frente a nossa própria capacidade de malevolência. ‘Murder Most Foul’ nos lembra que nem tudo está perdido, pois a música em si se torna uma tábua de salvação lançada em nossa situação atual.
A instrumentação é amorfa, fluida e muito bonita. Liricamente, ele tem toda a ousadia perversa e divertida de muitas das grandes músicas de Dylan, mas além disso há algo em sua voz que parece extraordinariamente reconfortante, especialmente neste momento. É como se tivesse percorrido uma grande distância, através de trechos de tempo, cheios de uma integridade e estatura conquistadas, que acalma o caminho de uma canção de ninar, um cântico ou uma prece.
Quanto sobre ser a última vez que ouviremos uma nova música de Bob Dylan, eu certamente espero que não. Mas talvez haja alguma sabedoria em tratar todas as canções, ou, nesse caso, todas as experiências, com certo cuidado e reverência, como se encontrássemos essas coisas pela última vez. Digo isso não apenas à luz do novo coronavírus, mas de que é uma maneira eloquente de levar a vida e apreciar o aqui e agora, saboreando-o como se fosse a última vez. Tomar um drinque com um amigo como se fosse a última vez, comer com sua família como se fosse a última vez, ler para seu filho como se fosse a última vez, ou de fato, sentar na cozinha ouvindo uma nova música de Bob Dylan como se fosse a última vez. Ela permeia tudo o que fazemos com maior significado, colocando-nos dentro do presente, nosso futuro incerto, temporariamente preso.
Ave Nick Cave.
O produtor inglês Jamie Xx aproveitou a quarentena para oficializar o lançamento da surpreendente “Idontknow”, que já havia mostrado no ano passado mas nunca tinha lançado de fato. A faixa aponta um novo rumo para suas produções, mas ninguém sabe se vem disco novo por aí.
Tomara que venha. pois seu último disco, o ótimo In Colour, foi lançado há cinco (!) anos.
Depois do épico “Murder Most Foul“, Bob Dylan lança mais uma faixa inédita, “I Contain Multitudes”, que segue a linha da canção anterior com muitas citações e referências, embora num espaço menor de tempo – quase cinco minutos, ao contrário da anterior, com mais de dezesseis. Citando os Rolling Stones, Edgar Allen Poe, Chopin, Indiana Jones, Anne Frank, David Bowie e Beethoven, ele volta-se para si mesmo para falar do alto de sua experiência e discordâncias. “Pintei paisagens e pintei nus”, canta como se referisse às duas canções mais recentes – a primeira uma apoteótica descrição do século passado e esta nova em que despe-se entre um cello pensativo, um violão bucólico, uma guitarra steel idílica: “Sou um homem de contradições, eu sou um homem de muitos humores, eu contenho multitudes”, canta numa voz deliciosamente familiar, “seu velho lobo ganancioso, eu lhe mostrarei meu coração, mas não por inteiro, só a parte odiável.” Como não amar este homem?
O Radiohead está fazendo sua parte para manter todos em casa e começou a abrir seu baú de memórias publicando apresentações ao vivo na íntegra em seu canal no YouTube: “Agora que você não tem opção a não ser curtir uma noite tranquila em casa, apresentamos os primeiros de uma série de shows ao vivo da Radiohead Public Library que vão para o nosso canal no YouTube”, avisou o grupo em sua conta no Instagram. Eles começaram com um show em Dublin, na Irlanda, no ano 2000…
….e depois com um show em Berlim em 2016.
Que venham outros tantos!
Vai-se um gigante – Rubem Fonseca nos deixou nesta quarta-feira e com isso morre o maior escritor brasileiro vivo. Ele é o grande nome da literatura brasileira contemporânea e ajudou-a a finalmente sair do século dezenove, fazendo com contos e romances o que Nelson Rodrigues fez com o teatro e João Gilberto com a música. Seus personagens frios, sujos e surreais habitavam um Brasil bem diferente deste que conhecemos hoje, mas a essência daquele submundo que dispôs-se a retratar influenciou completamente as letras no país (mesmo sempre recluso e avesso a entrevistas) – seja na literatura, no jornalismo, no cinema, no teatro ou na televisão.
Metade do duo americano Metro Area, o produtor Morgan Geist enxuga a ótima “Never Come Back” do recém-lançado Suddenly, que o produtor canadense Dan Snaith lançou com seu pseudônimo mais conhecido, Caribou. O resultado isola vários elementos da faixa original e os estica de forma minimalista, abrindo vácuos introspectivos, deixando-a com um toque zen sem necessariamente desfigurá-la.
Obcecado por resgatar ícones musicais que fizeram sua cabeça, David Bowie mergulhou na música norte-americana durante os anos 70 e depois de ressuscitar a carreira de Lou Reed com o impecável Transformer, conseguiu ressuscitar os Stooges para um último terceiro álbum em estúdio, o histórico Raw Power. Seu líder, Iggy Pop, já estava trabalhando em sua carreira solo e conseguiu mudar o nome da banda para Iggy and the Stooges e aquele foi o primeiro trabalho que uniu os dois ícones, cuja amizade se esticaria para o resto da vida. Um gesto de generosidade de Bowie, que, vendo o amigo se afundar na heroína, conseguiu não apenas inclui-lo na turnê de lançamento de seu Station to Station, como assegurar a produção de dois discos solo de Iggy, que na época já morava em Londres. Bowie que, por sua vez, também precisava sair do atoleiro de drogas que havia se enfiado, pegou o amigo pelo braço e foi morar com ele em Berlim, na Alemanha, onde produziria sua antológica trilogia alemã, além de produzir dois clássicos de Pop: The Idiot e Lust for Life.
Iggy Pop volta a esta época de sua vida na recém-anunciada caixa The Bowie Years, que em sete CDs, reúne tanto os três discos produzidos no período (acrescentando o ao vivo T.V. Eye Live) quanto um CD com apenas versões alternativas e demos das faixas daquela época e mais três shows de 1977 na íntegra, um na Inglaterra e dois nos EUA. A caixa, que ainda traz um livro de quarenta páginas com entrevistas sobre esta fase, será lançada no final de maio e já está em pré-venda. E para começar os trabalhos, antecipam uma versão alternativa para a clássica “China Girl”, um dos muitos hits de Iggy Pop desta época.
Disco 1: The Idiot
“Sister Midnight”
“Nightclubbing”
“Funtime”
“Baby”
“China Girl”
“Dum Dum Boys”
“Tiny Girls”
“Mass Production”
Disco 2: Lust For Life
“Lust for Life”
“Sixteen”
“Some Weird Sin”
“The Passenger”
“Tonight”
“Success”
“Turn Blue”
“Neighborhood Threat”
“Fall in Love With Me”
Disco 3: TV Eye Live
“T.V. Eye”
“Funtime”
“Sixteen”
“I Got A Right”
“Lust for Life”
“Dirt”
“Nightclubbing”
“I Wanna Be Your Dog”
Disco 4: Demos and Rarities
“Sister Midnight (Mono Single Edit)”
“Sister Midnight (Single Edit)”
“China Girl (Single Edit)”
“Dum Dum Boys (Alt Mix)”
“Baby (Alt Mix)”
“China Girl (Alt Mix)”
“Tiny Girls (Alt Mix)”
“I Got A Right (Single)”
“Lust for Life (Edit)”
Entrevista com Iggy sobre as gravações de The Idiot
Disco 5: Live at The Rainbow Theatre – Finsbury Park, London 07/03/1977
“Raw Power”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“1969”
“Turn Blue”
“Funtime”
“Gimme Danger”
“No Fun”
“Sister Midnight”
“I Need Somebody”
“Search and Destroy”
“I Wanna Be Your Dog”
“Tonight”
“Some Weird Sin”
“China Girl”
Disco 6: Live at The Agora – Cleveland 21/03/1977
“Raw Power”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“1969”
“Turn Blue”
“Funtime”
“Gimme Danger”
“No Fun”
“Sister Midnight”
“I Need Somebody”
“Search and Destroy”
“I Wanna Be Your Dog”
“China Girl”
Disco 7: Live at Mantra Studios – Chicago 28/03/1977
“Raw Power”
“T.V. Eye”
“Dirt”
“Turn Blue”
“Funtime”
“Gimme Danger”
“No Fun”
“Sister Midnight”
“I Need Somebody”
“Search and Destroy”
“I Wanna Be Your Dog”
“China Girl”












