Aproveitei o lançamento do novo Angry Birds como gancho para falar de uma geração que passou a vida inteira jogando videogames na minha coluna do Link dessa segunda.
Uma geração inteira que cresceu jogando videogames
Não me considero jogador de games, mas…
Jogo videogames desde que me entendo por gente. Comecei nos ancestrais Game & Watch – portáteis de tela de cristal líquido que apresentavam versões simplificadas de títulos que faziam sucesso no fliperama. Com imagens em preto e branco e movimentos quase estáticos, eles eram uma febre nos tempos em que aparelhos importados eram restritos a poucos que tinham dinheiro para viajar para o exterior ou para quem se aventurava a comprar muambas no Paraguai.
Logo depois apareceu o Atari e todas suas versões genéricas (quem se lembra do Odissey?) e logo jogar videogame tornava-se uma atividade que disputava espaço com assistir televisão – afinal, pela primeira vez, a tela da TV tornava-se o monitor dos jogos eletrônicos. Assim, era preciso disputar a TV (nos anos 80, só quem tinha muito dinheiro tinha mais de um destes aparelhos em casa) com a novela, o jornal e os desenhos animados. Eu e meus irmãos tínhamos o hábito de esperar meus pais dormirem para jogar Donkey Kong, Enduro e Pitfall com o volume lá embaixo (não existia controle remoto nem o botão “mute” naquele tempo).
Jogos no computador eram tão raros quanto computadores naquele tempo. Pouquíssimas pessoas tinham em casa. Um dos meus amigos tinha um destes e chamava o pessoal para jogar um precursor dos games RPG que ele baixava – acreditem – pelo rádio. Sintonizava o rádio em ondas curtas nas madrugadas para ouvir guinchos e ruídos aleatórios que, gravados numa fita cassete, eram transformados em bits de informação quando o tape deck era ligado ao computador. Era jogos muito rústicos, formados basicamente por comandos de texto e não entusiasmavam tanto quanto a operação que era “baixar” um jogo pelas ondas de rádio.
Passada a infância, era a vez de encarar os fliperamas no início da adolescência. E, naquela época, jogar videogame fora de casa não significava ir para a área de lazer de algum shopping center. Fliperamas eram lugares perigosos para menores de idade, como os bares com máquinas de videopôquer de hoje. Em Brasília, onde nasci, o melhor fliperama ficava num centro comercial chamado Conic, no meio do Plano Piloto, entre bares, casas de prostituição, cinemas pornô, lojas de discos de rock pesado e de camisetas. Graças à vontade de jogar game que eu e meus amigos, montados em bicicletas BMX como a turma dos amigos do irmão de Elliot no filme E.T., encaramos pela primeira vez o que aos poucos entendemos como “submundo”.
Depois veio a segundo geração de consoles, em que o velho Nintendinho brigava com seu rival Master System. Foi quando meu interesse por games diminuiu e meu irmão do meio assumiu os controles. Não lembro quantas tardes passei revezando fases com ele e meu irmão caçula, mas já não tinha mais disposição para ir atrás das novidades de games. Embora sempre quisesse ver qualquer novo console, nova tecnologia ou novo título que saía do mundo dos jogadores de videogame para a superfície dos não-jogadores.
Foi assim que joguei no antigo computador Amiga ou que gastei boas horas no computador de amigos jogando Prince of Persia. Depois veio o Gameboy, o Super Nintendo, o PlayStation, o Nintendo 64 e sempre dava um jeito de mexer nos aparelhos. E, aos poucos, percebia que cada vez mais gente jogava games.
Vim para São Paulo trabalhar em uma editora que publicava várias revistas de games quando a Nintendo lançou o GameCube e a Microsoft apresentou seu Xbox. E depois vim trabalhar no Link poucos meses antes do lançamento do Wii. E aqui vi a ascensão e queda do Guitar Hero e os jogos musicais (já podem ser considerados clássicos pessoais as sessões de Beatles Rock Band que fazíamos entre a equipe do caderno), a chegada dos jogos sociais e, agora, Angry Birds, que me fez voltar, de cabeça, para o universo dos jogadores.
Se me perguntassem se eu sou um gamer, de pronto diria que não. Mas olhando em retrospecto, é inevitável perceber que não apenas eu, mas toda minha geração, nasceu e cresceu à base de jogos eletrônicos. E você?
Como eu amo o Brasil, putamerda.
Não entendeu? Saca só.
E na minha coluna no Link dessa semana, eu falei sobre a história do Keep Calm & Carry On, além de suas implicações com o mundo digital…
“Keep Calm and Carry On”: duas lições e uma conclusão
O que um cartaz da Segunda Guerra Mundial nos ensina sobre a era digital
Você já deve ter lido este slogan em algum lugar – ou alguma variação dele. “Keep Calm & Carry On” (mantenha a calma e siga em frente) é um dos inúmeros memes que, uma vez online, ganhou vida própria e foi remixado, ganhando variações como “Keep calm and Call Batman”, “Keep Calm and Caps Lock”, “Keep Calm and Blog On”, “Keep Calm and Pass It On”, além dos brasileiros “Keep Calm o Caralho” (com foto do Dadinho, de Cidade de Deus) e “Keep Calm and Segure o Tchan”.
A frase faz parte de uma série de cartazes que o Ministério da Informação inglês bolou logo no início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, para apaziguar a tensão de um país que se tornaria um dos principais alvos dos bombardeios nazistas. Eram três cartazes, todos com a mesma tipologia, um ícone representando a coroa britânica, duas cores e frases de impacto. O primeiro trazia o texto “Your courage, your cheerfulness, your resolution will bring us victory” (sua coragem, sua alegria, sua resolução nos trará a vitória) e teve uma tiragem de 400 mil exemplares. O segundo vinha com a frase “Freedom is in peril, defend it with all your might” (a liberdade está em perigo, defenda-a com toda sua força) e teve sua tiragem dobrada. 800 mil exemplares.
O último da série – “Keep Calm…” – foi pensado para ser divulgado caso as coisas realmente ficassem mais complicadas – e a Alemanha invadisse o Reino Unido. Foram impressos 5 milhões de cartazes, que ficaram estocados caso o pior cenário se concretizasse. Como isso não aconteceu, os pôsteres foram destruídos. Restaram apenas sete. Seis foram encontrados em 2009 e foram para o Museu Britânico da Guerra e um foi encontrado em uma livraria em Alnwick , no norte da Inglaterra.
Stuart Manley, proprietário da Barter Books, descobriu o cartaz no fundo de uma caixa de livros velhos que havia comprado em um leilão, no ano 2000. Gostou de tudo – do layout, da mensagem, da história – e pendurou o cartaz em sua loja. Aos poucos, seus clientes repararam nele e Manley foi percebendo que seria possível vender reproduções. Foi o que fez – e os cartazes começaram a vender. Muito. Manley estipula que, até 2009, já havia vendido mais de 40 mil cópias do pôster. A própria Barter fez um vídeo de três minutos em que conta esta história – lançado no último dia do mês passado, ele já tem mais de 800 mil visualizações.
A popularidade deslocou o layout para outros formatos: logo ele aparecia em canecas, bandeiras, camisetas e, claro, foi parar na internet, onde começou a ser remixado, parodiado e misturado com várias outras referências.
Esta história ensina duas coisas. Uma delas é que a “viralidade” é anterior à internet. O pôster só ficou conhecido porque as pessoas foram à loja, gostaram do que viram e quiseram ter aquilo em casa. A outra é que, por mais cômodo que seja comprar coisas via internet, há um elemento crucial nas compras offline, que é a surpresa. A história do pôster funciona como uma pequena parábola a favor da existência de lojas fora da internet. O fator comunitário que transforma um ambiente em uma comunidade é crucial para a sobrevivência destes pontos de venda.
Mas por que “Keep Calm and Carry On”? Porque talvez o mundo esteja sob um bombardeio diferente do que assolou os ingleses na década de 1940, mas que também desnorteia. Posts, tweets, likes no Facebook, mensagens por celular, links via Gtalk, câmeras filmando tudo o tempo todo. A mensagem do cartaz parece vir como um alívio para quem é soterrado diariamente pela avalanche de dados digitais.
Escrevi o texto da capa do Link (sobre o Kony 2012, que ainda teve o vídeo dissecado pela Tati e uma extensa matéria feita a quatro mãos pelo Camilo e pelo Murilo) dessa semana junto com a Helô.
Vilão viral
A campanha Kony 2012 transformou-se no maior viral da história e leva política e informação para outro patamar
No dia 5 de março, entrou no ar, no canal da ONG Invisible Children, no YouTube, o vídeo Kony 2012. Em seis dias, ele já tinha sido visto 100 milhões de vezes. É o maior viral da história.
Com meia hora de duração (uma eternidade, se comparado à duração de outros virais), o curta apresenta uma campanha cujo objetivo é capturar e levar ao Tribunal Penal Internacional o criminoso de guerra ugandense Joseph Kony , líder do Exército de Resistência do Senhor, que há mais de vinte anos, sequestra crianças, transformando-as em escravas sexuais ou soldados.
O objetivo da campanha é fazer que o maior número de pessoas saiba quem é Joseph Kony e, a partir disso, cobre das autoridades medidas para capturá-lo e levá-lo a julgamento. Para tanto, propõe que o espectador peça a celebridades e autoridades que apoiem a causa, sugere a doação de “uns dólares” e a compra de um kit de mobilização, com pôsteres, adesivos e braceletes. Mas acima de tudo, pede a quem vê o filme que o mostre ao maior número de pessoas. Basta “compartilhar” no Facebook.
Além dos 100 milhões de visualizações em seis dias, esgotaram-se kits vendidos pela ONG a US$ 30 cada um. E, na mesma velocidade que se tornava popular, o vídeo recebia críticas.
Críticas de todos os lados: de questionamentos sobre os reais interesses da ONG a acusações de desinformação. E a cada nova crítica publicada, surgia uma nova defesa. A própria ONG, em seu canal no Vimeo, começou a responder aos questionamentos em vídeos conduzidos pelo CEO da organização, Ben Keesey, que termina o vídeo pedindo “pergunte qualquer coisa”. Basta twittar a pergunta, em inglês, com a hashtag #askICanything.
Além de artigos e ensaios escritos por jornalistas e intelectuais ocidentais, houve também forte reação vinda de Uganda, país escolhido pela ONG como área de atuação, embora Joseph Kony não esteja mais lá – o seu exército hoje encontra-se espalhado pelo Sudão do Sul e pela República Centro-Africana. Um vídeo da blogueira Rosebell Kagumire, postado no dia 7, foi visto mais de 500 mil vezes até sexta, 16 – mesma quantidade de views que a versão legendada em português do vídeo Kony 2012 teve.
Uma projeção ao ar livre em Lira, cidade na região norte de Uganda, gerou revolta entre as vítimas das atrocidades do Exército da Resistência do Senhor. “Se as pessoas lá fora realmente se preocupam com a gente, elas não deveriam usar camisetas do Joseph Kony em nenhuma hipótese. Isso é celebrar nosso sofrimento”, diz um homem que foi raptado pelas forças de Kony. A reportagem pode ser vista no canal da Al-Jazira no YouTube.
Pró. Em quase todas as críticas à campanha, no entanto, é feita uma ressalva: apesar de todos os problemas, uma coisa é fato, o vídeo trouxe à pauta global um assunto que é sempre deixado de lado. Em uma semana, o mundo tomou conhecimento da existência de Joseph Kony, que, enfraquecido ou não, em Uganda ou no Sudão do Sul, é acusado pelo Tribunal Penal Internacional de 12 crimes contra a humanidade e 21 crimes de guerra.
Contra. Por outro lado, é muito fácil confundir as pessoas online. Principalmente quando a forma usada para divulgar a causa simplifica questões sérias para ter maior alcance. Ainda não estão claros quais são os interesses da ONG, além de transformar Kony em celebridade. E tudo fica mais confuso depois da prisão do narrador do vídeo, Jason Russell na quinta-feira, durante um surto. É preciso ter calma e não se deixar levar pela emoção, que é o alvo deste tipo de campanha.
Se você não entendeu o 4:20 anterior, eis a explicação: o cidadão exposto é o tal Jason Russell, narrador e autor do vídeo Kony 2012, que sucumbiu à pressão e, aparentemente, pirou e foi preso. Se liga:
Acha pouco? Além dessa “ginástica” ao ar livre, Russell ainda teria se masturbado em público e destruído alguns carros. A ONG que representa, a Invisible Children, avisou que ele já foi hospitalizado.
Isso dá margem para todo tipo de paranóia. Não bastassem as provas deixadas em vídeos anteriores da Invisible Children darem a entender que toda a campanha Kony 2012 é só uma forma de juntar missionários para uma causa cristã conservadora na África ou que a campanha visa conseguir apoio popular para a invasão norte-americana de um dos países com mais petróleo naquele continente usando de artifícios de propaganda política reversa (além de conter o avanço da China na África), a reação biruta de Russell abre ainda suspeitas contrárias, de que ele teria sido dopado por estar mexendo com os tais “powers that be”.
E parece que essa história ainda vai dar muito pano pra manga…
Pode falar o que quiser, esse MinhaMaeTaNoFace é muito foda. Saca mais abaixo:








