Demorou, hein.
Lembram desses “episódios pra celular” (se o termo já era cafona há três anos, imagina como vai envelhecer…) que eram uma subsérie de Lost, chamados Missing Pieces? Esse é o número 13.
O designer norte-americano Adam Campbell criou esse jogo de mentira em seu Flickr.
Eis o adeus do Hurley em seu blog.
Via Foursquare – daqui.
Haja emoção.
Ser original nos anos 10
Lost além da cultura do sample
Adaptação para o Twitter do livro tal, remake daquele outro filme para a TV, uma nova versão do clássico não-sei-o-quê em formato de games, um clássico da literatura misturado com zumbis, o herói fulano dos quadrinhos que virou brinquedo… A quantidade de produtos culturais lançados diariamente parece inversamente proporcional à quantidade de títulos originais. Tudo parece remix, remake, adaptação ou mashups de temas clássicos, recorrentes ou manjados.
Menos Lost.
A série, que se arrastou por seis anos e chega a um fim retumbante neste domingo nos EUA, é um dos pouquíssimos exemplos de uma história contada em escala global que não se apoia em uma estrutura narrativa já estabelecida para apenas criar novos nomes para personagens conhecidos. Harry Potter e alguns títulos de quadrinhos e games são outros. Mas o que Lost fez é inédito.
A série criou uma história particular que, apesar de fazer referência a outras sagas, partiu de um zero completamente novo. Mesmo quem não acompanha a série sabe do avião que caiu numa ilha, do monstro de fumaça, dos ursos polares, dos flashbacks e flash forwards ou da Iniciativa Dharma. Pode não saber como isso tudo se amarra à história, mas seus ícones já estão estabelecidos, mesmo que o final seja frustrante para os fãs mais ferrenhos.
Não que isso nunca tenha sido feito (os universos dos super-heróis, Guerra nas Estrelas e Arquivo X são apenas alguns exemplos). O ineditismo de Lost diz respeito à era digital, de referências, samples e citações – e na insistência de seus criadores em contar uma história nova. Pode procurar: são poucos os que se atrevem a ser originais hoje em dia. E esse atrevimento pode ser reconhecido.
Primeiro online
Iñarritu vê a Copa do Mundo
A Nike lançou nesta semana, na internet, um comercial inacreditável. Dirigido pelo mexicano Alejandro González Iñárritu (o mesmo diretor de Babel e 21 Gramas, o curta de três minutos mostra seleções de futebol de países diferentes durante uma Copa do Mundo e as consequências que podem acontecer a cada um dos jogadores. Estrelado por ícones do futebol atual (Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Fabio Cannavaro e o brasileiro Ronaldinho) Write the Future mostra como um simples drible ou chute a gol pode mudar completamente o destino de um jogador. O clipe ainda conta com participações do tenista Roger Federer, do jogador de basquete Kobe Bryant, do ator Gael García Bernal e de Homer Simpson (sério!) e, de um jeito ou de outro, se encaixa dentro da filmografia de Iñárritu. Para assistir, entre
no site www.nikefootball.com
No último Encontro Estadão & Cultura, evento que ajudei a bolar no meu trabalho oficial como editor do Link, me vi mediando um papo com o Flavio Moura da Flip e o Samuel Titan do Instituto Moreira Salles. O tema à mesa era literatura em tempos digitais e pegávamos notícias e números sobre Amazon, Apple e Google para ampliar os rumos da experiência da leitura para além do papel. Logo instaurou-se um consenso de que o digital ainda engatinhava, mais deslumbrado com as possibilidades multimídia do que efetivamente usando-as de forma criativa, enquanto a narrativa escrita, textual, em que o autor tira a cabeça do leitor para dançar, fica cada vez mais reservada ao livro de papel, cujas melhores qualidades são exibidas apenas como metáfora nos dispositivos digitais de leitura.
Fala o Flávio (aos 2m25 no vídeo acima):
“Confesso que não tive nenhuma experiência estimulante e também não sou dos mais interessados, isso tem um lado muito daquele sujeito que gostava de jogar RPG, sabe aquele tipo que vai por essa linha? Por enquanto sou um pouco cético sobre essa possibilidade de você ter um livro que tem um vídeo ou um áudio esquisito do autor.
Acho que isso tudo tende a ser ruído na experiência de leitura. Pode ser uma postura conservadora. Mas você pega um autor super consagrado recentemente, esse alemão Sebald. Alguns livros dele têm imagens, fotos. Ele tem um tom um pouco autobiográfico, ensaístico, e à certa medida da narrativa você vê algumas fotos, geralmente preto e branco, embaçadas, e você acha que elas vão esclarecer alguma coisa da narrativa, mas na verdade elas deixam as coisas mais turvas, tornam o entendimento muito mais embaçado, complicam um pouco o que deveria ser uma tarefa da fotografia, elas não estão ali para ilustrar nada, elas estão ali pra lhe lembrar o tempo inteiro que você está num jogo entre verdade e ficção e que isso é o poder literário desse livro.
De certa medida é como se fosse um hipotexto em vez de um hipertexto, que é o negócio clássico da internet. Isso eu acho uma coisa interessante e extremamente literária, se houver gente capaz de pensar coisas nessa direção se valendo dessas novas possibilidades tecnológicas, eu acho maravilhoso. Agora só colocar uma entrevista com o autor no fim do e-book ou colocar um videozinho com um filme que remete àquele livro ou coisas meramente ilustrativas… Isso não me parece muito interessante. Só diz contra a experiência de leitura como uma coisa pessoal e que exija uma certa concentração e uma certa relação com seu tempo que é cada vez mais rara, que é poder se retirar dessa confusão.”
Samuel, do outro lado (aos 4m55 do mesmo vídeo), concordava:
“O Flávio tocou no ponto central. Nós estamos embarcando muito rapidamente e ingenuamente na idéia de que tudo tem que ser explicado, acessível, digerível, os enigmas têm de ser solucionados o mais rápidamente possível, quando qualquer leitor de literatura sabe que a experiência de leitura vai na contramão disso. Muito da experiência de ler um romance, uma peça, seja o que for, está em se deixar capturar pelo enigma. E nesse sentido a gente fica louvando as possibilidades de explicação, de acessibilidade, de resolução de problemas do livro digital como se essa fosse a questão central da leitura ou de qualquer leitor de literatura que de fato se entrega àquela experiência específica. Se você não está a fim dessa experiência, então vamos parar de falar de e-books e vamos falar de qualquer coisa, mas não vamos falar de leitura. E não que eu seja cético, é que eu acho que a questão está mal posta. Não é por aí que nós vamos tornar a leitura mais intensa ou mais produtiva ou mais interessante. As outras não ficarão mais interessantes porque basta eu clicar aqui ou apertar ali para que desta obra eu passe pro dicionário, pro site, pra entrevista e assim por diante. Então, acho que, pro domínio da literatura, não acho que há nada de muito interessante já em curso. E eu não consigo imaginar, dado esse caráter de claro enigma, pra citar o Drummond, que talvez esteja no coração da literatura, eu não sei que tipo de aporte que o livro digital poderia trazer.
Parece que uma nova era se abriu com a chegada na cena do Kindle, do iPad e do Sony e-reader e assim por diante. Mas se a gente voltar um pouquinho, qual é o prólogo, qual é o capítulo imediatamente anterior desse momento que a gente vem vivendo? E a gente pode tentar imaginar quais são os vários vetores por trás dessa transformação que a gente tá vivendo agora. Há muito tempo, a comunicação e a produção científica, a troca de idéias na comunidade científica vem se fazendo não só na forma impressa, mas na forma de documento digital. O PDF, que ainda tem esse aspecto simpático, que pode ser aberto em qualquer em qualquer computador, não está preso a esta loja ou àquela marca, se transforma no veículo universal da comunicação acadêmica. Se eu publico um artigo numa revista tal, em vez de mandar pro Flávio o número da revista porque provavelmente é muito caro e toma muito tempo até chegar à caixa postal dele, eu mando em formato de PDF. E ele faz o mesmo com as coisas que publica. Nas ciências naturais, isso é vertiginoso. Os físicos trocam idéias via PDF há muito tempo, trabalhos, papers. O paper científico só se chama papel no nome, porque há muito tempo ele é um veículo digital.
Corta pra sábado, dez de outubro do ano passado, num saguão de um hotel com vista pro Times Square, em Nova York, eu perguntava pro Clay Shirky:
Dá para comparar as mudanças que vemos hoje com alguma outra mudança histórica?
Sim, com a invenção da cultura impressa, outro período em que o enorme acesso à informação mudou tudo. E quando ela apareceu, havia o temor de que ela centralizaria a cultura. A nova tecnologia permitiria que todos pudessem ter acesso a livros, mas sempre aos mesmos títulos, e a noção de cultura se tornaria mais massiva, ainda mais porque era controlada a pela Igreja Católica. O que aconteceu foi o contrário – e até hoje eu fico impressionado como a Elizabeth Einseinstein fala bem sobre essas mudanças sociais em seu livro A Revolução da Cultura Impressa (Ática, 1998).
Em vez de um mesmo livro ser lido por milhares de pessoas, uma pessoa podia ler milhares de livros. E o choque da diversidade – de formas de pensar e viver – virou o mundo de cabeça para baixo. A internet é uma ferramenta para acessar informação, isso é óbvio, mas é uma ferramenta muito mais importante para conectar uns aos outros. E a variedade de formas de pensar e viver está apenas começando a crescer porque, de repente, a idéia de nicho – você achava que era a única pessoa do mundo que gostava de determinada coisa ou que fazia uma atividade de um jeito diferente – pode ser expressa socialmente. Antes da consolidação da internet assistimos a diferentes movimentos – como a questão ambiental, a luta pelos direitos civis ou os direitos do consumidor – que começaram localizados e se tornaram globais.Essa mudança poderia acontecer sem a invenção da internet?
Perceba o seguinte: embora a revolução científica não fosse possível sem a invenção da cultura impressa, ela não foi a causa da revolução científica. O que vemos com a internet é a ascensão de uma plataforma que permite o pensamento global numa época de problemas de escala global. Esse foi o ponto da revolução científica: não foi que os cientistas descobriram que havia a mídia impressa em que eles poderiam publicar suas descobertas, mas o fato de eles perceberem que precisavam de uma cultura em que uns lessem o que os outros estavam fazendo e em que pudessem se desafiar uns aos outros. O foco agora deve ir para essas normas culturais que podem mudar a forma como usamos a internet.
Volta pra Livraria Cultura, dia 14 de maio de 2010, em São Paulo, do lado da Livraria Cultura. Com a palavra, Samuel (aos 7m01):
Todos concordamos que estamos num momento de limiar. E estamos nos primeiros capítulos do que vem pela frente. E a melhor aposta é numa fecundação dos vários veículos, das várias linguagens, que estão à nossa disposição. O mais tedioso num certo tipo de discussão sobre o digital que se alastrou pela imprensa e pela web nos últimos meses é que agora todos somos digitais e isso é uma espécie de tabula rasa, que todos nós devemos passar por cima todas nossas experiências, para começar como que do zero. Acho uma versão pobre dos acontecimentos e uma versão pobre do digital. Acho que o mais interessante do digital, para quem vem vivendo isso nos últimos quinze anos, é o tipo de possibilidade e de intercâmbio que ele abre com outras formas, com outras linguagens, com outras plataformas. É esse âmbito que promete coisas mais interessantes.
Daqui a pouco começa The End.
* Eu não vou me apresentar, né… Já foi esquisito dar esse título e fora que eu acho que quando a pessoa começa a se referir na terceira pessoa é o primeiro sintoma evidente de maluquice. Quem quiser saber mais sobre o meu vício em Lost leia a entrevista que eu dei pro Vírgula. Quem quiser ler outro texto que escrevi sobre a série, tente minha coluna de hoje no Caderno 2. O texto sobre o final de Lost vai demorar um pouco pra aparecer, semana que vem é quase uma semana de folga. Mas o último Comentando Lost vai ao ar amanhã, junto com a edição do Link da semana, etc. O Sujo segue indo, mas em ritmo de dub.
Lost é um fenômeno cultural, não apenas uma série de TV. A narrativa cortada, os desdobramentos online e principalmente a maneira com que a estratégia do mistério foi capaz de engajar uma audiência global e simultânea é um marco. Se você não é fã da série e não aguenta mais esse assunto, prepare-se: é um acontecimento que será estudado e analisado por muito tempo ainda. É exatamente por isso que acompanhar a derradeira temporada tornou-se obrigatória não apenas para os maníacos pela ilha, mas por qualquer um com o mínimo de interesse nas muitas áreas do entretenimento.
Foi exatamente essa última porta que me trouxe ao último capítulo nesse domingo. Tendo acompanhado boa parte da primeira temporada e desistido de Lost por absoluta falta de paciência para ocupar a cabeça tentando desvendar a intrincada trama. Escaldado com a frustração da conclusão da trilogia Matrix, preferi deixar passar. Porém, antes da ducha de água fria, naqueles seis meses entre Matrix Reloaded e Matrix Revolutions qualquer encerramento da saga de Neo era possível. Em meio as intermináveis discussões sobre o que poderia acontecer, uma única certeza resistia: após o lançamento do terceiro filme provavelmente ninguém viveria esse período de especulações. A resposta estaria, para sempre, a um clique de distância.
Bombardeado pela apreensão dos fãs de Lost antes do início da sexta temporada, percebi que algo parecido estava acontecendo. Com a diferença de que era algo com alcance ainda maior, afinal Lost é um programa de TV. Se quisesse viver esse momento cultural histórico com o mínimo de envolvimento, incrementando a experiência social, a última chance era essa, nem que fosse entrando pela janela, através de resumos e mais resumos de cada uma das temporadas anteriores.
Seja como for, tornou-se impossível escapar do assunto, até quem não assistiu um episódio da série sabe um bocado sobre ela. Sugado pelos segredos da ilha, não demorou muito para entrar em rota de colisão com os fãs mais radicais. Um dia, ao fazer um comentário sobre a fotografia do episódio na noite anterior no Twitter (imaginando que se até eu já havia assistido, todos deveriam ter assistido também), falei mais do que devia e tive uma fatwa decretada em meu nome. Havia cometido o mais vil dos pecados, um spoiler, e questão de segundos estava chovendo xingamento para mim.
O ocorrido serviu para ilustrar como são delicados os tempos atuais em termos de informação. Ao mesmo tempo que os episódios são disponibilizados na rede menos de um hora após serem exibidos nos EUA, as pessoas continuam tendo cada uma o seu tempo para assistir. Tem os apressados que correm pra ver, tem gente que espera até final de semana, tem gente que espera acumular para assistir vários episódios em sequência. A mudança na distribuição do conteúdo interefere inclusive na maneira como algo tão banal quanto um programa de TV é conversado nas ruas. O fato de Lost, tão dependente da expectativa, ter conseguido prender atenção de milhões de pessoas nessas circunstâncias é uma vitória por si só.
Nesse domingo a série chega ao fim e estaremos todos finalmente livres para falar o quanto quiser sobre Lost e finalmente poder discutir o final dessa história. Isso é, se as respostas vierem. O que aliás, pouco importa e pouca gente quer. O segredo da longevidade de Lost promete mesmo ser o eterno mistério.
* Bruno Natal foi quem teve a idéia dOEsquema.








