Um papo com Edgard Scandurra

O Sesc Catanduva me chamou para entrevistar o grande Edgard Scandurra dentro de uma programação que eles fizeram para honmenagear guitarristas locais. O papo aconteceu nesta quarta-feira e falamos tanto da formação de Edgard como instrumentista, os primeiros anos do Ira! e como ele foi expandindo seu repertório para além do rock, fazendo discos solo e tocando com artistas iniciantes e consagrados, além de contar as novidades que inventou durante a quarentena, como seu programa de rádio Scandurrices, seu disco solo que foi lançado em cassete e as novidades que já começou a pensar para 2021.

Assista aqui.  

Bom Saber #027: Edgard Scandurra

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Mais que um mestre em seu instrumento e um dos principais nomes da música de sua geração, Edgard Scandurra sempre esteve inquieto em busca do novo. Mesmo quando a única coisa que fazia era o Ira! ele já experimentava fronteiras de sua expressão artística, questionando inclusive o rock que o trouxe para os holofotes da fama. Ele já passou por diferentes projetos e formações musicais, sempre se desafiando para além do que poderia lhe acomodar, sempre em busca de novos nomes com quem pudesse colaborar. No período mais longo de sua vida profissional longe dos palcos, ele consegue dar uma sobrevida à sua carreira ao vivo em lives esporádicas, mas também conseguiu tempo para inventar um programa de rádio e gravar um disco totalmente em casa, tocando mais violão e teclado que guitarra. Convidado desta semana do Bom Saber, ele passa por diferentes épocas de sua vida, sempre olhando para frente.

Andy Gill, por Edgard Scandurra

Foto: @edgardscan

Foto: @edgardscan

Quando soube da morte de Andy Gill, Edgard Scandurra não escondeu a influência guitarrista do Gang of Four em sua forma de tocar seu instrumento e despediu-se do inglês chamando-o de “irmão mais velho do pós-punk”. Aproveitei a deixa e pedi para ele escrever sobre a importância de Gill para ele mesmo e para a cena paulistana dos anos 80 e ele lembrou que seu nome foi inclusive sonhado para produzir um disco do Ira!. Imagina…

Até o fim do anos 80 existia um espaço-tempo cultural de cinco anos entre os acontecimentos artísticos do primeiro mundo e o que acontecia no Brasil. Foi nesse gap que conheci o som da banda Gang of Four, na casa de um amigo de um amigo, repleto de discos de Frank Zappa e Miles Davis. Há sons que você precisa vivenciar pra compreender.

E essa primeira audição foi uma das sensações musicais mais loucas que tive. Eu era um jovem guitarrista, com 19 pra 20 anos, e a guitarra errante e a pegada anti-heróica e absolutamente imprevisível de Andy Gill mudou o que já vinha se transformando em mim desde o punk, no que dizia respeito ao virtuosismo guitarristico. A escola que vinha do blues, nomes como Jimi Hendrix, Jimmy Page, Jeff Beck e tantos outros, era substituída por notas trepidantes, harmônicos dissonantes, algo parecido com o partir de uma guitarra ao chão. O ruído do captador, o riscar das cordas em contato com o pedestal de microfone – uma ruptura que me pegou em cheio.

Desde então, eu – que nunca escondi o nome de meus ídolos – abracei a causa sonora, política e estética da turma dos quatro, que tirou seu nome da Camarilha dos Quatro que foi responsável pela revolução cultural comunista na China, entre 66 a 76.

O primeiro álbum, Entertainment!, nãoacertou em cheio não só a mim! Foi audível a influência da banda e de seu guitarrista na cena new wave paulistana e brasileira naquele início dos anos 80. Inclusive no teor político: da anarquia do movimento punk a uma concepção mais crítica e marxista, o pensamento daquele pós-punk parecia mais refinado, uma sútil troca de Ramones por Erik Satie, da guitarra rock and roll, por um minimalismo cerebral e ao mesmo tempo visceral representado pelo Gang of Four e seu genial guitarrista. Sua guitarra influenciou Paul Weller a partir do disco Sound Affects, de 1980.

Tive o prazer em assisti-lo por três vezes, em distintas formações nos shows do Gang of Four no Brasil e na última vez, no Sesc Pompeia, tive uma triste sensação de que assistia ao show de Andy Gill e não mais à banda (Andy era o único remanescente da fundação original) – e toda aquela cena revolucionária não mais se repetiria. Agora com morte recente, pude me aprofundar em seus discos solo e nos discos que produziu, como discos dos Stranglers (Written in Red, de 1997), do Killing Joke e o primeiro dos Red Hot Chili Peppers. E pensar que o Thomas (Pappon, do Fellini) chegou a sugerir que ele produzisse um disco do Ira!…

Na minha opinião, o segredo maior e o grande desafio mod é superar o original e Andy conseguia superar a si mesmo. Descanse em paz, querido irmão mais velho da cena pós-punk de todo o mundo.

Smack no Centro Cultural São Paulo

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A lendária banda Smack, fundada do falecido guitarrista Pamps ressurge no palco da Sala Adoniran Barbosa do Centro Cultural São Paulo nesta quinta-feira, com a formação original quase completa, com Edgard Scandurra (do Ira!) na guitarra, Sandra Coutinho (das Mercenárias) no baixo e Thomas Pappon (do Fellini) na bateria, com Fábio Golfetti (do Violeta de Outono) como convidado especial. O show começa às 21h (mais informações aqui).

Edgard Scandurra apresenta Amigos Invisíveis no CCSP

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O guitarrista do Ira!, Edgard Scandurra, recria seu primeiro disco solo, Amigos Invisíveis, de 1989, neste domingo, no Centro Cultural São Paulo a partir das 18h (mais informações aqui).

Edgard Scandurra: Operário do Rock

Um dos grandes nomes da música popular contemporânea, o músico e compositor Edgard Scandurra é mais conhecido como a força cerebral e emotiva do Ira!, mas tem uma carreira solo paralela que ergue-se tão importante, embora não tão popular, quanto o trabalho de sua banda original. Um dos principais nomes da música paulistana desde os anos 80, Edgard Scandurra trilhou uma carreira solo ímpar, com projetos paralelos, tributos e discos solo que flertam com o rock clássico, o punk, a música eletrônica, o pós-punk, o noise e a canção francesa. Convidei-o para dissecar sua musicalidade solo na programação do Segundamente do mês de maio e ele dividiu suas quatro segundas em quatro shows diferentes: na primeira segunda, dia 7, ele recria seu primeiro disco solo, Amigos Invisíveis, de 1989; na segunda, dia 14, ele volta para o início dos anos 80, quando fez parte das bandas Mercenárias e Smack; na terceira segunda-feira, dia 21, ele visita suas canções de formação apenas no piano e guitarra (indo de Aphrodite’s Child a Eric Carmen) no espetáculo Lembranças Afetivas; e ele finalmente encerra seu mês no Centro da Terra mostrando sua faceta eletrônica ao tocar com os filhos no projeto Benzina aka Scandurra. Conversei com ele sobre estas quatro apresentações, que ele batizou de Operário do Rock (mais informações aqui).

Quando foi que você se viu como um operário do rock?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-quando-foi-que-voce-se-viu-como-um-operario-do-rock

Como Operário do Rock virou o o mote da temporada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-como-operario-do-rock-virou-o-o-mote-da-temporada

Fale sobre a primeira noite, Amigos Invisíveis.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-fale-sobre-a-primeira-noite-amigos-invisiveis

A segunda noite é Smack e Mercenárias.
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-a-segunda-noite-e-smack-e-mercenarias

E a terceira noite? É a primeira vez que você usa esse formato?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-e-a-terceira-noite-e-a-primeira-vez-que-voce-usa-esse-formato

A última noite é do Benzina aka Scandurra. Como ele funcionará ao vivo?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-a-ultima-noite-e-do-benzina-aka-scandurra-como-sera-ao-vivo

Quais projetos ficaram de fora dessa temporada?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-quais-projetos-ficaram-de-fora-dessa-temporada

Você acredita que a temporada funcionará como uma terapia?
https://soundcloud.com/trabalhosujo/edgard-scandurra-operario-do-rock-voce-acredita-que-a-temporada-funcionara-como-uma-terapia

Karina Buhr no Altas Horas


Foto: dudavieira

Pressão! Que banda!

Edgard Scandurra + Bárbara Eugênia

O melhor é como essa música parece aquele beeeem dos anos 80, sem ironia, tipo Lulu Santos ou Marina…

Gainsbourgaço: Um réquiem para um escroto

Les Provocateurs no Centro da Cultura Judaica
18 de junho de 2011


Les Provocateurs – “New York U.S.A.” / Les Provocateurs + Bárbara Eugênia – “Roller Girl”


Les Provocateurs + Andrea Merkel – “L’Helicoptère”

Que beleza essa banda que o Scandurra reuniu para celebrar Serge Gainsbourg. Um dos artistas de seu país mais importantes do século 20, Serge vem sendo reavaliado constantemente desde sua morte, há vinte anos, quando deixou de ser o hitmaker provocador de plantão, uma mistura de Sullivan & Massadas com Carlos Imperial com uma queda pesada por gatas e meninas novinhas, que usava a escrotice de sua obra como medida para sua reputação. Em vida, passou por altos e baixos, porres e pés-na-bunda, hits nacionais, discos conceituais e vexames autoconscientes em programas de TV, sempre saindo-se como um fanfarrão, um canalha, um vilão, um palhaço. Pop por todos os poros, abandonou o jazz quando viu que conversava apenas com uma panelinha de intelectuais esnobes e abraçou a música pop com a devoção de um pai, buscando maneiras de traduzir a tensão entre o amor e o sexo da forma mais escancarada possível para toda uma geração de novos ouvintes.

Como autor, Serge foi muito além da música. Músico, cantor e compositor, extrapolou tais funções para assumir-se um artista da própria personalidade – profissão: bon vivant -, e criou uma casca dura para encarar o resto do mundo. Foi assim que aproximou a música francesa da música africana, que diluiu a melodia da chanson para o pop mais trivial possível (o yé-yé, como era conhecido no país), assumiu a dance music pós-discoteca como campo autoral e flertou com o reggae e o hip hop – inventando, basicamente, a música pop francesa atual, em diferentes momentos de sua carreira. Foi assim também que ladeou-se de algumas das deusas mais extraordinárias de seu tempo, extraindo-lhes valor musical como se isso fosse apenas um detalhe – um Andy Warhol parisiense, afinal. Foi assim que sussurrou um orgasmo feminino nas rádios do mundo todo e conseguiu ser autor da música francesa mais conhecida do século 20. Foi assim que dirigiu filmes, comerciais de TV, atuou, deu entrevistas, queimou dinheiro e disse, na cara dela, que queria comer Whitney Houston, e escreveu um livro sobre um sujeito que descobre-se um compositor de sinfonias de peido. E isso fumando sem parar.

“Sujeitinho desagradável”, escarneceria-lhe o século 21. Seculozinho de merda esse que estamos vivendo, não? Isso há de mudar. ZOL.


Les Provocateurs + Crioulo Chris- “Le Poinçonneur des Lilas”


Les Provocateurs + Juliana R.- “Les Sucettes” / Les Provocateurs + Alex Antunes – “Requiem pour un Con”

Mas felizmente há quem carregue sua chama para estes tempos obscuros de totalitarismo politicamente correto e de reaças disfarçados de politicamente incorretos – e um de seus fiéis súditos é o guitarrista Edgard Scandurra, que, seduzido pela cultura francesa, montou uma banda para tocar em seu bistrô (ou teria sido o contrário?) e chamou alguns bambas e chapas pra incrementar o tributo. Batizada de Les Provocateurs, a banda se reuniria mais uma vez para um grande espetáculo, uma espécie de versão Mr. Hyde para o comportado e solene tributo que a Orquestra Imperial fez ao compositor em setembro de 2009, no Sesc Pinheiros.


Les Provocateurs + Blubell – “Le canari sur le Balcon” / “Contact”


Les Provocateurs + Crioulo Chris – “Aux Armes et Cætera”

Pra começar, o fato de ser orquestrado por um guitarrista de banda de rock transforma o Provocateurs em um ensemble mais agressivo e intenso que a exibição de gala regida pelo maestro Jean-Claude Vannier, que dirigiu a Orquestra no show de dois anos atrás. Era inevitável que, sempre que a música permitia, Scandurra deslizasse em direção ao rock psicodélico, a seus clássicos solos que fundem Hendrix, Townshend, Jeff Beck e acordes de soul music, pesado e contido, músico único na paisagem nacional. Isso tornava a entrada dos crooners mais natural, era mais show do que apresentação, mesmo que o público estivesse confortavelmente sentado no belo e amplo teatro do Centro de Cultura Judaica, ali do lado do metrô Sumaré.


Les Provocateurs + Andrea Merkel + Crioulo Chris + Juliana R. -“Ballade de Melody Nelson” / “Valse de Melody” / “Ah! Melody” / “L’Hôtel Particulier”


Les Provocateurs + Fausto Fawcett- “Love on the Beat” / “No Comment”

(A descoberta desse lugar merece um parêntese. No lado menos badalado da Oscar Freire, o Centro fica escondido do lado da estação do metrô e é um pequeno oásis encravado bem na pontinha do morro que começa na Doutor Arnaldo, o mesmo da Paulista. Com um teatro confortável e aconchegante, ele é uma opção elegante e aprazível a ser desbravada pela vida cultural da cidade – e é do lado do metrô!)


Les Provocateurs + Fausto Fawcett- – “Sea, Sex & Sun”

A noite começou com um pequeno curta sobre Gainsbourg, em que ele falava sobre a diferença entre a musica que fazia na época e que a fazia antes de assumir o pop (“dinheiro”, respondia). Depois veio Xico Sá e, como mestre de cerimônias, apresentou-nos à banda depois de ler um longo poema escrito na noite anterior, inspirado em Gainsbourg. Mais longo do que precisava, mas eis o homem, Xico Sá, quem sou eu para censurá-lo (embora haters gonna hate). O trio Suite, que assumiu a apresentação logo em seguida, passeou por um repertório francês pré-Gainsbourg, mas não houve contextualização para sua presença, descrita apenas no programa que era distribuído à entrada. Um bom show, seguido, aí sim, dos Provocateurs de Scandurra.


Les Provocateurs + Rodrigo Carneiro – “Les Amours Perdues”


Les Provocateurs + Crioulo Chris + Bárbara Eugênia – “Bonnie and Clyde”

Além de Scandurra, que ainda canta algumas músicas, a banda é formada por Claudio Fontes na bateria, Henrique Alves no baixo e Astronauta Pinguim nos teclados, além de diversos vocalistas: entre as meninas, as queridas Bárbara Eugênia e Juliana R. formam o trio ao lado de Andrea Merkel, mulher de Scandurra, se não me engano, e revezam-se no papel de musa de Serge: Juliana faz as vezes de France Galle (e de Charlotte Gainsbourg, em “Lemon Incest”), quando Scandurra explora bem sua voz pueril; Bárbara assume vocais que foram de Bardot ou Birkin, de sensualidade conversada, enquanto Andrea faz par, literalmente, com Scandurra por quase todo o show – valsa com o guitarrista no trecho do show dedicado a Melody Nelson e o beija ao final de “Je T’Aime…”.


Les Provocateurs + Crioulo Chris + Andrea Merkel – “69 Année Érotique”

Na ala masculina, Alex Antunes e Rodrigo Carneiro não convenceram ao cantar suas versões abrasileiradas para os hits que, até então, vinham apenas em francês. Conheço o trabalho de ambos para saber que eles se sairiam melhor do que se saíram no sábado. Talvez seja o ambiente teatral que os tenha deixado acanhados, distantes do contato quase íntimo que as vocalistas conseguiam com o público. Em contrapartida, outro vocalista, menos ilustre, roubou a cena. Crioulo Chris (creditado na programação como “francês legítimo”) não apenas segurou com toda a compostura necessária a obra de Gainsbourg como revelou-se um crooner de primeira, seu timbre grave e didático contrapondo-se à sua presença quase discreta, não fossem os dreadlocks (bom) e os solos de air guitar quando Scandurra começava a solar (péssimo). Uma senhora surpresa.


Les Provocateurs + Juliana R.- “Lemon Incest”

O show de sábado foi o primeiro de duas noites (“um Gainsbourgaço”, como definiria mais tarde Fausto Fawcett), com convidados diferentes. No domingo, viriam Thiago Pethit e Wanderléa (alguém filmou?). No sábado, os dois convidados foram Blubell e Fausto Fawcett. Blubell roubou a cena: começou cândida e doce para depois tirar o curto vestido branco de boneca e sair com um collant prateado para cantar a sci-fi “Contact”, hit de Brigitte. Fausto também não fez feio e suas versões em português para os versos de Gainsbourg saíam mais naturalmente do que os cantado por Alex e Carneiro. Mas Fawcett é escolado em Serge, talvez seja o artista brasileiro que mais deve ao mestre francês, por isso sua presença não era apenas uma boa pedida como funcionou perfeitamente, quando Fausto assumiu três músicas menos festejadas de seu ídolo.


Les Provocateurs + Andrea Merkel- “Je T’Aime… Moi Non Plus”

Eis outra característica desse show: a busca por um Serge menos trivial, menos histórico. É inevitável recorrer a alguns hits, mas o repertório foi atrás de músicas menos aclamadas em busca de pérolas escondidas da carreira do sujeito – o que não é pouco. Ao final, a apresentação não apenas fez jus à memória de Gainsbourg como funcionou como mais um tijolo na construção de sua reputação póstuma, uma obra em constante crescimento. Genial.

Alex Antunes x Serge Gainsbourg

Com a banda de versões do bardo francês liderada pelo Scandurra, o Les Provocateurs.

Alex: gênio da raça.