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E minha coluna ontem no 2 foi sobre a nova versão de Guerra nas Estrelas e a vinda do Hercules & Love Affair pra São Paulo.

Darth Vader diz “nãããããoooo!”
O problema da obra aberta

Está sendo lançado no Brasil e no resto do mundo mais uma edição da série Guerra nas Estrelas – desta vez, no formato Blu-ray. E para não fugir a regra, lá vem George Lucas de novo fazer mais reparos em sua obra mais popular. Desde que surgiu a possibilidade de relançar o filme em diferentes formatos (primeiro no VHS, depois no DVD e assim por diante), o criador da saga de Darth Vader sempre acrescenta cenas, efeitos e personagens que não existiam nos filmes originais – quase sempre enfurecendo seus próprios fãs.

Na atual edição, Darth Vader fala um “nããããooooo!” antes de atacar o Imperador, que estava matando seu filho, Luke Skywalker (mostrando que o lord do mal também tem coração). Os ursinhos Ewoks agora piscam os olhos e Obi-Wan Kenobi faz um som bizarro para assustar alguns alienígenas (na versão original, ele apenas gritava). Não foram as piores mudanças feitas na saga, mas seguem o padrão de ruindade das anteriores.

Fica a dúvida: o autor pode mexer numa obra depois de finalizada? Qual deve ser considerada a versão “correta”? Quem determina isso, o autor, a crítica, o público? Mais dilemas criativos para a nossa rotina digital, que torna a obra aberta uma regra, não uma exceção.

Hercules & Love Affair em Sâo Paulo

Confirmado para tocar na última noite do Rock in Rio 2011 (que começa na próxima sexta-feira, 23), o grupo nova-iorquino Hercules & Love Affair confirmou mais uma apresentação no Brasil, tocando em São Paulo no dia 1º de outubro, na casa noturna Hot Hot. Liderado pelo produtor Andy Butler, que também discotecará na mesma noite, o grupo é um dos milhares de exemplos da transformação que a disco music impôs à música pop. Se antes dos anos 70 optar por uma carreira musical significava ter algum domínio técnico, a disco music permitiu que não-músicos entrassem em cena e mudassem por completo a paisagem artística do século atual. O grupo entrou para o radar pop mundial com o hit “Blind” e lançou, no início do ano, seu segundo disco, Blue Songs, mas em sua passagem pelo País vem sem o vocalista Anthony. Os ingressos começam a ser vendidos na segunda, às 12h, através do site Ingresso Rápido.

Friso aqui a boa leitura que demos na capa do Link de hoje. Tom Rachman lançou o livro The Imperfectionists no ano passado e colheu uma série formidável de elogios. Enquanto o livro não sai no país, tenha uma idéia do nível do cara no texto que publicamos:

Toda grande mudança social é correspondida por um efeito contrário. A globalização levou aos embates mais violentos da última década, entre os que prosperavam dentro deste sistema e aqueles que o consideravam desalmado. Antes disso, a Revolução Industrial levou ao surgimento do romantismo, cujos adeptos criticavam a urbanização e a frieza do comércio moderno, ansiando por uma alternativa idílica às fábricas e às novas tecnologias do século 19.

A próxima década testemunhará rejeição semelhante, com a ascensão dos românticos offline. Esses saudosistas do mundo desconectado criticarão aquilo que consideram ser a degradação da consciência humana: a capacidade cada vez menor de prestar atenção, a dificuldade de concentração, o zumbido da excitação digital invadindo a vigília.

Quando chegarmos a 2021, haverá governantes, pais e concidadãos insistindo para que sejam tomadas medidas contra os perigos enxergados por eles nos computadores – que, construídos para nos ajudar e nos divertir, acabaram corrompendo a programação do cérebro humano.

Esses saudosistas, ou offliners, defenderão que nossa resposta inicial aos milagres tecnológicos do início do século 21 terá sido ingênua – como a de crianças que descobrem uma máquina mágica de balas e jujubas e se recusam a admitir que empanturrar-se constantemente tem consequências.

Quando o assunto é comida, o exagero leva ao sobrepeso. No caso da tecnologia, dirão os offliners, leva a cérebros flácidos. Eles destacarão que os seres humanos de antes faziam mais do que simplesmente apertar botões à espera de recompensas – sua consciência era exigida, e não apenas satisfeita. Eles tinham memórias internas. Eram capazes de se concentrar numa única tarefa, em vez alternar aos trancos e barrancos entre seis atividades simultâneas. Eram também mais calmos, levando uma existência livre das constantes injeções de adrenalina da excitação digital.

A íntegra do texto tá aqui.

OccupyWallStreet

O título do post é a tag-palavra-de-ordem:

Primeiro foi a primavera árabe, depois os protestos na Espanha, o Churrascão da Gente Diferenciada, a Marcha Pela Legalização da Maconha, os protestos em Londres e agora uma pequena multidão toma conta de Wall Street.

There’s something happening here…”

Rapaz, esse Lunatic Toons é puro surrealismo para as massas!

Boa leitura esse artigo Postmodernism: from the cutting edge to the museum, do escritor inglês Hari Kunzru para o Guardian. Deixo esse clipe do Magic Machines como trilha (outro clipe inspirado em gifs animados – depois do VHS or Beta e do “Don’t Stop” do Foster the People feito por um fã):

Esta é a essência do pós-modernismo: a ideia de que não há essência, de que estamos nos movendo em um mundo de signos e maravilhas, onde tudo já foi feito antes e está ao redor como ruínas culturais, esperando para ser reutilizado, recombinado de novas e incomuns formas. Nada é direto, nada é novo. Tudo é já mediado. O real, seja lá o que for, não essa disponível. É um mundo estimulante, mas também estranho. Você vê sua bela casa e sua linda esposa e se pergunta, como o narrador da canção do Talking Heads: “Bem, como é que eu cheguei aqui?” Depois disto, é um passo curto decidir que esta não é sua bela casa ou sua linda esposa afinal. O mundo dos signos é rápido, líquido, delirante, disponível. Pessoas espertas o abordam com ceticismo. Sinceridade já era. Ironia é o que é. Estilo também. Se o modernismo tinha a ver com substância, com design sério resolvendo problemas sérios, o pós-modernismo era todo hábito, insolência e postura.

(…)

Para os designers, o pós-modernismo significava fazer coisas materiais que davam a sensação de signos, elas mesmas. Os cômicos italianos do grupo Memphis definiu a estética do fim dos 70 e do início dos 80 com objetos domésticos que pareciam materializações de desenhos animados, formas simples absurdamente justapostas, apresentadas em cores brilhantes e artificiais. Peter Shire, que morava em Los Angeles, criou uma mobília com cores de doces que parecia sempre à beira de retirar-se à bidimensionalidade. Sua cadeira Bel Air, de 1982, é o próprio avatar da ausência de peso pós-moderna, um objeto que poderia existir em qualquer escala, em casa do lado da piscina, em um aquário, no fundo de um coquetel. Mas o pós-modernismo, proteano, sempre difícil de apreender, não tinha a ver só com um futuro cartunesco. O gosto pelo pastiche histórico, por cozinhas campestres e pelo brega neo-georgiano, também era parte da mesma tendência. Laura Ashley, o Mercador de Marfim e o passado falso de Poundbury são (saiba o Príncipe Charles ou não) tão pós-modernos, a seu modo, quanto os designs fashion do Rei de Kawabo ou o massacre gráfico do prédio do Team Disney de Arata Isozaki.

Se o pós-modernismo podia ser divertido e brilhante, também era perturbador. Em um mundo sem fricção de signos, o que acontecia com os valores? Em nenhum outro lugar essa questão teve mais força do que nas campanhas publicitárias de Oliviero Toscani para a Benetton, na qual imagens propositadamente conflitivas de pacientes com AIDS e presos condenados à morte eram usados para vender malhas com tons pasteis. O cinismo do trabalho de Toscani parecia sugerir que vivíamos agora no mundo corporativo de Videodrome, filme de terror de 1983, de David Cronenberg, sobre um produtor franzino que descobre um canal a cabo anônimo que transmite violência sexual extrema. A marcha irrefreável de dinheiro pela paisagem cultural dos anos 1980, com figuras como Jena-Michel Basquiat e keith Haring descrevendo arcos breves e trágicos, parecia a muitos uma degradação fundamental da ideia de arte. Para outros, era apenas diversão.

Apropriadamente, para um momento cultural em que todos pareciam interpretar a si mesmos, performers pós-modernos como Grace Jones, Leigh Bowery e Klaus Nomi desenvolveram um estilo de auo-apresentação que, pela primeira vez, flutuava livre das limitações humanas. Na MTV (que foi ao ar em 1981) e nas páginas das revistas projetadas com os novos Apple Macs (à venda em 1984), eles pareciam ao mesmo tempo mais e menos humanos, como os replicantes do Blade Runner de Ridley Scott (1982). corpos pós-modernos com frequência sugeriam maquinários, como no totalitarismo cara-de-pau das bandas Krafwerk e Devo. Os atos mais humanos, como dançar e cantar, infectaram-se com algo robótico e assutador: a dança seca e o terno executivo gigante de David Byrne, a voz sintetizada de Laurie Anderson cantando canções de ninar sobre o Super-Homem e a ciência, a falência do gênero em Boy George, a sensualidade loira hiper-disciplinada de Madonna, que parecia mais próxima das máquinas humanas interpretadas por Arnold Schwarzenegger do que das pin-ups da geração anterior. As fotos de Grace Jones (pós-produzidas e manipuladas por Jean-Paul Goude), seus membros alongados, sua pele oleada sugerindo cromo e tinta em spray, estão entre os documentos mais poderosos do período. Jones estava apontando o caminho para algo ao mesmo tempo problemático e excitante, algo que, à medida que os 80 davam lugar aos 90, tornou-se codificado como o “pós-humano”.

(…)

Para muitos, o 11 de setembro marcou a morte do pós-modernismo como corrente intelectual. Naquela manhã, tornou-se claro que a “hostilidade às grande narrativas”, como Jean-François Lyotard definiu, era uma busca minoritária, um cubo mágico intelectual para uma diminuta elite metropolitana. Parecia que a maior parte do mundo ainda tinha uso para Deus, verdade e a lei, termos que estavam usando sem aspas. Graydon Carter, editor da Vanity Fair, foi amplamente ridicularizado por declarar que os ataques sinalizavam “o fim da idade da ironia”, mas seu uso do palavrório pós-moderno provou ser presciente. Se a ironia não desapareceu (embora durante o literalismo e a falsa sinceridade dos anos da guerra Bush-Blair ela tenha parecido uma mercadoria valiosa), o pós-modernismo em si pareceu de repente cansado e surrado.

Use oNgram Viewer do Google para ver a incidência da palavra “pós-modernismo” nos livros desde 1975 e encontrará um aumento agudo, com um pico por volta de 1997, e então um declínio igualmente agudo. Plote-o contra o uso da palavra “internet” e a comparação é impressionante. Quase não usada antes da metade dos anos 80, “internet” ultrapassa “pós-modernismo” em 2000, e continua a subir. Todos os avant-gardes estão no negócio do futurismo. Fazem uma tentativa de habitar o espaço que predizem, e ao fazê-lo trazem-no à luz. O pós-modernismo foi, crucialmente, um fenômeno pré-digital. Em retrospecto, todas as coisas que pareciam tão estimulantes aos seus defensores — o vertiginoso excesso de informação, o achatamento das velhas hierarquias, a mistura de signos com o corpo — tornaram-se reais através da internet. É como se a cultura estivesse sonhando com a rede e, quando ela chegou, não tínhamos mais necessidade nenhuma desses sonhos, ou melhor, eles se tornaram mundanos, parte de nossa vida diária. Vivemos o fim do pós-modernismo e o amanhecer da pós-modernidade.

Se alguém se dispor a traduzir, eu republico com os créditos.O Daniel Soares Duarte traduziu e me enviou o trecho acima, já em português (muito o agradeço). E vocês: discordam? Concordam? Foda-se? Dizaê.

4:20

Começou com uma ingênua (cândida a ponto de parecer ensaiada) foto de uma menina usando o celular e o espelho pra ver se sua bunda estava em cima.

Mas virou viral:

Scarlettjohanssoning é uma tag do tumblr Tush – dedicado a fotos de bundas (eu te amo, internet) – e os caras seguem recebendo contribuições, manda lá a sua!

Mais uma razão para que 2011 seja considerado “o” ano dos hackers.

Bati um papo rápido com o Reed Hastings, fundador e CEO do Netflix, que estreou semana passada no Brasil no especial sobre TV e internet que fizemos no Link essa semana.

TV social começa antes no Brasil
Reed Hastings, co-fundador e CEO do Netflix

A TV é a última fronteira das mídias digitais?
Não acho que seja a última, mas entendo sua pergunta. Acho que a TV via internet deve revolucionar a TV tradicional como o celular fez com o telefone, o MP3 fez com o disco, etc. pois as pessoas querem mais opções. Mas estamos bem no começo disso. A TV tradicional ainda será forte por muitos anos. Pelo que vemos nos EUA, isso deve demorar. Mesmo com o crescimento da internet, acredito que um tipo específico de programação – como competições esportivas de alcance nacional ao vivo, por exemplo – ainda manterão vivo o interesse pela TV tradicional.

Mas a transmissão de eventos ao vivo – não apenas esportes, mas também a cobertura jornalística, por exemplo – têm futuro na internet, não?
Sim, a transmissão de eventos ao vivo é uma grande oportunidade para quem quiser entrar nesse mercado, mas não optamos por isso. Nosso foco é a TV sob demanda.

E na área de TV social? Vocês têm interesse em colocar seus clientes para assistir a filmes juntos?
Sim, inclusive estamos para lançar, ainda neste mês, na América Latina, nossa plataforma de TV social através do Facebook Connect.

Antes dos EUA?
Sim, pois temos uma superposição de leis que nos impede o compartilhamento de vídeos através de nosso site. A América Latina vai ter isso antes dos EUA.

Também falei nessa edição de segunda do Link sobre o Canv.as, o novo site do Moot, que deixou de ser fechado pra convidados na semana passada.

Canv.as é 4Chan organizadinho

Quando veio ao Brasil, no mês passado, o programador Christopher Poole, o Moot, estava às vésperas de lançar sua nova empreitada – o site Canv.as. “É uma espécie de versão domada do 4chan”, disse o criador do principal fórum de memes da internet.

O Canv.as estava funcionando só para convidados, mas a partir da semana passada quem quisesse conhecer o site já podia experimentá-lo. E a descrição feita por Moot disfarça o potencial de seu novo negócio.

Porque o 4chan é caótico por natureza. Um fórum de imagens em que qualquer um pode publicar o que quiser, sem nem mesmo se identificar, e que aceita qualquer contribuição, ingênuas ou escabrosas.

Já o Canv.as é organizado. Quem o utiliza deve se identificar e há um filtro que não permite publicar imagens mais tensas. Ele conta até com um editor de imagens online. Mas seu grande trunfo é a interface: tão simples de publicar quanto nos fóruns do 4chan, mas muito mais fácil de se encontrar.

O grande destaque do site é a forma como ele permite que seus usuários votem nas imagens que os outros sobem, de forma bem humorada. Será que Moot acertou de novo?