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Na minha coluna do Link desta segunda, falei sobre como smartphone e tablets são só o começo de uma mudança drástica.

Tablet e smartphone são só o início da era pós-PC
Nova era se consolida com fim destes aparelhos

Os dois principais nomes da Microsoft e da Apple no século 21 concordam: estamos na era pós-PC. Tim Cook, o número 2 da Apple quando Steve Jobs ainda era vivo, usou a frase do ex-patrão para coroar o lançamento da nova versão do iPad. E Ray Ozzie que, mesmo tendo saído da MS em 2010, ainda é o principal nome de tecnologia da empresa após a saída de Bill Gates, usou a mesma expressão para definir a segunda década deste século (leia mais na pág. 3).

As duas empresas são os principais nomes na ascensão e consolidação do computador pessoal – o aparelho cuja onipresença destronou a imbatível televisão como principal ferramenta humana na virada do século 20 para o 21. Monitor, mouse, teclado, torre e alguns cabos entraram em nossa rotina a partir do início da década de 1980 para, a partir da metade da década seguinte (graças à invenção da web), começarem a se proliferar por todos os ambientes – casa, trabalho, lazer, negócios… Para onde você olhar, vai encontrar o PC.

E pouco daquele pacote básico inventado na virada dos anos 70 para os 80 mudou: foram-se os disquetes e as fitas cassete (que eram usadas, sim, para gravar bytes), os drives de CD e diferentes portas de entrada para cabos e assessórios. Seja o monitor de fósforo verde, venha acoplado a uma impressora ou um kit multimídia (lembra? Leitor de CD-ROM, caixas de som, microfone…), tenha entradas USB ou não – se tiver monitor, compartimento para processador e disco rígido, mouse (ou trackpad) e teclado, esse dispositivo é um computador pessoal. Um aparelho que, aos poucos, está saindo da nossa rotina – e na mesma velocidade que entrou.

A Apple quer por tudo na conta do tablet. Como conseguiu transformar a prancheta digital em um objeto rotineiro (não foi a primeira empresa a tentar emplacar o formato, que vem sendo tentado desde os anos 1980), a empresa aponta para seu iPad como substituto infalível do desktop ou do notebook. Faz esse alarde todo sem lembrar da liderança de seu iPhone porque não quer desviar o foco da mudança para o smartphone – mas o fato é que a era pós-PC começa nos primeiros Blackberry. Coube à Apple reinventar o conceito de supertelefone em 2007 ao lançar seu brinquedo mágico – que espera sua quinta versão para este ano – ao mesmo tempo em que reinventou o software para o século 21 como um ambiente autossustentável, a economia dos aplicativos. Quando Tim Cook frisou que estamos na era pós-PC durante o anúncio do novo iPad, ele não lembrou da importância do iPhone porque o celular da Apple tem muitos concorrentes, ao contrário do tablet, que segue líder.

A Microsoft, por sua vez, não comenta oficialmente a nova era pois ainda é líder absoluta no ambiente desktop. Por mais que o sistema operacional da Apple tenha crescido e que o Google possa tornar seu Chrome OS viável em algum tempo, é muito pouco provável que alguém tire o cetro da empresa de Bill Gates. A era do PC também é a era do Windows. Por isso que quando Ozzie diz que estamos na era pós-PC, o mundo entende que o reinado do Windows está chegando ao fim. E por mais que a Microsoft consiga estender seu legado por alguns anos ao dar o salto mais radical em seu sistema operacional desde que apresentou o botão Iniciar no Windows 95, o novo Windows 8, com cara de sistema operacional móvel, pode selar o reinado MS para sempre.

Porque a era pós-PC não é necessariamente a era do smartphone. É o tempo em que os computadores vão sumir de vista – eles se integrarão ao carro, à casa, ao dia-a-dia, sem que a gente perceba que está usando um computador. O movimento do controle remoto é mais natural que o do mouse, a tela sensível ao toque é mais amigável que o teclado. Tablets e smartphones são o início da nova era, que se consolidará com o desaparecimento deles. Há a paranoia de que um dia teremos chips no cérebro. Mas não é preciso que o aparelho fisgue a carne para que o implante aconteça. Basta que o avanço seja suficiente para que a gente não se dê conta de que estamos usando ferramentas. Isso está próximo, chega em pouco mais de dez anos.

4:20

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Do TheDogHouseDiaries. Via Jess.

Minha coluna na edição do Link desta semana foi sobre o excesso de formas de nos comunicarmos.

Existem mil maneiras de falar com alguém. Quero só uma
Todo mundo mesmo vai ter celular em dez anos

Alguém liga para você e pergunta se você viu o e-mail que mandaram. Ou um amigo escreve via SMS para saber se você está online. Ou alguém manda uma mensagem pelo Facebook para avisar que procurou você no MSN e não encontrou. Uma mensagem chega via Gtalk perguntando se “você está aí?”.

Houve um tempo em que havia poucas formas de entrar em contato com algum conhecido. Além da possibilidade de encontrá-lo pessoalmente, você poderia mandar uma carta ou tentar contactá-lo por telefone – que estava em um único lugar. Dá até para pensar que, no futuro, nossos filhos ficarão espantados com esse passado – hoje quase remoto – em que, para encontrar alguém era preciso ligar para o lugar em que ele poderia estar, em vez de ligar diretamente para a pessoa.

Mas surgiu a internet e ela trouxe outros canais: primeiro o e-mail (que você ganhava ao assinar um provedor de acesso à rede), depois o webmail (que mostrava que você poderia ter mais de um e-mail), os chats e, pouco depois, os programas de comunicação instantânea, que funcionavam como bate-papo, mas que permitiam identificar quem estava do outro lado. Mais tarde veio a web 2.0 primeiro com os blogs, depois com os sites de publicação de vídeo e fotos e, finalmente, (inúmeras) redes sociais. Cada um destes novos canais criou uma nova forma de entrar em contato.

Não bastasse tudo isso, veio o celular. E, com ele, tivemos de decorar mais um número, além do telefone de casa e do trabalho (para depois, com o tempo e a agenda de contatos no celular, esquecer quase todos eles). E além de falar ao telefone, também mandamos mensagens de texto. Logo depois, o aparelho se conectou à internet e não bastassem as ligações e SMS, todos os outros canais que antes só habitavam a tela do computador vieram para o telefone. Então checamos mensagens no Facebook, DMs no Twitter, e-mail e todos os outros tipos de contatos via web possíveis no celular. Isso sem contar um infindável universo de aplicativos que ajudam a estar em contato com quem quisermos – e até com quem não queremos.

Essa vida hiperconectada é rotina para um número cada vez maior de pessoas. E tende a piorar – ou a melhorar, dependendo do ponto de vista – com o tempo. Isso porque a tal inclusão digital, que parecia que iria acontecer quando todos tivéssemos um computador em casa, está acontecendo muito mais rápido do que imaginávamos, graças à popularização do celular e a convergência do aparelho com a internet. E por mais que já existam mais celulares do que habitantes no planeta, esse número tende a aumentar ainda mais.

“Fazendo as contas, telefones que custam US$ 400 vão custar US$ 20 daqui a 12 anos, e se o Google fizer tudo certo, haverá um Android em cada bolso”, disse Eric Schmidt, eminência parda da empresa no Mobile World Congress, maior evento de tecnologia móvel do mundo que aconteceu na semana passada, em Barcelona, na Espanha. Desconte-se a megalomania típica do Google (de que todo mundo terá um celular Android em pouco mais de uma década) e sua profecia não é nada descabida. E se lembrarmos que todas as grandes empresas de telefonia celular trabalham com objetivos semelhantes, não é exagero achar que todos os habitantes do planeta terão um smartphone em dez anos.

Para vender seu peixe, Schmidt frisou que, uma vez que todo mundo estiver conectado, o mundo será mais justo, os pobres serão menos pobres, todo mundo terá mais consciência política e as castas econômicas se aproximarão. Há um tanto de fantasia – e marketing – nesse discurso. E vai saber se daqui a alguns poucos anos alguém inventa algo que possa tornar o celular obsoleto…

O segredo para isso acontecer talvez esteja na possibilidade de integrar todos nossos contatos. Mensagens de redes sociais, e-mails, telefones… Tudo poderia convergir para uma só caixa de entrada. Que poderia ser acessada a qualquer minuto, de qualquer aparelho. Se alguém juntar esses pontos – num aparelho ou serviço – pode estar começando a redesenhar o futuro. De novo.

Esqueci de linkar aqui: entrevista que dei no ano passado pra TV Estadão, sobre um assunto que poderia cair na prova da Fuvest desse ano – e que realmente caiu, quando o tema da redação foi Viver em rede no século 21: os limites entre o público e o privado, que ainda teve uma tirinha do Dahmer como apoio:

Mal sabíamos, em 1988, que esse tipo de ameaça se tornaria corriqueira e que esse bico de caçador de vírus iria tornar-se uma profissão de verdade…

Lucas liberou todo seu quinto disco (que eu já tinha antecipado a capa há um mês) de graça via Facebook, antes mesmo do disco físico existir propriamente (estratégia parecida com a do Criolo, no ano passado).

E não custa lembrar que o Lucas transferiu seu Diginóis para OEsquema.

Aproveitei o mote do Pinterest na capa do Link para falar da novidade que todos esperam na minha coluna.

Qual será a grande rede social de 2012?
Será o Pinterest? Creio que não…

Começou com o Orkut, aí veio o MySpace, depois o Twitter, Facebook, Tumblr, Google Plus e, em poucos anos, nos acostumamos à ideia de que periodicamente seremos apresentados a mais uma rede social que teremos de conhecer e habitar. A consequência natural desta lógica deixou de se materializar na forma de palpites ou achismos de analistas de mídia e consultores digitais para virar uma grande questão online, discutida por todos: “Qual é a próxima?”. Ou, mais especificamente, qual vai ser a grande rede social de 2012?

Daí o interesse no Pinterest, assunto da capa do Link desta edição, que, devido a seu veloz crescimento na virada do ano, vem liderando a bolsa de apostas como a principal resposta para a pergunta acima. Mas é bem pouco provável que as pessoas passem a usar o Pinterest em vez do Facebook, ameaçando o reinado digital de Mark Zuckerberg. Mesmo porque o Pinterest não é propriamente uma rede social.

É uma rede social de nicho – a maior delas hoje, em fevereiro de 2012, mas não a única. Compare com o Canv.as, que o criador do 4chan, Christopher “Moot” Poole, lançou no ano passado. Os sites são bem parecidos, inclusive estruturalmente – com o agravante do Canv.as ainda contar com um software online embutido que permite que as pessoas remixem as imagens ali postadas. O Chill.com também segue a mesma lógica, mas é voltado apenas para vídeos. Como os três, há inúmeras outras, que dão a impressão de ser redes sociais porque pressupõem a criação de um perfil online e a interação entre os usuários.

A ascensão do Pinterest tem mais a ver com outro assunto recorrente e que é paralelo ao crescimento das redes sociais: a “morte dos blogs”. Ponho entre aspas porque é um tema que volta à pauta sempre que uma nova plataforma permite a publicação de uma espécie de diário, seja em texto, vídeo ou fotos. Foi assim quando, por exemplo, o Facebook permitiu que as pessoas usassem suas “Notes” como área para blogar.

O próprio Twitter ainda é constantemente referido como “microblog”, mesmo que já tenhamos entendido que ele não funciona como um blog – e que ninguém abandonou seu próprio blog para dedicar-se apenas ao Twitter.
Outros termos ajudaram a criar essa expectativa, como o “life streaming” – de sites como Posterous e FriendFeed –, o “reblog” – popularizado pelo RT do Twitter e pelo Tumblr – e o “social bookmarking” – de sites como Digg, Reddit, Delicious e StumbleUpon.

Todos estes serviços têm, em comum, o fato de facilitar ainda mais a vida de quem quer postar algo online. Como aconteceu com o próprio conceito de blog, que, quando surgiu, vendia a possibilidade que qualquer um poderia publicar na web sem saber nada de programação ou de linguagem HTML.

Daí o Pinterest e outros integrantes desta tendência de rede social de nicho serem apenas mais um passo rumo à autopublicação para completos leigos digitais. E a notícia de que seu crescimento espetacular vem do fato de que seus primeiros usuários não pertencerem ao perfil tradicional dos early adopters (donas de casa do Meio-Oeste americano impulsionaram a ascensão do site) só comprova isso.

Não acho que o Pinterest será a grande rede social de 2012, pois creio que o site que cumprirá esta expectativa não será desenvolvido para desktop. Acredito que a próxima rede social realmente importante – aquela em que todos precisamos conhecer e habitar – será feita para funcionar a partir do celular.

E já há vários lutando por esse posto. Entre eles o californiano Path.com, fundada pelo criador do Napster Shawn Fenning e por um dos fundadores do Facebook, Dave Morin, mas que já enfrenta problemas graças a críticas sobre o uso que o serviço faz dos dados de seus usuários.

A próxima grande rede social deve funcionar mais ou menos como o Instagram do brasileiro Mike Krieger, senão for o próprio. Atualmente ele ainda é restrito a usuários de iPhone, mas há rumores sobre o lançamento de um aplicativo para Android em breve.

Vamos aguardar.