
Jane Birkin, que foi encontrada morta por seu cuidador no início deste domingo, é mais do que um ícone da moda, uma musa ativa ou uma mulher de beleza perene: ela é praticamente um dos lastros da cultura europeia que ainda vivia neste século, uma inglesa que aconteceu na França, quase um conto de fadas. Pude assisti-la em 2009, quando ela participou de um show da Orquestra Imperial cantando “Je Suis Venu Te Dire Que Je M’en Vais”. Foi bem bonito.

Mais uma apresentação do Delta Estácio Blues de Juçara Marçal, desta vez no chão sagrado do Centro Cultural São Paulo, e o disco que Juçara Marçal lançou há quase dois anos segue vivo e pulsante, se transformando a cada novo show e maravilhosamente cada vez mais alto – o final noise de “Oi Cats” especificamente atordoou os ouvidos do público. As fronteiras do pós-punk com o noise estão sendo diluídas a cada nova apresentação e na deste sábado a ausência da batera Alana Ananias trouxe Sergio Machado para tocar mais uma vez com seus compadres e a histórica formação do Metá Metá no meio da década passada estava quase toda reunida (com Kiko Dinucci na guitarra e Marcelo Cabral no baixo, claro), celebrando essa descarga de energia e sentimentos que é esse disco maravilhoso.
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Estou pra falar essa há um tempo e nunca lembro: se você gosta do Indiana Jones, vai lá ver o novo no cinema. Indiana Jones e a Relíquia do Destino pode não inspirar por inúmeros motivos – o excesso de remakes e continuações, franquias velhas sendo requentadas, só pelo fato de ser mais um hit de Hollywood -, mas o fato é que o quinto filme da série encerra a agora pentalogia no mesmo tom que conseguiu fechar no final dos anos 80, com o terceiro episódio, A Última Cruzada. O quarto filme não ajuda nessa percepção e por mais que George Lucas tenha insistido no tom de ficção científica dos anos 50 (a década em que o filme se passa), Shia LaBeouf se finja James Dean de forma quase caricata (me lembra a ponta do Michael Cera na terceira temporada de Twin Peaks) e a famigerada cena da geladeira antinuclear (que me incomoda menos do que o ataque de macacos de computação gráfica), ele é um bom filme – tanto que sua bilheteria no ano que foi lançado só ficou atrás do segundo filme que Christopher Nolan fez sobre o Batman (é, o do Coringa oo Heath Ledger). Mas não fazia justiça ao encerramento do personagem no cinema. Como muitos, me animei desde que soube que um fictício quinto Indiana Jones poderia se materializar e obviamente iria assistir mesmo que as críticas o destruíssem de saída – Harrison Ford e seu personagem mais clássico é um inspiração contínua desde que vi Caçadores da Arca Perdida e reencontrá-lo causava um certo nervosismo como rever um tio ou primo querido que não se vê há tempos. Mas se mesmo com as críticas, Indy havia sobrevivido ao quarto filme, não poderia ser de todo mal.
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Mais um DM gravado sem pauta pré-definida, fazendo com que eu e Dodô Azevedo saiamos do frio deste inverno que sempre gostamos de falar mal para a morte de Zé Celso Martinez Corrêa e sua relação com São Paulo, daí para a greve dos roteiristas e atores nos Estados Unidos, o filme novo de Kleber Mendonça Filho, a série do The Weekend, a importância do erro e da imperfeição, como os serviços de streaming e os aplicativos de entrega e transporte fazem a mesma coisa com as pessoas, citando 2001, John Carpenter, o novo Indiana Jones, a força do teatro e a outra série do Donald Glover.
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Que sacada! Os irmãos Iggor e Max Cavalera, que criaram o Sepultura em Belo Horizonte há quarenta anos, resolveram comemorar o aniversário da banda que hoje percorre o mundo sem seus fundadores regravando os discos que lançaram no ano de sua fundação. A dupla, que ainda atende pelo nome de Cavalera Conspiracy, lança nesta sexta-feira as regravações que fizeram para as músicas do EP Bestial Devastation (incluindo a inédita “Sexta-Feira 13”) e do álbum Morbid Visions com a sonoridade que os dois desenvolveram nestas décadas, transformando clássicos toscamente mal gravados da história do metal em potências absurdas que mostram como o grupo foi visionário sonicamente em seu tempo, mesmo mal tendo condições para se gravar direito. Os dois se reúnem ao baixista Igor Amadeus Cavalera (filho de Max) e ao guitarrista Travis Stone para começar a turnê Morbid Devastation a partir do final de agosto, quando atravessam os EUA por dois meses com as bandas Exhumed e Incite abrindo seus discos. Please come to Brasil!
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O rapper mineiro FBC vai conseguir livrar-se da fórmula do Baile, disco de 2021 que gravou com o produtor Vhoor celebrando o funk brasileiro da virada do milênio. Puxado pelos hits “Se Tá Solteira”, “De Kenner” e “Quando o DJ Toca”, o disco atingiu a nostalgia de públicos completamente diferentes no momento em que as festas e shows estavam começando a se tornar uma realidade depois que começamos a ser vacinados contra o coronavírus e transformou a nova dupla em sucesso nacional, com hits unânimes numa época tão fragmentada. Mas colocou um de seus autores numa encruzilhada: FBC sempre percorreu diferentes facetas musicais, sempre com os pés no rap, mas o sucesso de um disco tocando funk carioca talvez o tornasse refém de um gênero musical específico e não conseguisse manter a mesma unanimidade – e aos poucos vem sinalizando um disco puxado pra música eletrônica. O primeiro single “Químico Amor“, resvala demais na conexão Olivia Newton-John com a Dua Lipa no limite do pastiche – as referências são tão explícitas, inclusive no clipe, que a música parece presa à sonoridade alheia. Mas o passo dado no single que ele lançou nessa sexta-feira é firme: “Madrugada Maldita” trabalha naquele território dos sintetizadores oitentistas em que Giorgio Moroder e John Carpenter se juntam num back to back para inventar o Daft Punk, mas acerta mesmo na letra, ao reverenciar num hit irrepreensível esse lugar não-lugar da noite e da internet em que nos perdemos “online por aí”, perambulando pelos insones, falando com segundas (e terceiras e quartas) possíveis companhias e intenções, entre carretas de vacilo, benditas almas pequenas e de quem te chama na DM pra “te livrar do perigo do textão”. Se o disco for pra esse lado, o Baile pode ficar pequeno.
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Este dia 14 de julho marca os vinte e cinco anos de um dos principais discos do fim do século passado e um dos discos mais subestimados dos Beastie Boys – também pudera, Hello Nasty foi lançado após uma sequência de quatro álbuns fundamentais para a segunda metade do século (Licensed to Ill, Paul’s Boutique, Check Your Head e Ill Communication) e quando materializou-se em 1998 já vivíamos a realidade imaginada pelo trio de Nova York há mais de uma década. Mas se o impacto da época não teve tanta repercussão para os iniciados, foi o disco que apresentou os Beastie Boys como autores e popstars para o resto do mundo, carregando hits como “Body Movin’”, “Intergalactic” e “Three MCs And One DJ” enquanto passava por baixo dos panos uma colaboração com Lee Perry aqui, uma bossanovinha com uma das minas do Cibo Matto acolá, entre outras preciosidades. A festa de aniversário acontece em vinil, quando o grupo lança uma versão quádrupla no próximo mês de setembro, que já está em pré-venda, e reúne vários remixes e faixas inéditas, além de camisetas comemorando o aniversário. Dá uma sacada no material inteiro abaixo: Continue

Nem vou entrar em detalhes sobre o calor da pishteenha que eu e Fran aquecemos nessa madrugada porque quem tá frequentando o Inferninho Trabalho Sujo tá vendo que nosso trabalho é sério e não deixa ninguém parado, mas é preciso deixar registrado a explosão de energia que foi o primeiro show da banda mineira Varanda em São Paulo. Habitando aquele lugar impreciso entre o rock clássico e a MPB, o quarteto está pronto e em ponto de bala para conquistar palcos Brasil afora, com o trio instrumental formado pelo baixista Augusto Vargas, o baterista Bernardo Merhy e o guitarrista Mario Lorenzi entrelaçado o suficiente para permitir que sua vocalista, a apaixonante Amélia do Carmo, conquiste o público sem parecer que está se esforçando pra fazer isso. E além de dar aquele tchauzinho para o Sidney Magal (numa versão intensa para “Meu Sangue Ferve por Você”)) o grupo encerrou a apresentação convidando Laura Lavieri para juntar-se a eles nos vocais do primeiro single, a contagiante “Gostei”. Terminaram sem fazer bis e fazendo todo mundo se perguntar quando é o próximo.
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Na centésima edição do meu programa de entrevistas, convidei a Luiza Voll, da Contente, para falar sobre o papel do trabalho em nossas vidas – tanto à luz deste momento pós-pandêmico que ainda atravessamos quanto a partir das cobranças que a sociedade conectada impõe, tema de uma das iniciativas de sua empresa, #otrabalhoqueagentequer. Conversamos sobre como essa mudança do trabalho impacta em nossa rotina não apenas do ponto de vista prático, mas também afetivo e emocional, nos obrigando a repensar nossas rotinas para além das nossas agendas.
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(Foto: Filipe Vianna/Divulgação)
Qual foi a minha surpresa quando descobri que a fotógrafa Anna Bogaciovas, que encontrava por aí registrando shows em São Paulo, também tinha uma banda! Ela toca guitarra e canta n’Os Fadas, cuja inspiração óbvia – desde o nome – são os Pixies e que ainda conta com Augusto Coaracy na bateria, Gabriel Magazza, que também toca no Culto ao Rim, na guitarra, e Rafael Xuoz, no baixo. O grupo está prestes a lançar seu disco de estreia – o EP Sono Ruim – e antecipa o primeiro trabalho com o single “Sei Lá Vie”, que alterna os vocais pontiaguados de Anna com o peso dos instrumentos e chega às plataformas digitais nessa sexta. Mas a banda antecipou pra cá e o single já pode ser ouvido em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
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