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Distopia periférica

Acontecimento – título da temporada que o trio formado no Rio de Janeiro Crizin da Z.O. apresentou às segundas-feiras deste maio no Centro da Terra – também é uma boa forma de descrever a última noite dessa safra de apresentações ao vivo. Cris Onofre, Danilo Machado e Marcelo Fiedler acresceram à sua formação um segundo percussionista (Gênesis Chagas, baterista da banda carioca Cidade Partida) para receber Juçara Marçal, que ativou sua faceta Delta Estácio Blues, com aparelhos eletrônicos e afeita aos beats pesados e ao tambozão funk que movimenta a parede de ruído erguida pela banda. Foi demais vê-la entrando na zona oeste do Rio de Janeiro do som da banda, ela mesma nascida em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, e deixando aflorar todo groove contagiante do funk com o peso e a distorção elétrica dos efeitos à disposição, ao mesmo tempo que fazia o grupo entrar no modo distopia que filtra seu segundo álbum, fundindo sonoridades e temáticas no mesmo clima apocalíptico, que ainda colocou os anfitriões da temporada para enveredar por “Sem Cais”, que Juçara compôs com Kiko Dinucci e Negro Léo, numa versão inacreditável. Chave de ouro.

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Verséculos na prática

Verséculos não é apenas o nome do reencontro de André Abujamra e Chicão – que já haviam trabalhado juntos no espetáculo Omindá, do primeiro e sempre se esbarraram pelos bastidores da vida -, mas batiza uma “banda” encarnada pela dupla, que fez sua primeira apresentação nesta terça-feira, no Centro da Terra. Com Chicão ao piano e André entre a guitarra, o atabaque e uma “flauta chinesa da China”, os dois passearam por um repertório majoritariamente composto por músicas de Abujamra – incluindo dois “lados B”, um do Karnak (“Ninguepomaquyde”), que abriu o show, e outro do Mulheres Negras (“Guembô”), exigência de Chicão, fã do grupo desde antes de imaginar que poderia tocar com o então futuro parceiro, nos anos 90. O resto da noite foi tomado por versões delicadas de músicas do Karnak (“Universo Umbigo”, “Estamos Adorando Tóquio”, “Juvenar” e “O Mundo”, que encerrou a apresentação), outras da carreira solo de André (como “O Mar”, a linda “Espelho do Tempo” e “Imaginação”, que ele sempre aproveita para tirar onda com o público) e uma versão em russo fajuto para “Tiro ao Álvaro”, de Adoniran Barbosa. Chicão não trouxe suas próprias composições, mas tirou dois ases da manga: um recital ao piano de uma certa Clarice Leite (que, revelou ao final da música, era a mãe dos irmãos mutantes Arnaldo Baptista e Sérgio Dias) e uma versão brasileira de “River Man”, de Nick Drake, que ousadamente tornou-se “Ri Vermei” e mudou o tom da música, indo da introspecção fatalista para a contemplação universal. Uma noite e tanto – que vivam os Verséculos!

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André Abujamra + Chicão: Verséculos

Maior satisfação receber nesta terça-feira o encontro de duas almas iluminadas pela música no palco do Centro da Terra, quando André Abujamra e Chicão fundem suas trajetórias no espetáculo Verséculos, em que remontam uma lenda pessoal antiga que, em vidas passados, os dois foram gêmeos siameses, que se reencontram como reflexos idênticos para uma missão ousada – eternizar o amor pelo som, sempre completando trechos musicais que cada um deles inicia no que chamam de Música da Eternidade. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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Camadas e camadas

Entre me levantar da poltrona em que vejo a apresentação até cumprimentar os artistas em seguida (algo que leva entre cinco e dez segundos), ouvi três vezes comentários que usavam a palavra “camadas” – sempre no plural – logo após a terceira noite da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. vem fazendo no Centro da Terra, em que receberam o produtor de Guarulhos MNTH e o conterrâneo carioca Lcuas Pires. Só a configuração de palco já foi radicalmente diferente das noites anteriores, em que seus respectivos convidados (Kiko Dinucci e Deafkids) trouxeram guitarras e incitavam a percussão. Esta última até esteve presente na noite, embora tocada com apenas um atabaque e disparadores mecânicos de beats. Em sua terceira segunda-feira, a temporada Acontecimento mergulhou na eletrônica, distorcendo timbres, letras, sequências e até transmissões de rádio para criar justamente as tais camadas mencionadas em voz alta por vários dos presentes após a noite, criando uma trama ambient de noise que abriu uma outra dimensão na textura sonora do grupo. Hipnose de fim de mundo.

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Fagogo solto

Gibaa surpreendeu nesta terça-feira ao apresentar não apenas músicas de seu próximo álbum, Fagogo, que não irá para as plataformas de áudio e só poderá ser ouvido no próprio player digital revelado durante a apresentação que tem o mesmo nome do disco. A surpresa veio ao por revisitar não apenas suas próprias canções antigas e outras de outros autores que lhe influenciaram num novo formato, mas justamente pelo próprio formato escolhido para a apresentação. Chamou o baixista Antonio Andrade e o pianista Enrico Machado para, apenas à guitarra, cantar canções sem instrumento rítmico: nada de percussões nem bateria seja acústica ou eletrônica, o que ressaltava a beleza de suas canções, acamadas na microfonia shoegaze de seu instrumento e na doçura do vocal, por horas frágil de propósito (batendo na vertente Daniel Johnston do indie rock), por outras com a força e precisão exata. E além de músicas próprias (incluindo de projetos antigos, como a banda This Man e os Sem Cuecas, e futuros, como os Minikids), cantou canções de Manu Julian, da Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo e do Lauiz, que inclusive fez uma das participações da noite, que ainda contou com o baixo de Helena Cruz em uma canção e os integrantes do Minikids no final. Vai Gibaa!

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Centro da Terra: Junho de 2026

Estamos chegando ao final do primeiro semestre do ano e estas são as atrações musicais que estarão em cartaz no Centro da Terra durante este próximo mês de junho. As segundas-feiras ficam com o grande Gustavo Galo, que aproveita o mês de seu aniversário para festejar na temporada Um Bis no Abismo, que começa na segunda segunda do mês porque este junho tem cinco segundas-feiras. No dia 8, ele celebra seu irmão de alma, o saudoso Luiz Chagas, numa noite que ainda em que será acompanhado por Biel Basile, Fábio Sá, Chicão e Gustavo Ruiz, quando cantará músicas de seu eterno chapa. No dia 15, ele traz sua nova banda Tudo a Ver (que conta com Juliana Perdigão, Bruna Lucchesi e Vitor Wutzki) numa noite dedicada à poesia que ainda contará com as presenças de Angélica Freitas, Fabricio Corsaletti, Dimitri Br e Marcelo Ariel.. No dia 22 ao lado de Peri Pane, viaja por suas subversões em português para músicas de Lou Reed, Patti Smith e Leonard Cohen, entre outros, quando também recebe os convidados André Mourão e Péricles Cavalcanti. A última noite da temporada não é numa segunda-feira por motivos de Copa do Mundo, e cai no primeiro dia do mês seguinte, quando chama a banda que já o acompanha há uma década (Pedro Gongon, Otávio Carvalho, Lucas Gonçalves e Tomás Gleiser) para mostrar músicas inéditas e relembrar de outras velhas conhecidas. A primeira segunda de junho (dia 1º) fica com o novíssimo grupo Lumia, formado por Marina Marchi, Júlia Toledo, Laryssa Alves, Miriam Momesso e Amanda Barbosa em uma apresentação chamada Quinteto. No dia seguinte, a primeira terça-feira do mês (dia 2), Leal sobe pela primeira vez no palco do Centro da Terra com um espetáculo intimista chamado Circulando, quando vem acompanhaado de Reyviton Lima, Rafael dos Santos e Fernanda Horvath. Na terça seguinte (dia 9) é a vez de Luna França voltar ao palco do teatro, desta vez em formato solo, e mostrando composições inéditas na apresentação batizada de Junto, quando começa a explorar o que será seu segundo disco ao lado de Arquétipo Rafa, Lê Veras e Melifona, com participações de Malu Magri, Ana Passarinho e Heloá Holanda. No dia 16, a dupla Triste, formada por Rafael Brasil (Far From Alaska) e Brenda Mayer (Call Me Lolla), faz sua estreia no palco em um show delicado e minimalista chamado De Perto. No dia 23, o violonista virtuoso Daniel Murray chega mais uma vez ao palco do Centro da Terra ao começar a desbravar o Universo Musical de Egberto Gismonti, título de seu novo espetáculo, dedicado a esmiuçar a complexidade melódica, harmônica e polirrítmica deste mestre, com quem já pode dividir o palco algumas vezes. E no último dia do mês o gaúcho Irmão Victor estreia no teatro comemorando os dez anos de seu primeiro disco Passos Simples para Transformar Gelatina em um Monstro, que será tocado na íntegra numa noite que ainda terá as presenças de Vicente Barroso, Thales Castanheira, Theo Cecato, Jorge Zahar, Simone Julian, Max Huszar e Manu Julian. Os espetáculos começam sempre pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

Gibaa: Fagogo

Gibaa antecipa seu segundo álbum nesta terça-feira no Centro da Terra e o conceito de Fagogo vai para além do disco, pois também é um player de música digital. Na ativa desde antes da pandemia, Gibaa lançou seu primeiro disco, Poça Platônica, em 2024 e desde então vem trabalhando no conceito de Fagogo, um disco que não está nas plataformas de áudio e só pode ser ouvido num player de áudio digital open-source que leva o mesmo nome do disco – ou ao vivo, como é o caso desta primeira apresentação que fará no teatro. O espetáculo começa pontualmente a partir das 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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O buraco do fim do mundo

“Esse sentimento de que o mundo tá indo pro buraco”, a sensação de desesperança transmitida pela segunda apresentação da temporada Acontecimento que o trio Crizin da Z.O. está fazendo no Centro da Terra poderia ser resumido a um questionamento ainda maior, posto logo já no primeiro movimento, quando o próprio Crizin arrematava: “Será que nesse buraco cabe o mundo?”. Recebendo a dupla Deafkids nesta segunda-feira, mais uma vez o grupo de funk apocalíptico transformou o palco do teatro em um alarme estridente sobre o fim do mundo iminente que toma conta do nosso dia-a-dia. Como na primeira apresentação da temporada (quando o grupo apresentou-se ao lado de Kiko Dinucci), esta nova noite viu o casamento das duas guitarras presentes criar uma parede de microfonia grossa que espremia o público contra a parede mental dos próprios cérebros, mas como tanto Douglas Leal quanto Mariano Sarine desdobram-se na percussão (elemento também crucial para o grupo do Rio de Janeiro), esta névoa elétrica sempre vinha aterrada de atabaques e tambores prontos para deixar todos em alerta. Pesado e aterrador como sempre, mas sem perder a seriedade ou o senso de emergência.

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Percurso sinuoso e fluido

O coletivo Enchante fez sua estreia no Centro da Terra nesta terça-feira, abrindo a noite batizada de Sombras N’Água com uma enxurrada de ruídos em que Sue, Anna Vis, Mari Crestani e Gylez – e a convidada Valentina Facury – já chocaram o público de saída, para depois entrar num percurso mais sinuoso e fluido, deixando o improviso dos instrumentos estabelecer o ritmo do resto da noite, depois do apavoro inicial. A partir dali, samples e efeitos eletrônicos, voz, guitarra, sax, percussão e viola seguiram caminhos próximos mas com interferência mínima e pontual, naqueles belos momentos do improviso em que a escuta é tão importante quanto a ação, trabalhando com espaços vazios e momentos de tensão sonora que eram tão volumosos quanto expansivos.

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Enchante: Sombras N’Água

O recém–formado coletivo Enchante, formado por artistas queer da cena paulistana que trabalham com a improvisação livre, sobe ao palco do Centro da Terra pela primeira nesta terça-feira, quando apresentam o espetáculo Sombras N’Água. Formado por Sue (guitarra e sampler), Anna Vis (voz e sampler), Mari Crestani (sax alto e contrabaixo) e Gylez (viola elétrica), o grupo trabalha com o risco da performance ao vivo e para esta apresentação convida a percussionista Valentina Facury. O espetáculo começa pontualmente às 20h e os ingressos já estão à venda no site do Centro da Terra.

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