Um atordoo chamado Kneecap

Assisti ao show do trio irlandês Kneecap nesta sexta-feira no Cine Joia e descrevi o atordoo sonoro e político do grupo no palco em mais uma colaboração para o Toca UOL.
Kneecap faz show político em SP com coro de ‘Palestina Livre’
Absurdo o show que o grupo Kneecap fez nesta sexta-feira (23) no Cine Joia, em São Paulo. Conhecido pela força de suas letras e beats, bem como suas firmes convicções políticas, o trio de rap irlandês chegou no Brasil às vésperas do segundo turno da eleição para presidente ao mesmo tempo em que encerrava sua turnê pela América Latina, que teve passagens pelo México, Colômbia, Argentina e Chile. Essa combinação transformou o show em pura nitroglicerina.
A noite começou com mais um show eletrizante do Thalin, um dos autores do disco Maria Esmeralda e ex-integrante da Dupla 02. Acompanhado apenas do DJ Shirts e do guitarrista Caio Colasante, Thalin incendiou o público com músicas de diversos momentos de sua curta carreira. Antes de encerrar sua participação, convocou a MC Rubi, a sempre precisa filha de Anelis Assumpção, em um número incendiário de rimas improvisadas.
Quando o Kneecap subiu no palco (logo após tocar “Favourite”, dos conterrâneos Fontaines D.C.), o clima já estava quente o suficiente. O trio chegou logo após exibir textos, em português, falando sobre o genocídio na Palestina promovido por Israel, o que fez o público puxar o coro de “Palestina livre” em inglês, como sempre acontece em seus shows. Logo após esta introdução, o trio submeteu o público a uma sessão de rimas e beats que mostram que eles estão muito além do próprio rap.
A relação de ódio do grupo com o Reino Unido, que o MC Mo Chara lembrou que colonizou seu país, transformando-o na primeira colônia do Império Britânico do passado, não disfarça suas influências musicais — e é possível ouvir tanto o punk inglês do final dos anos 70 (especificamente quando se mistura com grooves negros, como ska, reggae e o próprio rap) quanto a vasta gama da música eletrônica daquele país no som do grupo.
A principal força do Kneecap, mesmo com bases treme-terra e letras dedo-na-cara, é sua presença de palco. É impressionante como eles soam melhor ao vivo do que em disco. A intensidade de suas rimas são calcadas na história do rap, mesmo com o sotaque irlandês pesando no inglês falado dos três MCs.
Além do carisma instantâneo do Chara, o grupo ainda conta com o segundo vocal do elétrico Móglaí Bap e com as rimas ditas até por seu DJ, o intenso Próvaí, que conseguia mudar o clima da noite em poucos segundos, mudando o clima de uma bateção de cabeça de não deixar ninguém parado para uma techneira pesada ou numa rave com versos.
Junte isso a um telão irrepreensível — que enfileirava diferentes vilões da contemporaneidade, como Margareth Thatcher, Benjamin Netanyahu e Donald Trump, além de projetar ‘Bora Lula’ no telão — e uma iluminação por vezes frenética e outras hipnótica, e o trio facilmente dominou a noite.
Chara, que provocou o público para saber se aquele seria o melhor show da temporada de apresentações na América Latina, no fim confessou que aquele tinha sido o auge da turnê.
O clima de paranoia política que vivemos atualmente no Brasil convulsionou-se em êxtase e catarse, com o público cantando letras inteiras — e berrando nos refrões —, dançando sem parar, abrindo rodas e pulando do palco. E enquanto o debate dos candidatos à presidência comia solto na sexta-feira, o público que foi ao Cine Joia foi submetido a uma aula frenética de política na prática, com todo mundo — público e banda — transformando-se numa imensa massa com propósito. E o sorriso nos rostos de todos ao final do show – inclusive da banda! – era o melhor diagnóstico pra noite.
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