Em mais uma atividade de comemoração dos 20 anos do Trabalho Sujo, inaguro mais um curso no Espaço Cult, desta vez dedicado à crítica e análise musical. Se O Ecossistema da Música no Século 21 detalha as engrenagens de um mercado em mutação, o projeto Todo o Disco põe seu foco em um dos principais pontos deste mercado: a obra musical. E em uma série de quatro encontro convido autores de alguns dos melhores discos de 2015 para dissecá-los – o Cidadão Instigado fala sobre seu disco Fortaleza, Siba detalha o seu De Baile Solto, Emicida conta mais sobre o seu Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa e Karina Buhr fala sobre seu Selvática. Vamos falar menos sobre história, influências, mercado e vida pessoal do artista e focar nos diferentes aspectos de um álbum: ordem das faixas, produção, capa, título, músicos, processo de composição e gravação, além de ouvir o disco ao lado de cada um destes artistas.
Nunca se produziu tanto, nunca tantos artistas brasileiros lançaram tantos discos bons em tão pouco tempo mas ao mesmo tempo nunca se discutiu tão pouco sobre música. A overdose de informação e a concorrência por atenção apenas trata discos como notícias e mesmo com a amplitude da internet, estes discos não são tratados como obras importantes na carreira do artista e sim como mero gancho para notícias.
A partir desta constatação, o jornalista Alexandre Matias, do site Trabalho Sujo, junto com o Espaço Cult, propõe um encontro com artistas para discutir especificamente sua obra neste ano. São quatro encontros que acontecem em novembro com autores de quatro dos discos mais importantes no Brasil em 2015: Fortaleza do grupo Cidadão Instigado, De Baile Solto de Siba, Sobre Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa de Emicida e Selvática de Karina Buhr. Nos encontros, eles falarão do processo de criação e composição de seus discos, incluindo uma audição comentada faixa a faixa dos discos que lançaram este ano.
Os cursos acontecem durante o mês de novembro e fazem parte das comemorações dos 20 anos do site Trabalho Sujo.
AULAS:
Cidadão Instigado fala sobre Fortaleza DATA: 12/11/2015 HORÁRIO: das 20h às 22h
Siba fala sobre De Baile Solto. DATA: 17/11/2015 HORÁRIO: das 20h às 22h
Emicida fala sobre Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa DATA: 24/11/2015 HORÁRIO: das 20h às 22h
Karina Buhr fala sobre Selvática DATA: 02/12/2015 HORÁRIO: das 20h às 22h
Fui aos dois dias do Popload Festival, o festival do Lucio que aos poucos se estabelece no calendário brasileiro como um dos principais eventos de música em São Paulo, e a melhor constatação foi ver, na prática, que “festival de música” não é sinônimo para perrengue, pé na lama, chuva, som ruim, shows à luz do dia, dezenas de milhares de pessoas, quinze mil bandas e a grande maioria delas ruim, comida tosca, banheiros imundos, gente passando mal. Tudo funcionava – e isso é ponto não só para a organização como também para o Audio Club.
Cheguei no primeiro dia no meio do ótimo show do Sondre Lerche e não dá pra entender porque o francês não estava abrindo para o Belle & Sebastian, que tocaria no dia seguinte – era uma situação que todos iriam ganhar, inclusive o festival. Depois foi a vez do Emicida, que optou por fazer um show mais pesado e dando uma geral em toda sua carreira, em vez de tocar apenas o show do disco novo – embora o melhor momento tenha sido “Madume”, em que ele chamou os rappers Drika Barbosa, Raphael Alafin, Muzzique e Coruja para quase nove minutos de dedo na cara. A única concessão ao peso da noite foi a radiofônica “Passarinhos”, deixando claro que o artista sabia que a grande maioria do público nunca tinha visto um de seus shows.
E, como alguns, tive que fazer a escolha salomônica entre ver uma lenda viva do rock (ainda) em ação e um ás da atualidade em seu atual auge. Como aquela não era minha primeira vez com o velho Iggy e sabia que o show começava como uma memorável sequência “No Fun”, “I Wanna Be Your Dog”, “The Passenger” e “Lust for Life”, escolhi assistir ao início do show de roque para depois cair na pista do mago norueguês da disco music, Todd Terje, mas não sem antes assistir ao mosh que o quase centenário roqueiro deu sobre o público que nasceu depois que ele gravou “Candy”, nos anos 80. No clube do Audio, longe das guitarras, Terje determinava um transe rítmico em que timbres retrô pareciam ter nascido no século 20 – e até um velho hit da Whitney Houston não soava como mera citação, combinando perfeitamente com o repertório da noite, repleto de faixas de seu excelente It’s Album Time, do ano passado. O astral da apresentação do escandinavo estava tão bom que, mesmo com ele acabando antes do show do Iggy Pop terminar, bandeei pra casa.
No dia seguinte, consegui ver mais uma vez o Cidadão Instigado tocando seu tenso Fortaleza ao vivo e a banda de Fernando Catatau está imersa na alma pesada do disco – mesmo os momentos mais leves (como “Land of Light” ou “La La La La La La La”) soam bem mais intensos e elétricos do que gravados, mesmo sem sair de suas levadas originais. O Spoon fez um show quase às escuras e o intimismo dark da banda norte-americana não encontrou liga com o público do Belle & Sebastian. Foi um show preciso e empolgante, mas a grande parte do público apenas esperava a banda que encerraria o palco, como também aconteceu no show do Cidadão. Mas não era desânimo – o público estava atento e apreciou os dois shows, mas era uma abordagem muito cética perto do excesso de fofura do show Belle & Sebastian.
Não desgosto do Belle & Sebastian, mas estou longe de ser um fã. Contudo, é uma banda que pertence à minha geração e aquele era o quarto show do grupo escocês que assistia. O lado fofinho, sorridente e Hello Kitty da banda quase chega a me irritar – gosto deles quando esquecem o Nick Drake para revisitar o soul dos anos 80 via Inglaterra. O mais curioso, no entanto, foi a onda jovem que parece ter descoberto o grupo nos últimos anos. Quando assisti ao show que o grupo fez na saudosa Via Funchal há cinco anos, tive a clara sensação de que todos os presentes ali haviam assistido (ou queriam ter visto) o grupo em sua primeira passagem no Brasil, quando tocaram no também saudoso festival Free Jazz (o avô do igualmente saudoso Tim Festival). Eram os indies velhos (como eu), que voltavam para ver uma banda que foi importante para eles em suas juventudes. Mas no encerramento do festival do Lúcio havia muito gente no início dos 20 anos que com certeza não estava naquele show de 2010. A grande interrogação ficou pela forma como esse público descobriu a banda: foi trilha sonora de filme? Tocou na novela? Entrou em videogame? Descoberta semanal do Spotify?
O fato é que essa nova geração de fãs se entregou à fofura do Belle & Sebastian e o show foi muito mais passional que o de Iggy Pop, por incrível que pareça. A felicidade no ar era parecida com a do show que a banda fez em São Paulo no início do século, quase sem acreditar que não apenas tinham fãs no Brasil como eles sabiam cantar todas as músicas. Essa constatação guiou a apresentação da banda, que foi pouco a pouco hipnotizando o público em sua bolha de otimismo, o que também cativou os mais velhos presentes – tocaram até “Legal Man”, que é minha música favorita deles. Foi um show tão divertido quanto cativante e, ao contrário do Iggy Pop, não habita apenas o palco, como um deus do rock. O momento já clássico dos shows da banda é justamente quando trazem os fãs para o palco. Querem dizer que são pessoas como eles. Enquanto o mosh de Iggy Pop na galera é um elogio à saúde atual do roqueiro e uma honra para os pobres mortais que o seguraram antes que ele caísse no show, a subida ao palco do Belle & Sebastian é um abraço coletivo, um carinho de cena que funciona como um colo para pessoas que reconhecem mais as canções que os integrantes da banda.
E é essa dicotomia – entre o antigo rock clássico e o clássico indie rock – que precisa ser resolvida pelo Popload. Ao trazer Iggy Pop como uma das atrações em um festival essencialmente indie, ele abre a possibilidade de realizar shows de veteranos para poucos milhares de pessoas. Mesmo para uma banda como o Belle & Sebastian, o palco do Audio foi bem mais acolhedor e, na medida do possível, intimista do que os outros dois quando eles passaram por São Paulo (o clube da Água Branca deve ter menos que a metade do tamanho da Via Funchal). A escolha de Iggy Pop pode criar uma expectativa errada para o festival (o público da Kiss FM e do Café Piu Piu certamente iria em peso caso o show tivesse uma divulgação específica para canais não-indies, o que não aconteceu) ao mesmo tempo em que ele pode fugir da fórmula “o hype da vez” trazendo velhos de guerra e indies grandes para tocar num palco que os deixa quase em cima do público.
Frou Frou, o novo disco de Bárbara Eugenia, está prestes a se materializar e atingiu sua meta no crowdfunding nesse fim de semana. Pra comemorar, ela mostra mais uma faixa de seu terceiro disco, essa com exclusividade para o Trabalho Sujo: a canção “Recomeçar”, de Fernando Catatau, que poderia ter entrado nos dois últimos discos do Cidadão Instigado e que foi sequestrada por Bárbara para se tornar conhecida por todos, mostrando um outro lado da vibe discoteca brasileira que o novo disco traz.
Ela também publicou um vídeo que mostra cenas da gravação (com a participação de convidados) e trechos de outras músicas, as mais calminhas do disco.
Meneio – “Instiga”
Astronauts Etc. + Toro y Moi – “Rocket Man”
Lana Del Rey – “High by the Beach”
Bárbara Eugenia – “Besta”
Cidadão Instigado – “Green Card”
Hot Chip – “Started Right (Joe Goddard Disco Remix)”
Weeknd – “Can’t Feel My Face”
Tame Impala – “Let It Happen (Soulwax Remix)”
Modjo – “Lady (Hear Me Tonight)”
The Internet – “Get Away”
Chet Faker – “Bend”
Elza Soares – “Luz Vermelha”
Ava Rocha – “Transeunte Coração”
BNegão & Os Seletores de Frequência – “No Amanhecer”
Pharrell – “Freedom”
Emicida – “Madume”
Siba – “Marcha Macia”
Letuce – “Todos os Lugares do Mundo”
Lana Del Rey – “High by the Beach”
Cyril Hahn + Yumi Zouma – “Same”
Haim – “‘Cause I’m a Man”
Yo La Tengo – “The Ballad Of Red Buckets”
Wilco – “Where Do I Begin”
Mac DeMarco – “Just to Put Me Down”
Destroyer – “Dream Lover”
Foals – “What Went Down”
Cidadão Instigado – “Os Viajantes”
FFS – “The Power Couple”
Nação Zumbi – “Pegando Fogo”
Bixiga 70 – “Ocupai”
Embarco neste sábado mais uma vez rumo à capital baiana para conferir de perto o festival que o compadre Luciano Matos comanda a partir do certeiro programa de rádio que toca há anos em Salvador ao lado dos feras Beto Barreto e Ronei Jorge. Voltado para a música independente brasileira, o Radioca virou um festival que vai reunir bambas como Siba, Cidadão Instigado, Mulheres Q Dizem Sim, Anelis Assumpção e Apanhador Só a nomes locais em ascensão, como Pitombeira, Oquadro e Ifá. Participo também de uma mesa sobre a cultura independente brasileira neste domingo ao lado de bambas como Bruno Nogueira, Marcelo Costa, Marcelo Monteiro (do Amplificador) e o trio do Radioca. A programação completa do festival pode ser conferida lá no site deles.
Neil Young + Promise of the Real – “If I Don’t Know”
Tame Impala – “The Less I Know”
Letuce – “Lugar para Dois”
Silva + Lulu Santos + Don L – “Noite”
Unknown Mortal Orchestra – “Ur Life One Night”
Jamie Xx + Romy Madley-Croft – “Loud Places”
Mark Ronson – “I Can’t Lose (Lindstrøm Remix)”
Jungle – “Julia (Soulwax Remix)”
Todd Terje – “Inspector Norse (Pepe Bradock Remix)”
Cidadão Instigado – “Escolher Pra Quê?”
Emicida – “Boa Esperança”
Toro y Moi – “Lilly”
O Terno + Boogarins – “Saídas e Bandeiras No. 2”
A maturidade do Cidadão Instigado No lançamento do quarto ábum da banda cearense, Fortaleza, o público sabia cantar músicas que uma semana antes não conheciam
“Até que enfim
Eu cansei de me esquivar
Quanto tempo eu pensei em parar
Olho para o lado
Quanta gente diferente
E o que vou fazer?
Se não consigo te esquecer
Vou seguir…vou seguir”
Assim Fernando Catatau, líder do grupo cearense Cidadão Instigado, começa o quarto álbum de sua banda, batizado de Fortaleza, e seu show de lançamento deste que aconteceu no Sesc Pompeia, em São Paulo, no início do mês passado. Ele não está cantando apenas sobre o sentido da vida, sobre um relacionamento ou sobre sua cidade-natal, mas sobre seu próprio conjunto, que levou mais de meia década para finalmente lançar seu novo disco .
Formado por Catatau na guitarra, composições e vocais, Régis Damasceno na segunda guitarra, Dustan Gallás nos teclados e efeitos, Rian Batista no baixo, o técnico de som Yuri Kalil e Clayton Martin na bateria, o Cidadão surgiu no final dos anos 90, com quase esta mesma formação, à exceção do paulistano Clayton, que juntou-se à banda quando ela já havia se mudado para São Paulo, na década passada. No século anterior, só um registro sobreviveu, um CD demo com cinco faixas batizado apenas de EP que hoje é tratado como raridade. A discografia oficial do grupo – O Ciclo da De:Cadência (2002), O Método Túfo de Experiências (2005) e Uhuuu! (2009) – é toda deste século.
Nestes discos, o grupo veio aprimorando uma sonoridade de rock clássico com um sabor especificamente brasileiro, a começar pelo carregado sotaque de seu vocalista e principal compositor. Catatau, guitar hero, conduz a banda para a virada dos anos 60 para os 70, quando os Beatles começavam a se desintegrar e o Pink Floyd e o Led Zeppelin a encontrarem seus rumos. Canções que se descortinam em dinâmicas elétricas que refletem tanto o momento em que o rock psicodélico começa a ficar mais pesado (Jimi Hendrix, Deep Purple, Black Sabbath) quanto como esta sonoridade se refletiu na música brasileira e particularmente nordestina (de Raul Seixas a Tutti Frutti, passando por Zé Ramalho, Fagner e Alceu Valença).
“Até que Enfim” não é a primeira música do disco Fortaleza à toa. A gestação do disco começou ainda em 2012, quando a banda se isolou em uma casa em Icaraizinho de Amontada, no litoral cearense, próximo a Jericoacoara. De lá pra cá foram três anos de amadurecimento musical que, pra começar, exigiu que a banda saísse de sua zona de conforto. Rian, Dustan e Regis trocaram de instrumentos: o baixista agora toca teclados, violão e fez os arranjos vocais, o segundo guitarrista assumiu o baixo e o tecladista pegou a segunda guitarra. Essa nova formatação mexeu com os brios da banda, que começou a pesar mais seu som, deixando as canções ensolaradas do disco de 2009 no passado. O disco continuou sendo gravado nos estúdios caseiros dos integrantes da banda até que, no início de 2015, o disco finalmente foi finalizado: vocais gravados, masterização em Los Angeles e lançamento pra download gratuito em seu próprio site, www.cidadaoinstigado.com.br
Fortaleza é um disco pesado no sentido musical, mas com momentos líricos e contemplativos (como a bela “Perto de Mim”, “Os Viajantes” e “Dudu Vivi Dada”) até um reggae (“Land of Light”). O peso dos anos 70 está nos timbres elétricos, mas eles estão longe de ser retrô. E o recado dado no decorrer do disco tem diferentes endereços, embora a principal referência seja a cidade-natal da banda que batiza o disco. Fortaleza pode ser ouvido como uma declaração de amor ao mesmo tempo que uma cobrança à capital cearense: “Minha Fortaleza ‘réia’ o que fizeram com você?”, pergunta o líder da banda no repente elétrico da faixa-título. Marca a maturidade do Cidadão Instigado em relação à busca da própria sonoridade.
Disponibilizado online na primeira semana de abril, o disco foi apresentado ao vivo uma semana depois de ter sido liberado na internet. E o show no Sesc Pompeia coroou este lançamento quando a banda ousou tocar praticamente o novo disco – e com as músicas quase em ordem idêntica – na íntegra, deixando o bis para tocar duas músicas de dois outros discos anteriores: “Lá Fora Tem” e a homenagem ao canadense Neil Young “Homem Velho”. E mesmo tocando pela primeira vez um disco que havia lançado há apenas uma semana, o Cidadão Instigado ainda contou com o coro da plateia em várias canções. Um momento especial para um disco de tal calibre.
John Cale – “Keep a Close Watch”
Secos & Molhados – “Fala”
Spice Girls – “2 Become 1”
Radiohead – “Jigsaw Falling Into Place”
Nação Zumbi – “Novas Auroras”
Cidadão Instigado – “Land of Light”
Alabama Shakes – “Sound & Color”
Unknown Mortal Orchestra – “Ur Life One Night”
Of Montreal – Wraith Pinned to the Mist
Tulipa Ruiz – “Físico”
Marcos Valle – “Estelar”
Gilberto Gil – “Palco”
A Cor do Som – “Magia Tropical”
Daryl Hall & John Oates – “Kiss on My List”
Joe Jackson – “Steppin’ Out”
Journey – “Don’t Stop Believin'”
Jamie Xx + Young Thug + Popcaan – “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”
A baixa produção do minidocumentário Instigando na Multidão, de Daniel Mattos e Heitor Sena, que trata sobre a passagem do grupo cearense Cidadão Instigado durante a Virada Cultural de Jundiaí, em 2010, não tira a importância do registro, principalmente agora, à luz do lançamento do ótimo Fortaleza: