Trabalho Sujo - Home

Como foi o show do Thurston Moore em São Paulo

thurstonmoore-sp

Thurston Moore montou um mini-Sonic Youth para gravar seu novo disco solo, The Best Day. Primeiro veio o próprio Steve Shelley na batera, velho escudeiro de discos anteriores. Para o baixo chamou uma mulher (ninguém menos que que Debbie Googe, ex-My Bloody Valentine) tão experimetalista em seu instrumento quanto sua ex-mulher, Kim Gordon. E para a outra guitarra chamou um clone inglês de Lee Ranaldo, o inglês James Sedwards, um instrumentista educado no rock clássico (o glam era evidente em certos trechos de seu instrumento), mas completamente inserido no contexto de noise e microfonia proposto pelo velho indie.

Mas em sua recente apresentação em São Paulo, esse formato foi quebrado devido a um problema de saúde – Steve Shelley descobriu, no Brasil, que havia descolado a retina e por isso tinha de se afastar das baquetas. E o quanto antes, tanto que nem pode subir no palco do Cine Jóia. Em vez dele a produção chamou o baterista que acompanha Jair Naves, Babalu, que foi pego de surpresa com o convite e recebeu aulas de bateria do próprio Steve Shelley durante o ensaio (que deveria ser apenas uma passagem de som). O Lucio, que organizou o show, conta como foi a saga sônica de um baterista desconhecido para o palco com um dos grandes nomes do underground mundial.

Babalu entrou completamente em sintonia com o trio e, apesar do (natural) ar de insegurança no início do show, não comprometeu em nenhum momento, seguindo a cartilha que havia aprendido na mesma tarde à risca. Profissa. À sua frente, três veteranos das cordas elétricas duelavam-se entre espasmos de ruído e delicados dedilhados. O fio condutor foi basicamente o Best Day que Thurston acaba de lançar – a única fuga deste script foram “Pretty Bad” e “Ono Soul”, de seu primeiro disco solo, Psychic Hearts, a última também a única música de outro disco que ele tocou quando trouxe seu Demolished Thoughts ao mesmo palco paulistano há dois anos e meio (além de “It’s Only Rock’n’roll (But I Like It)”, dos Rolling Stones).

Thurston e sua guitarra já são um só faz muito tempo, então ele nem sequer precisa pensar para levá-la de um extremo a outro – é sua assinatura de palco, ao lado de seu grave vocal quase balbuciado e seu ar de criança de dois metros de altura. Esticando músicas do disco desse ano para além dos 10 minutos, ele inevitavelmente caía em breaks instrumentais em que desafiava os outros músicos a sair do formato canção, por mais bruta que fosse sua versão, quebrando-se em tsunamis de microfonia e marolinhas ambient, regendo seus músicos com o braço de seu instrumento. Um show catártico, conciso, intenso e reconfortável, uma vez que sempre podemos reconhecer os mesmos traços que desenharam a discografia de um grupo tão importante para aquele meio quanto o Sonic Youth. Venha mais, Thurston!

Abaixo os vídeos que fiz do show:

Noites Trabalho Sujo + Washed Out

noiteswashed

A boa de hoje é que tocaremos antes e depois do show que o Washed Out faz aqui em São Paulo no Cine Jóia. Os ingressos, que foram distribuídos online de graça, já estão esgotados e a dica é chegar cedo – a noite promete!

Yo La Tengo no Brasil!

yolatengo

Boa notícia: o trio de Hoboken dá mais uma vez suas caras em São Paulo (é a terceira vez, depois de dois shows fantásticos no Sesc Pompéia em 2001 e outro show vespertino no SWU em 2010), dessa vez na Popload do Lucio Ribeiro, no Cine Joia. A má notícia é que o preço de R$ 160 na entrada inteira complica bastante pra quem quer ver a banda…

Retrato de um artista psicodélico quando jovem: como foi o show do Tame Impala ontem em São Paulo

tame-impala-2013

Cheguei em cima da hora, peguei uma fila gigantesca (dava até a 23), entrei e o show já tinha começado, nem cogitei ficar embaixo e subi para o mezanino do Jóia. O som tava baixo, mas aumentou logo em seguida e a partir daí… Kevin Parker nos conduziu a um delírio sônico em technicolor que, ao mesmo tempo que apontava para o cânone clássico da psicodelia dos anos 60, abria novos horizontes para a lisergia sonora que conduzia a partir de sua guitarra.

Descalço e muito mais seguro de si do que quando apresentou-se no Brasil há um ano (quando Lonerism ainda nem havia sido lançado e só duas músicas do disco haviam aparecido online, “Apocalypse Dreams” e “Elephant”), Parker tem plena certeza dos rumos que quer levar e conta com músicos tinindo pra isso. Jay “Gumby” Watson (que tocava bateria e foi pra guitarra e sintetizadores) e Dominic Simper (baixista no início da banda e hoje nas guitarras e teclados) funcionam como sombras de Kevin, ecoando solos, riffs e texturas sonoras que o líder da banda joga no ar. Os dois novatos da cozinha, o baixista Cam Avery, que entrou no semestre passado, e o baterista Julien Barbagallo, que entrou no ano passado, fazem tudo funcionar com esmero, forçando os limites de seus instrumentos sem precisar apelar pro virtuosismo – Cam passeia pelas belas linhas de baixo compostas por Parker com tranquilidade enquanto Julien equilibra-se nas viradas lentas como um Ian Paice ou um Ginger Baker.

Mas todos trabalham por Kevin, que mesmo tento espasmos de deus do rock – erguendo a guitarra bem no alto, rodopiando, fazendo poses com o instrumentos – é um moleque que passeia feliz pelo céu de diamantes que resolveu habitar. Sem surpresas no repertório, ele esticou músicas em jam sessions memoráveis, intercalou fraseados com espasmos sonoros que fizeram o público no Jóia ficar de queixo caído. Ele adorou a audiência (que cantarolou riffs e solos), além de elogiar o fato da platéia saber a letra de todas as músicas. Um show memorável, mas que parece ser apenas o começo de uma carreira brilhante.

Fiz uns vídeos abaixo, saca só.