
Pronto, agora já dá pra falar: a partir de hoje estreio um blog no UOL. Não, o Trabalho Sujo segue firme e forte aqui. A ideia do blog, como descrevo no primeiro post, é falar um pouco mais sobre cultura de uma forma geral. Bookmarcaê: http://matias.blogosfera.uol.com.br/

Vamos parar de picuinhas e falar de coisa boa?
Cresci, felizmente, entre discos, livros, games, filmes, revistas, programas de rádio e TV, quadrinhos, shows e jornais. Gostava de brincar na rua, mas à medida em que envelhecia sentia uma necessidade de conexão com o resto do mundo – passado, presente e futuro – que conseguia a partir de casa, por meio de produtos e serviços culturais que encontrava. Estou falando dos anos 80, bem antes da popularização da internet, da globalização e da estabilidade econômica do Brasil.
Quem viveu essa época sabe como era difícil se informar sobre qualquer coisa. Um exemplo banal: hoje qualquer um entra numa megastore e pode comprar a caixa com toda a discografia do Velvet Underground sem sequer precisar importá-la – quando não faz o download dela via torrent ou a escuta via aplicativo de streaming ou pelo YouTube. Nos anos 80, o Velvet Underground ainda estava começando a ser descoberto pela indústria fonográfica e seus primeiros discos conseguiam uma tiragem maior do que as primeiras edições de seus clássicos. Lembro que era mais fácil ler sobre o Velvet Underground do que ouvir a banda. Consegui finalmente ouvi-los graças ao pai de um amigo que havia comprado a coletânea póstuma V.U. numa viagem para o exterior e a um professor de história que me gravou uma fita com o terceiro e o quarto discos da banda.
E o Velvet é só um exemplo. Mesmo os Beatles não tinham tantas referências à disposição – até sua hoje onipresente discografia nunca havia sido relançada no Brasil desde os anos 70, sobrevivendo graças a coletâneas com capas horríveis e canções manjadas. Foi preciso vir o CD que toda minha geração pudesse ouvir os discos dos Beatles na íntegra.
Isso sem contar a qualidade das informações. Quase tudo era rumor ou informações recauchutadas via uma ou outra publicação estrangeira que alguém conseguia comprar numa livraria que por acaso importava – com semanas de atraso – algum tabloide inglês ou revista americana. Mesmo as informações nas poucas revistas e nos cadernos de cultura eram parcas e imprecisas. Quantas vezes ouvimos falar que o baterista do Rush havia morrido em um acidente de moto? E me lembro direitinho dos quatro meses entre 1992 e 1993 que ninguém sabia dizer ao certo se os Pixies haviam acabado ou não – ainda mais confirmar que Black Francis havia dissolvido a banda por fax. A prateleira de livros sobre música nas livrarias passava de meio metro de livros colocados lado a lado – sendo que metade destes eram Songbooks da coleção de Almir Chediak.
E isso que música era uma das atividades mais populares e além do fato de estarmos vivendo a explosão do rock brasileiro dos anos 80 e a vinda do CD provocar relançamentos e reedições. O cinema vivia o início da era das videolocadoras e padecia igualmente de informações. Os primeiros clássicos da contracultura americana – os beats, Bukowski, Fante – finalmente eram publicados no Brasil ao mesmo tempo em que quadrinhos eram ainda mais alternativos que isso, embora tenha sido nessa época em que começaram a publicar graphic novels por aqui.
A falta de informação nos deixava mais curiosos e engajados em descobrir novos diretores, novas bandas, novos documentários, novas tirinhas, novos colunistas, novos seriados. E com cada nova descoberta vinham discussões, teorias, cruzamentos de informações e defesas de teses para justificar gosto. Descortinávamos diferentes mundos em cada novo livro, filme, disco ou HQ e criávamos nossas próprias galáxias culturais para habitarmos.
Veio a internet, a globalização, a estabilidade econômica e estamos agora cercados mais do que nunca por livros, filmes, discos, shows, programas de TV e de rádio, revistas e jornais e variações destes criadas pelo meio digital. Assistimos a mais filmes em um mês do que assistíamos antes em um ano, os discos se acumulam em pilhas na mesa do escritório e em inúmeras pastas no computador ou numa playlist interminável no celular, a lista de links que guardamos para ler depois é tão grande quanto a de livros que compramos por impulso e esquecemos que existem. Em cada esquina há um show de uma banda nova, em cada estádio há um show de uma banda gigante, em cada casa de médio porte um artista do passado voltando à ativa. A TV a cabo tem mais horas de programação em uma semana do que uma pessoa pode assistir numa vida inteira.
Ao mesmo tempo, estamos hiperconectados, hiperinformados, hiperlotados de informações que não sabemos se são verdadeiras, correndo atrás de hipérboles e modismos que aparecem e desaparecem com a velocidade da internet, mandando emails, mensagens via Whatsapp, trocando links pelas redes sociais, dando likes em centenas de fotos por dia.
Tanta informação, tão pouco tempo pra absorvê-la. Que dizer de frui-la.
Por isso começo esse blog convidando-os a fugir dessa tempestade de informações. Ela segue aí fora, mas pensei que esse espaço pode funcionar como um porto seguro para esse temporal. Não é uma marquise pra tomar fôlego antes de tomar mais chuva nem uma bolha que ignora a água que cai lá fora. Quero ter tempo para digerir informações, olhar assuntos diários com mais carinho e cuidado, buscar manifestações culturais que estão longe do olhar estreito das timelines. Não quero correr atrás do que está todo mundo falando só por correr atrás nem atiçar polêmicas vazias só pra garantir uma frase de efeito desconcertante num ambiente virtual. Quero mergulhar na cultura deste século com um olhar menos apocalíptico e pessimista do que o que paira sobre nossas cabeças.
Cubro cultura há vinte anos e já fui editor de caderno de cultura e de tecnologia em dois grandes jornais, editor-executivo de uma editora de médio porte, colunista de rádio, consultor de programas de TV, diretor de redação de uma revista de ciência, além de acompanhar de perto as transformações na cultura e no comportamento brasileiro nas últimas décadas. Nestes anos percebo um esvaziamento cultural que divide o público entre aqueles que se refugiam no passado e degradam tudo que é digital e aqueles que se deslumbram com o futuro eletrônico e desprezam o último século.
Essa polarização, no entanto, é ilusória – além de inútil. Lemos livros e emails, assistimos a filmes e a curtas online, ouvimos discos em vinil e músicas baixadas em nossos celulares, mas pendemos mais para o lado analógico ou digital de acordo com nosso gosto pessoal. Venho aqui lembrar que somos anfíbios entre o mundo online e o offline e não adianta fugir pra um lado que o outro sempre estará por perto.
Então vamos parar de picuinhas e falar do que há de legal acontecendo no mundo hoje?

O pessoal da Saraiva Conteúdo me pediu pra escolher os cinco vídeos que eu considerava os mais importantes na primeira década do YouTube. Falei de cinco mas tive que emendar um sexto…

A piada recorrente em qualquer show do Kraftwerk desde que eles passaram a usar tecnologia digital é que em vez de tocar instrumentos, sincronizar música com vídeo ou disparar samples, os quatro alemães ficam apenas em seus laptops checando emails, navegando a esmo na internet ou conversando com amigos online, fingindo fazer um show enquanto passam uma hora em pé na lan house mais restrita – e vigiada – do mundo. A revista alemã Faze descolou imagens da banda se apresentando em Amsterdã em janeiro, com imagens de cima do palco, que torna visível o equipamento dos integrantes do banda. Inclusive o de Falk Grieffenhagen, que visita um site que parece ser uma espécie de tutorial do iPhone ou coisa do tipo. Confira a partir de quatro minutos e meio:
Mas se você se der ao trabalho de assistir ao vídeo todo, vai ver que a banda está realmente tocando e mexendo em equalizadores digitais, teclados e outros instrumentos eletrônicos. São quatro caras trabalhando na sincronia de beats e imagens, então tudo bem se um deles quer entrar na internet mesmo que pra checar emails. Se tem gente que tira foto do Instagram no palco durante o show, não acho que isso seja tão diferente assim. E, porra, os caras são os Kraftwerk e inventaram tudo isso, afinal de contas…

Se tivéssemos Instagram nos anos 90, talvez nenhum dos quatro personagens principais de Seinfeld usaria o aplicativo – mas discutiriam furiosamente pais que tiram fotos de bebês, gente que tira foto de comida, a pretensão artística de pseudofotógrafos e a necessidade registrar qualquer milímetro do cotidiano. Mas isso não tira a graça da homenagem que o Buzzfeed ao cogitar uma conta de Instagram na mão de Elaine Benes.

Tem outras lá.

O Bidê ou Balde já está surfando na onda dos jogos em vídeo do Facebook: é estúpido e genial ao mesmo tempo!

A Apple anunciou o que talvez seja sua ação mais esperta desde os tempos em que Steve Jobs era vivo. Se novidades como o relógio de pulso inteligente ou a compra da grife de fones de ouvidos de Dr. Dre não fizeram mais do que mexer algumas sobrancelhas em relação ao futuro da empresa, a contratação de um dos DJs mais importantes do rádio mundial atual é uma decisão mais do que acertada.
Zane Lowe talvez seja um dos melhores bens da decana BBC: um produtor e apresentador de rádio conhecido por seu vasto conhecimento pop, uma erudição crítica que convida os ouvintes mais rasteiros a pertinentes análises de nossos tempos e um carisma capaz de deixar nomes de diferentes estaturas no cenário pop mundial completamente à vontade. O anúncio de sua ida da BBC pra Apple não é apenas uma baita perda pra estatal de mídia inglesa, mas aponta um interessante futuro para a abordagem da Apple em relação à música.
Pois a compra da marca de fone de ouvidos Beats mexeu com o mercado mas deixou analistas suspeitos em relação àquela transação: muitos criticaram o fraco desempenho técnico dos fones de ouvido de Dr. Dre e reforçaram o fato de eles funcionarem mais como uma grife do que como uma empresa de tecnologia de áudio. Junto com os fones de ouvido veio também o serviço de streaming da empresa, que talvez seja onde a Apple esteja mirando – afinal a empresa comprou uma empresa de hardware que já traz seu próprio serviço digital embutido. E se lembrarmos que a Apple ainda não lançou seu serviço de streaming, as coisas começam a fazer ainda mais sentido.
E agora a contratação de Zane Lowe. Talvez a Apple não esteja apenas pensando num serviço de assinatura de áudio pura e simplesmente, mas queira usar sua grife para atrair nomes que possam fazer curadoria – e dar personalidade – para, quem sabe, reinventar o rádio. Se for isso, ponto pra eles.

Os Replacements voltaram a tocar juntos no ano passado e preparam-se para fazer uma grande turnê esse ano, em que passam pelos EUA em abril e maio e junho pela Europa (alguém vai trazê-los pro Brasil? Acho pouco provável, mas…). E dentro dessa turnê eles fizeram essa bela camiseta pra quem for acompanhá-los além das redes sociais…


Neste dia 14 de fevereiro o YouTube completou sua primeira década de existência e eu escrevi uma linha do tempo ressaltando os grandes momentos na história do site e seu impacto em nosso dia a dia pra Ilustrada deste sábado.

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Maior arquivo de vídeos do mundo completa dez anos hoje; lembramos de alguns feitos do YouTube que mudaram nossa relação com a cultura
No começo era só um site em que qualquer um podia subir seu vídeo. Três ex-funcionários do serviço de transferência digital de dinheiro PayPal apostaram no formato que permitia ao usuário divulgar conteúdo sem intermediários, num tempo em que o vídeo on-line era uma lentidão cheia de engasgos.
Quando, no dia 14 de fevereiro de 2005, Chad Hurley, Steve Chen e Jawed Karim ativaram o domínio YouTube.com, eles não podiam imaginar que no final do ano seguinte estariam sendo comprados pelo Google por US$ 1,65 bilhão e teriam sua criação na capa da revista “Time”.
O fato é que o YouTube mudou completamente a nossa relação com a internet graças à popularização da comunicação em vídeo. Se antes ela era oligopólio de poucos grupos de comunicação, emissoras de TV, produtoras de conteúdo e estúdios de cinema, a partir da explosão do site o mundo redefiniu o modo como consome e produz vídeos.
Virais intencionais ou não, trailers e músicas que estreiam longe dos cinemas, das TVs ou das lojas de disco, anúncios políticos, diferentes formas de se contar uma história, protestos, esquetes de humor: o YouTube tornou-se um dos canais mais assistidos do mundo todo, nos acostumou a consumir conteúdo via streaming em vez de download e mudou completamente o planeta nos últimos dez anos.


Björk acaba de revelar o primeiro trailer do centro da exposição sobre sua carreira que irá fazer no MoMA em Nova York, a instalação “Black Lake”, e pelo que dá pra sacar, vamos a uma viagem certamente existencialista pesada…








