A ficha ainda não caiu. Conheci o Marcelo no começo de 2001, quando eu editava a Play na Conrad e ele bateu na minha porta oferecendo frilas – que, pautas boas que eram, aceitei de pronto. Desde então, sempre trombava com o cara – em shows, eventos de tecnologia, festas e em minhas idas solitárias ao Rio de Janeiro no início desta década. Eram encontros rápidos, em que continuávamos algum papo recente que tivemos via email ou comunicador instantâneo ou a estranha coincidência de conhecermos mais uma – dezenas! – pessoa em comum. Piadas idiotas sobre coisas que aconteciam em nossa frente, sorrisos sempre amplos e gargalhadas explosivas, súbitos comentários sérios sem ser chatos e uma capacidade instantânea de se adaptar a qualquer papo: as conversas com Marcelo, por mais pontuais e esporádicas que fossem, eram parecidas umas com as outras, como um grande e longo papo picotado por períodos de desencontro. Mudava-se o ambiente, as pessoas ao redor, a quantidade de barulho – mas Marcelo era sempre o mesmo, com o mesmo tipo de humor e temperamento, reflexos de sua personalidade e caráter. Quem me falou de sua morte repentina (um ataque cardíaco no meio da madrugada de sexta) foi a mesma Marsílea que, após mudar-se para o Rio, falou que estava trabalhando com um amigo meu no Jornal do Brasil – era o próprio Marcelo. Não foi fácil entrar no site do cara e ver ele comentando o assunto de uma matéria que eu estava editando para o Link da semana que vem – a sensação de lê-lo comentando algo tão recente fazia parecer que sua morte pudesse ser uma espécie de transferência para o meio digital, sua consciência blogando o que achava das coisas mesmo depois de ter deixado nossa realidade analógica. Eu disse que a ficha ainda não tinha caído.
O Bruno, a Elis, o Fabio, o Dória, o André e o Henrique também falaram sobre Marcelo. E a foto que ilustra o post – e que está no Flickr do Marcelo – fui eu quem tirei, quando fomos a San Francisco no início de 2008 cobrir o lançamento do Macbook Air).
Não curto essa onda online de neguinho que faz site só pra esculhambar desavisados. É um desdobramento gigantesco do comportamento online e abrange desde os inocentes que povoam o Pérolas do Orkut aos blogs de desconstrução de celebridades (onde, não custa elogiar, o Te Dou um Dado dá uma aula de edição para essa era pós-reality show) e inclui famosos anônimos, anônimos famosos e personagens como Katylene e Felina, só pra ficar na superfície do assunto. Não desaprovo (parte da reinvenção da época em que vivemos está saindo daí), mas sequer assino os feeds. Mas confesso que há alguma coisa além nesse tumblr carioca chamado Você Não é Hipster, Você é Cafona. Afinal, o braço do “moderno/cool” também está se desfazendo nos dias de hoje e seu poder vem sendo igualmente pulverizado como o de qualquer detentor de autoridade do século passado. E, em crise, passa a conviver na fronteira entre o velho e o novo (que, neste caso, é o cada vez mais subjetivo limite entre o brega e o chique), caindo numa espécie de loop de ironia que, felizmente, começa a ser desmascarado.
Tem a ver com o culto ao Animal Collective, mas isso é papo pra outro dia.
Que ler as notícias pela internet um dia foi assim:
Imagine o que dirão dos hábitos de hoje…
O Spyer comentou o show de Marcelo Camelo na Virada Cultural e aproveitou para linkar uma entrevista que o hermano deu para uma rádio portuguesa em que ele fala da importância da internet para a sociedade. Na verdade, a rede é abordada em dois trechos: no primeiro, ele fala da descoberta da autonomia digital pelo cidadão online (o elemento 2.0, o prosumer, de acordo com outros pensadores), que o faz desandar a falar sobre o projeto de educação alternativa português chamado Escola da Ponte. E logo depois, ele emenda uma crítica sobre como a separação entre mercado vigente e alternativo parte do fato de termos, até a chegada da rede, poucos gargalos que afunilam informação. Releve o jeitão quase hippie de Marcelo – o que ele está falando parece óbvio para muitos, mas funciona como uma revelação para boa parte das pessoas que, em pleno século 21, ainda se informa usando apenas rádio, jornal e TV. A íntegra da entrevista (em que ele ainda fala sobre seu trabalho solo, o intervalo nos Hermanos e seu interesse pela música portuguesa) pode ser baixada no link abaixo do player, mas só separei para ouvir o trecho em que ele fala sobre internet.
E a Ju passa um link com todas as coordenadas para quem quiser ajudar com as vítimas da chuva. Ajudar não custa nada.
A introdução composta por um zunido repetitivo abre a música como se o Daft Punk da fase “Robot Rock” estivesse experimentando uma áudio-hipnose gerada por uma furadeira. E quando Britney começa a cantar – monocórdica, monótona, robótica, mecânica – a faixa ganha ainda mais contornos artificiais, mesmo que sua sensualidade de plástico atice algum vestígio de humanidade. Quando ela entra no refrão – “Womanizer” quer dizer “Mulherengo”, imagina um refrão que repete essa palavra nove vezes seguidas -, Britney já extrapolou as fronteiras entre jingle e o single, o hit e o repeat. Termos como “comercial” e “pop” ganham novas dimensões à medida em que a diva fake dispensa outro jovem popstar que vem bater em sua porta com uma música incrivelmente grudenta, bubblegum para a era eletrônica. “Womanizer” não chega nem aos calcanhares das melhores faixas de Britney (“Toxic”, “Baby One More Time”, “Slave 4 U”, “Gimme More”), mas é boa o suficiente para figurar entre as melhores do ano. E sedimentar a carreira cada vez mais sólida de Britney Spears.
18) Britney Spears – “Womanizer“
Olha quem está falando que a internet é uma ameaça:
“It really almost makes you ask the question would it have been better if we had never invented the internet,” Rockefeller mused during the confirmation hearing of Gary Locke (see video), Obama’s choice for Commerce Secretary. He then cites a dubious figure of three million cyber “attacks” launched against the Department of Defense every day. “Everybody is attacked, anybody can do it. People say, well it’s China and Russia, but there could be some kid in Latvia doing the same thing.”
Que historinha, hein… E justo vindo de um Rockefeller… Me lembra o papo que o Lessig comentou, de que uma versão digital do “patriot act” (o conjunto de leis que o governo americano tirou da gaveta assim que o 11 de setembro aconteceu) estaria pronto para ser executado, caso um ataque de maiores proporções aconteça. E o melhor desse ataque é o seguinte: ninguém precisa morrer, ninguém precisa ser acusado de suspeito, nem disparar bombardeios para que os EUA – ou, melhor, a ONU – fechem a internet como a conhecemos hoje e a tornem completamente monitorada.
Tem a ver com a tal lei do Azeredo, com aquele problema com os novos termos de uso do Facebook e, em última instância, com os direitos civis de todo mundo.
E que tal essa: Obama pode DESLIGAR a internet apertando um só botão. Durma com um barulho desses…
Acho que é cedo pra falar disso, mas prestem atenção em como se desenrola o novo projeto do Forasta, o Bis. Justo ele, que passou anos renegando sua melhor qualidade, escrever sobre cultura pop, finalmente volta ao ramo, desenterrando até mesmo alguns zumbis editoriais. E com a atual ausência de conteúdo da emissora misturada com a lógica 2.0 por trás desse novo projeto, resta saber se isso pode criar um bom site de pop no Brasil ou se é só mais um sinal de que a volta dos anos 90 está para acontecer.






