Ecos da geração X

Um encontro inusitado provou-se eficaz quando Dean Wareham abriu o show dos Vapors of Morphine neste sábado no Cine Joia. Ecoando duas forças de baixo impacto instantâneo – mas de longa influência – durante duas fases distintas dos anos 90, as duas atrações reuniram um bom público em sua grande parte formado pela geração X contemporânea tanto do Morphine quanto dos discos clássicos do Galaxie 500, estes últimos a base da apresentação puxada por Dean. Embora nascido em Boston, nos EUA, o Galaxie faz parte de uma longa tradição nova-iorquina de bandas que começou com o Velvet Underground, passou pela geração CBGB’s do Television e de Patti Smith, pela no-wave que pariu o Sonic Youth, pelo indie clássico do Yo La Tengo e pela nova geração do início deste século liderada pelos Strokes. Pela terceira vez no país, Dean veio mais uma vez ao lado da esposa Britta Phillips (com quem toca outra banda indie clássica, o Luna) e do baterista Roger Brogan (este pela primeira vez por aqui) e novamente hipnotizou a todos com sua guitarra noise de sonho que ecoa, ao mesmo tempo, o clima pesado e singelo do Velvet aos solos arrebatadores – ao mesmo tempo noise e psicodélicos – de Tom Verlaine, Thurston Moore e Lee Ranaldo. E além de clássicos do Galaxie 500 (não poderiam faltar “Tugboat”, “Flowers”, “Blue Thunder”, “Fourth of July” e “Strange”), puxaram também versões de canções de diferentes genealogias (além de duas do Luna, “Friendly Advice” e “23 Minutes in Brussels”) que já fazem parte de seu repertório, como “Bonnie & Clyde” de Serge Gainsbourg e Brigitte Bardot, “Listen the Snow is Falling” da Yoko Ono e “Ceremony” do New Order, com a qual encerraram o show. Parecia um sonho…
Depois foi a vez do Vapors of Morphine seguir o legado da banda fundada pelo saudoso Mark Sandman (1952-1999). Depois da morte do vocalista, baixista e frontman da banda, os remanescentes do grupo – o saxofonista Dana Colley e o baterista Jerome Deupree – não deixaram seu legado morrer, primeiro ao criar a bissexta Orchestra Morphine e depois, em 2009, ao retomar o formato trio como Members of Morphine, cujo nome foi mudado de vez para Vapors of Morphine em 2014. O trunfo deste projeto póstumo, além da presença e performance dos fundadores da banda (e Dana tem que tocar seu sax duplo senão não vale!), foi ter encontrado o guitarrista de Nova Orleans Jeremy Lyons como um ótimo substituto para Sandman. Ele não tenta imitar o antigo vocalista, mas aprendeu a tocar baixo com apenas duas cordas e seu timbre grave funciona bem como paliativo à saída abrupta de Sandman do grupo, fazendo as canções dos discos clássicos Good, Cure for Pain, Yes, Like Swimming e The Night não descerem do patamar que sempre estiveram: blues eternos em um barzinho decadente em que nunca parece amanhecer. Muito bom.
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