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Superchunk e o indie brasileiro

, por Alexandre Matias

Aproveitei a quarta vinda do Superchunk ao país para falar da importância deles na cena indie dos EUA e de como o grupo foi um dos artífices da conexão desta cena com a brasileira, desde que vieram pela primeira vez para cá, ainda nos anos 90, em texto que escrevi sobre o show deles no domingo passado em mais uma colaboração com o Toca UOL.

Superchunk, conectado à história do indie brasileiro, lava a alma em SP

Mais uma noite catártica para os velhos indies paulistanos, quando o Superchunk fez mais um show no Brasil neste domingo (31) encerrando sua quarta e curta turnê pelo país.

A banda liderada pelo lendário Mac McCaughan reencontrou-se com o público brasileiro que não via há 15 anos, quando o grupo apresentou-se pela última vez por aqui e deu um show à altura da expectativa: além de clássicos de vários discos da banda, mostrou que a idade não diminui a energia da performance, mesmo quando falamos de indie rock.

Heroico grupo de rock independente criado na pequena cidade estadunidense de Chappel Hill na virada dos anos 80 para os anos 90, o Superchunk não só é um dos pilares da cena de rock alternativo dos EUA como também é fundamental pra formação da cena indie no Brasil – e por vários motivos.

O primeiro deles é a concisão de sua estética. Formado no momento em que o rock alternativo dos Estados Unidos começava a se consolidar como uma rede paralela comercialmente viável para toda uma geração de bandas, eles juntavam referências que vinham do hardcore melódico ao noise de Nova York em canções grudentas empurradas pela propulsão de duas guitarras, baixo e bateria e da voz fina e marcante de Mac.

Em discos hoje clássicos como “No Pocky for Kitty” (1991), “On the Mouth” (1993), “Foolish” (1994), “Here’s Where the Strings Come In” (1995), “Indoor Living” (1997) e “Come Pick Me Up” (1999), o grupo forjou uma sonoridade própria que viria a inspirar vários artistas durante os anos 90.

Outro motivo é o fato de que, ao surgir em 1989, o grupo surfou na consolidação de uma rede de troca de informação – pré-internet, movida por correio e telefone – que colocou no mapa diferentes bandas como Sonic Youth, Minutemen, Black Flag, Minor Threat, Hüsker Dü, Big Black, R.E.M. Replacements, Mission of Burma, Beat Happening, Dinosaur Jr., Butthole Surfers e Mudhoney, cada uma delas responsável por ligar uma cena local e uma cidade dos EUA à rede que tornou-se base para a cena independente que existe até hoje por lá – e que se espalhou pelo mundo.

O fato de ser um dos caçulas desta geração deu as armas para o Superchunk colocar uma pequena e desconhecida cidade do país naquele mapa que era dominado principalmente (e logicamente) pelas grandes cidades de lá e criar uma cena local.

Com menos que 50 mil habitantes naquela época (hoje este número cresceu para 60 mil!), Chapel Hill não parecia um local que poderia sediar não apenas um polo criativo alternativo como tornar-se um ponto de referência para turnês para aquelas novas bandas.

Isso deu a oportunidade de Mac e sua companheira de banda, a baixista Laura Balance, de dar um passo além e montar sua própria gravadora, a hoje mitológica Merge Records, que lançou discos clássicos de bandas como Lambchop, Neutral Milk Hotel, And You Will Know Us By the Trail of the Dead, Magnetic Fields, Spoon e Camera Obscura a artistas contemporâneos como Arcade Fire, Waxahatchee, Wild Flag, Caribou e Destroyer.

A Merge é um parâmetro de qualidade dentro da cena independente dos EUA e o trabalho principal de seus dois integrantes, para além da banda em si.

E finalmente foi o Superchunk um dos artistas a estreitar a conexão entre a cena indie norte-americana e a brasileira. Nascida no final dos anos 80, esta começou a se erguer no meio dos anos 90 (com a ajuda da incipiente internet), quando alguns produtores se dispuseram a trazer bandas alternativas para o Brasil neste período.

É notável a presença de iniciativas paulistanas como o Projeto SP e o selo Stiletto, mas foi uma produtora de Belo Horizonte – a saudosa Motor Music – quem acelerou este processo, trazendo bandas como Fugazi, Man or Astroman? e Superchunk para o Brasil, em turnês que iam para além do eixo Rio-SP, chegando a tocar em lugares como Goiânia, Brasília ou no interior do Paraná, por exemplo.

A Motor trouxe o Superchunk para o Brasil duas vezes ainda na virada do século (1998 e 2000) e o grupo voltaria mais uma vez em 2011, quando tocaria na Virada Cultural de São Paulo, além de passar por Mogi das Cruzes e Sorocaba, no interior de São Paulo. Quatro anos depois, Mac voltaria em carreira solo na primeira edição do Balaclava Fest, realizada no Centro Cultural São Paulo em 2015. Festival realizado pela gravadora Balaclava, responsável pela vinda do grupo em 2026 para o Brasil.

E apesar da doutrinação indie clássica a um público mais jovem feita pela gravadora paulistana, o Cine Joia estava lotado de quarentões e cinquentões esperando pelo reencontro com a banda, que veio modificada.

Laura Balance segue no grupo, mas não consegue mais fazer turnês, por isso manda a substituta Betsy Wright, e o baterista original Jon Wurster, que deixou a banda em 2023, abriu espaço para a caçula Laura King (que tocava no Bat Fangs) e segura bem o pulso da banda, que conta com Mac (cantando como nunca, com a voz intacta) e o compadre Jim Wilbur na segunda guitarra.

Com quase uma hora e meia de apresentação, a banda lavou a alma do público paulistano, que viu joias dos anos 90 como “Driveway to Driveway”, “Hello Hawk”, “Seed Toss”, “Skip Steps 1 & 3”, “Detroit Has a Skyline” e “Like a Fool” desfilarem bem ao lado de músicas recentes como “Crossed Wires”, “Care Less” e “What a Time to Be Alive”.

A primeira parte do show encerrou com o hino “Slack Motherfucker”, que fez os tiozões se arriscarem (com medo) a subir no palco e se atirar no público. O bis foi imbatível, enfileirando “Mower”, “Cast Iron”, “Learned to Surf’, “Precision Auto’ e “Hyper Enough” pra todo mundo voltar pra casa sorrindo.

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