Henry Rollins e Ian McKaye ressuscitam o disco perdido dos Cramps produzido por Alex Chilton

No fim do ano passado, Henry Rollins mencionou que estava trabalhando com Ian McKaye e começaram as especulações que dois dos maiores nomes da cultura faça-você-mesmo do punk dos Estados Unidos estavam compondo ou gravando disco. Mas o vocalista do Black Flag e da Rollins Band e o cérebro por trás do Minor Threat e do Fugazi logo desmentiram que pudessem estar fazendo algo autoral e agora a verdade vem à tona: os dois estão começando a chafurdar no extenso arquivo dos Cramps, reativando a seminal gravadora do próprio grupo, a Vengeance Records, para mostrar joias enterradas no passado da banda que finalmente verão a luz do dia. Uma das bandas mais transgressoras da história da música gravada, o grupo liderado pelo casal Lux Interior e Poison Ivy é o monstro que o rock’n’roll deveria ter sido caso não fosse cooptado pela indústria fonográfica. Embora sejam mais reconhecidos por fundar o gênero chamado psychobilly, os Cramps eram viciados em música pop que gostavam de se enfiar até o pescoço no pântano do rock sujo, causando comoções por onde passavam. O primeiro lançamento desta nova fase vem dos estúdios da gravadora Ardent, quando o líder do Big Star resolveu, ainda em 1977, produzir o primeiro disco da banda, que só seria lançado em 1980 com o título de Songs the Lord Taught Us, E na primeira sessão que fizeram no clássico estúdio de Memphis, Chilton pediu pra banda gravar várias músicas para depois escolher as que lançariam como compactos antes do lançamento do disco. E, como Rollins detalha no texto de apresentação do disco (leia abaixo), eles fizeram essas gravações que não foram lançadas à época e quase viram a luz do dia no final dos anos 80, quando Lux e Poison voltaram àquelas gravações e fizeram novos mixes para a seleção de música, que seriam lançadas como um disco voltado para os fãs chamado de Gravest Gravy. Mas, por algum motivo, o projeto foi engavetado e só agora volta a surgir para o público, quando Rollins e MacKaye começam a mostrar o que conseguiram levantar nos arquivos da banda a partir deste primeiro registro dos Cramps em estúdio, que chega ao público dia 21 de agosto e já está em pré-venda. Ouça abaixo o primeiro single deste novo álbum, “TV Set”, bem como um texto de Rollns sobre a descoberta deste disco perdido e o nome das faixass:
“Em outubro de 1977, os Cramps se aventuraram pelo Ardent Studios em Memphis, Tennessee, com o produtor e seu tradutor extraordinário, Alex Chilton. O grupo planejava gravar a música ‘TV Set’ como lado A de um compacto, com mais uma ou mais faixas. O senhor Chilton explicou que seu método preferido era gravar um monte de músicas e, a partir daí, escolher as melhores delas.
Para a alegria dos fãs dos Cramps em todos os lugares, a banda fez exatamente isso. O primeiro registro dessas sessões foi lançado no ‘insuspeito mundo humano’ em abril de 1978, por seu próprio selo, Vengeance Records. Era um compacto de 7 polegadas com duas músicas: uma versão do clássico de 1963 dos Trashmen, ‘Surfin’ Bird’, levada para muito além de seus limites, forçando-a a transformar-se em uma altíssima nova forma de baixo calão; e o calor frio de ‘The Way I Walk’, de Jack Scott, de 1959, foi levada de volta à Idade da Pedra…
Após uma única audição, tornou-se claro que Os Cramps tinham definitivamente chegado à essência do Rock ‘n’ Roll. Em novembro daquele ano, e novamente das sessões de outubro de 1977, veio outra lição em forma de duas músicas sobre como se faz, ou melhor, como se desfaz, com um dos melhores lados A de todos os tempos: ‘Human Fly’. O lado B foi tornado refém por ‘Domino’, originalmente cantada por Roy Orbison. A versão dos Cramps ostenta uma confiança infinita e é absolutamente eletrizante ao ouvir. No verão de 1979, os jovens degenerados da Inglaterra foram presenteados com um compacto de 12 polegadas dos Cramps chamado Gravest Hits, que apresentava não apenas as quatro faixas mencionadas anteriormente, mas também uma quinta, novamente das sessões de outubro de 1977…
O que teria acontecido com o resto das faixas daqueles dias auspiciosos de outubro de 1977? Em 2026, Larry Hardy, dono e gerente da In The Red Records, desceu de rapel até o vasto e obscuro cofre da coleção de fitas dos Cramps e emergiu horas depois, desorientado e sem fôlego, mas radiante com o que havia trazido de volta: seis fitas de ¼” com faixas mixadas por Lux (Interior) e (Poison) Ivy…
Gravest Gravy é uma das coleções mais puras de música selvagem e desenfreada que você vai ouvir — como Jerry Lee Lewis desacorrentado, como se Elvis fosse Tarzan — como deveria ser. Os Cramps foram uma das maiores bandas da história da música gravada, e qualquer um que os ouviu ou viu sabe e concorda com essa verdade pétrea. Desde sua origem até hoje, a banda tem fãs cujo entusiasmo por sua música transformadora nunca esmorece. Os Cramps fizeram essa música por amor ao Rock ‘n’ Roll. Lux e Ivy fizeram este disco para você.”
“TV Set”
“Weekend On Mars”
“Twist & Shout”
“Jungle Hop”
“Can’t Hardly Stand It”
“Hungry”
“The Natives Are Restless”
“Domino”
“Can’t Find My Mind”
“Rockin’ Bones”
“Problem Child”
“Rocket In My Pocket”