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Entrevista
    kiko-thiago

    “Em São Paulo fiz como faço normalmente quando vou pra algum lugar pela primeira vez, costumo pedir pra muita gente muita música – e na bagunça que isso gera, alguma mágica começa a acontecer”, lembra o francês Vincent Moon, que está lançando uma gravação que fez com Kiko Dinucci e Thiago França em 2010 como o EP batizado com o nome dos dois, lançado por seu selo Petites Planètes e apresentado em primeira mão aqui no Trabalho Sujo. “Vou chamar isso de criar ordem através da técnica do caos. E assim o nome do Kiko aparecia bem no alto das recomendações de muita gente. Não me lembro nem se o Metá Metá já existia. Mas era bem óbvio, eu ouvia o nome dele na voz de todos, por isso decidi gravar algo com ele e na gravação ele chegou com o Thiago.”

    O registro flagra Kiko e Thiago passeando pelo camelódromo do Brás enquanto improvisa entre os transeuntes, captando toda a cacofonia do ambiente. “Esse dia foi muito louco”, lembra Kiko, “o Vincent foi lá em casa, eu dividia o apartamento com o Serginho Machado, e ele queria fazer esse vídeo, sugerindo o camelódromo do Brás. A gente se encontrou na Pinacoteca e foi andando até lá, desceu a rua das noivas ali na São Caetano e na Avenida do Estado já tinha uma entrada no camelódromo. Daí a gente entrou na feira e tocamos no meio das barracas, com a participação de ruídos e gritos, falas e sons do ambiente…”

    Kiko vinha com seu violão pendurado no pescoço e um amplificador de pilha a tiracolo e Thiago o acompanhava de perto, mas não do lado, sendo seguido por Vincent, que registrava o áudio e uma de suas alunas que filmou o percurso. O vídeo não funcionou, mas o registro sonoro é preciso: “”Alguém me disse ‘minhas memórias são minhas gravações’ – talvez tenha sido eu mesmo. Por isso não me lembro muito além os barulhos do mercado, o passeio bagunçado por aquela área, o fluxo incrível da música – quero dizer, que músicos extraordinários esses caras são! Parecia tão fácil para eles, tocar, captar a vibe ao redor e integrá-la à sua própria música…”, lembra Vincent. Kiko se empolga com a memória: “Eu lembro que eu me perdia do Thiago pelas barracas e depois reencontrava. Aí tem uma criança que sopra uma cornetinha no meio da música, gente gritando… O bagulho é caótico e a gente fez umas músicas mais agitadas, pelo camelódromo inteiro tocando – ninguém entendia nada. Foi bem louco.”

    A passagem de Vincent por São Paulo à época foi bem frutífera e rendeu ótimos vídeos, capturando o calor da cena paulistana há dezx anos. “Fui convidado para dar aulas numa escola de cinema, que foi também o motivo de gravarmos essa sessão”, lembra o cineasta. “Obviamente tudo era pretexto pra outra coisa – nesse caso, era uma fantástica oportunidade para circular, gravar todas aquelas pessoas ao redor desta cidade insana – me apaixonei à primeira vista por SP, mas foi mais uma febre urbana na época, mudei um pouco depois disso… Terminei indo pros melhores lugares de samba com a Dona Inah, filmei com Thiago Pethit no Minhocão, passeei numa noite mágica com José Domingos, fui a festas insanas com o Holger, explorei o centro da cidade com M. Takara, filmei Lulina em seu apartamento, dancei na laje do prédio de Tom Zé… Cara, foi pura mágica, sabe? Eu não acredito que tudo isso aconteceu em tão pouco tempo. Mas, mais uma vez, é a excitação do desconhecido que motiva nossas almas aos feitos mais puros.”

    Foto: Moana Gangeni (Divulgação)

    Foto: Moana Gangeni (Divulgação)

    Mas logo Vincent se apaixonou pelo Brasil onde viveu por quatro anos até o ano passado, com base no Rio, fazendo registros de rituais transcendentais por todo o país, fazendo o projeto Híbridos, ao lado de sua esposa, Priscilla Telmon. “Exploramos profundamente a relação entre a música e o transe, a música e o sagrado em várias formas de rituais, em todo o país. Acho que filmamos cerca de 60 rituais diferentes, alguns bem pouco conhecidos – como o Almas e Angola no sul – ou bem novos – como a Fraternidade Kayman. Não dá pra se decepcionar em termos de música…”, diz, explicando porque não acompanha mais a cena contemporânea brasileira.

    “Eu lembro que uma vez, durante uma sessão de Umbandaime na praia, todo mundo sob a influência do ayahuasca, incorporando espíritos de animais”, ele lembra, traçando um paralelo entre o mundo ancestral e o moderno. “Foi maravilhoso e completamente maluco ao mesmo tempo e, de repente, eles começaram a tocar uma música do Metá Metá! Foi fantástico – nós ouvimos muito sobre a música sair do uso ritualístico para os chamados usos profanos, mas o movimento contrário é algo que está me fascinando no Brasil – e uma grande inspiração para nossa geração híbrida global, claro.”

    Pergunto sobre como anda a quarentena na França e ele responde aliviado que as coisas vão bem: “Tenho sorte, a situação na França parece razoavelmente fácil de se lidar, pois a sociedade vem desenvolvendo um sistema de saúde pública forte pelas últimas décadas, mesmo que boa parte de nossas riquezas venham da exploração de outras terras por muito tempo. E também não temos um maluco completo no comando”.

    Mas ele é cético em relação à volta para a vida que levávamos antes. “Não acho que iremos voltar ao normal, mas quem seria estúpido suficiente para desejar tal coisa? Eu acabei de publicar um pequeno ensaio sobre isso – The Nyépi-Demic – que discute as muitas questões relacionadas a possíveis evoluções da cena artística, etc.”

    Ele aproveita para explicar o que está acontecendo hoje à luz de sua pesquisa de rituais. “Muitos anciãos por todo o mundo, de diferentes origens indígenas, têm sido muito caros a passar, nas últimas décadas, para nossa geração, este conhecimento profundo – que a realidade externa e material é só um espelho do nível interior da consciência de toda nossa sociedade. É o conhecimento mais antigo da humanidade, provavelmente, você pode ler isso formulado de diferentes formas em todas os caminhos espirituais ancestrais, da Índia a Grécia, do Egito aos xamãs…”

    “O que isso quer dizer?”, prossegue. “Que a imaginação é muito mais importante do que pensamos neste nosso mundo pós-industrial. Que a imaginação é o CENTRO da realidade nesta terceira dimensão. Então é bom que imaginemos o amanhã. Para fazer isso, sugiro que paremos de ler tudo que venha da mídia de massas e que inventemos nossas ficções alternativas.”

    Enquanto a pandemia não passa, ele fala sobre o projeto que vinha trabalhando antes do surto, que quer retomar logo em seguida. “Estou tentando explorar a relação entre o cinema e os estados de transe, vibrações e o código da realidade e criar alguns protocolos de cura para longe do mundo do cinema mas mais com cara de híbridos – nós estamos começando o Teatro da Cura assim que essa pandemia começar a diminuir – uma experiência faça-você-mesmo em que as pessoas, qualquer um, nos convida para suas casas para uma sessão de música, cinema e cura. Vamos continuar a publicar todos nossos trabalhos na internet, sob licenças de código aberto, através de nosso selo de música digital e você pode conferir algumas performances recentes no site da Petites Planètes.

    soledad2020

    A cantora cearense Soledad mostra em primeira mão no Trabalho Sujo o segundo clipe de seu disco Revoada, lançado no ano passado, mais uma parceria com a diretora Patrícia Araujo. O clipe é da ótima versão que ela fez para a tocante “Pássaros, Mulheres e Peixe”, de Alessandra Leão. “O que está visível hoje?”, pergunta-me de volta quando a pergunto a relação entre o novo clipe e a situação que atravessamos por conta do coronavírus. “O isolamento pandêmico destaca e fortalece as diferenças sociais, políticas e culturais nas quais as mulheres são inseridas. Ficamos ainda mais expostas ao desamparo e às violências do machismo, o aumento do feminicídio em alguns países desde que a quarentena começou comprova isso, por exemplo.”

    O clipe foi gravado antes do período de confinamento, à exceção das imagens de Soledad, feitas por ela mesma com inspiração em técnica de stop-motion da cineasta Agnès Varda “Eu e Pati conversamos há algum tempo sobre como a arte e os valores feministas podem, e devem, refletir a nossa responsabilidade cidadã e humana, e também a de personagens da natureza. Como artistas, precisamos estabelecer alguma conversa com o mundo e sua realidade, vislumbrando transformações. Desde o nascimento do Revoada, nós ficamos muito atraídas pela ideia de criarmos juntas um vídeo-arte para essa canção, pelo que ela conta e nos une afetivamente e politicamente na nossa condição de mulher, esse momento se deu agora. É impressionante o que uma música, uma dança, um texto, ou um filme podem comunicar, atravessar e construir.”

    “Há quarenta dias tento deixar a respiração pacífica para que seja possível imaginar o mar e desenhar uma linha do horizonte para a vida futura”, responde quando pergunto a ela sobre os dias de isolamento social. “Mergulho em leituras e filmes que me dão possibilidades de criar uma paisagem melhor para essa vida, a desejada por mim e pelas pessoas que se colocam perto e distante. Também tenho me dedicado ao pequeno livro que pretendo lançar em breve e a tentar entender se o que produzo contribui para a transformação social que manterá o planeta e as pessoas vivas ou não. Difícil falar sobre a pós pandemia agora, por enquanto penso o quão é importante nos posicionarmos politicamente e enxergarmos nossas responsabilidade sócio-afetivas.” Ela planeja lançar mais um clipe deste mesmo disco (a música escolhida ainda é segredo), mas já começa a compor novamente…

    Yma submarina

    yma2020

    Depois de lançar um dos melhores discos do ano passado, a cantora paulistana Yma começa a ensaiar seu futuro próximo e lança o primeiro single após Par de Olhos nessa sexta-feira, antecipando a balada beatlesca “No Aquário” em primeira mão aqui para o Trabalho Sujo. A faixa faz parte da coletânea Emaranhado, produzida pelo site Crush em Hi-Fi, que propôs uma espécie de amigo oculto entre cantores e compositores, deixando o acaso formar parcerias. A letra de “No Aquário”, composta pelo músico Lau, do projeto Lau e Eu, foi parar nas mãos de Yasmin Mamedio, que trouxe a letra solitária para o universo misterioso de Yma.

    “Esse single foi uma experiência mágica e inteiramente coletiva”, ela me explica por email. “Quando recebi a letra do projeto Emaranhado, me veio uma melodia de samba, me juntei com o Uiu e o Dreg e fizemos um sambão. Ficou interessante, mas tinha a sensação de que ainda poderia ser outra coisa. Não lembro se foi no mesmo dia, mas Dreg começou arranhar uma harmonia aqui, Uiu foi ajudando e colocando as notas no baixo ali, e eu falei que tinha que ter a onda a graça e malemolência de ‘Grilos’ de Erasmo Carlos. Logo fui soltando a melodia e voi là! Depois de um show que participei da banda de jazz do baterista Marquinho, fomos pro estúdio gravar. Pensa que a sessão de gravação começou 1h da madrugada e o Nando Rischbieter, o produtor, é uma pessoa super matinal. Acho que a parte graciosa e sonhadora do arranjo tem a ver com isso, ele já estava em outro plano naquela hora”, ri.

    Quando pergunto sobre o futuro de seu trabalho após o disco de estreia, ela se estende: “Acho que tem muita novidade em relação ao Par de Olhos. O disco tinha uma amarração, uma atmosfera de voz bem peculiar. E pra mim single é uma oportunidade de ser mais inconsequente, no bom sentido. Testar, entortar as coisas, ver no que dá… Mas sinto que mantém aquela energia surreal, onírica. Acho bem Yma. Vejo esse single dessa forma: uma experiência divertida, gostosa, ao mesmo tempo desafiadora – não foi fácil abrir mão dos efeitos do pedal de voz. É cedo dizer que indica um novo caminho… Não sei. Pode ser. Talvez… Quem sabe?”

    Ela no entanto não tem nada do segundo disco definido. “Tô compondo, sem pressa. Acho que o assunto segundo disco ainda vai pintar no horizonte. Quero experimentar e me aventurar nos singles enquanto isso. Mas é um dia por vez. Agora temos que ser criativos também para resolver a logística de se fazer música e ser artista nessas condições”, conta. Quando pergunto sobre o lançamento acontecer na quarentena, ela me conta que o lançamento já estava previsto para agora, mesmo antes do confinamento começar. “A pandemia virou tudo de cabeça pra baixo e pensei muito no que significa lançar alguma coisa neste cenário”, divaga. “Ouvi recentemente ótimos trabalhos que me trouxeram momentos de paz e alegria e me senti encorajada a seguir em frente. E acabou que a letra de ‘No Aquário’ parece dialogar com tudo isso do isolamento.”

    Foto: José de Holanda

    Foto: José de Holanda

    Mais que o pulmão do Metá Metá, Thiago França está intimamente ligado ao sistema circulatório da música em São Paulo, seja capitaneando sua Espetacular Charanga ou tocando com gente de todas as vertentes musicais, do improviso livre ao choro, da gafieira ao free jazz, da marchinha de carnaval ao rap, do samba rock à música de terreiro. Mestre do sopro, interliga saxes, flauta e pedais para criar climas tensos, atmosferas bucólicas, melodias familiares, ataques frontais, mas pôs-se ao desafio de torear seu próprio instrumento num disco dedicado apenas a ele, gravado todo em takes únicos e sem outros instrumentos ou efeitos de pós-produção.

    O resultado é Kd Vcs, um disco que soa ao mesmo tempo ermo e populoso, contemplativo e agressivo, abstrato e pé no chão. Embora o lançamento do disco em abril já estivesse na agenda de Thiago desde o final do ano passado, o disco afina em vários níveis com a estranha sensação que estamos passando nestes dias de isolamento social. E não é apenas o título que remete a esta sensação solitária, pela extensão de menos de meia hora das sete canções, o instrumentista nos conduz a uma paisagem alienígena para que possamos olhar para dentro e nos reconhecer, como se o Doutor Manhattan de Watchmen pudesse levar cada um de nós para Marte e poder ver o que estamos fazendo com nosso planeta – e, portanto, com nós mesmos. Dá para ouvir ecos de samba, jazz e funk na forma que o saxofonista conduz seu timbre, mas ele abandona rótulos e sensações reconhecíveis numa queda livre em que, várias vezes, perdemos a noção da gravidade. Sem noção de onde é o chão, estamos soltos no espaço profundo explorado por Sun Ra, mas sem nenhum planeta nem a nave-mãe de George Clinton no horizonte, e a flutuação torna-se voo com o norte magnético apontado para o free jazz espiritual. Inspirado no livro Cujo, de Nuno Ramos (que também é autor da imagem da capa do disco), Kd Vcs é um mergulho pra cima em uma densidade desconhecida. O disco pode ser baixado no site do Thiago e eu conversei com ele por email sobre este gesto solitário.

    Quando você percebeu que tinha de registrar este momento com seu instrumento e que teria que fazer isso sem outros músicos?
    A vontade de ter um formato solo sempre me instigou, pelo quão inusual é prum saxofone, mas não queria que fosse algo só por fazer. Por volta de 2016 eu comecei a fazer as primeiras experiências, ainda como “ato de abertura” de algum show meu com banda. No começo era mais improvisação livre e algumas músicas já do meu repertório, e de cara eu senti que o mais interessante seria compor especificamente pra esse formato, um repertório pra existir assim, que fosse só o saxofone e não ficasse faltando nada, achei um bom desafio. Eliminei também os pedais porque saquei que seria um lance óbvio demais porque eu acabaria por emular a função dos outros instrumentos criando harmonias, padrões rítmicos, etc, e fui me envolvendo cada vez mais com a idéia de estar “nu” no palco. do No final de 2018, senti que tinha chegado nas músicas com o propósito que eu queria, fiz mais alguns shows no começo do ano seguinte e em setembro de 2019 (dia 10) gravei o disco. Mas a primeira centelha de fazer um disco mesmo foi quando eu gravei um solo de tenor na trilha do “Gira”, espetáculo do Grupo Corpo que o Metá fez a trilha.

    O disco tem alguma inspiração direta, um disco em que também traga apenas um músico e seu instrumento?
    Tem um saxofonista fodão chamado Collin Stetson, que toca sax baixo (que é mais grave ainda que o barítono), e com certeza vai rolar essa associação. Mas o lance do Collin é mais “completão”, ele usa mais camadas, ele canta as notas com a garganta enquanto toca, ele microfona o pescoço, as chaves do instrumento, então você ouve vários sons, tem hora que parece que tem percussão junto. Uma das músicas do meu disco, “Tarrasque”, foi bem inspirada nesses sons do Collin, onde eu também uso esse recurso de cantar com a garganta. Mas fora isso, muita coisa me instigou durante a vida toda. Há uns vinte anos atrás eu ia muito nos shows do Nenê (baterista) e achava incrível quando ele fazia os solos, dum jeito super melódico, uns momentos grandes durante o show. O próprio Hermeto tem sempre uns momentos que fica só ele. Ou mesmo que não fosse uma música inteira só uma pessoa, mas um trecho que tá só um cara tocando, fosse o Roscoe Mitchell, Pharoah Sanders, Eric Dolphy ou o Mingus…

    Fale da influência do Nuno Ramos no disco, da capa ao livro Cujo.
    Bom, foram uns anos até resolver o repertório, e depois que as músicas estavam todas compostas, os shows já tavam rolando no formato que seria o disco, obviamente me bateu uma nóia: legal, é um disco de saxofone solo, mas porra! é um disco de saxofone solo! eu comecei a achar chato, repetitivo, porque é só o saxofone, é só aquele mesmo som. Tudo bem, tem seus momentos distintos, mas no fim das contas, é só saxofone. E eu lembrei duma passagem do livro do Nuno onde ele descreve os materiais, pedra, argila, terra, e ele diz que dentro da pedra só tem pedra, dentro da terra, por mais que ele cave, só tem terra. A princípio me pareceu monótono, mas depois eu comecei a entender de outra forma, das coisas que são rigorosamente o que são, da beleza e do poder de sustentar uma idéia como profissão de fé, o comprometimento ritualístico com a essência das coisas – a pedra é pedra até o último grão. O mar vai ser sempre o mar e vai estar onde sempre esteve, é maravilhosamente acalentadora essa idéia, essa verdade, que o mar é mar até a última gota, é um porto seguro do nosso imaginário, do nosso sagrado. Num momento onde o mundo está a mentira é uma tática de guerra aceitável (fake news), acho muito essa imagem muito forte. O sax tenor é o meu porto seguro, é o meu “voltar pra casa”. E depois desse giro enorme, fui entrando em paz com a idéia materializar o disco. O nome vem de um disco do saxofonista Peter Brotzman, que em português é: “Eu estou aqui, aonde estão vocês?” e eu realmente “estou aqui”, o disco é um apanhado de idéias de quase 30 anos de saxofone, estou nu, meio que contando aqueles pensamentos mais malucos que a gente só abre quando tá meio bêbado pra quem a gente confia muito.

    O disco está muito ligado ao conceito de respiração circular, quando você aprendeu essa técnica e como começou a usá-la?
    Em 2001 eu tava na faculdade de música da UFMG – que eu larguei no começo – e o professor de saxofone, Dilson Florêncio, é um verdadeiro monstro, seguramente o saxofonista mais técnico que eu conheço no mundo, nunca ouvi ninguém tocando com a perfeição e excelência dele. E um dos folclores que circulavam na época é que ele tocava o Moto Perpétuo, do Paganinni no sax, originalmente um concerto pra violino que não tem pausa, e o Dilson tocava com respiração circular. E tocava mesmo, eu assisti isso ao vivo, umas das coisas mais impressionantes que eu vi na vida. Então tinha esse dado aí. Ele me explicou como fazia e é uma mecânica bem simples, só leva tempo pra limpar e fazer direitinho. O lance mesmo era o que fazer com isso. O saxofone é um instrumento melódico, é como se imitasse a voz. Imagina conversar com alguém que não para de falar nem pra respirar? Fui começando aos poucos, usando em alguns choros que tinham frases muito longas, só como um auxílio. Tentei tocar alguns choros usando a respiração na música inteira, tipo o “Voo da Mosca” do Jacob do Bandolim, mas no fim das contas ficava chato, me sentia mais executando um truque de mágica do que uma música, um virtuosismo barato. Também usei muito nos arranjos do Metá também, porque eu precisava soprar forte pra equiparar o som da guitarra e do baixo e acabava faltando ar, fui usando só pra completar as idéias. Mas foram quase vinte anos até chegar nessas sete músicas do disco e usar essa técnica aonde realmente tinha um propósito, incorporando a respiração como parte das composições.

    Você antecipou o lançamento do disco por conta da pandemia? Como fará para trabalhar este disco nesta época nesta época estranha?
    Pior que não. Eu tinha na cabeça que lançaria o disco em abril mesmo, quando baixasse a poeira do carnaval – o disco tá pronto desde novembro, com capa e tudo. O que eu não sabia mesmo era como trabalhar, porque é um show de 25 minutos, eu não seguro uma noite sozinho, sempre que eu faço divido a noite com alguém, e esse formato não-ortodoxo significa procurar lugares fora do roteiro convencional de shows. Tudo bem que é um disco super introspectivo, pra ouvir sozinho em casa mesmo, mas não precisa duma quarentena dessa pra isso, né? Daí quando começou o isolamento eu até pensei em não lançar, pra não ficar parecendo oportunismo nem entrar nessa paranóia de “quarentena de alta performance” que todo mundo se cobra de produzir, fazer mil coisas. Mas depois desencanei, porque convenhamos, mercadologicamente falando nunca é um momento propício pra se lançar um disco esquisito de saxofone solo.

    thiagofranca-kdvcs

    “Aguiã, Alufã”
    “Ngoloxi”
    “Dongô”
    “Pescoço Curto”
    “Tarrasque”
    “Maercúria”
    “Dentro da Pedra”

    tanino

    Quando a YB perdeu sua clássica sede na Vila Madalena, em São Paulo, um de seus sócios, o músico, produtor e compositor Maurício Tagliari deu a sorte de encontrar uma outra casa prontinha pra receber um estúdio de gravação no bairro de Higienópolis. Depois de transferir o equipamento para o novo imóvel, era hora de testar a acústica do local e no final do ano passado, Tagliari convidou alguns amigos para sessões de improviso no novo endereço. “Na sessão número 1 eu queria ouvir o resultado dos timbres de bateria e sopro, por isso reservei uma tarde e chamei o Thomas Garres e o Guizado. Chamei mais gente, mas como era final de ano, muita gente não podia. E eu não pensava em lotar a sala, até para entender melhor a acústica. O propósito era meramente técnico, mas com esses parceiros a probabilidade de sair algo muito bom era altíssima”, conta o guitarrista, que além de Harres e Guizado, também convidou o baixista pernambucano Pedro Dantas. Gravaram duas sessões com o nome de Tanino, trabalho que vem a público na próxima sexta. Uma destas, “Romã”, você ouve em primeira mão no Trabalho Sujo.

    Não hove planejamento nem regras pré-estabelecidas. “Foi passar o som e gravar. O que acontece é que houve uma confluência enorme de referências e uma capacidade de audição de cada um que foi bem mágica”, continua Maurício. “Você percebe que não tem ego, as notas vêm e vão, os timbres dialogam. um inspira o outro. E o Thomas é o grande motor da dinâmica. Eu me concentrei em timbres, o Pedro acha as pulsações escondidas e o Guizado borda as melodias. Tudo muito intuitivo.”

    Comento que há uma tendência recente a se registrar em discos sessões de improviso, algo que, mesmo em pequena escala, tem tornado-se comum em São Paulo. “É um tipo de música para poucos. infelizmente. só tem rolado em espaços pequenos e alternativos. Fora disso não vejo muita gente aqui no Brasil apostando nisso. No Centro da Terra, no Leviatã, Estúdio Bixiga e um poucos em outros lugares, os malucos se encontram. Mas é algo restrito. Pra mim é mais um exercício estético do que uma onda. Cresci musicalmente ouvindo free jazz. mas tem um ponto: improvisação muitas vezes é um enorme prazer para quem toca mas nem sempre para quem ouve! há vários tipos de som que podem entrar nessa categoria. Sou muito influenciado por Miles Davis e Art Ensemble of Chicago. Toquei e produzi muita coisa na vida, mas só de uns tempos para cá tenho projetos de improvisação lançados. Já tinha feito isso na Universal Mauricio Orchestra e mais recentemente no projeto Dúvidas da Juliana Perdigão. Eu gosto muito do resultado, queria que essa onda chegasse em mais gente. Mas somos os mais underground dos independentes.”

    O trabalho são apenas duas músicas, “Romã”, de oito minutos, e “Cravo”, com dezesseis. “Não gastamos mais do que duas horas no estúdio, entramos para brincar. Passamos o som, gravamos a primeira, fomos ouvir e gravamos a segunda. Dali foi sair para comemorar o resultado. Inicialmente era só um teste mas gostamos tanto que decidimos lançar.” E agora fica a dúvida sobre o futuro próximo do grupo, que ainda não tocou ao vivo com público. “Um pouco antes da pandemia atacar a gente se reuniu para uma sessão de fotos de divulgação e decidiu que iria tentar uma residência semanal em algum lugar. Pelo simples prazer de tocar. Mas agora tudo parou, vamos nos contentar em ouvir o disco, por enquanto. É um som muito orgânico. Não dá vontade, ao menos para mim, de tentar algo online ou seja la o que for. tem que ser olho no olho.”

    O filho do Fela

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    Conversei com o Femi Kuti, uma das atrações do Nublu Jazz Festival deste ano, que toca neste fim de semana em São Paulo. O papo com o filho mais conhecido de Fela Kuti está na revista Trip – confere lá.

    andygill-

    Volto a colaborar com a Ilustrada da Folha de S. Paulo depois de cinco anos e publico uma entrevista que fiz em 2018 com o guitarrista do Gang of Four, Andy Gill, morto no início do mês, quando ele falou sobre a abordagem política das letras de sua banda, sobre a nova onda de extrema direita que assola o mundo (“os conservadores estavam preocupados com a ascensão do nacionalismo que poderia tomar seus votos, então resolveram que era melhor abraçar alguma destas filosofias. Não se faz esse tipo de escolha…”), sobre o estado do jornalismo atual e sobre a possibilidade de não conseguir visto para tocar nos EUA devido às letras de seu grupo – dá pra ler a entrevista toda aqui.

    xenia-franca-2020

    Bati um papo com a cantora baiana Xênia França sobre o fim do ciclo de seu disco de estreia e o começo dos trabalhos do próximo álbum, que deve sair ainda este ano, em uma matéria que fiz para a edição de fevereiro da revista impressa da UBC.

    A consciência de ser uma entidade

    A baiana Xênia França se considera uma pessoa completamente diferente de seu primeiro álbum, lançado há dois anos, e prepara-se para começar a jornada do segundo trabalho ao mesmo tempo em que lustra sua carreira internacional

    Mesmo às vésperas de mais uma viagem internacional e do início dos trabalhos em seu segundo álbum, a cantora e compositora baiana Xênia França, de 33 anos, sente-se insegura. “Eu tô começando tudo de novo, me sentindo completamente inexperiente e despreparada pra fazer esse disco, não sei se é a hora”, ela me conta às gargalhadas, que escondem um nervosismo que ela faz questão de deixar evidente. “Eu sou pisciana, sou muito ansiosa e já tô sofrendo, lógico!”

    Quem a vê falando assim pode até acreditar no que ela fala – mas basta vê-la no palco para perceber que é excesso de zelo. Arma secreta do grupo paulistano Aláfia, ela lançou sua carreira solo no final de 2017 e anunciou a saída da banda no início do ano passado, quando tomou as rédeas de sua carreira de vez e atingiu patamares invejáveis para uma artista em seu primeiro disco solo. Depois de ter sido indicada para o Grammy Latino (nas categorias Melhor Álbum Pop Contemporâneo e Melhor Canção em Língua Portuguesa) em 2018, ela dividiu o palco do Rock in Rio em 2019 com o cantor inglês Seal e foi a primeira artista brasileira a participar do canal alemão Colors, além de não parar de fazer shows.

    “Em agosto de 2018 eu dei início à minha carreira internacional, indo para os Estados Unidos, onde já me apresentei algumas vezes”, lembra, explicando que seu primeiro disco solo, batizado apenas de Xênia, ainda está no processo de lançamento no mercado exterior. “Acabei de lançar esse disco em vinil nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, então ele ainda é uma novidade por lá. Já tenho algumas prospecções pro segundo semestre de 2020 com o primeiro disco no Canadá, na Austrália e nos Estados Unidos, além de provavelmente em alguns países da Europa.”

    Ela insiste que é hora de partir para o segundo álbum, mesmo sem ter nada muito definido. “Já tô reduzindo a quantidade de shows porque preciso parar e entrar de cabeça. Eu tô há dois anos fazendo turnê com esse disco, são quase dois anos ininterruptos fazendo shows todo final de semana. Eu sou muito feliz por ter tido tanta benção com esse trabalho e tenho certeza que mesmo fazendo ele vai continuar sendo o que ele é, porque esse disco é uma potência, mas já estou me preparando pra fazer o segundo.”

    O segundo disco, por sua vez, ainda está num estado embrionário, mas ela já sabe que quer manter a dupla de produtores que reuniu para o primeiro disco: Pipo Pegoraro e Lourenço Rebetez. “Eu queria que a produção transitasse pelo âmbito da intimidade, da escuta, porque eu tava saindo de uma banda enorme, com um monte de gente, e eu queria poder sentar pra fazer meu trabalho com uma galera que já me conhecia, que já tinha me escutado desde o princípio e quando comecei a pensar nisso, cheguei neles dois. E como eu é que eu ia trabalhar com dois produtores que não se conheciam? Mas deu muito certo, alquimia pura, e hoje eles produzem outros artistas juntos, viraram super amigos.”

    Mesmo sem rumos e repertório definidos, ela sabe que quer ir além do primeiro álbum, sem apenas repeti-lo. “Já fiz muita coisa importante e tô com vontade de cantar outras coisas, de experimentar outras sonoridades e musicalidades, mas eu sofro. Tenho umas crises de ansiedade, mas tô trabalhando nisso, me cercando de amor e de carinho e das pessoas que eu gosto”, conta. “Minha dificuldade agora é reorganizar, praticamente dar um reset na minha vida pra ficar completamente à disposição desse trabalho. Como eu virei meu próprio parâmetro, meu maior desafio agora é conseguir fazer um trabalho que seja um próximo capítulo mesmo. O Pipo voltou a tocar, fez seu disco novo, o Lou lançou o projeto dele, todo mundo já mudou muito. Tenho certeza que não vai ser igual, a gente escuta uma coisa diferente e manda um pro outro. É outra atmosfera, já atualizamos nossos aplicativos.”

    Ela faz mistério sobre os rumos do próximo trabalho, embora afirme que queira trabalhar com menos músicos (foram quase 30 no disco de estreia) e ter flexibilidade para gravar em outros estúdios, fora de São Paulo. “O projeto do disco se chama ‘a natureza das coisas’ que é um conceito bem abrangente mas que é muito pautado no lado feminino da natureza, pois sem o feminino nada se cria, nada acontece sem a energia feminina. Tô vivendo uma atmosfera que é minha relação com a natureza, de perceber a natureza como parte de mim e que eu também faço parte dela, deixar a natureza se manifestar.”

    Insisto sobre os temas que ela quer abordar no próximo álbum, uma vez que o primeiro era muito calcado no tema da diáspora africana. “Fico escrevendo palavras soltas baseadas no que eu gostaria de dizer no próximo disco. Me transformei muito, eu tô muito ligada em existencialismo, em astrologia e espiritualidade. De me perceber como mais do que uma entertainer ou uma artista que está em cima do palco, mas como uma pessoa que tá trocando experiências com pessoas que saem de suas casas pra ver a gente tocar. Alguns momentos do show são muito focados nessa troca, de como a gente se percebe como entidades espirituais, como pessoas que estão no mundo para fazer a diferença, para melhorar como pessoa, como espírito.”

    “E ao longo desses dois anos eu comecei a estudar mais sobre autoentendimento, autorresponsabilidade, lendo livros, vendo filmes, fazendo terapias, pra poder me distituir de certos traumas que ainda estão na minha vida – e que estão muito aparentes no meu primeiro disco”, ela prossegue, convicta. “Quero passar de fase, mas para isso preciso curar, olhar pra isso, tratar com compaixão, carinho, amor esses traumas. Traumas da vida, a respeito da minha ancestralidade preta, da minha presença como mulher no mundo, da minha vida infantil, coisas emocionais que uma boa pisciana consegue trabalhar direitinho, se jogar bem no buraco. Emocionalmente eu sempre fui uma pessoa muito frágil e o meu primeiro disco me deu um certo lastro, eu pude abordar coisas no primeiro disco que me fizeram colocar alguns monstrinhos na mesa pra trocar uma ideia com eles. E ao longo desse período na estrada, pude ir trabalhando isso no palco, com as pessoas, com o público, com a minha equipe, com meus músicos. Tenho certeza que não sou aquela mesma pessoa do primeiro disco, já passei por um portal e estou me preparando pra passar por outro. Ainda estou elocubrando muitas coisas, mas já tive boas conversas com pessoas próximas a mim e sinto que é uma mudança de fase.”

    Ela cita a força de músicas como “Pra Que Me Chamas?” e “Reach the Stars” como fundamentais nessa autodescoberta. “’Pra Que Me Chamas?”’ que é a primeira música do disco é um monstro, é uma música difícil, letra difícil, e eu chego em qualquer lugar e as pessoas cantam de cabo a rabo. Cantei no carnaval da Bahia em 2018 e as pessoas cantavam essa música no carnaval, eu tava em choque. Já ‘Reach the Stars’ quase não entrou por ser em inglês, mas a minha resposta é que eu gosto muito dela e ela faz sentido pra mim. E no show, ela é o meu portal espiritual: todo mundo fecha os olhos e se conectam com quem elas são, eu abro os olhos e elas estão chorando, recebo relatos nas minhas redes sociais sobre o momento dessa música. Então, de fato, o repertório do disco e a força do show tomaram outra dimensão, Esse é o meu objetivo, porque eu tô aprendendo a ser eu através do meu trabalho, o meu processo de autoconhecimento passa pelo meu trabalho, ele funciona como uma ferramenta pra que eu cresça e me torne uma pessoa melhor. Talvez eu já tivesse essa consciência, mas não tinha a dimensão no que ele poderia se transformar.”

    Ela voltou de sua turnê pelos EUA no início do ano e apresentou-se no Sesc Pinheiros, em São Paulo, e numa festa do músico Max Viana, filho de Djavan (“um DNA que eu amo muito”, ri, sem saber se o pai de Max, um de seus ídolos máximos, já ouviu seu disco), no Rio de Janeiro e começa a trabalhar no novo disco ainda em fevereiro, quando vê também o lançamento do disco do projeto Acorda Amor, idealizado pela jornalista Roberta Martinelli e pelo produtor e baterista do grupo Bixiga 70 Décio 7, ao lado das cantoras Maria Gadu, Letrux, Luedji Luna e Liniker. E isso apenas no início do ano. 2020 promete!

    frankjorge-2020

    Um dos pais do rock gaúcho como o conhecemos hoje, o mestre Frank Jorge está prestes a gravar um novo disco produzido por ninguém menos que Kassin: “Quero revisitar brega brasileiro 1970 com referências do rock mundial da mesma época, CBGB’s… Se conseguiremos fazer? Boa questão”, ele me antecipa. Enquanto o disco toma forma antes das gravações começarem, ele compartilha uma sessão que fez ao vivo no início do ano, contando com seus dois filhos como músicos de sua banda: Érico, de 20 anos, na guitarra e Glória, 15, na bateria. Foi a segunda vez que tocaram juntos – a primeira foi em dezembro do ano passado (na foto acima). Na sessão abaixo, gravada em janeiro deste ano, além de Frank, Érico e Glória, está o baixista Regis Sam.

    Pai coruja, Frank reforça que os dois tocam juntos na banda Flanelas Desbotadas (que, olha só, tem futuro) e “a Glória toca na Orquestra de Bateria e Percussão Batucas, organizada pela Biba Meira, há quatro anos”, comenta orgulhoso da filha tocando no projeto da primeira baterista do Defalla.

    horoya_2020

    Há quase uma década numa missão de aproximar “antigas, novas e possíveis tradições” da cultura africana para a cultura brasileira, o grupo Höröyá, idealizado pelo percussionista André Piruka, leva para o palco da choperia do Sesc Pompeia nesta quinta-feira mais uma celebração reunindo músicos e dançarinos em um espetáculo inédito, chamado de Höröyá Pan África Brasil, que reúne músicos e dançarinos da Guiné-Conacri (como o Mamady Keita, Djenab Soumah e Djanko Camara), a dançarina baiana Rosangela Silvestre e os senegaleses Aziz Mbay e Moustapha Dieng, celebrando a cultura do oeste africano (mais informações aqui). Aproveitei a deixa para bater um papo com Piruka sobre a renascença da cultura do continente negro em uma época tão bizarra quanto a que estamos vivendo politicamente.