Será que King of the Limbs é o disco… duplo? Primeiro veio o editor do NME lembrar que a última música chama-se “Separator”. “SEPARADOR”. Sendo que antes a mesma música já havia aparecido antes em shows com o nome de “Mouse, Bird, Dog”.
Depois veio a repórter do Guardian que está acompanhando o lançamento avisar que alguém próximo à banda avisou que amanhã teremos novidades no YouTube. Só no YouTube?
Lembrem-se como o disco que conhecemos até hoje termina, né?
Is this real life?
Que jeito de começar a semana!
Sim: disco novo do Radiohead no horizonte. Sim: novo conceito ahead (“newspaper album” wtf ou ftw?). Sim: eles estão cobrando por música online (nove dólares é um bom preço?).
Esse tal de 2011 tá saindo melhor que a encomenda, hein…
Como assim, Radiohead? Não me venha com essas:
Fred lembrou do Tom Zé.
Que ainda tem essa outra capa, mais jornal ainda (valeu, Marcio):
Marcio ainda lembrou dessa aqui, heheeheh.
E o Carlos lembrou dessa, do Bocato, que eu nem manjava:
E o Luís e o Lou ainda mandaram essa:
Alguém chuta o que pode ser? Um aplicativo pro iPad? Um novo pacote de revelações do Wikileaks? Um disco que é atualizado diariamente?
Minha coluna no Caderno 2 ontem foi sobre o Twitter em 2011…
O último ano do Twitter?
O passarinho azul subiu no telhado – e parece que vem outra bolha por aí…
Tweets, trending topics, retweets, seguidores, hashtags, unfollow, #FF, @username… Toda essa terminologia já era conhecida de um punhado de usuários do Twitter antes da explosão da rede social, em 2009. Em 2010, o mundo inteiro abraçou o site – até mesmo o Brasil, tradicionalmente acostumado a uma vida digital paralela à do planeta, entrou na rede em grande estilo, emplacando vários termos e hits nacionais para o resto do mundo. Mas se em 2010, o Twitter indicava ter embalado num crescimento que parecia não ter volta, 2011, no entanto, dá sinais que pode ser o último ano da rede social do passarinho azul. Ou pelo menos como a conhecemos.
O Twitter já vinha dando sinais de desgaste no fim do ano passado, quando o tráfego de dados na rede caiu drasticamente em outubro, segundo o site Alexa. Especula-se que a queda só não foi maior pois a rede social foi traduzida para novos idiomas e começou a agregar usuários em países em que ainda não estava presente. A queda de audiência poderia estar ligada à nova interface do site, que estreou no segundo semestre do ano passado e desagradou muitos de seus cadastrados.
A crise política no Egito também ajudou o Twitter a ganhar uma sobrevida e pareceu repetir o feito de 2009, quando o site foi crucial nas eleições presidenciais do Irã. Como disse o comediante norte-americano John Stewart à época: “Não foi o Twitter que salvou o Irã. Foi o Irã quem salvou o Twitter”. Não é exagero dizer o mesmo do Egito em relação ao site. Só que o momento é exatamente oposto: em 2009, a rede social ainda não tinha vivido seu grande momento popular.
O principal aviso de que, provavelmente, o passarinho do Twitter pode estar com seus dias contados veio na quinta-feira da semana passada, quando o jornal Wall Street Journal publicou que os executivos da rede social estariam conversando tanto com o Google quanto com o Facebook para tentar vender o site – e teriam ouvido ofertas que pagariam entre US$ 8 e 10 bilhões pelo serviço.
Uma vez comprado – seja por quem for –, uma coisa é certa: o Twitter vai mudar. E, pelo histórico dos dois possíveis compradores, pode até acabar. Mas isso ainda é terreno de especulação.
Mas um número citado pelo jornal chama atenção – o de que a rede, hoje com mais de 150 milhões de usuários, teria sido avaliada em US$ 4,5 bilhões em dezembro. Em menos de dois meses seu preço dobrou? E se lembrarmos que, nesta mesma semana, o blog Huffington Post foi vendido à America Online por mais de US$ 300 milhões, não duvide que estamos às vésperas de uma nova bolha digital, como a de 1999.
Ah, esse novo do Toro y Moi… E vai sair no Brasil, cês viram? Show? É umas, hein…
Minha coluna no Caderno 2 de ontem foi sobre o jornal do iPad…
Um jornal para o iPad
E o futuro (fechado) da Apple
Na quarta-feira da semana passada, depois de muita especulação, finalmente foi lançado o jornal sem papel imaginado pelo magnata das telecomunicações Rupert Murdoch. The Daily é um jornal que só pode ser lido no iPad. Funciona como uma revista eletrônica diária, cuja diagramação se adapta à forma como se segura o tablet, além de conter conteúdo multimídia, como vídeos, áudio e infográficos em movimento. Cada edição custa US$ 0,14 (a assinatura anual custa US$ 39,99), mas, nos dois primeiros meses, o aplicativo é gratuito para os clientes da operadora norte-americana Verizon.
Mas mais do que uma tentativa de ver como funciona um veículo feito para ser consumido em apenas um tipo de aparelho, a aparição do Daily acontece junto de uma mudança drástica na política comercial da Apple. A empresa agora só permite que se baixe aplicativos gratuitos para seu tablet se isso ocorrer em sua própria loja, a App Store. De graça, agora, só se for via Apple.
É um momento interessante e, talvez, crucial para a sobrevivência do modelo de negócios ao redor do hypado tablet. Não custa lembrar que o iPod, o MP3 player que fez a Apple voltar ao cenário digital no início do século, só foi um sucesso de vendas porque permitia a inclusão de músicas que pudessem ser adquiridas em outro lugar além da loja da Apple. Será que se o iPod só tocasse músicas compradas na iTunes ele seria o sucesso que foi? Acho que não.
Outra nuvem que paira sobre o novo negócio da Apple é a própria presença de Rupert Murdoch, cuja empresa, News Corp., comprou o MySpace por meio bilhão de dólares em 2005. Foi o suficiente para a rede social, então a maior do mundo, começar a desandar. O futuro do MySpace, hoje, é mais do que incerto. Mau agouro?
E quem pode desafiar o poder da Apple e de Murdoch são os próprios usuários, como o norte-americano Andy Bayo, que pegou o conteúdo do Daily e o transformou em um tumblr (http://thedailyindexed.tumblr.com), aberto para quem quiser ler. Sem pagar.
Cara Microsoft
“Queria continuar no Hotmail, mas…”
O rapper Dan Bull ficou conhecido no fim de 2009 quando fez uma carta aberta em forma de vídeo à cantora Lily Allen reclamando do fato de ela ter sido descoberta na internet e na época se voltar contra os downloads ilegais. O alvo da nova missiva musical do norte-americano agora é a Microsoft. Num longo e-mail cantado, ele reclama que a empresa só dá passos errados hoje em dia.
Esse texto é do meio de 2003 (the frila years), quando um trabalho sobre cibersegurança me fez “ter que” contactar um guru da cultura digital brasileira no meio de um monte de executivos num evento no Itaim.
O motorista de Carter
Em meio aos seguranças da matriz
Os ossos do ofício me carregaram para um almoço executivo. Não sou afeito a tais manifestações, mas o fato é que não havia alternativa. Era preciso encarar um exército de engravatados na parca tentativa de estabelecer-se um mísero contato. Ah, grande era das comunicações, esta que vivemos. Tantas formas de travarmos diálogo e nada como o contato olho no olho, de corpo presente, para dar início a uma conversação de facto.
(Há de se levar o problema da idade em consideração – e não estou sendo simplesmente etário-preconceituoso. O fato de meu interlocutor, por mais entusiasta digital que seja, não ter o mesmo vínculo com o email que nós, nascidos depois de 1970 [eu sei, você nasceu um pouco antes, mas entende-se como “nós” – a linha aqui não é muito definida…], faz com que o contato eletrônico fosse apenas uma “troca de cartões”, para ficarmos na metáfora condizente ao ambiente em questão. Por maiores que sejam as qualidades da revolução eletrônica, elas tendem a ser abraçadas com mais força por pessoas que passaram a maior parte de suas vidas em contato com ela. É uma relação de proporção direta – é muito mais simples para mim do que para o meu pai escrever para uma interface web pública porque eu me acostumei com esse formato devido a uma vivência muito maior que a dele. É como aquela teoria que diz que a atual geração de personalidades da televisão é melhor do que a anterior, dita clássica, justamente por ter crescido vendo TV. Mas com o tempo, todos terão crescido vendo TV e todos terão crescido com o computador – e essa falha de comunicação não acontecerá mais. Problemas de transição, tamos acostumados. Você entendeu).
O fato é que lá estava eu, num hall de entrada de um prédio executivo num bairro executivo de São Paulo; desengravatado entre os engravatados. Confesso que a sensação de distanciamento objetivo é uma das minhas introspecções favoritas, mas é raro eu ter que senti-la fisicamente. Afinal, sou mediano em todas as minhas definições externas, talvez com a exceção da estatura e da tagarelice quando permitido (pelo cérebro). No entanto, não era a primeira vez que sentia que eu não pertencia ao grupo, falando em termos de aparência. Mas a ostensividade daquele ambiente fazia questão de impor-se a mim e a um ou outro gato pingado que não estivesse neste cosplay drag queen nazi corporate America chamado terno-e-gravata. KZ. Fuzilavam-me com o olhar, raios catódicos ao contrário que puxavam minha imagem para a parte de trás de seus cérebros, onde perguntavam-se: “Quem é esse? O que ele quer aqui? Conosco?”.
Mas você conhece a aura desses ambientes e sabe que tudo é muito fluido, tudo muito disfarçado – o jogo de cena é tudo. Por isso, nada de alardes ou testas franzidas. Apenas esgares medianos, olhares cruzados entre trocas de posições. As várias rodinhas de conversa ajeitavam os próprios quadris de quando em quando, para descansar a postura de pé , e nessa valsa disco music em câmera lenta (dois-pra-lá, dois-pra-cá, mas ninguém se encosta, a dança não é entre o casal, mas entre um grupo), quem ficava do lado de lá conseguia me ver melhor. Tantas perguntas, mas a hipocrisia reinante fazia tudo parecer muito natural. Natural a ponto de uma pessoa parar ao lado de um estande cheio de folders e começar a ler cada um deles. Foi o que eu fiz, para me distrair.
Falei em discoteca e é impressionante como esta antessala executiva me lembra uma pista de dança. Não uma pista de dança perfeita, mas essas pistas que a gente tá meio careca de encontrar: pouca mulher, várias rodinhas, música ruim, papo furado, xavecos fuleiros. Ugh. Melhor voltar pro folder: “…o sucesso da implementação de um novo serviço…”, o que é que tem mesmo?
Até que chega o bedel e recolhe o povo. “Acabou o recreio meninada, hora da refeição”. Todo mundo enfileirado rumo ao hall de elevadores, que levaria ao local da apresentação. Fui indo. Como quem não quer nada (eu só queria duas coisas), passei as outras rodas de conversa formadas na saída do elevador, no andar de cima, e fui logo para uma das mesas. Aos poucos, o salão foi enchendo e naturalmente chegaram ao meu redor.
Troca de sorrisos, troca de cartões, troca de funções. Estamos apresentando crachás uns aos outros, andando com etiquetas com nossos nomes, função e missão na lapela. Seguranças da matriz, agentes Smiths. Agentes de Adam Smith: Adão Smith, o primeiro homem executivo. Um dos abuletados brinca com o fato de quase todos estarem de terno (uma piada interna para menosprezar os que não estão?): “Certa vez li um artigo que dava dicas de como não ser confundido com um segurança”. Todos riram. Ele enfatizou seu próprio caso, afinal era negro – inegável -, e a loirinha a seu lado falou do fato de seu marido também sofrer do mesmo caso, em shopping centers. “Perguntam se ele não é o meu segurança”, ela diz. Todos riram. “Me confundem muito com o gerente”, diz um outro. Todos riram.
Mostre os dentes. Como um cavalo. É menos esforço do que o riso propriamente dito e tem o mesmo efeito. Fase insuportável, essa de apresentação. Todos contam historinhas idiotas, brincadeiras bestas, medindo-se. Nenhum toque a mais, tudo muito medroso. Parecem moleques no cinema, se mijando de medo de pegar na mão da menina. Observava tudo isso à distância, mas de vez em quando a abordagem virava-se para mim. Um clichê, uma frase de efeito, um caixa-surdo-prato verbal que demonstre a apreciação da piada recém-contada. Os garçons serviam bebidas e desajeitados executivos bebiam guaraná diet em copos de vinho.
Estamos em um limbo entre a etiqueta e a grossura, a finesse e o animal humano. Tudo aqui transpira fleuma de elite, mas o cheiro é de populacho. Quem esse povo todo pensa que está enganando? Certamente, a eles mesmos, isso é evidente. Mas, e fora deste circuito? É assim que eles funcionam? Provavelmente, não. Vejo esse arremedo de luxo como uma espécie de uniforme de irmandade, de pacto sinistro traduzido em polidez de araque. O garçom pergunta: “Vai mais aê, chefia?”. “Opa, rapaz!”, responde o bebedor. O vinho é caro, bem caro. Mas podia ser uma cerva, tanto faz.
Pergunto-me então o porquê deste travestismo social. Podiam realizar seus encontros em eventos informais, à beira da churrascaria, como bons executivos brasileiros em momentos de lazer. Mas, não. Algo naquele passeio de ternos e gravatas dava aos olhares a sensação de poder, de superpoder. Era como se pudesse estar na Sala de Justiça. Terno e gravata é um uniforme e tanto. Cosplay drag queen, blá-blá-blá, mas um uniforme de super-herói.
E todos me olhando como se perguntassem a razão de eu ainda estar em trajes paisanos.
O evento era o palco para meu contato, uma personalidade nova naquele universo, que preconizava o caos como solução para os problemas modernos – “problemas de transição”, suspiravam as paredes. Novas relações de trabalho, nova forma de encarar o consumidor, o papel da publicidade, revoluções culturais, o lugar da inovação, o novo governo. Era inevitável falar das mudanças de paradigma que estamos passando. E logo eu estava puxando a mesa para questões como música online e crise nas gravadoras, usando-as como exemplo imediato da ineficácia do mundo dos negócios a lidar com a, er, “mudança de paradigmas” que estamos assistindo hoje. Era mais ou menos a mesma coisa que o palestrante iria conversar, sabíamos. Metade da mesa se interessou pela conversa e logo o papo estava embalado.
Falávamos de horizontalização, do fim da hierarquia, da ação como melhor publicidade, do fato do mercado atual ser apenas o esqueleto mórbido do que já foi, só esperando a hora de ceder de uma vez. “O que é um banco”, perguntou-me o representante de universidade que estava do meu lado, “se não uma marca feita para lucrar a partir do trânsito de informações pessoais alheias? O que é a indústria automobilística, senão uma enorme gestora de várias outras pequenas indústrias? Essas duas instuições ganham muito dinheiro sem fazer praticamente nada, sem produzir nada. Não é à toa que estão em crise. E forçando outras crises”. Vieram à tona assuntos como software livre, a iminente queda de empresas gigantescas, o descrédito internacional dos Estados Unidos, propriedade intelectual e hábitos de consumo. Foi a melhor coisa que eu fiz, afinal de contas, ficaríamos apenas ouvindo o que cada um tem feito em sua própria empresa.
Resolvi tirar onda. E contei uma história que eu li há pouco, num livro do Tom Wolfe. Quase uma parábola, das diferenças das relações de poder entre a costa leste e oeste americanas e como esta diferença fez o lado de Nova York perder para o lado da Califórnia. Tudo a ver com a tal mudança de paradigmas… Como estava no meio de executivos da área, foi como se estivesse contando uma das lendas da Criação. Uns ficaram maravilhados, de olhos brilhando. Outros assentiam ceticamente, bebericando enquanto olhavam para a mesa.
Nenhum deles, no entanto, me olhava como estranho. Havia desconfiança no olhar de uns e entrega nos de outros. Mas todos estranhamente passavam a me ver com respeito, um respeito ao forasteiro. Engraçado o poder das palavras.
Entra o almoço, todos comem e em seguida o convidado é apresentado e põe-se a falar. No discurso, a história do software livre, da world wide web, da eletricidade, do movimento hip hop, da diferença entre hacker e cracker, da produção de hidrogênio, de que a esquerda e a direita sempre preconizaram a mesma coisa e só o movimento dos anos 60 realmente libertou as coisas. Muito para aquele público. Não para nós, daquela mesa do fundo. Ao meu lado, um cutucão e um sussurro: “Ele botou um microfone aqui nesta mesa, não foi?”, seguido de um riso cúmplice.
Não, nem foi. Não precisava. Depois da palestra, abriram para perguntas e comentários, e a maioria dos que pegou o microfone pigarreou contra a feliz novidade do século 21, que é o fim virtual da propriedade (se pudéssemos colocar nestes termos naquele local, talvez fôssemos expulsos, rapidinho…). Peguei o microfone e resolvi fazer o papel de escada, perguntando se toda mudança que ele falava não podia ser resumida na troca da verticalização para a horizontalização de poder. Foi quando uma mão pegou o microfone da minha e disse: “Conta aquela história”. Todos riram.
“Essa história deve ter sido contada muitas vezes, não apenas como uma espécie de amostra das diferenças de valores entre os executivos da costa oeste e da costa leste norte-americanas, mas como um dos inúmeros exemplos da mudança de paradigma que estamos assistindo. Robert Noyce era um jovem engenheiro do meio-oeste norte-americano que ganhava a vida como um dos primeiros cientistas a lida com o transistor, nos anos 50. Seu futuro seria brilhante: co-inventaria o microchip, inventaria o circuito integrado e o chip 1103 e daria início à produção dos microprocessadores nos anos 60 com sua própria firma, a Intel”.
“Mas no início dos anos 60, Noyce era apenas um dos líderes da Fairchild Semiconductors, uma das empresas mais bem-sucedidas do incipiente Vale do Silício, justamente devido às invenções de Bob – o 1103 e o circuito integrado. Sua doutrina de trabalho, capital para o sucesso daquele novo empreendimento, era a lei no Vale: não havia hierarquia, subdivisões de cargos, chefes disso, gerentes daquilo, privilégios, abonos, escritórios, vagas privativas. O estilo de Noyce, um dos dissidentes dos laboratórios Shockley, era uma das principais características do funcionamento das novas empresas de microengenharia – ou eletrônica, como começavam a chamar. Ali tudo era horizontal. O estacionamento era único, assim como o horário de trabalho. Não haviam paredes entre os funcionários, apenas divisórias de meia altura – até na sala de Noyce. Todos tinham exatamente a mesma escrivaninha, todos podiam convocar reunião a hora que quisessem, para tratar de quaisquer assuntos. Todos comiam a mesma refeição, usavam o mesmo tipo de roupa e eram igualmente instigados a sugerir, a dar idéias. Nada de ostentação, mesmo que todos ganhassem uma bela grana no que faziam. Trabalhar, para aqueles caras, era como estar na escola – sem professores”.
“Acontece que a Fairchild era uma empresa de um grupo nova-iorquino, investidor inicial no mercado de risco – à época – dos semicondutores e atual sócio da empresa. Os californianos viam os nova-iorquinos como pretensos europeus – ávidos por um poder feudal, de postos e cargos, funcionários exclusivos e secretárias pessoais, títulos de nobreza e lacaios à disposição. Para os novos executivos da costa oeste, os velhos executivos da costa leste eram uma monarquia decadente – com seus jantares em altos restaurantes, festas opulentas em clubes seletos, dinheiro queimado com marcas e exclusividades”.
“Um exemplo típico desta lógica decadente chocou-se com a realidade da Fairchild como um caminhão na parede da empresa, quando o presidente da Fairchild, John Carter, visitou a empresa. Com sua limusine e seu motorista, fardado como um militar prussiano, Carter foi conhecer a sede de sua rentável indústria de chips. Mas foi seu motorista que chocou seus funcionários”.
“Logo, todos estavam olhando pela janela, um funcionário que passa todo seu dia sentado, num carro, sem fazer absolutamente nada. Nada. Não era à toa que as empresas do Leste estavam perdendo dinheiro”.
E eu ali, sem terno-e-gravata, pensando naquela história. Pensando no que estaria errado naquilo tudo. Comendo uma imitação barata de petit-gateau. Que custou caro. Gastando meu tempo com coisas que eu já sabia, para falar apenas com uma pessoa.
Melhor não.
Sorri de volta e disse que não contaria, o resto da mesa insistiu, mas fiz charminho e devolvi o microfone de volta ao homem no palco. Ele falou da horizontalização e da verticalização mais ou menos como eu tinha imaginado, mas não iria surtir efeito. Não ali.
Depois, me apresentei pessoalmente ao sujeito que, para minha surpresa, já me conhecia. Trocamos “cartões”, discutimos idéias completamente distantes daquelas em discussão ali no local e ele me disse o que eu precisava saber. Contei rapidamente a história de Noyce e ele entendeu porque eu havia sublinhado a horizontalização num ambiente engravatado. Normal, mas meu trabalho estava feito. Com um nome e um telefone no bolso, segui meu rumo. Voltaria a me encontrar com aquela fauna futuramente, mas por enquanto, era só.
Falando nele…















