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Bob Dylan aparece de surpresa no Farm Aid com a banda do Tom Petty

O público da edição de 2023 do Farm Aid, festival decano que arrecada fundos para os trabalhadores rurais familiares nos Estados Unidos, esperava que o evento fechasse, como sempre, com uma apresentação final de seu idealizador, o guru country Willie Nelson. Mas qual foi a surpresa deste quando, antes do festival acabar, neste sábado passado, surgem as silhuetas de uma banda liderada por uma figura toda de preto e de cabelos despenteados, sem a bandana vermelha ou barba grisalha que marcam o fundador do evento. Aos poucos o público percebeu que era ninguém menos que Bob Dylan, fazendo uma rara aparição surpresa e, ao contrário do que tem feito na turnê de seu disco mais recente, tocando guitarra e de pé – em vez de estar sentado ao piano. Dylan é o responsável indireto pela existência do festival, pois comentou, durante o festival Live Aid, realizado no meio dos anos 80 para arrecadar fundos para acabar com a fome na Etiópia, que seria interessante se alguém fizesse isso nos EUA pensando na agricultura familiar, que vivia o início de sua decadência com a chegada agressiva do agronegócio. Willie Nelson pinçou a sugestão e uniu-se a Neil Young e John Mellencamp (os dois apresentaram-se na edição deste ano) para criar o evento que, em sua primeira edição, contou com a presença do velho Bob, em 1985. Em sua aparição surpresa, Dylan voltou para clássicos de seus anos mais emblemáticos e enfileirou três hinos: “Maggie’s Farm”, “Positively 4th Street” e “Ballad of a Thin Man” . Acompanhando-o, nada menos que três quintos dos Hearbreakers de Tom Petty: o guitarrista Mike Campbell, o tecladista Benmont Tench e o baterista Steve Ferrone, que não tocam juntos desde que seu líder deixou nosso plano. Dylan chegou a sentar-se numa banqueta quando chegou na última música (82 anos, bicho!), mas manteve o tom apocalíptico que lhe é característico, destruindo os arranjos originais de suas músicas em versões que passam pela gente com um trem de carga ou uma manada de búfalos. Ave, mestre!

Assista abaixo:  

Cat Power canta Bob Dylan

No ano passado, nossa querida Chan Marshall, que a maioria das pessoas conhece por Cat Power, fez um show em homenagem ao clássico concerto que Bob Dylan deu em 1966 quando transitava da fase acústica para a elétrica, negando toda a expectativa que o público criava em relação a ele ser considerado a voz de sua geração. Em turnê pela Inglaterra, encarou fãs raivosos com a transição, que culminou com uma apresentação feita em Manchester, no Free Trade Hall, quando um fã levantou a voz antes da última música e gritou “Judas!” ao considerar Dylan um traidor. “Eu não acredito em você”, menosprezou o mestre, “você é um mentiroso!”, gritou antes de virar-se para sua banda – que já havia assumido o novo nome de The Band – e pedir “PLAY FUCKING LOUD” antes de uma das versões mais clássicas de “Like a Rolling Stone”. Esta apresentação tornou-se um dos primeiros discos piratas da história, outra proeza que Dylan carrega consigo, que erroneamente creditou a apresentação como se ela tivesse acontecido no Royal Albert Hall londrino. Dylan levou a lenda consigo quando relançou o álbum oficialmente nos anos 90, colocando “Royal Abert Hall” entre aspas para deixar claro que fazia referência ao disco pirata. Foi justamente esse show que Cat Power recriou no próprio Royal Albert Hall original, em novembro do ano passado, e que ela acaba de anunciar que se tornará um disco ao vivo. Cat Power Sings Dylan: The 1966 Royal Albert Hall Concert será lançado no dia 10 de novembro, já está em pré-venda e ela já liberou duas versões do disco “She Belongs to Me” e “The Ballad of a Thin Man”, que você pode ouvir abaixo, além de ler a ordem das músicas:  

Quando Bob Dylan tocou no Japão pela primeira vez

Massacrado e ironizado pelos críticos da época, o disco que registrou a primeira aparição ao vivo de Bob Dylan no Japão será relançado no final do ano reunindo não apenas as canções lançadas à época como o duplo Live at the Budokan, como todas as outras faixas que o bardo norte-americano tocou ao vivo nas duas apresentações que fez naquele país, nos dias 28 de fevereiro e 1° de março de 1978. O disco que completou 45 anos no mês passado agora surge com o título de The Complete Budokan 1978 tanto como uma caixa quádrupla de CDs como um box com oito vinis – além de reproduções do pôster e ingressos originais, fotos da turnê e um encarte colorido com 60 páginas. Na epoca de seu lançamento o disco foi ridicularizado nos Estados Unidos pois Dylan estava justamente forçando a barra em algo que consolidou-se em sua carreira: não tocar as músicas como elas foram gravadas nos discos. Mesmo com um repertório de encher os olhos de qualquer fã, muitos desdenharam da forma como o autor dessacralizava suas próprias criações – sendo que era justamente isso que ele queria. O novo disco não faz parte da série Bootleg Series e será lançado no dia 17 de novembro – suas versões físicas já estão em pré-venda no site do mestre, que ainda oferece um disco chamado Another Budokan em vinil apenas com as músicas inéditas. Ele ainda antecipou uma das muitas inéditas do disco, a versão que fez para “The Man in Me”, com sax e coral que fizeram os fãs xiitas reclamar… Que bobagem. Abaixo você ouve a faixa inédita e vê a caixa com todas as músicas que entraram nessa nova versão:  

O reino das sombras de Bob Dylan

Quando a pandemia começou, ainda nos primeiros meses de 2020 em que ninguém sabia nada e a paranoia estava ligada no último, um dos primeiros assombros artísticos foi a vinda do single “Murder Most Foul“, que, por mais de quinze minutos, Bob Dylan fazia um réquiem para o século 20 apontando o assassinato de John Kennedy como ponto focal tanto para o início da decadência dos EUA e o surgimento da cena cultural em que ele mesmo apareceu, como se a morte do presidente tivesse arruinado um sonho que só conseguiu sobreviver graças à cultura pop. Com uma música épica, Dylan temia pela própria vida, ele que estava às vésperas de completar 80 anos e se via dentro do grupo de risco pandêmico – e nos contava isso, fazendo-nos temer pela morte de seus contemporâneos. E à medida em que a pandemia foi arrefecendo e voltamos ao convívio presencial com todos os famigerados protocolos de segurança, Dylan anunciou sua primeira live, batizada de Shadow Kingdom. Mas a live não era ao vivo e sim uma versão teatralizada do que seria um show, com a banda tocando com máscaras enquanto ouvíamos instrumentos que não pareciam estar no palco. Misturando uma paródia de live com a tentativa de recriar um inferninho blueseiro (um dos temas do disco que lançou durante a pandemia, o ótimo Rough and Rowdy Ways) Dylan enfileira só clássicos do início de sua carreira – então tome “It’s All Over Now Baby Blue”, “Queen Jane Approximately”, “Just Like Tom Thumb’s Blues”, “Forever Young”, “Tombstone Blues”, “Pledging My Time” e tantas outras, além da ótima inédita “Sierra’s Theme”. O filme deve aparecer em algum desses streaming por esses dias (assista ao trailer abaixo) e a trilha sonora já é um disco que está nas plataformas digitais – Dylan está soando muito bem e o clima lyncheano deste cabaré de mentira ajuda a aumentar sua presença no palco. O velho, inclusive, está em turnê neste exato momento – imagina se ele vem pro Brasil?