O capo da YB Maurício Tagliari está azeitando a cria e em breve lança seu disco solo, ainda sem título, cheio de participações especiais. O primeiro aperitivo é o single “Bando à Parte”, parceria com o artista plástico Clima, cujo clipe estreia em primeira mão aqui no Trabalho Sujo.
“No processo de gestação do disco mandei um tema para o Clima, que devolveu uma letra pela qual me apaixonei. Ele sacou muito da ideia do disco e dos meus gostos cinematográficos”, explica o guitarrista, por email. “Essa faixa foi gravada inicialmente com um duo de bateristas que eu amo: Mariá Portugal e Thomas Harres. Eu estava ao violão, foi uma sessão bem solta, uma jam. Depois me veio a ideia de criar climas – sem trocadilho – cinematográficos com um arranjo de sopros. Chamei o Luca Raele para escrever e os amigos Jorge Ceruto, Maria Beraldo e Antonio Loureiro para executar. A ideia do filme veio de uma conversa entre Clima e meu filho, ambos apaixonados pelo cinema de Godard.”
Não é o primeiro trabalho solo – ele acaba de fazer a trilha do filme Mundo Cão e de lançar o álbum instrumental jazz acústico Utopia Retro, além de ser o mentor da The Universal Mauricio Orchestra -, mas é seu primeiro álbum solo. O disco ainda não tem título, deve ser lançado em maio e conta com as participações de Luedji Luna, Ava Rocha, Pélico, Laya, Negro Leo, Assucena, emtre outros.
Além do disco, Tagliari prevê um ano difícil para a cultura – justamente quando seu selo YB completa 20 anos de existência. “2018 foi uma ano difícil para a cultura. 2019 não será melhor. Na YB estivemos produzindo e resistindo e tem muita coisa boa a ser lançada – Siba, Clima, Felipe Cordeiro, Kafé, Luedji Luna, Alan Abadia, Ava, Héloa, Lulina, Abacaxepa”, lista. E destaca um ápice: “o disco Tudo que Move é Sagrado, de Samuca e a Selva, com convidados em homenagem a Ronaldo Bastos foi um marco para a gente em 2018. Uma reunião linda e de altíssimo nível. Essa deve ser nossa luz guia para os próximos meses.”
E arremata: “O mercado independente inexiste. O que existe é a resistência da música independente. Somos chatos e cutucamos a casquinha da pele da música mainstream. Sem a gente não há evolução nenhuma.”
Na minha coluna Tudo Tanto desta semana, bati um papo com o Sebastián Piracés-Ugarte, baterista e fundador do grupo mexicano-brasileiro Francisco El Hombre, sobre o lançamento de seu novo álbum, o quente Rasgacabeza – confere lá no Reverb.
Conversei com o maestro Thiago França, líder da Espetacular Charanga do França, um dos blocos-símbolos do novo carnaval de rua de São Paulo – este é o assunto da minha coluna Tudo Tanto desta semana no Reverb, confere lá.
“É pura experimentação pra mim, pela primeira vez escrevi músicas a partir de batidas, escrevi sobre minha cor, a iminência da guerra de todo dia escancarada na nossa porta, deixei a porta aberta pra receber direções que não daria, músicas que não ouvia, tentando mudar de verdade, arrumando meu quarto, mais cuidadoso”, Giovani Cidreira se escancara ao falar de sua nova fase, que começa a ser apresentada agora, com seu primeiro single, “Pode Me Odiar”, lançado aqui no Trabalho Sujo. Depois de sair de Salvador com seu disco de estreia Japanese Food debaixo do braço, ele mudou completamente sua abordagem musical ao viver na correria dos festivais independentes pelo Brasil e o corre-corre diário de São Paulo, onde está morando. A faixa é o prenúncio do novo disco, Nebulosa Baby, que está programado para sair no meio do ano e será precedido pela Mixtape/Mistake, complementar ao álbum, que será lançada ainda em março.
Uma balada R&B em câmera lenta, seu ar contemplativo contrasta com a poluição digital sugerida por seu “lírico-vídeo”, feito por Gabriel Rolim, que superpõe o ambiente visual do Whatsapp com suas trocas de mensagens, áudios, vídeos e selfies. “Rolim trouxe o visual no meio pro fim do processo – isso foi louco. Você vai ouvir a mix e vai ver o visual, parece que foram feito juntos”, conta. Citados no vídeo, alguns dos cúmplices da nova faceta do cantor e compositor baiano, como o guitarrista dos Boogarins Benke Ferraz (produtor do novo disco), o diretor do vídeo, a cantora sergipana Marcelle Equivocada, a multinstrumentista baiana Jadsa Castro, a cantora e compositora baiana Josyara e Rafaela Piccin, uma das donas da Casa Vulva. Não são os únicos: “A mixtape tem seis componentes: Jadsa Castro que canta em ‘Mano Sereia’ e ‘Oceano Franco’, parceria com Caio Araujo – feat com o melhor Frank deste século -; Benke, que fez toda a parte musical comigo; Letícia Brito e Gabriel Rolim sao os outros dois componentes dessa banda. Letícia foi quem olhou esse caminho até antes da gente e juntou todas as ideias, as cartas na mesa, pistola sem trava, aquela coisa.” O disco, gravado no início deste ano, ainda conta com participações de nomes como Ava Rocha, Luiza Lian, Fernando Catatau, Luê, Lucas Martins (baixista que toca com a Céu e com Curumin), Dinho Almeida e Ynaiã Benthroldo (dos Boogarins), Obirin Trio e integrantes da banda Maglore.
“Tudo começa ao mesmo tempo: as mudanças internas refletem na nossa roupa, no jeito de falar. O caminho mais difícil é o do espelho. Deixei rolar bem mais, Benke e eu trocamos algumas ideias e ele foi lá em casa, a gente não sabia de nada, fomos fazendo na doida, tendo ideias e jogando elas pro ar, eu, ele e Jadsa que participou desde o primeiro encontro e é figura essencial nessa compilação. Algumas músicas foram gravadas em casa ou na rua, por áudio de Whatsapp. Coisas que gravei na Casa Vulva de reuniões que fazíamos lá, tem uma faixa que Benke misturou parte desses áudios que gravei em casa com gravação em estúdio que fizemos na Red Bull. A mixtape tem isso de apresentar retalhos de coisas que vão surgir na segunda parte dela que virá em forma de disco ou clipe ou sei lá”, divaga o baiano sobre esta nova fase.
“Você só percebe que tá entrando num onda quando você está nela”, continua Giovani, falando sobre o processo. “Quando terminei ‘Pode me Odiar’ olhei pra trás, pro caminho que eu estive criando com esse grupo de músicas que vai entrar na mixtape, e vejo como ela sintetiza o que fui e o que sou agora sonoramente, as novas escolhas sem jogar nada fora. Foi um desabafo, mais uma vez fugindo do pensamento de como eu machuco tanto até quem amo tanto. Ano passado encontrei Benke no Recife, entre shows e entrevistas nos gravamos a música no modo bem Benke: primeiro o beat do teclado Casio e os acordes também ao estilo Roberto, depois da voz gravada no celular e Benke foi adicionando efeitos, percussão, vocoder, graves e todo lance que levou a música pra o que ela é agora. E soa leve. Ele é foda, adoro as escolhas dele, admiro sua sagacidade.”
Uma marchinha de carnaval para protestar contra a especulação imobiliária e popularizar uma luta que dura décadas: assim é “Parque do Bixiga”, que a Trupe Chá de Boldo lança em primeira mão no Trabalho Sujo. “‘Parque do Bixiga’ nasceu no meio de 2017, uma época em que Silvio Santos intensificou seus ataques reivindicando a propriedade do entorno do Teatro Oficina”, explica o vocalista Gustavo Galo, um dos autores da canção, ao lado de Peri Pane. “Em meio a esses ataques surgiu o que era originalmente uma marchinha de carnaval. Cantamos ela a primeira vez com a Trupe no carnaval que fizemos com Tatá Aeroplano e Gustavo Sousa em 2018. Para o carnaval desse ano, a convite de Magí Batalla, decidimos realmente arranjá-la, não mais como marchinha, embora ainda carnavalesca e disponibilizá-la como modo de apoiar a luta pelo Parque do Bixiga. A luta existe a quase quatro décadas e é formada por moradores do bairro, artistas, associações, visando defender a área tombada como patrimônio no início dos anos 1980.”
“A Trupe sempre teve uma relação próxima com o Oficina. Alem dos shows que fizemos lá, Gongon e Remi Chatain fizeram parte de algumas montagens. E Felipe Botelho segue por lá como diretor musical”, continua Galo. “Para nós os shows que fizemos naquele espaço foram realmente transformadores”. Ele fala também da importância da arquiteta Lina Bo Bardi, idealizadora do espaço, para o grupo. “Ela tornou-se uma referência para a banda precisamente antes do nosso primeiro show no Teatro. Lemos coletivamente alguns dos seus textos e a partir deles surgiu ‘À Lina’, gravada em nosso primeiro disco. Tudo isso para dizer que é difícil saber o que veio antes, uma marchinha que tornou-se pouco a pouco música para o parque ou, ao contrário, o parque inspirando a criação. De algum jeito essa música tinha que acontecer e agora. Como o parque tem que acontecer e agora.”
Pergunto sobre o carnaval ser resistência e Gustavo responde: “Carnavais são vários. E eles são resultado das forças em luta também. A história do carnaval de São Paulo, por exemplo, traz muitos exemplos de resistência, a Lavapés, madrinha Eunice, Geraldo Filme, a história de grande parte das escolas, o Ilu Obá… É só parar para ouvir o Geraldo Filme ou o Plínio Marcos do ‘nas quebradas do mundaréu’ e aprender um tanto dessas histórias. Em São Paulo, apesar do atual investimento publicitário, o carnaval segue como afirmação de resistência. É a experimentação da cidade como extensão do corpo – físico e coletivo – furando os limites do cotidiano restrito, metódico e esquemático da cidade estritamente produtiva. É a cidade usofruto, a cidade prazer se sobrepondo à cidade macroeconômica. E por conta disso muitas vezes a polícia e o Estado não demoram para reprimir e exibir sua rotineira violência visando determinar os limites para a realização da festa. Mas não tem jeito de conter o carnaval. Fora que os algoritmos ainda não dão conta da variedade dos sons. Quem quiser sair da bolha que saia às ruas disposto a se perder.”
Maior satisfação em trazer a cantora e compositora baiana Josyara para encerrar o mês de fevereiro no Centro da Terra, que traz uma versão recriada do ótimo disco que lançou no ano passado, Mansa Fúria, no espetáculo Abraça, que conta com as participações da musicista Luê e da atriz Bárbara Santos. “A conversa do show com o disco é o violão”, ela me explica antes do show. “Convidei estas participações justamente pra gente puder revisitar os arranjos do disco e tocar de um jeito diferente. Eu caminho pelo arranjo do disco, mas tô desconstruindo, tocando violão de outra maneira, acrescentando outras ideias”. O show começa às 20h (mais informações aqui), vamos lá?
Com o sucessor do ótimo De Baile Solto, de 2015, sendo prometido há dois anos, o maestro pernambucano Siba interrompe o silêncio pouco antes do Carnaval para lançar um manifesto de celebração à festa popular. “Barato Pesado” celebra a folia na rua, a alegria como força-motriz, a música como força renovadora. “É uma música que diz muito sobre o lugar que o Carnaval ocupa na vida da gente”, me explica o cantor e compositor. “Ela é prima-irmã de ‘A Bagaceira‘ e fala dessa mesma energia de transfiguração e de renovação, uma saúde que vem pela festa e pela alegria. Essa é uma dimensão do Carnaval que a gente leva como natural, sem parar pra pensar, e talvez seja um bom momento pra gente dar valor à possibilidade, à liberdade de brincar o Carnaval e de algum modo usar esse momento pra regrupar forças e seguir de algum modo resistindo a um momento que acho que é bem negativo no país. Nesse sentido dá pra se pensar em resistência sim, embora o objetivo seja mais abrangente do que um objetivo político pontual.”
“O single é parte do novo disco, que tá ainda em elaboração. Comecei em 2017, teve uma pausa e agora tá em pleno andamento, com previsão pra maio ou junho”, continua explicando. “A gente resolveu adiantar essa música pro carnaval, porque comecei a me incomodar muito porque essa música fala muito sobre o presente, o agora, e eu não queria esperar o ano que vem pra sentir essa música com o carnaval, ia ser muito artificial. Especialmente pensando aqui no Recife, mas não só, porque o Carnaval se torna cada vez mais um momento importante pra gente repensar o país.” A letra compara a festa a uma religião, logo de cara, acendendo o pavio da folia: “Venha para nossa congregação, pra entrar não paga nem um tostão, não temos capela, igreja e nem sé, pode vir, nem mesmo precisa fé.”
“A gente não ia fazer, mas o incômodo de não fazer foi maior do que a perspectiva problemática de fazer tão em cima da hora”, Siba segue explicando. “Então a gente resolveu ir pelos intestinos e lançar a música mesmo. Até porque não adianta achar que tem grandes jogadas a serem feitas – não vai estourar no Carnaval, não vai tocar na rádio. Mas no pequeno espaço que ela ocupa – que é o espaço que a gente já ocupa – e mais um pequeno espaço potencial ao redor, ela acaba cumprindo uma função interessante no momento, acho que é uma música forte para o momento. Por isso a convicção de lançar ela tão na doida, quase na boca do Carnaval.”
O single também apresenta a indumentária que a banda de Siba, que conta com Mestre Nico na voz e percussão, Lello Bezerra na guitarra, Rafael Dos Santos na bateria e Lulinha Alencar no acordeon. “O Carnaval pra gente é um momento muito especial, não dá pra subir no palco igual a como você passa o ano inteiro”, explica Siba, falando sobre o uniforme camuflado. “Essa fantasia é parte do figurino da banda desse ano, é um figurino que foi idealizado por Marcelo Sobrinho e por mim pra toda banda. É uma coisa meio militar, mas não levado a sério, rosa e vermelho, com a cara pintada de branco, um black face ao contrário”, explica.
Imensa satisfação em receber o capixaba Juliano Gauche em mais uma transformação musical, desta vez no Centro da Terra. Nesta terça-feira, dia 19 de fevereiro (mais informações aqui), o cantor e compositor explora um lado mais sensível e introspectivo de suas canções no espetáculo Entre Árvores, em que toca ao lado dos músicos Kaneo Ramos, nos violões, e Klaus Sena, nos pianos, em busca de uma sonoridade mais vazia: “A intenção é chegar nesse lugar mais atemporal, da voz e do violão”, explica Juliano, “tem um lugar em que o tempo não pega muito, menos efeitos, menos ritmos – tudo isso tem um tempo, uma época, que vai junto com esses arranjos. Quando fica só a voz e o violão fica mais atemporal e talvez eu esteja buscando isso mesmo, se existe algum traço de atemporalidade nas minhas músicas.” Abaixo, ele explica melhor o que esperar desta apresentação.
Bati um papo com o Benke sobre o processo de criação do próximo álbum dos Boogarins, Sombrou Dúvida, na minha coluna Tudo Tanto desta semana
Bati um papo com o guitarrista Benke Ferraz sobre o processo de criação do próximo álbum dos Boogarins, Sombrou Dúvida, na minha coluna Tudo Tanto desta semana – lê lá!
É com grande satisfação que recebemos no Centro da Terra um dos grandes cantores e compositores da música paulistana do século 21, o grande Rodrigo Campos, como primeiro dono das segundas-feiras de 2019. Em sua temporada Qualidades Primordiais, Rodrigo dividiu suas apresentações em quatro elementos, alquimicamente desdobrando suas temperatura e umidade para dissecar sua própria musicalidade. Em cada uma segunda-feira, ele reúne sensações diferentes de seus sambas a partir de seus convidados, “elas servem como um norteador para escolher as participações na temporada”, ele me explica “uma maneira mais de criar uma atmosfera do que fechar um conceito pra cada show. A ideia é ser um pouco aberto”. Na primeira segunda, dia 4, ele recebe os percussionistas Fumaça, Raphael Moreira e Victória dos Santos na noite Frio e Seco, regida pelo elemento terra. Na outra segunda, dia 11, ele recebe a nova colaboradora Maria Beraldo para a noite Quente e Seco, do elemento fogo. Na terceira segunda, a noite Frio e Úmido, do elemento água, ele conta com a participação de Kiko Dinucci e, finalmente, encerra seus trabalhos com a noite Quente e Úmido, do elemento ar, com Maurício Badê e Thiago França (mais informações aqui). Conversei com ele sobre sua temporada e ele conta o que pensou para seu mês de fevereiro no Centro da Terra.










