Com a passagem de Moraes Moreira, o Canal Brasil publica em seu YouTube a edição do programa O Som do Vinil, apresentado por Charles Gavin, dedicada ao clássico Acabou Chorare, dos Novos Baianos, com entrevista com todos os integrantes da banda, numa deliciosa recriação do universo único desse disco mágico e da relação do grupo com seu mestre João Gilberto.
“Sede”, colaboração entre Luedji Luna e Maurício Tagliari, começou bem despretensiosa. “Foi um poema hai-kai que eu postei no meu Facebook e virou meu primeiro samba”, lembra a cantora e compositora baiana. Maurício Tagliari, que estava caçando material para o que viria a ser seu futuro disco Maô: Contraponto e Fuga da Realidade, lançado no ano passado, viu o post na madrugada de uma sexta, logo depois que Luedji publicou, e comentou: “Isso dá samba”, propondo, para ser respondido quase em tempo real: “Faça”, disse a cantora do outro lado. No dia seguinte, ele apresentou a versão, vertida em samba, e Luedji perguntou se não queria mais letra e o produtor e guitarrista disse que não precisava, brincando que queria bater o recorde do Dorival Caymmi e do Rodrigo Campos e fazer o samba mais curto da história.
“São dezessete sílabas!”, comemora Maurício, lembrando que ela, que ainda conta com as participações de Maurício Pereira no sax, Igor Caracas, Ariane Molina e Victoria dos Santos na percussão e Guilherme Kafé no baixo e é a música mais ouvida de seu disco, a partir dos números nas plataformas digitais. Uma amiga de Maurício, a diretora Milena Correia, que está morando em Portugal, ofereceu-se para gravar o clipe, que fez com a performer Izabel Nejur, no início deste ano. Coincidiu de lançá-lo neste período de quarentena que atravessamos, o que ressaltou a atmosfera solitária da canção, desde sua letra até seu clipe, que estreia em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
Os Chromatics entraram numa onda intensa de lançamentos ao completar três singles apresentados em quatro meses e ainda pegaram todo mundo de surpresa ao anunciar que o terceiro deles, “Teacher”, faz parte da retomada do álbum Dear Tommy, que vinha sendo anunciado desde 2015 e desapareceu do radar da banda quando seu líder, Johnny Jewel, destruiu todas as cópias do disco que seria lançado em 2017.
Com o lançamento do novo single (o terceiro de 2020 depois de “Toy” e “Famous Monsters“), o grupo não apenas anuncia a volta ao velho projeto, como mostra a nova ordem das faixas e um texto que seu autor escreveu para apresentar o disco (que mais confunde que explica, mas esse é o jeito deles):
“A maçã obscurecida na névoa é enigmática & aberta à interpretação do espectador. Estamos afundando no desconhecido ou ascendendo do além-túmulo? Uma maçã por dia mantém o médico afastado & música é o remédio. Nossos professores transferem conhecimento do bem & do mal. Desde o conto de fadas do sono sem fim da Branca de Neve até o Jardim do Éden no livro de Gênesis, a exposição é o agente da mudança. A música é uma linguagem comunicada pelo artista, mas definida pela exposição do próprio ouvinte ao som durante toda a vida. Não posso mudar meu passado, mas posso optar por interromper o ciclo & não passar a maçã envenenada minha filha me deu para comer.”
Pelo visto a capa disco permanece sendo a maçã citada no texto (da imagem abaix) e a ordem das músicas vem logo a seguir:
“Fresh Blood”
“Glitter”
“Never Tell”
“Just Like You”
“She Says”
“The Moment”
“Time Rider”
“White Fences”
“Teacher”
“Between The Lines”
“Too Late”
“Dear Tommy”
“Melodrama”
“Ultra Vivid”
“Colorblind”
“Sometimes”
“Dream Sequence”
“Endless Sleep”
Já está entre nós a versão espacial que o produtor pernambucano Buguinha fez para O Futuro Não Demora, que o BaianaSystem anunciou há menos de um mês em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. O disco mais recente do coletivo baiano foi inteirinho “adubado”, como o produtor gosta de nomear suas versões, e tornou-se O Futuro Dub, uma viagem desconstruída em câmera lenta ao centro de um disco cheio de camadas, em que ele disseca umas e acrescenta outras enquanto revela nuances e sutilezas sem fazer o disco parar de sacolejar e nos impelir à dança. Ficou excelente!
Ah, você quer se acabar de dançar na quarentena? Então segura essa mixtape que o mestre francês Breakbot pinçou pra gente espantar os fantasmas deste 2020 deslizando e requebrando na sala de estar. Groove finíssimo: soul anos 80, funk anos 70, house fino, R&B e disco music tudo misturado de um jeito que é impossível ficar parado. Sente só:
Um trecho da série Sopranos
The Jones Girls – “Let’s Hit It” (intro)
Finesse – “I Can’t Help Myself”
Rufus & Chaka Khan – “Live In Me”
Fern Kinney – “Groove Me”
The Jones Girls – “Life Goes On”
Donald Byrd – “Love Has Come Around”
Ann C. Sheridan – “Sing it Low”
Breakbot – “Be Mine Tonight (feat. Delafleur)”
Barbara Roy – “If You You Want Me”
Magoo – “Funktime (feat. Eddie Craig)”
Gemini – “Something Special”
Con Funk Shun – “Da Lady”
AM KO – “Just Chilling’ Out”
Dynasty – “Groove Control”
Cerrone – “Soumission”
Breakbot – “Why (feat. Ruckazoid)”
Rhythm Heritage – “Disco Derby (Take Me Dancin’)”
Earth Wind & Fire – “Sing A Song”
Strange Affair – “Love Is A Strange Affair / Fantasy”
Frisky – “You’ve Got Me Dancing In My Sleep”
Carrie Lucas – “I Gotta Keep Dancing’”
Lemon – “A-Freak-A (Remix)”
Paper Doll – “Get Down Boy”
El Coco – “Afrodesia”
Alicia Myers – “I Want To Thank You”
Duncan Sisters – “You Give Me Such A Feeling”
Yuksek – “The Only Reason (feat. Breakbot & Irfane)”
É claro que trechos da live paga que a cantora norte-americana Angel Olsen fez no sábado passado iriam vazar – e entre pérolas do seu repertório com foco nas músicas de seu disco mais recente, versões (de “More than This”, do Roxy Music, e de “Tougher than the Rest”, do Bruce Springsteen), ela também mostrou duas músicas novas, sem título e sem terminar as letras. Algumas músicas desta noite – incluindo as duas inéditas – entraram nesta playlist abaixo:
Que mulher!
“Pegue os alicates”, Fiona Apple canta o refrão da faixa que batiza seu novo álbum como se estivesse capturando a sensação de pressão interna e desespero em relação ao futuro em 2020, “estou aqui há muito tempo”. Ela não está falando da quarentena ou da pandemia – pelo menos não diretamente. Em Fetch the Bolt Cutters ela segue seu papel que mistura a trovadora e a cronista, passando por aquela brecha entre a divindade etérea de Tori Amos, Björk e Kate Bush e a mundanidade rock Patti Smith, PJ Harvey e Cat Power em que poucas – Sharon Van Etten, St. Vincent, Angel Olsen, Lykke Li e Letrux, só pra citar algumas – conseguiram se esgueirar, e segue cantando sobre relações conturbadas, que podem ser, ao mesmo tempo, entre música e celebridade, arte e mercado ou sobre casos e casamentos que tomaram rumos inesperados – muitas vezes drásticos.
Mas ao apressar o lançamento de um disco que vinha sendo prometido há oito anos no meio da quarentena, ela entendeu que havia captado a essência dessa angústia ambígua que marca este 2020 confinado. São canções cujas melodias evidentemente nasceram ao piano, mas no estúdio renasceram percussivas, tornando crucial o ritmo das batidas – sintéticas ou analógicas – para o andamento de todo o disco, que também conversa com o canto cada vez mais falado da cantora nova-iorquina. A estranha mas familiar proximidade de Fetch the Bolt Cutters com o rap torna o disco ainda mais incisivo, mesmo nos momentos mais sutis, embora estes sejam poucos. Quase sempre Fiona canta com um riso no canto da boca e sangue nos olhos, pronta para virar o jogo ao menor deslize do adversário, seja quem ele for: “Pode me chutar embaixo da mesa o quanto quiser, eu não vou me calar”, vocifera em “Under the Table” para depois lamentar à distância “você e eu seremos como alguns cosmonautas, exceto que com muito mais gravidade do que quando começamos” em “Cosmonauts”. E os versos centrais de “Relay” e “For Her” (“O mal é um esporte de revezamento, quando aquele que está queimado volta para passar a tocha” e “Como você sabe que deveria saber, mas não sabe onde é”) parecem comentar especificamente a trágica política deste ano bizarro, acertando em cheio nas caricaturas que deixamos tomar conta de nossas vidas como se mirasse em nós mesmos, sem aliviar nada pra ninguém, enfiando o dedo na cara e na ferida ao mesmo tempo. Um disco tão maravilhoso quanto, desculpem o clichê, necessário.
Preso em isolamento da quarentena, o bardo australiano Nick Cave tem conversado mais ativamente com seus fãs através do fórum de seu site, respondendo a perguntas em textos aprofundados. Um dos temas recentes foi a música mais recente de Dylan, “Murder Most Foul”, um épico de tirar o fôlego que o poeta norte-americano revelou logo no início da quarentena. Disse Cave:
Muitos já escreveram sobre a nova música de Bob Dylan, “Murder Most Foul” – e o interesse é justificável. É uma desconcertante mas bela canção e, como muitas pessoas, fiquei extremamente comovido por ela.
No coração desse épico de dezessete minutos, está um terrível evento, o assassinato de JFK – um vórtice sombrio que ameaça puxar tudo, exatamente como nos EUA em 1963. Girando em torno do incidente, Dylan tece uma litania de coisas amadas – principalmente música – que alcançam a escuridão, na libertação. Na medida em que a música se desenrola, ele lança a linha de vida após linha de vida, de forma insistente e semelhante a um mantra, e somos erguidos, ao menos momentaneamente, livres do acontecimento. A cascata incansável de Dylan feita de referências de músicas aponta para o nosso potencial como seres humanos de criar coisas bonitas, mesmo de frente a nossa própria capacidade de malevolência. ‘Murder Most Foul’ nos lembra que nem tudo está perdido, pois a música em si se torna uma tábua de salvação lançada em nossa situação atual.
A instrumentação é amorfa, fluida e muito bonita. Liricamente, ele tem toda a ousadia perversa e divertida de muitas das grandes músicas de Dylan, mas além disso há algo em sua voz que parece extraordinariamente reconfortante, especialmente neste momento. É como se tivesse percorrido uma grande distância, através de trechos de tempo, cheios de uma integridade e estatura conquistadas, que acalma o caminho de uma canção de ninar, um cântico ou uma prece.
Quanto sobre ser a última vez que ouviremos uma nova música de Bob Dylan, eu certamente espero que não. Mas talvez haja alguma sabedoria em tratar todas as canções, ou, nesse caso, todas as experiências, com certo cuidado e reverência, como se encontrássemos essas coisas pela última vez. Digo isso não apenas à luz do novo coronavírus, mas de que é uma maneira eloquente de levar a vida e apreciar o aqui e agora, saboreando-o como se fosse a última vez. Tomar um drinque com um amigo como se fosse a última vez, comer com sua família como se fosse a última vez, ler para seu filho como se fosse a última vez, ou de fato, sentar na cozinha ouvindo uma nova música de Bob Dylan como se fosse a última vez. Ela permeia tudo o que fazemos com maior significado, colocando-nos dentro do presente, nosso futuro incerto, temporariamente preso.
Ave Nick Cave.
O produtor inglês Jamie Xx aproveitou a quarentena para oficializar o lançamento da surpreendente “Idontknow”, que já havia mostrado no ano passado mas nunca tinha lançado de fato. A faixa aponta um novo rumo para suas produções, mas ninguém sabe se vem disco novo por aí.
Tomara que venha. pois seu último disco, o ótimo In Colour, foi lançado há cinco (!) anos.
Depois do épico “Murder Most Foul“, Bob Dylan lança mais uma faixa inédita, “I Contain Multitudes”, que segue a linha da canção anterior com muitas citações e referências, embora num espaço menor de tempo – quase cinco minutos, ao contrário da anterior, com mais de dezesseis. Citando os Rolling Stones, Edgar Allen Poe, Chopin, Indiana Jones, Anne Frank, David Bowie e Beethoven, ele volta-se para si mesmo para falar do alto de sua experiência e discordâncias. “Pintei paisagens e pintei nus”, canta como se referisse às duas canções mais recentes – a primeira uma apoteótica descrição do século passado e esta nova em que despe-se entre um cello pensativo, um violão bucólico, uma guitarra steel idílica: “Sou um homem de contradições, eu sou um homem de muitos humores, eu contenho multitudes”, canta numa voz deliciosamente familiar, “seu velho lobo ganancioso, eu lhe mostrarei meu coração, mas não por inteiro, só a parte odiável.” Como não amar este homem?












