
De novo, sem fazer a menor reverência, Beyoncé surge com um clipe surpresa para uma das músicas inéditas que apresenta na versão deluxe de seu soberbo disco do ano passado. E o clipe de “7/11” é uma tiração de onda num nível que o hip hop não assiste desde o auge do gangsta rap – só que numa versão adequada ao feminismo desta que é uma das grandes artistas de nossos tempos. Palmas!

E um Arcade Fire vai sair em carreira solo. Will Butler, irmão do vocalista Win, anunciou essa semana que seu primeiro disco solo sairá pela Merge no início do ano que vem – e o teaserzinho em vídeo faz que o disco, chamado Policy, pareça promissor…

Em entrevista à rádio BBC 1 sobre sua carreira como compositor erudito, o guitarrista do Radiohead Jonny Greenwood confirmou que sua banda está em estúdio gravando o que deve ser o nono disco da banda. “Sempre sinto que quando começamos não temos como saber para onde vamos nem o que iremos fazer. ‘Procurar avenidas’ é um bom jeito de explicar esse processo de tateamento que fazemos, principalmente porque toda vez que começamos a fazer da mesma forma que parecia ter funcionado antes, nunca funciona. Então estamos conversando sobre diferentes abordagens e tentando algumas delas”, explicou na entrevista, que pode ser ouvida neste link (a partir de 1:34:00).

O Elson publicou um texto no Medium compilando todo o conteúdo de todas as Discotecas Básicas da falecida revista Bizz e traçando uma série de estatísticas a partir dos números que conseguiu levantar. As DBs eram resenhas de discos clássicos que vinham ao final de toda edição da Bizz e também a única seção que nunca mudou na história mutante da revista (que mudou até de nome, certa época). Vale dar uma conferida.
No site ele também linka para um texto do Marcelo Costa sobre a importância (da Bizz e) das Discotecas Básicas na formação de toda uma geração de fãs de música que cresceram numa época em que não havia informação sobre música no Brasil. Como o Marcelo, faço parte dessa geração de jornalistas que foi formada após a chegada da cultura pop no país, que sempre girou, entre os anos 80 e 90, ao redor da revista Bizz e do caderno Ilustrada da Folha de São Paulo. Ainda tive a sorte de escrever dois Discotecas Básicas (Revolver dos Beatles e Daydream Nation do Sonic Youth), cujos textos encontrei num outro site, que compila todos os textos escritos na última página da revista. O dos Beatles eu já tinha publicado aqui (em versão maior do que a que saiu na revista), mas o do Sonic Youth eu nunca tinha publicado. Ela vem a seguir.
Conforme prometido, eis o texto que escrevi sobre o clássico disco duplo do Sonic Youth para a seção Discoteca Básica da falecida revista Bizz. Esse texto foi publicado na edição 178, em maio do ano 2000.

Felizmente, os anos 90 serviram para rachar os muros preconceituosos que a década de 80 carinhosamente erigiu. E foi entre julho e agosto de 1988 que uma banda nova-iorquina iniciou ó terremoto, capaz de chacoalhar os alicerces da música pop, convergindo rap, pop inglês e rock underground americano para um mesmo objetivo (em 1991, Nevermind, do Nirvana, selaria o fenômeno). Depois que o Sonic Youth derrubou todas as barreiras entre as diversas vertentes do rock, usando a microfonia como aríete, ele nunca mais foi o mesmo.
Antes, o Sonic Youth era apenas um dos principais representantes da cena pós¬punk nova-iorquina, uma geração com mais de um rótulo – pigfuck, noise, no wave – que primava pelo barulho fora de controle como principal idioma. Ao lado do Big Black, Minutemen, Pussy Galore e Butthole Surfers, o Sonic Youth tinha uma grande reputação entre os seguidores daquela geração. Mas foi a partir da entrada do baterista Steve Shelley, que completou para sempre o trio formado pelo casal Thurston Moore e Kim Gordon, mais o guitarrista Lee Ranaldo, que o grupo começou a desequilibrar. Discos como EVOL e Sister antecipavam um grande abalo sísmico, capaz de destruir todas as noções atuais dos limites da guitarra – sempre um tabu na história do rock.
Com o duplo Daydream Nation, o quarteto nova-iorquino atingiu o rock como uma bomba atômica subterrânea sob os pilares do que conhecíamos por rock. Os três vocalistas cuspiam letras como palavras de ordem, misturando literatura marginal e rock’n’roll primitivo, preocupados mais em atingir seu alvo do que com a sujeira que o tiro poderia causar. Mas o centro do álbum são as gui¬tarras: um enxame de microfonia que consegue soar caótico, melódico, bucólico, aterrador e brutal- muitas vezes em poucos minutos, como na introdução de “Cross the Breeze” e o meio de “The Wonder”.
Propulsionado por um dos mais subestimados bateristas do pós-punk, o trio central do grupo (que se identificava com símbolos no rótulo do disco, à Led Zeppelin) atravessava terrenos tão diferentes quanto hardcore, vanguarda, heavy metal, folk, pós-punk inglês, progressivo, psicodelia e punk rock, com suas guitarras e baixo citando referências sonoras como se contassem a sua versão da história do rock, abrangendo todos os gêneros como frutos do mesmo som. Um ruído incômodo, que incomoda ao mesmo tempo que provoca, que está no centro do melhor rock, seja de que tipo for.

Mike Nichols, que morreu na quarta passada vítima de um ataque cardíaco, era desses diretores raros do cinema norte-americano – classudo sem ser pedante, usava seus filmes como comentários sobre a sociedade que vivemos. Era um autor solitário entre gerações – caçula da clássica geração européia que reinventou o cinema norte-americano por dentro (Wylder, Hitchcock, Lang, Reed, Curtiz), seu Quem Tem Medo de Virgínia Woolf? não é apenas a consagração definitiva de sua carreira como diretor de teatro, como talvez seja o ponto final da era de ouro de Hollywood. Seu filme seguinte, A Primeira Noite de um Homem, o consagra como uma espécie de irmão mais velho da geração que reinventaria o cinema norte-americano nos anos 70 (Scorsese, Coppola, Spielberg, Friedkin) e dá continuidade a uma filmografia peculiar e específica, que inclui ótimos filmes que resistem ao teste do tempo (como Uma Secretária de Futuro, Lembranças de Hollywood, o remake de A Gaiola das Loucas, Silkwood, Ânsia de Amar, Ardil 22, Segredos do Poder, Closer e a minissérie Angels in America) e que funcionam como crônicas de nossos tempos e falam mais sobre nossas vidas do que as dos personagens que assistimos. Uma senhora perda, um senhor diretor.

Lá vem outra Noite Trabalho Sujo no Alberta #3 e dessa vez os trabalhos ficam sob a responsabilidade da querida Babee, que convocou Renata Losso (da festa De Puta a Madre) para chacoalhar o inferninho da São Luiz. A mistura você conhece: indie rock com R&B, música brasileira com dance music, clássicos da discoteca e hits do século 21 – tudo pra fazer você se esbaldar de tanto dançar e cantar. A regra é a good vibe, como vocês bem sabem, vamos lá? Para mandar seu nome pra lista de desconto é só enviar até às 20h de sexta-feira no noitestrabalhosujo@gmail.com.
Noites Trabalho Sujo apresenta Babee e Renata Losso
Sexta-feira, 21 de novembro de 2014
Alberta #3. Avenida São Luís, 272. Centro.
A partir das 22h.
R$ 35 / R$ 25 (com nome na lista pelo noitestrabalhosujo@gmail.com)

Tou desligando o Trabalho Sujo por alguns dias, até o início da semana que vem (pode ser que alguma eventual notícia possa aparecer até lá, mas não garanto). Mas não esquecemos das dicas para o fim de semana em São Paulo, sempre aqui: http://noitestrabalhosujo.tumblr.com/

O designer norte-americano Rishi Kaneria resolveu celebrar sua devoção pelo uso de cores no cinema ao fazer esse curta – mas direta – edição com diferentes usos do vermelho na cinematografia de Stanley Kubrick:
“Kubrick sempre usou a cor vermelha com grande efeito – não apenas em atmosferas, mas também pelo fato de vários significados diferentes para o vermelho ecoarem com os temas de seus filmes. Os muitos significados de vermelho incluem: morte, sangue, perigo, raiva, energia, guerra, força, poder, determinação… mas também paixão, desejo, amor e sexo. Todos temas proeminentes na obra de Kubrick. Mas ainda mais importante é a forma como a própria natureza dúbia do vermelho (o fato de poder significar raiva mas também amor) funciona dentro do grande tema Jungiano de todos os filmes de Kubrick, que é a noção de dualidade: sexo e violência, nascimento e morte, guerra e paz, medo e desejo…”
Veja só:

A paixão do líder do Blur Damon Albarn pela música africana vem de longa data e uma de suas encarnações é o projeto Africa Express, que já inclusive se materializou em uma turnê de trem por seis dias no continente africano em 2012, com shows ao lado de nomes como Paul McCartney, John Paul Jones e Nick Zinner, do Yeah Yeah Yeahs (que virou um integrante fixo da iniciativa). Agora o Africa Express comemora o aniversário de 50 anos de um marco da música erudita contemporânea – “In C”, composta por Terry Riley em 1964, será celebrado com o lançamento de uma versão de 41 minutos (!) gravada no ano passado no clube Bamako, em Mali, em uma versão regida pelo jovem maestro André de Ridder, acompanhado por Damon e pelo produtor Andi Toma (do Mouse on Mars), com participações de Brian Eno, Nick Zinner e músicos do Mali, como malinês Adama Koita, Bijou, Cheick Diallo, entre outros. E o casamento de minimalismo de laboratório com as intrincadas harmonias africanas soou bonito, como dá pra ver pelo aperitivo de cinco minutos abaixo: