
Mais uma matéria que escrevo pro Valor Econômico, desta vez resenhei a autobiografia do Bono, do U2, que acaba de sair no Brasil pela editora Intrínseca. E apesar de ser um delírio ególatra de um dos maiores popstars de todos os tempos, o livro de 640 páginas é uma detalhada biografia de sua banda, um mergulho num processo criativo muito particular (em que quantidade quase sempre está próximo de qualidade), uma coluna social com os principais nomes da história contemporânea e uma detalhada investigação sobre o que torna o U2 um grupo tão importante para seu tempo. Bem bom, recomendo a leitura.

E só foi mudar a presidência que as boas notícias não param de chegar! Agora é a vez do trio Yo La Tengo anunciar para fevereiro do ano que vem o lançamento de seu décimo sexto álbum, This Stupid World, que promete ser um disco mais intenso que os anteriores, priorizando músicas tocadas ao vivo mais que experimentos nas canções ou no estúdio. Produzido apenas pelos três integrantes sem a participação de ninguém de fora deste círculo, o disco será lançado no dia 23 de fevereiro e o grupo abriu os trabalhos com a ótima “Fallout”, que você ouve abaixo, bem como vê a capa e descobre a ordem das músicas desta grande volta.
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O bruxo Alan Moore escreveu uma extensa carta para os brasileiros explicando porque ele é a favor de Lula nesta eleição de 2022. Abaixo, a tradução que fiz para seu texto e a carta original, em inglês.
Caro Brasil,
Estamos gastando rapidamente nossas últimas chances de salvar o planeta e seus povos. Nosso mundo está mudando, mais rápido que jamais mudou e forçando-nos a adaptar mais rapidamente se iremos sobreviver. De uma sociedade caçadora-coletora à agricultura, da agricultura à indústria, da indústria ao que quer esteja tomando forma agora – esta nova condição para a qual não temos um nome ainda – a humanidade já se deparou com esses tipos de mudanças monumentais anteriormente, embora não com frequência. Estas transições não são causadas por forças políticas, mas pelos irrefreáveis movimentos da maré da história e da tecnologia, que é uma maré em que podemos guiar nossos veículos para nossa vantagem ou sermos naufragados por ela. A Terra está mudando, mudando pela necessidade de se tornar um lugar novo, e apenas nos resta mudar com ela ou então abrir mão para sempre da biosfera que nos sustenta. A maioria das pessoas, acredito, sabe disso em seus corações e pode sentir isso em seus estômagos.
E assim, ao longo dos últimos cinco anos e pouco, vimos através de todo o globo uma ressurreição feroz das ideias político-econômicas que exatamente nos levaram a essa situação obviamente desastrosa no princípio. A escancarada agressividade desse avanço da extrema-direita me parece tão à força, e ainda assim tão desconectada de qualquer realidade, que só pode ter nascida do desespero; o medo histérico sentido por aqueles que estão mais bem-posicionados nas estruturas de poder do velho mundo, e que sabem que o novo mundo pode, em última instância, não ter mais lugar para eles. Temendo suas próprias existências e pela existência de uma visão de mundo que os beneficia, eles entupiram o palco mundial nesta última meia-década com personagens de pantomima barulhentos, exagerados e grotescos, para os quais nenhum ato é tão corrupto ou desumano e nenhuma linha de argumentação é descaradamente absurda.
Desavergonhadamente monstruosos, eles têm perseguido minorias raciais e religiosas, ou seus povos originários, ou os pobres, ou as mulheres, ou pessoas de outras sexualidades, ou todos estes citados. Durante a pandemia ainda em andamento, eles colocaram seus posicionamentos políticos e suas doutrinas financeiras à frente da segurança de suas populações, presidindo centenas de milhares de mortes potencialmente desnecessárias; centenas de milhares de famílias e comunidades devastadas. Com suas nações em chamas ou inundadas ou em seca, eles insistiram que as mudanças climáticas eram um boato da esquerda para incomodar a indústria e rotularam ativistas ambientais e sociais como terroristas. Adotando o estilo circense-fascista do italiano Silvio Berlusconi, nós tivemos o perigoso teatro de insurreição de Donald Trump nos EUA, as desgraças arruinadoras de Boris Johnson e seus reservas no Reino (ainda) Unido. E, é claro, o Brasil tem Jair Bolsonaro.
Apesar de nós do Hemisfério Norte obviamente contribuirmos muito além da nossa cota de figuras políticas horrendas para a situação do mundo, não conheço ninguém com uma grama de consciência e compaixão que não se indigne com o que Bolsonaro, ao assumir o cargo na onda de Trump, fez com seu grande e lindo país, além do que ele continua a fazer com o nosso relativamente pequeno e ainda belo planeta. Assistimos com desespero enquanto, rezando pela mesmo hinário de sua inspiração norte-americana, Bolsonaro atacou os povos indígenas do Brasil, os seus homossexuais e os direitos de suas mulheres de fazer aborto de forma segura, alimentando um incontrolável incêndio de ódio como uma distração para suas agendas sociais e econômicas, enquanto ao mesmo tempo inundava sua cultura com armas. O vimos se gabar de seu jeito de lidar com a pandemia jorrando sua idiotice contra vacinas, e também observamos a expansão dos cemitérios improvisados; aquelas covas lado a lado no solo cinza com flores mortas e marcações de tinta trazendo gotas de cor.
Também vimos como ele respondeu à proposta de novas leis ambientais internacionais ao simplesmente aumentar a sua devastação suicida das florestas tropicais, asfixiando nossa atmosfera comum com a queima de florestas, desalojando ou matando pessoas que viveram nestas regiões por gerações, aparentemente em conluio ou fazendo vista grossa para o assassinato de jornalistas que investigavam a brutalidade dessa limpeza étnica. Uma respeitada revista científica britânica da qual sou assinante, New Scientist, recentemente descreveu as próximas eleições como potencialmente o ponto crítico sem volta na batalha de vida ou morte de nossa espécie contra a catástrofe climática que nós mesmos engenhamos. Dito de maneira simples, ou Jair Bolsonaro continua, lucrativamente, a satisfazer os interesses corporativos dos que o apoiam, ou nossos netos terão o que comer e respirar. É uma coisa ou outra.
Como anarquista, existem pouquíssimos líderes políticos que eu seria completamente capaz de tolerar, e ainda mais endossar, mas por tudo que soube e li a respeito, Luiz da Silva, Lula, parece ser um desses raros indivíduos. Suas políticas parecem ser justas, humanas e concretizáveis e, pelo que entendi, ele se comprometeu a reverter muitas das decisões desastrosas de Bolsonaro. Consertar o estrago destes últimos cinco anos certamente não será fácil nem barato, e da Silva poderá estar herdando um cenário político terrivelmente desfigurado. No mínimo, contudo, desta distância ele parece ser um candidato que reconhece que a humanidade está atravessando uma de suas pouco frequentes transformações sísmicas e percebe que precisamos mudar a forma como vivemos se quisermos continuar vivos. Ele me parece ser um político comprometido com o futuro, com seu trabalho honesto e com suas possibilidades justas e maravilhosas, e é melhor que a batida e devastadora agonia de morte de um passado insustentável.
A próxima eleição no Brasil se encontra equilibrada sobre o fio de uma navalha e, pelo que discuti acima, o mundo inteiro está à sua mercê. Se você alguma vez gostou de algum dos meus trabalhos ou sentiu alguma empatia pelas por suas tendências humanitárias, então, por favor, saia e vote por um futuro próprio para os seres humanos, por um mundo que seja mais que uma latrinas dourada para corporações e suas marionetes.
Vamos deixar as injustiças dos últimos cinco anos, ou talvez dos últimos cinco séculos, no passado.
Com amor e com confiança,
De seu amigo,Alan Moore
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Um exercício terapêutico para lidar com as tensões e paranoias da pandemia acabou transformando a fotógrafa Paula Cavalcante em musicista profissional – sem que ela planejasse isso. A baiana de Feira de Santana, que já havia tocado guitarra em bandas de rock, debruçou-se sobre o violão como se mergulhasse em si mesma e pariu, no final de 2021, o EP Entre Ruínas e Devaneios, um conjunto de paisagens sonoras, que ela lançou em primeira mão no Trabalho Sujo, usando o nome de Corpo Expandido. Quase um ano depois, ela retorna com seu primeiro álbum – mesmo que o conjunto de canções tenha apenas 20 minutos – e mais uma vez mostra o disco antes de seu lançamento por aqui (ouça abaixo). Em A Cor do Fim, que estará nas plataformas digitais nesta sexta-feira, ela segue o clima introspectivo e contemplativo do primeiro trabalho, mas pela primeira vez conta com outros músicos na formação, além de ter pensado no disco de forma a transpô-lo para o palco – e sua estreia acontece em São Paulo na semana que vem, dentro da programação do Centro da Terra (os ingressos já estão à venda neste link). Continue

Às vésperas da eleição, Edgar recupera uma música de seu EP Ultravioleta para reforçar a importância da mensagem que quis passar. “Essa música foi feita durante o período de pandemia, quando tava esse bombardeio de fake news do bolsonarismo e eu acho muito importante voltar agora, porque a gente tá vendo esse cara nos debates falando só merda e mentira, então é hora de soltar de novo esse som”, explica o artista de Guarulhos, que antecipa em primeira mão para o Trabalho Sujo o clipe de “Fake News”, que lançará neste sábado. O clipe foi dirigido por André Oliveira Cebola, que explica o processo do clipe totalmente digital: “Primeiro foram geradas imagens através de inteligência artificial e para gerar essas imagens, peguei trechos da letra do Edgar e usei como input para a inteligência artificial interpretar essas frases e gerar imagens baseadas no que ela achou mais relevante”, explica o diretor. “É um processo aleatório, se eu usar a mesma frase duas vezes, ela irá gerar duas imagens diferentes. O resultado nunca será igual. O segundo processo na criação foi pegar essas imagens e reinterpretar, modificar, através de arte generativa – programação criativa, num software que eu mesmo desenvolvi. Então o que vemos não é a imagem original da inteligência artificial e sim a base dela mas com modificações”.
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Em mais uma edição do meu programa de entrevistas, desta vez converso com a gaúcha Duda Bolche, que mora no Uruguai e trabalha com relações internacionais – e puxei-a para conversar sobre a ascensão das forças progressistas que está acontecendo na América Latina nos últimos anos muito por conta da hegemonia de extrema-direita que assola o planeta há mais de cinco anos. Falamos especificamente sobre a situação na América Latina à luz dos acontecimentos recentes na Bolívia, na Argentina e no Chile, sem deixar de falar no Brasil, que pode estar virando essa página neoliberal de sua história nestas eleições.
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(Foto: Marcos Ramos Zenin)
Ao ser chamado para participar do projeto Instrumental Poesia, o poeta Caco Pontes convocou o grupo instrumental Projetonave – conhecido por já ter acompanhado alguns dos maiores nomes do rap brasileiro – para uma apresentação ao vivo em 2019, colaboração que já vinha cogitando há tempos. O encontro, que aconteceu no Sesc Avenida Paulista, fez a parceria se consolidar para além daquele único show e o grupo entrou em 2020 cogitando o disco em parceria que só agora vê a luz do dia. Órbita, que começou a ser gestado antes da pandemia começar, finalmente será lançado nesta sexta-feira e os caras toparam mostrar o disco em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. É um disco em que Pontes, com seu canto falado, abre novas portas de percepção para o grupo, que aproveita a deixa e abre referências musicais que vão do punk rock ao jazz, passando pelo trip hop e música nordestina, viagens asiáticas e africanas. O grupo lança o álbum ao vivo na outra sexta-feira, quando trazem o disco para o palco do Studio SP, com participações do rapper Sombra e abertura da poeta Mel Duarte.
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Como todos os artistas brasileiros, o trio mineiro Black Pantera foi pego de surpresa com a chegada da pandemia e teve de suspender o lançamento de seu álbum Ascensão por mais de dois anos. Quando finalmente puderam lançar o disco, com sample de Elza Soares e forte teor de contestação política, o grupo pode mostrar para todo o Brasil sua colisão de heavy metal com hardcore ao dividir o palco do Rock in Rio ao lado do grupo pernanbucano Devotos, além de atravessar o país em uma turnê explosiva. Bati um papo com os três sobre este ano decisivo para o grupo.
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No meu programa sobre quadrinhos, desta vez converso com Beatriz Shiro, que ao mesmo tempo em que lança seu primeiro Ugrito sobre seus personagens Dawgz também prepara o primeiro álbum destes personagens e um curta de animação celebrando um dos grandes nomes do nosso modernismo. Ela também fala como se envolveu com quadrinhos e dá dicas para quem quiser se arriscar nesta carreira.
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Primeiro programa com um convidado, eu e Tomaz Paoliello recebemos o professor Paulo Pereira, colega de Tomaz no Departamento de Relações Internacionais da PUC de São Paulo, para conversar sobre o assunto de sua especialização: a questão sobre como governos do mundo todo lidam com o tema das drogas. Mas para contextualizar, optamos por voltar no tempo, às raízes do proibicionismo contemporâneo, para entender como ele deu origem à infame guerra às drogas, que tem desdobramentos muito mais complexos do que a simples forma como as pessoas expandem sua consciência e a relação deste direito com a repressão estatal.
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