
Apareceu mais uma cena clássica de Matrix recriada com peças de Lego e eu acabei fazendo uma compilação de outras recriações clássicas desse filme nesse formato lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/25/matrix-em-versao-lego/

Thomas Pappon tomou finalmente teve a disposição pra criar a página oficial do Fellini no Facebook ao mesmo tempo em que pôs toda a obra de seu mítico Fellini pra download no Bandcamp. São sete discos ao todo, conte comigo: seus quatro clássicos primeiros discos (O Adeus de Fellini, Só Vive 2 Vezes, 3 Lugares Diferentes e Amor Louco), o disco póstumo que Cadão Volpato e Thomas gravaram em Londres e lançaram pelo Midsummer Madness em 2001 (Agora é Tarde), um disco registrando a banda ao vivo no estúdio em 2010 (Você Nem Imagina) e uma coletânea de sobras de estúdio, shows, ensaios e demos (Posta Restante, compilada em 2007). O Fellini, pra quem não sabe, é um dos pilares de fundação disso que chamamos de indie brasileiro hoje.
Escrevi sobre o Manifesto Neo-Troglodita do Jarvis Cocker, O Círculo de Dave Eggers e sobre o episódio do final do ano de Black Mirror (o White Christmas) lá no meu blog do UOL: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/16/de-que-adianta-se-desconectar-da-internet/

Jarvis Cocker, vocalista da banda Pulp e um dos comentaristas culturais mais importantes da da virada do século, lançou o “Nu-Troglodyte Manifesto” (Manifesto Neo-Troglodita) na edição deste mês da revista AnOther, um manifesto quase grunhido contra a onipresença da tecnologia e a volta para a idade da pedra. Traduzo-o abaixo:
“Onde você pode encontrar paz?
Onde você pode encontrar silêncio total?
Escuridão completa?
Aqui.
Sem sinal de celular.
Sem wi-fi.
Sem TV.
Sem rádio.
Este é o som de verdade do submundo: (porque, sabe, estamos no submundo de verdade)
Nenhuma influência de fora.
Uma tela em branco.
Quer dizer, não exatamente em branco – olhe para essas paredes: o que você vê quando olha pra lá? Você vê rostos? Padrões? Eles não estão lá, você sabe – do mesmo jeito que não há nenhum escorpião, urso ou caçadores sobrevoando o céu à noite. O universo é aleatório: só o homem que tenta estabelecer um padrão. Fazer que possa significar algo.
Mas esses padrões não são bons o suficiente como são? Sem nenhuma interpretação? E você não adoraria poder fazer algo tão lindo quanto isso? Claro que sim. Mas ninguém fez: apenas aconteceu.
Estalagmites
Estalactites
Qual é qual?
“Tights come down” * (uma maneira crua mas eficaz de lembrar)
Essas coisas levaram 20 mil anos para se formar, sabe.
E eu pensei que eu fosse lento no trabalho…
É uma coinciência que o clube que viu nascer o grupo musical mais influente e significante do século passado chamase-se “A Caverna”?
Não acho.
E por que as melhores casas noturnas ficam em porões escuros e sombrios com tetos baixos?
Fácil:
Porque nos lembra de estar lá… De volta às cavernas, digo – vamos lá: por que você acha que era chamado de música da pedra (rock music) em primeiro lugar?
Foi aqui que tudo começou.
Um antepassado da sua família morou aqui certa vez.
O Des-Res original **
Agora é hora de voltar pra casa
Hora de voltar à fonte
Hora de escapar da tagarelice constante infinita sem sentido que lhe distrai de quem realmente você é e o que você realmente quer fazer.
Não há lugar pra pensar aqui
Lugar pra viver
Entre (cuidado com a cabeça)
Sente-se
Olhe para uma pedra
Vamos começar tudo de novo.”
Jarvis clama para uma volta às raízes da natureza humana quando o homem sequer era homo sapiens, uma espécie de romantismo extremo, transformando a caverna pré-histórica em uma Arcádia bruta e animalesca. Na verdade ele canaliza uma sensação recorrente a todos nós: somos bombardeados por tantos contatos, fotos, mensagens, vídeos e links que a única solução que parece ser possível é largar tudo e fugir para vender coco na praia ou construir seu próprio chalé no campo, longe das barbaridades do século 21.
É um tema cada vez mais frequente na cultura atual – a onipresença da tecnologia em nossas vidas e a ascensão do capitalismo eletrônico criaram um híbrido distópico que reúne os piores pesadelos do século 20. Nem George Orwell em seu 1984 conseguiu imaginar uma sociedade em que as pessoas carregam câmeras e localizadores nos próprios bolsos, deixando rastros digitais por onde andam, sem nem cogitar fugir do Grande Irmão (nome de um dos programas mais populares atualmente). E nem Aldous Huxley conseguiria cogitar distrações tão inacreditáveis em seu Admirável Mundo Novo quanto as que tomam conta de nossa rotina digital, em bipes e luzes nos celulares, números que se acumulam nas redes sociais, abas abertas com todo o tipo de conteúdo disponível, de planilhas de valores a fotos NSFW.
Um dos livros mais importantes de 2013, traduzido ano passado para o Brasil, é O Circulo, de Dave Eggers (Companhia das Letras). É uma distopia disfarçada de entrevista de emprego ou comercial de departamento de RH, em que acompanhamos ascensão e queda de duas amigas no trabalho. Ambas trabalham na empresa que batiza o livro, uma startup que conseguiu ultrapassar Google e Facebook num futuro próximo ao criar um sistema de identificação que aposenta o conceito de senhas e muda nossa relação com a internet – de novo. O livro descreve o maravilhoso campus da empresa – cool, clean, hi-tech e cheio de regalias – ao mesmo tempo em que mostra que a rotina de trabalho dos funcionários se mistura cada vez mais com o tempo livre, tornando a participação social uma exigência quase compulsória. A trajetória das duas principais personagens – Annie e Mae – se diverge à medida em que nos afundamos nos segredos e inovações tecnológicas de uma empresa que tem como lemas frases como “segredos são mentiras”, “compartilhar é cuidar” e “privacidade é roubo”.
O Círculo é pessimista com o mesmo sorriso que as pessoas dão quando tiram selfies. Seu final assustador mostra que estamos só arranhando uma superfície de perigo, mexendo em campos minados que podem mudar completamente a história de nossas vidas.
(Pra quem já leu o livro, um agrado – viu que lançaram o SeeChange da vida real?)
Ainda mais pessimista foi o especial de natal que a série inglesa Black Mirror, produzida pela BBC, exibiu no final do ano passado. Criado pelo genial Charlie Brooker, um dos críticos culturais mais ácidos na Inglaterra atualmente, a série não conta uma história, apenas pequenos contos sobre nosso relacionamento com a tecnologia. São duas temporadas, cada uma com três episódios com pouco mais de meia hora, que contemplam a alienação, a violência, o deleite, o nojo e a opressão causada pela comunicação digital, em contos tétricos e de um humor pessimista e bizarramente hilário. O título da série é uma referência às telas que olhamos diariamente quando são desligadas, revelando um espelho negro que reflete todos nossos anseios. É o mais próximo de um Além da Imaginação produzido para o século 21 que se tem notícia.
O especial de natal, batizado de Black Mirror: White Christmas, é especialmente aterrador. Mistura realidade aumentada, implantes nos olhos, armazenamento externo de lembranças pessoais, serviços de relacionamento, inteligência artificial, prevenção de crimes, ordens de restrição. Protagonizado pelo Don Draper de Mad Men (o ator Joe Hamm), o episódio se passa num futuro próximo mas faz referências a várias tecnologias que já estão sendo usadas em nosso dia a dia. Ele apenas cogita a possibilidade de popularização destas, quando todas as pessoas usarem tudo que já é disponível hoje – além de um tiquinho de ficção científica.

Mais livros, filmes e discos (e sites e perfis em redes sociais e aplicativos e plugins) surgirão para nos alertar sobre os perigos do mundo digital, a insegurança da vida na internet, a necessidade de desconexão da rede. É uma mudança inevitável. Não dá para desplugar a internet ou voltarmos às máquinas de escrever, telefones fixos e fotos que precisavam ser reveladas sem que colocar o mundo em colapso. As vantagens da era eletrônica justificam sua existência até agora, mas precisamos aprender a usá-la.
Tiramos fotos de nós mesmos sem parar, postamos tudo que fazemos nas redes sociais, usamos aplicativos pra tudo em qualquer instante porque são novidades que nos foram apresentadas agora. Estamos nos lambuzando de tecnologia e de internet porque até outro dia tais facilidades não existiam. É como se estivéssemos gastando o que dá antes que tudo se acabe.
Mas é uma questão de hábito, uso e educação – esse é o nosso desafio para com as ferramentas digitais que estão moldando sim uma nova cultura. Não há escapatória – este novo romantismo é tão reacionário quanto o primeiro, que achava que a era industrial ia destruir uma paz no campo que só existe na cabeça de quem nunca morou no campo. Já escrevi inclusive sobre como essa venda de cocos na praia ou essa choupana rural é ilusória se isolada do resto da sociedade. Esse Walden só é possível mentalmente e talvez seja isso que Jarvis Cocker esteja pregando no manifesto neo-trogolodita: a volta para a caverna da mente.
* Duas N. do T. em relação ao texto de Jarvis Cocker: A frase “tights come down” (“calças caem”) não faria sentido ao ser traduzida literalmente porque é parte de uma brincadeira fonética em inglês para decorar a diferença entre estalagmites (que saem do chão) e estalactites (que saem do teto). A expressão completa é “Mites come up, tights come down” e é traduzida literalmente como “insetos sobem, calças descem” para lembrar a direção de ambas formações a partir de seu sufixo: “mites” lembra “estalagmite” e “tight” lembra “estalactite”.
** A segunda nota se refere ao acrônimo “Des-Res”, usado pelo mercado imobiliário inglês para explicitar que determinado imóvel (especialmente após reformas) é uma “residência desejável” (“desirable residence”, “des res”).

Escrevi no blog do UOL sobre como a lenta morte do CD traz um questionamento importante sobre a preservação da memória do futuro digital. Veja lá: http://matias.blogosfera.uol.com.br/2015/03/09/nao-jogue-fora-os-seus-cds-ainda/
Não jogue fora os seus CDs – ainda
Quem ainda compra CD? No mês passado a rede de cafés Starbucks anunciou que não venderia mais discos. O anúncio parece banal e corriqueiro, ainda mais num 2015 em que carros e computadores já saem das fábricas sem leitores de CD e em muitos lares o único CD player é o home-theater comprado para ver filmes ou assistir TV. Mas há dez anos a franquia hipster de frappuccinos parecia vir salvar esta indústria, que vivia seus dias de pane. No mundo da música digital e da renascença do vinil (ainda como um mercado de nicho) o CD virou um objeto estranho, uma mídia pária que vende cada vez menos mas que ainda é o denominador comum nas grandes coleções de música existentes, virtuais ou não. E embora sua morte já vem sendo anunciada desde o início do século talvez não seja a hora de você se desfazer de sua coleção de CDs. Nem de cravar que o CD morrerá em poucos anos.
Você se lembra de 2005. O século digital mal havia começado quando, em 1999, o Napster ateou o fogo do compartilhamento gratuito de arquivos entre computadores que abriu uma torneira de downloads piratas. Todo mundo baixava tudo que podia ao mesmo tempo em que uploadava raridades, discos favoritos, registros inéditos de suas próprias coleções. Desacostumadas a perder dinheiro de tal forma, as gravadoras multinacionais partiram para o ataque. A música digital causou um revés considerável na venda de discos e em vez de adotar o Napster para suas engrenagens, as grandes gravadoras passaram a vilanizar a internet e processar engrenagens que facilitavam o download ilegal. Além de promover uma guerra de desinformação que dizia que os piratas estavam “matando a música”, quando o que estava morrendo, na verdade, era apenas o suporte. Mas as gravadoras faziam questão de misturar os dois conceitos para jogar com a culpa de quem baixava música de graça. Enquanto isso Steve Jobs percebia a lacuna no ar e transformava seu software iTunes em loja online e vendia iPods como se estivesse reinventado a roda (ou, melhor dizendo, o Walkman).
E por mais que as majors tivessem conseguido derrubar o Napster, ele foi só o primeiro. Pelos anos seguintes gravadoras acionaram departamentos jurídicos para aniquilar novas empresas criadas por jovens programadores para ocupar o vácuo deixado pelo primeiro software. As empresas eram batizadas com palavras inventadas, sufixos e prefixos grudados a palavras que poderiam instigar alguma curiosidade em novíssimos consumidores: Audiogalaxy, Edonkey, Limewire, Shareaza, Kazaa, Emule, Gnutella, Grokster, Demonoid, Sharereactor, Rapidshare, Bitorrent, Soulseek, Megaupload, Isohunt, Mininova, ThePirateBay. De certa forma, esses serviços acabaram antecipando a era das startups, a economia dos aplicativos e as redes sociais.
A crise no mercado fonográfico inevitavelmente mexeu primeiro com as lojas de discos, da mesma forma que o CD já havia mexido dez anos antes. Era o momento da falência de templos da música antes inabaláveis, como as megastores Virgin e Tower Records, que em outras eras foram responsáveis pelo fechamento das pequenas lojas de disco. E se as lojas pequenas haviam fechado nos anos 90 (com a ascensão do CD) e as grandes pareciam seguir o mesmo caminho, onde o artista não-digital conseguiria vender seu disco físico?
Foi quando a rede Starbucks surgiu como uma das luzes no fim deste túnel e em 2005 lançou seu primeiro projeto musical, o CD Live at the Gaslight 1962 que flagrava um jovem Bob Dylan tocando em um café (hehe) do Village, em Nova York. O disco foi lançado pela Columbia (a gravadora de Dylan), mas a rede de cafés tinha exclusividade na venda do título pelo primeiro ano. Vieram outros discos e projetos e em dois anos a própria rede de cafés estava lançando seus próprios álbuns, de coletâneas do Sonic Youth a discos inéditos de Paul McCartney, Elvis Costello, James Taylor, Cars, Sia e Carly Simon, entre outros.
Tempos estranhos aqueles em que as gravadoras pareciam não se importar com música, e outras empresas, que vendiam outros produtos que não tinham nada a ver com música (como os cafés Starbucks ou a Apple), começavam não só a faturar o dinheiro que antes era dos vendedores de disco como a se tornar referência do novo mercado e lançadoras de tendências. A primeira metade da década passada viu bandas e artistas procurando patrocinadores que pudessem lhes dar uma nova forma de contato com o público. Discos eram vendidos dentro de aparelhos celulares como se o fato de um disco vir com a íntegra digital de um CD da Ivete Sangalo ou do Killers pudesse fazer diferença para quem o compra. As redes sociais viriam a seguir criando uma nova classe de artistas que se estabelecia diretamente junto ao público, criando cultos em sites de relacionamentos, multiplicando visualizações online de clipes ou quantificando comentários e concordâncias (em forma de likes ou RT) pra justificar o próprio preço no novo mercado. E se antes contávamos os milhares de discos vendidos, hoje contamos cliques e views, números que normalmente enchem o bolso de empresas que pouco se importam com música.
Aconteceu que entendemos que a música não é mais um produto e sim um serviço que pode ser oferecido através de diferentes dispositivos – até mesmo em CD. A morte do compact disc, já anunciada há anos, não virá tão rapidamente quanto a “morte” do vinil, que já deixou de ser fabricado no Brasil e hoje vive dias de ouro impensáveis há dez anos. O formato físico digital vem sendo esvaziado junto com seus outros dois primos DVD e Blu-ray, que ainda encontram sobrevida graças ao vídeo. As vendas de compact disc caem anualmente à medida em que aumenta o consumo de música digital, seja através do download pago ou de serviços de assinatura. O fato da rede Starbucks parar de vender CDs é só mais um novo prego nesse caixão fechado em câmera lenta.
E bota lentidão nisso, pois a sobrevida do CD não depende apenas de sua obsolescência e sim de uma forma duradoura de reter arquivos digitais, sejam de música ou não. Os formatos de armazenamento digital são inúmeros e ainda não há uma padronização plena para arquivos eletrônicos. Sistemas operacionais e aparelhos que também tocam música são atualizados e trocados com uma constância tão ágil que não raro impossibilita o acesso a formatos digitais de anos anteriores – sem contar empresas que abrem e fecham deixando links quebrados, serviços órfãos, clientes a ver navios. O vinil é impraticável para relançamentos mais extensos, como caixas com sessões raras de gravações de clássicos ou discografias inteiras que ultrapassam dezenas de horas. Mesmo as dezenas de milhões de faixas oferecidas pelos serviços de streaming não incluem versões alternativas, remixes obscuros, acervos de gravadoras esquecidas pelo tempo ou canções originais dos Beatles. O CD ainda é o mais próximo que temos de um padrão universal aceito para arquivar músicas atualmente. Nenhuma mídia é tão segura e prática ao mesmo tempo.
Sem contar a imensa quantidade de música que só foi lançada neste formato – são praticamente 30 anos de uma produção musical que só foi registrada em discos prateados que, se não forem guardados do jeito certo, podem descascar, empenar, riscar ou perder todos seus registros. Não apresse-se para jogar sua coleção de CDs fora como muitos fizeram com suas coleções de vinil – ainda vamos entrar na fase ~vintage~ do CD e veremos edições lacradas de discos dos anos 80 ganharem altos lances no eBay e listas dos CDs mais caros e raros de todos os tempos.
Na verdade, a morte do CD nos expõe um problema grave na nossa realidade digital: como registrar o acervo de toda a história que acontecerá nos próximos anos? O meio eletrônico é novo o suficiente para não conhecermos suas limitações a longo prazo e todos nós já perdemos informações preciosas por culpa de um problema num disquete, pendrive, HD ou drive online. Nem mesmo CDs estão imunes às bombas sujas do futuro que, com pulsos eletromagnéticos, podem apagar servidores de dados inteiros.
E, de repente, nos lembramos que o papel, tão anacrônico, politicamente incorreto e cafona nos dias eletrônicos, é um dos poucos suportes que atravessou milênios, em alguns casos intactos. Mas isso é outro papo.
E você, ainda compra CD?






