
Conversei com o Tricky, um dos papas do trip hop, que finalmente põe os pés no Brasil durante o festival paulistano Nublu, que acontece neste fim de semana no Sesc Pompéia. Confira a entrevista lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/28/tricky-como-antidoto-ao-lollapalooza/
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Se você não tem pique nem paciência para encarar as dezenas de horas e artistas que desfilam pelo Lollapalooza Brasil neste fim de semana, uma alternativa de porte menos adolescente é o Nublu Jazz Festival, que chega a sua quinta edição neste fim de semana, com apresentações em unidades do Sesc em São Paulo (no Sesc Pompeia) e em São José dos Campos.
O Nublu é um pequeno clube de jazz em Nova York que realiza festivais itinerantes na cidade, em São Paulo e em Istambul na Turquia, cidade-natal de seu seu dono, o saxofonista Ilhan Ersahin. Ele é o idealizador do evento que reúne titãs do groove do passado e novos talentos da música brasileira. Em edições anteriores desfilaram, lado a lado, nomes como Headhunters, o DJ Nuts, a Sun Ra Arkestra, Tulipa Ruiz, o trio Marginals, o baterista Karriem Higgins, Kassin, Guizado, Roy Ayers e o Marcos Paiva Sexteto, além dos projetos de Ersahin, como Love Trio e Wax Poetics.
A grande atração deste ano, no entanto, não vem propriamente do jazz. Desconhecido pelo seu próprio nome, Adrian Thaws é um dos pioneiros da cena de música urbana negra que começou a despontar em Bristol, na Inglaterra, no final dos anos 80. Entre o início do jungle e um hip hop cada vez mais desacelerado, com acento no jazz e funk dos anos 70 e larga reverência à toda a música jamaicana, esta cena deu origem ao soundsystem Wild Bunch que, influenciado pela nova cena dance do segundo verão do amor londrino, virou o Massive Attack. Adrian começou a rimar e participou do primeiro disco do Massive Attack, o clássico Blue Lines, de 1991. À época ele já assinava seus trabalhos como Tricky.
No ano seguinte deixou o Massive Attack e em 1995 lançou seu primeiro disco, Maxinquaye, batizado a partir do nome de sua mãe, e atingiu o nível dos mestres, fechando, ao lado do Massive Attack e do Portishead, a santíssima trindade do trip hop. O gênero, que evolui da desaceleração da acid house dos anos 90 e da absorção de referências mais orgânicas serviu como contraponto à cada vez mais veloz música eletrônica daquela década.
Vinte anos depois de Maxinquaye, Tricky finalmente chega ao Brasil, um ano após lançar um disco batizado com seu próprio nome, o festejado Adrian Thaws. “Sempre quis ir para o Brasil e algumas vezes quase fui”, me conta em entrevista por email. “Eu tenho muitos amigos que estiveram aí e me dizem que é um lugar incrível, por isso estou realmente animado de conhecer e descobrir. Não tenho nenhuma expectativa, série, só quero eu mesmo ver, sabe.” Uma ponte já foi feita, pois o rapper regravou a canção “Something in the Way”, que havia gravado com Francesca Belmonte no ano passado, com a brasileira Mallu Magalhães. Ele comentou sobre a parceria e seu último disco, entre outros assuntos, na entrevista abaixo.
Seu último disco tem seu próprio nome.
Sabe, eu venho usando o nome Tricky por anos e meu primeiro disco foi lançado com o nome da minha mãe, então é como se eu fechasse um ciclo, voltasse ao começo. Tirei cinco anos de folga quando fui morar em Los Angeles, então estou de volta agora. É como se fosse o próximo capítulo. Maxinquaye me pariu e também pariu a minha carreira, porque foi a base de toda a minha carreira. Minha mãe me deu, Adrian Thaws, a luz, e com isso eu fecho o ciclo e começo o segundo capítulo.
Como serão seus shows no Brasil?
Todo tipo de música, velha, nova, um pouco de tudo. Sou eu, minha vocalista Kamila Bleax, um baterista e um guitarrista.
Você gravou uma música com a Mallu Magalhães. Vai gravar mais algo com ela?
Sim, eu adoraria. Ela tem uma voz incrível. É tão… delicada. Uma voz linda. Desta vez ela me mandou os vocais, mas eu adoraria ir para o estúdio com ela. Seria ótimo.
O que você gosta na música pop atual?
Sabe, tudo é muito comercial. Mas tem um cara, Sam Smith. Eu não curto essa música muito comercializada, mas Sam Smith está trazendo a música pop de volta, dando um nome ao pop. Ele não é um Sam Cooke, não me entenda mal, não é um Bob Marley, nada desse tipo, mas ele tem canções lindas. Ele é bom para o pop, acho. Prefiro ele que o Justin Timberlake.
Eu escuto muito hip hop velho, quase nada novo. Muito do hip hop atual é música pop e eu não curto isso. Sabe, quando escuto hip hop eu não quero ouvir pop. Eu não quero ouvir o 50 Cent. Eu ouço hip hop underground, ou mais hardcore. Nunca gostei de música pop.
E como você escuta música atualmente?
Eu escuto CDs ou ouço no YouTube, com fones de ouvido. Quando escuto música, tenho que ouvir muito alto – ou com fones. Não tem meio-termo. Música pra mim é como uma conversa, é uma coisa muito pessoal.
E o que você tem achado deste novo cenário da música digital?
É bom, mas também é ruim. Por exemplo, se as pessoas baixam música de graça. Sabe, tem gente que não entende, mas é assim que você tira seu sustento, como você consegue fazer sua música. As pessoas deviam ao menos apoiar isso. Sabe, podem até baixar músicas de graça, mas então apoia de alguma outra forma, compra algumas músicas no iTunes ou coisa do tipo, sei lá…
As pessoas deviam apoiar mais os artistas. Eles têm a ilusão que os artistas estão ganhando dinheiro o tempo todo. Quer dizer, se você é enorme, você ganha sim. Mas aí, pra começar, você tem que que tocar no rádio. Eu não toco no rádio, não sou milionário nem nada. Se quiser baixar de graça, baixa a Madonna. Não é um grande problema pra ela, ela tem tanto dinheiro que não precisa. Mas artistad como eu, que colocam tudo em seu próprio trabalho, acho que deveriam ser apoiados.

Em algum momento dos anos 90, os Smashing Pumpkins foram a banda de rock mais importante do planeta. Mas durou pouco e logo a banda perdeu o rumo. Escrevi sobre a ascensão e queda dos Smashing Pumpkins num glossário feito para o UOL e aproveitei para comentar lá no blog uma entrevista dada por Billy Corgan na semana passada em que ele fala que a banda pode estar com seus dias contados: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/27/o-fim-dos-smashing-pumpkins/.

“Living the dream” é a legenda desta foto que Billy Corgan postou no Instagram dos Smashing Pumpkins https://instagram.com/p/zIW5z4n60B/
Às vésperas de se apresentar no Lollapalooza Brasil, os Smashing Pumpkins também podem estar em seus últimos dias. Pelo menos foi isso o que seu líder Billy Corgan falou à rádio peruana Oasis antes do show em Lima (em que pediu para ser chamado de William – “Meu nome não é Billy!”), na terça-feira da semana passada. “O futuro dos Smashing Pumpkins é um tanto incerto…”, disse na entrevista. “Eu já estou comprometido com a ideia dos Smashing Pumpkins até o final deste ano e depois disso eu vou ver como vai ser. Eu sinto que preciso avaliar o propósito musical dos Pumpkins, porque cada vez mais o público fica fixado no passado. Boa parte do público vai dizer que prefere as músicas dos anos 90 às músicas de hoje, mas eles não estão escutando as músicas de hoje como escutavam as de antes.” Veja o vídeo abaixo:
Escrevi uma matéria sobre a banda para tentar entender, de forma não-cronológica, o que aconteceu com os Smashing Pumpkins contando sua história em forma de glossário. Leia aqui.

Eu nem vou no Lollapalooza deste ano, mas o pessoal do UOL pediu pra que eu desse algumas dicas sobre bandas que não são conhecidas do grande público e escolhi umas bandas que vão tocar bem cedo – o vídeo tá lá no meu blog no UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/27/o-que-assistir-se-voce-chegar-cedo-ao-lollapalooza/
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Festival tem dessas: trocentas bandas tocando desde cedo e, entre dezenas de nomes de artistas, há muitos nomes desconhecidos, iniciantes e, em muitos casos, promissores. Escolhi cinco artistas que vão se apresentar no Lollapalooza Brasil deste fim de semana para comentar na TV UOL: O Terno (foto acima), Fatnotronic, Far from Alaska, Alt-J e Boogarins.

Postei lá no meu blog do UOL a íntegra do show que o Blur fez na sexta-feira para 300 fãs e que transmitiu ontem à tarde pelo YouTube: Blur pega o mundo de surpresa e lança online disco que “só” 300 ouviram.

Protagonista das guerras do Britpop nos anos 90, o Blur é uma das bandas inglesas mais importantes dos últimos 25 anos. Não só por engalfinhar-se na teatral briga com o Oasis durante a última década do século passado, mas também por fotografar como poucos as mudanças de comportamento e do inconsciente coletivo de seu país. Nascido em plena era indie dance (quando apareceu com o irresistível hino de pista “There’s No Other Way”), o Blur traduziu perfeitamente as alegrias e anseios ingleses dos anos Blair na tríade Modern Life is Rubbish, Parklife e The Great Escape, além de cantar sob à sombra americana em sua tríade final (Blur, 13 e Think Tank). Em 2004 seu guitarrista Graham Coxon abandonou a banda, que manteve-se apenas como pessoa jurídica, sem gravar ou fazer shows até 2009, quando Coxon voltou à formação e a banda voltou a excurisionar e até a gravar duas músicas inéditas.
Mas não havia sinal de discos novos, até agora. 2015 começou com a notícia que a banda já havia gravado um novo disco no ano passado – em Hong Kong! – e que o disco sairia no próximo mês de abril.
O anúncio surpresa não é mais novidade nesta segunda década do século 21. Cada vez mais artistas vêm preparando novos discos completamente na surdina para tomar o mundo de surpresa com sua nova aparição. Uma tendência que começou com o Radiohead em 2007 e continuou mais recentemente com lançamentos de pesos pesados como Daft Punk, David Bowie, My Bloody Valentine, Beyoncé e os Racionais MCs. Quando menos se espera, vem a notícia de que o disco novo de um grande artista não só está pronto como já pode ser ouvido e na íntegra. Foi uma alternativa que diferentes nomes estabelecidos no mercado de música encontraram para conseguir capitalizar a própria reputação em centro das atenções de uma paisagem cultural cada vez mais intensa. Em vez de dourar o título lentamente – anunciando as gravações, o fim das gravações, a masterização, o título, a capa, a data de lançamento, o primeiro single -, estes artistas preferiram juntar o impacto de todas essas informações ao mesmo tempo e pegar o público de surpresa.
Cada um utilizou um método. O Radiohead, com seu In Rainbows em 2007, anunciou que tinha acabado de gravar o disco uma semana antes de colocar o álbum pra download gratuito, lançando a lógica do “pague o quanto quiser” que o grupo abandonaria no disco seguinte. O Daft Punk usou um trecho instrumental da música “Get Lucky” em dois comerciais – um na TV e outro em um festival – para anunciar que estava voltando, revelando, aos poucos, e em menos de um mês, que o disco teria uma série de participações especiais ao mesmo tempo em que iam mostrando a totalidade da primeira música, que tornou-se um dos singles do ano graças a esse conta-gotas. David Bowie saiu da reclusão com um clipe e o anúncio de um novo disco em dois meses. O My Bloody Valentine, sem gravar desde 1991, anunciou o novo disco alguns dias antes de colocá-lo à venda pela internet. Beyoncé esperou listas de melhores do ano saírem no início de dezembro de 2013 para anunciar seu disco homônimo, que além das canções, ainda trazia um clipe para cada música.
No período em que desativou o Blur, seu líder Damon Albarn experimentou diferentes rumos na música. Montou bandas diferentes com músicos improváveis: com o baixista do Clash Paul Simonon, o guitarrista do Verve Simon Tong, o baterista do Fela Kuti Tony Allen criou o The Good the Bad and The Queen; com o mesmo Allen e o baixista do Red Hot Chili Peppers Flea montou o Rocket Juice and the Moon. Além disso gravou discos com músicos africanos, montou três óperas, lançou seu primeiro disco solo sem deixar de lado o projeto Gorillaz, a banda de desenho animado que inventou com o criador da Tank Girl Jamie Hewlett.
Os experimentos pop anteriores de seu líder e o anúncio-surpresa do novo disco indicam que o Blur está experimentando também com o lançamento de The Magic Whip. A gravação do disco em Hong Kong não é o único flerte com o público consumidor oriental – a capa do disco vem escrita em chinês. A banda também começou a liberar músicas aos poucos em vídeo pelo YouTube para o público (outra tendência atual, bem mais aceita entre artistas de menor porte) antes do lançamento oficial do disco, mas no fim de semana passado ousaram com uma novidade que será consagrada nesta quarta-feira, dia 25, quando o grupo mais uma vez usa o YouTube como plataforma de lançamento do disco, que será finalmente conhecido pelo grande público após ser apresentado a um pequeno séquito de fãs na sexta passada.
No último dia 20, o Blur reuniu 300 fãs para um show em que tocaram apenas a íntegra do novo disco. Imagine a felicidade deste fã: ver sua banda favorita tocando músicas que nunca ninguém fora do círculo interno da banda ouviu. Mais do que um teste de mercado é um teste de fidelidade – referendado pelo fato de nenhum vídeo da apresentação de sexta-feira passada ter aparecido online. Não sei se os fãs assinaram um contrato de confidencialidade ou apenas assentiram a um pacto de sigilo informal feito com a banda, mas o fato é que ninguém mais assistiu àquele show. Até amanhã.
Nesta quarta-feira, dia 25, o Blur exibe a íntegra de seu novo disco ao retransmitir o show de sexta-feira através do canal do YouTube do Beats By Dre (sim, aquela marca de headphones do Dr. Dre que foi comprada pela Apple). O show será transmitido às 8 da noite em Londres, cinco da tarde no horário de Brasília.
Quando terminar a quarta-feira, o Blur terá feito o mundo inteiro ouvir seu novo disco sem que ele tenha vazado anteriormente. E tocado ao vivo, em vez de ouvido apenas gravado. Tenho a impressão que é a primeira vez que isso acontece.
Muito esperto, esse Blur… E acho que isso é só o começo desta brincadeira.

Apareceu mais uma cena clássica de Matrix recriada com peças de Lego e eu acabei fazendo uma compilação de outras recriações clássicas desse filme nesse formato lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/25/matrix-em-versao-lego/

Escrevi sobre a volta do Arquivo X lá no meu blog do UOL e explico porque eu acho que a série poderia ser reinventada se voltasse com outros atores: Reabrindo o Arquivo X.

Atualização às 15h, dia 24/03/2015: O Hollywood Reporter acaba de confirmar que a Fox produzirá mesmo mais uma temporada de Arquivo X, com seis episódios. “Penso nisso como se fosse um intervalo comercial de 13 anos”, disse o criador da série Chris Carter. “A boa notícia é que o mundo ficou muito mais estranho, uma época perfeita para contar essas seis histórias.”
Tudo indica que Arquivo X vai se rematerializar. A série, que foi para os anos 90 o que Lost foi para a década passada, morreu sem deixar vestígios ou saudades em algum momento da virada do milênio (na verdade, em maio de 2002) e agora volta como a solução mirabolante de algum executivo da Fox para recuperar audiência sempre em queda da televisão tradicional neste século. A volta começou a acontecer em janeiro, quando os principais executivos da emissora norte-americana – Dana Walden e Gary Newman – confirmaram que estavam negociando com o criador da série Chris Carter. E agora, diz o site inglês TV Wise, o criador da série Chris Carter deverá escrever a história da nova safra, David Duchovny e Gillian Anderson já foram convidados e, voltando, a série deve ter entre seis e dez episódios em sua, er, décima (!) temporada. Agora é uma questão de ajustar agendas para definir quando ela retornará à tela de TV.
Arquivo X foi uma série cult que ajudou a fundar o que conhecemos hoje como segunda era de ouro da TV, inaugurada com os Sopranos no ano 2000. Contava a história da dupla de agentes do FBI Fox Mulder (Duchovny) e Dana Scully (Anderson) que lidava com uma divisão do escritório de investigação chamada “Arquivo X”. Este departamento reunia casos extraordinários ou sem explicação que iam de abduções alienígenas a lendas urbanas vivas, que eram catalogados pelo fanático Mulder, um agente que ostentava em seu escritório um pôster com a imagem de um disco voador e a frase “Eu Quero Acreditar”. Scully, que havia sido designada para trabalhar com Mulder por ser cética e pragmática, quase sempre ironiza a crença apaixonada de seu parceiro em uma enorme conspiração que, além de ser a origem dos casos que têm de lidar, também explicam o funcionamento do mundo como um todo, principalmente do ponto de vista político e tecnológico. Aos poucos Scully começa a acreditar em Mulder e os dois desenvolvem uma atração mútua que se estica em tensão sexual não-consumada.
Arquivo X acertou na veia das conspirações e foi, lentamente, tornando-se cult. A série começou a crescer a partir da segunda temporada, em 1994, basicamente num boca a boca que aos poucos dava-se conta de que as estranhas aparições semanais da série não eram apenas monstros e aberrações isoladas. Havia um padrão e, mais do que isso, uma fonte comum para aquelas bizarrices. A grande sacada da série foi equilibrar-se entre histórias semanais e uma grande história de pano de fundo, retomando um formato conhecido dos quadrinhos para a narrativa da TV. Aos poucos os novos fãs reconheciam os episódios isolados (o “monstro da semana”) das histórias que ajudavam a contar a saga da grande conspiração, que envolvia um pacto entre os governos do mundo com uma raça alienígena que havia chegado à Terra há milhares de anos para escravizar a humanidade num futuro próximo. Dá pra entender perfeitamente porque achavam que Mulder fosse louco.
O escopo da conspiração – que começava aparentemente pequena e ia crescendo com o passar da série – ajudou a consolidar uma mudança que David Lynch havia retomado ao formato com sua série Twin Peaks. Arquivo X abandona lentamente a fórmula dos seriados de sucesso da década anterior, em que cada episódio conta uma história fechada e você pode assistir aos episódios em ordem aleatória que os personagens serão os mesmos nas mesmas situações. Aos poucos ele vai convencendo seu público de que é preciso acompanhar a série semanalmente e debruçar-se sobre as pistas deixadas em cada capítulo semana a semana. Era o início da popularização da world wide web e fãs em todo o planeta – não apenas nos Estados Unidos – podiam acompanhar as discussões a respeito da série. Ao mesmo tempo, o VHS começava a ser substituído pela mídia digital e logo temporadas inteiras de Arquivo X poderiam ser acompanhadas sem esperar que a série fosse reexibida na TV (ou comprada por uma emissora, no caso do resto do mundo).
Revivals, adaptações, continuações, reboots e remakes têm sido a regra de Hollywood há pelo menos duas décadas e o próprio Arquivo X passou por isso em dois momentos, quando a série chegou às telonas num longo season finale em 1998 (no filme Fight the Future) e, dez anos depois, quando tentou reaparecer a partir de um outro longa metragem (o filme I Want to Believe), que não resultou em nada. A falta de criatividade que impera nos cinemas agora parece arrastar-se para a TV e, como Arquivo X, vários outros seriados tentam novas oportunidades de voltar à ativa, uns (Dr. Who, Battlestar Gallactica) mais bem sucedidos que outros (24 Horas, Arrested Development). Executivos preocupados com números de audiência preferem apostar na memória e nostalgia do público do que em contar histórias novas, que precisam de tempo para crescer (como todos os recentes sucessos da tal nova era de ouro da TV: Sopranos, The Wire, Lost, Breaking Bad, Mad Men…).
Se tudo der certo, as filmagens do novo Arquivo X começam no meio deste ano. Falta acertar a agenda dos dois protagonistas, ambos envolvidos em duas outras séries (Duchovny em Aquarius, Anderson na ótima The Fall), mas acho que a série funcionaria muito melhor se os dois não estivessem fixos no elenco deste retorno.
Imagine voltar ao universo de Arquivo X com novos agentes descobrindo velhos mistérios, fuçando monstros do passado que foram investigados por Mulder e Scully. Com os velhos protagonistas em cena, todo o passado terá de ser reexplicado em diálogos ou monólogos inúteis à narrativa, que funcionam apenas para contextualizar os novos fãs e que não precisariam ocorrer, pois os envolvidos já conhecem o que estão explicando. Se fossem novos agentes, tudo seria naturalmente explicado e a série original seria motivo para os novos fãs voltarem aos episódios dos anos 90, ganhando uma dimensão inteira de profundidade para os casos investigados hoje em dia. Não que Mulder e Scully ficassem alheios à série. Mas eles funcionariam mais como pontos de referência e fontes de informação do que como protagonistas. Aparecendo em capítulos específicos, aparições surpresa.
Mas, ao que tudo indica, veremos Mulder e Scully mais uma vez, vinte anos mais velhos, correndo para cima e para baixo de sobretudos pretos, fugindo de alienígenas e mercenários com lanternas e armas na mão. Me dá uma sensação de que vamos ver uma versão filmada do Scooby Doo…
E lembre-se que Twin Peaks volta no ano que vem! Ou seja, essa brincadeira de revival de séries está só começando…

The Magic Whip, o novo disco do Blur, foi apresentado ao vivo para uma plateia de 300 fãs na sexta passada. E nesta quarta-feira este show será transmitido pelo YouTube, às cinco da tarde no horário de Brasília – e antes do disco vazar. Todo mundo vai conhecer o disco novo do Blur com a banda tocando-o ao vivo. Escrevi sobre essa sacada hoje no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/24/blur-pega-o-mundo-de-surpresa-e-lanca-online-disco-que-so-300-ouviram/

A notícia de um documentário sobre Amy Winehouse pode ser só uma primeira mudança na tendência de olharmos para o passado. Falo mais sobre isso num post de hoje do meu blog no UOL: Documentários sobre o passado vão nos trazer de volta para o presente.

Quase toda semana há um novo documentário sobre algum artista, já percebeu? Quando não é um documentário é um filme inspirado na vida de algum nome célebre ligado à cultura. Ou uma peça. Ou um musical. Ou um seriado. Não importa o formato: o fato é que a história da cultura popular do século 20 tem servido continuamente como fonte de inspiração para novas obras – que, por mais que tentem se reinventar, apenas vendem o velho.
A novidade desta semana foi o anúncio do documentário Amy, sobre Amy Winehouse, dirigido pelo mesmo Asif Kapadia que há cinco anos dirigiu o ótimo Senna, sobre o piloto brasileiro. É mais um filme que se debruça sobre milhares de horas de imagens disponíveis sobre seu personagem, inclusive várias que nunca vieram a público, para tentar traçar um perfil psicológico de uma pessoa que vive uma vida comum e em pouco tempo torna-se uma celebridade de primeira grandeza. O filme foi anunciado apenas com um pôster e sua data de estreia foi marcada para julho deste ano. Um trailer aparecerá em breve.
Mas Amy Winehouse, por maior que tenha sido, não chegou ao status de estrela graças apenas à sua personalidade artística. Metade de sua fama veio com os paparazzi, o excesso de exposição e a overdose midiática que acompanha qualquer popstar atualmente. A forma como Amy lidou com esta fama acabou custando-lhe a vida – e até outro dia líamos sobre ela nas páginas dos jornais, das revistas e da internet.
Eis uma mudança neste cenário cultural que revisita ícones do passado com uma frequência cada vez maior: Amy Winehouse morreu há quatro anos. Um documentário sobre sua vida talvez fizesse sentido como item jornalístico logo após sua morte, mas esta velocidade para transformar-se em obra cinematográfica é uma tendência cada vez maior. Afinal, não é um caso isolado – aqui mesmo no Brasil a vida do vocalista do Charlie Brown Jr., Chorão, que morreu há dois anos, já virou o musical Dias de Luta, Dias de Glória.
Há uma variação, portanto, de uma tendência detectada pelo escritor e crítico inglês Simon Reynolds em seu já clássico livro Retromania: Pop Culture’s Addiction to its Own Past (Retrômania: O vício da cultura pop em seu próprio passado, ainda inédito no Brasil), de 2011. Nele o autor flagra uma obsessão com o passado recente da cultura popular em caixas de CD, reedições de luxo, shows que reproduzem discos antigos na íntegra, DVDs cheios de extras. Ele usa o excesso de produções que revivem diferentes épocas de ouro para dizer que a produção cultural do século 21 é vazia e que necessita de referências do passado para validar-se.

Exagero. Há todo um espectro da cultura de nossos dias que, sim, cita, celebra e repete ícones do século passado, mas eles são quase sempre destinados a uma nova classe de consumidores adultos, que vive num mundo com uma produção cultural cada vez mais intensa e de oferta avassaladora de opções à venda – sem contar as gratuitas. Por isso usar de uma história já conhecida, falar de personagens que não precisam ser apresentados ao público ou recorrer a canções que todo mundo já conhece são recursos que facilitam a captura da atenção do consumidor.
Mas há uma classe de consumidores que nem percebe o que está nas capas de revista ou nas vitrines das megastores. Movimenta-se pela internet e consome conteúdo quase sempre de graça, trocando links, filmes, games, fotos e músicas com a mesma facilidade com que se trocam emails. O que essa nova juventude consome é irreconhecível a esse consumidor adulto que frequenta cinemas nos shoppings e lota shows de artistas que ganham mais dinheiro depois de terem saído da aposentadoria para fazer shows. São vídeos que ensinam a passar de fase em jogos eletrônicos, clipes caseiros que parecem superproduções graças a efeitos especiais, músicas de artistas cada vez mais jovens e desconhecidos, monólogos no YouTube. A “retrômania” detectada por Simon Reynolds diz respeito a uma geração nascida no século 20. Os que nasceram no século 21 – ou alguns anos antes – já estão em outra.
O que é perceptível dentro dessa onda de filmes, musicais, documentários é que por mais que a fonte de novidades a partir de clássicos ou raridades do passado pareça infindável, ela não é. E o fato de estarmos vendo este tipo de produção voltar-se para pessoas que até outro dia estavam nas manchetes dos jornais tentando vender sua própria originalidade mostra que em pouco tempo não precisaremos que estas celebridades morram para que possamos assistir às histórias de suas vidas contadas em grande escala.
Isso colide com uma tendência que tem misturado o jornalismo ao cinema documental, fazendo que profissionais que em outras épocas estavam em redações de jornais, revistas ou emissoras de TV se dediquem à produção de longas metragens de não-ficção. Como essa tendência também faz parte da reclamação sobre “retrômania” detectada por Simon Reynolds, muitos filmes estão sendo produzidos sobre o passado. Mas há uma parcela cada vez maior de documentários sobre o que acontece nos dias de hoje.
Isso pode responder a uma dúvida fundamental em qualquer indivíduo que tenha uma vida digital hoje em dia: o que fazer com tantos vídeos, fotos e gravações das nossas rotinas? Esse excesso de registros vai ajudar os jornalistas-cineastas de um futuro bem próximo a contar histórias de forma mais aprofundada, detectar perfis emocionais a partir de imagens caseiras, afundar-se em personalidades complexas a partir de milhões de registros sobre elas.
Talvez os documentários sejam as matérias de capa de revista no futuro próximo que extingue o consumo de informação através do papel.
“Blurred Lines” foi considerada plágio de uma música de Marvin Gaye por ter uma ~vibe~ parecida. Como essa decisão judicial pode dar origem a mais processos e frear a criatividade não só na música, mas em todas as áreas da cultura: Uma decisão judicial que pode redefinir o futuro do entretenimento.

A disputa judicial em que a família de Marvin Gaye acusa Pharrell e Robin Thicke de usarem “Got to Give It Up”, hit disco music do soulman, como base para a irresistível “Blurred Lines” não é só mais um capítulo de uma velha história. Não estamos mais falando de sequências de notas, acordes, métrica ou qualquer outro elemento mensurável dentro do espectro da canção. O juiz que obrigou os dois intérpretes da canção de 2013 a pagar pouco mais de sete milhões de dólares à família Gaye deu sua sentença a partir da semelhança de “sensação” entre as duas canções.
• Clique aqui para ouvir “Got to Give it Up”, de Marvin Gaye
• Clique aqui para ouvir “Blurred Lines”, de Robin Thicke e Pharrell
Pois repare em ambas. Elas não têm melodia parecida, seus refrões são bem diferentes, as letras não foram inspiradas umas nas outras. O que têm em comum? O ritmo. A levada. O groove. A sensação. Um sentimento inquantificável que faz o ouvido destreinado achar todas as músicas dos Ramones, do Luiz Gonzaga, do AC/DC e de Little Richard idênticas entre si. E é aí que mora o perigo.
A inspiração artística – e não apenas musical – quase que inevitavelmente passa pelo caminho do plágio – ou de primos seus, como a apropriação, a paródia, a imitação, a homenagem, a citação, a colagem. Nem todo mundo copia, mas são raros os criadores realmente originais, que não se inspiram em outros autores, surrupiando ideias e recontextualizando conceitos aqui e ali. A história da arte pode ser contada a partir da história das cópias – e todo grande autor passou, necessariamente, por um período copiador. A frase “talento imita, gênio rouba”, escrita por T.S. Eliot (e atribuída erroneamente a Picasso ou Oscar Wilde) é a síntese desta lógica.
Mas veio o século 20 e com ele as tecnologias de registro e a difusão do conceito de copyright. Se isso garantia retorno financeiro a autores de obras à venda, por outro lado limitava a criação de novos trabalhos a partir de obras já existentes. Acusações de plágio poderiam minar pilares do modernismo, como o Ulysses de James Joyce ou a L.H.O.O.Q. de Duchamp (a Mona Lisa de bigodes). Mas vieram ganhar corpo junto ao negócio da música – mesmo porque é onde ganha-se muito dinheiro.

A segunda metade do século 20 viu uma série de ações legais contra hits instantâneos, que se agravou ainda mais após a invenção do sampler, nos anos 80. O aparelho permitia usar trechos gravados de músicas já existentes como retalhos na construção de rapsódias de ritmo e foi largamente aceito entre dois novos gêneros, o da música eletrônica e do hip hop. Há discos inteiros no final dos anos 80 e começo dos anos 90 que se aproveitaram da zona cinzenta do direito autoral aberta pelo sampler que se fossem realizados hoje só sairiam após o pagamento de altas cifras.
Mas uma subcultura autoral passou o século 20 inteiro sem a intromissão de cortes legais. Linhas de baixo, cadências rítmicas e levadas cheias de groove ritmos sempre foram sampleados, mesmo antes do sampler existir como recurso tecnológico. A história da música pop do século 20 também é a história da evolução de uma troca de referências musicais entre diferentes países, épocas, artistas e mercados que não corriam o risco de sofrer acusações de cópia pois a origem musical do mercado fonográfico era europeia, uma cultura que sempre deixou percussão e ritmo como parte coadjuvante da musicalidade, dominada pela melodia e pela harmonia.

Longe dos tribunais, a cultura do baixo atravessou o século 21 transformando o blues em jazz e depois em rock, se esgueirando pelo rhythm’n’blues e pela soul music foi parar na Jamaica onde nasceu primeiro o ska, depois o rock steady, o reggae e finalmente o dub. Unidos pela ascensão global da música pop, funk e reggae deram as cartas que se transformaram primeiro na disco music e, posteriormente, em todo o universo de subgêneros de música eletrônica (house, techno, drum’n’bass, trance) que nasceu a partir da implosão da discoteca no início dos anos 80, entre eles o hip hop. Todos esses gêneros musicais se espalharam pelo planeta de diferentes formas, dando origem a outros subgêneros musicais locais. O fato do ritmo, do groove, da levada não poderem ser registradas deu origem a uma multiplicidade cultural que é a paisagem de nosso cenário atual.
Até a família de Marvin Gaye ter ganho a causa sobre Robin Thicke e Pharrell. Isso abre um precedente perigosíssimo que pode, inevitavelmente, transformar gêneros musicais inteiros em foras da lei só pelo fato de eles se moverem através da apropriação musical de bases rítmicas.

“O veredito aleija qualquer criador que possa estar fazendo algo que foi inspirado por outra coisa. Isso pode ser aplicado para moda, música, design… tudo. Se perdermos nossa liberdade de sermos inspirados, quando menos percebermos a indústria do entretenimento como a conhecemos estará congelada por processos. Isso diz respeito a proteger os direitos intelectuais de quem tem ideias”, disse o rapper Pharrell em entrevista ao jornal Financial Times.
E para mostrar que não é apenas discurso de perdedor, o produtor de cinema Harvey Weinstein faz coro ao pessimismo de Pharrell com a decisão judicial. “Fico muito preocupado com esta noção”, disse ao mesmo jornal. “Que cineasta não poderia processar outros cineastas por um filme que passe uma sensação parecida com a de outro? É profundamente preocupante. Imagine Roy Lichtenstein e Andy Warhol, que usaram muitas coisas de outras fontes. Nada disso existiria.”
É uma decisão judicial que pode ter desdobramentos nada otimistas para quem trabalha com criatividade e arte. Quais os próximos passos? Patentear cores? Formatos? Palavras?

Imagine se alguém resolve misturar a história de Akira com os personagens dos Simpsons? Esse projeto existe desde 2013, chama-se Bartkira e andou muito mais do que você pode imaginar. Escrevi sobre ele lá pro meu blog do UOL: Bart Simpson + Akira = Bartkira!

A cultura digital é prima da escola da recombinação. São milhares de pessoas se conectando umas às outras e usando ferramentas para criar e editar – por isso é inevitável que a aura do remix e do mashup paire sobre a produção cultural online atual. Seja música, vídeo, design, performance, texto, foto, ilustração – tudo pode ser recombinado e reinventado. Especialmente se estivermos falando de ícones perenes em nosso imaginário coletivo. A mitologia do século 20, que também chamamos de cultura pop, é um extenso acervo de ícones que são remisturados o tempo todo por grupos de usuários da internet espalhados pelo planeta.
Às vezes, uma simples ideia, jogada a esmo, pode disparar uma torrente de criatividade. Foi a sacada que o ilustrador norte-americano James Harvey teve ao ver, no início de 2013, um quadrinho feito pelo amigo de internet Ryan Murphy, batizado de “O despertar de Bartkira“:






Sim, nesses garranchos coloridos estava a semente de uma ideia simples e genial: recontar a saga de Akira, de Katsuhiro Otomo, um dos animes e mangás mais clássicos de todos os tempos, com personagens da cidade amarela dos Simpsons de Matt Groening.
O post acertou Harvey como uma ideia mirabolante: que aquela história precisava ser contada na íntegra. Começou imaginar o elenco: Bart é Kaneda, Milhouse é Tetsuo e Ralph Wiggum é Akira. Logo ele estaria criando outras analogias entre os dois clássicos da cultura pop do final do século passado:







Foi quando ele teve a brilhante ideia de usar a internet para convocar colaboradores do mundo todo para um projeto ousado: recriar todo o mangá Akira página a página. Em pouco tempo ele estava comemorando o resultado da convocação com centenas de voluntários.





E não parou por aí. O projeto ganhou corpo e despertou interesse, dando origens a três exposições: uma nos EUA, outra na Inglaterra e a terceira no Japão.



À medida em que ele foi sendo realizado, foi sendo colocado para ser lido no site Bartkira. No momento, eles estão no terceiro volume do mangá e dá pra ter uma ideia do nível do trabalho comparando, por exemplo, as quatro opções de capa para o próximo volume:




E agora eles vão imprimir a história, primeiro para os próprios colaboradores e depois, se rolar, pra vender:



E agora tem uma outra turma querendo recriar o trailer! No tumblr Bartkira – The Animated Trailer, eles já estão colocando os estudos de personagens:



…e até uns gifs!


Não é demais? E tem gente que prefere viveria ter vivido em outra época… Eu acho que isso é só o começo de uma renascença cultural de uma proporção que não dá pra imaginar.
