Seu Jorge e a MPB clássica

Conversei com o Seu Jorge sobre seu novo álbum, The Other Side, que fez em Los Angeles com Mario Caldato há mais de quinze anos e que só agora vê a luz do dia. Um disco que evoca a MPB clássica de Tom Jobim, Arthur Verocai e Milton Nascimento com participações de Maria Rita, Marisa Monte, Zap Mama e Beck. Leia a íntegra da matéria que fiz para o Toca UOL e veja um trecho da entrevista em vídeo que fiz com o carioca:
Seu Jorge lança disco que guardou por 15 anos: ‘Não vai tocar na rádio’
Seu Jorge sabe que está prestes a lançar um dos trabalhos de sua vida. “Fiz um disco só pensando em tentar fazer o mais bonito que pudesse”, explica em entrevista em seu estúdio na casa paulistana que mantém em Alphaville.
Preso desde 2009 em “The Other Side”, que finalmente é lançado nesta sexta-feira (8), o músico carioca incuba esse disco de MPB clássica graças à parceria que iniciou com o produtor brasileiro-californiano Mario Caldato Jr.
Nascido brasileiro e residente em Los Angeles há décadas, Caldato – que já trabalhou com Marisa Monte, Beck, Beastie Boys, Planet Hemp e Bebel Gilberto, entre outros – é peça fundamental no novo disco e na carreira de Jorge. Ele esteve em alguns dos momentos mais importantes dessa trajetória musical, da estreia solo “Samba Esporte Fino” (2001) passando pelos dois volumes de “Músicas para Churrasco” (2011 e 2015) e o disco que gravou como Almaz (em 2010), reunindo o núcleo instrumental da Nação Zumbi à época (Lucio Maia, Dengue e Pupillo) como sua própria banda.
Foi justamente a partir da parceria com os pernambucanos que a semente de “The Other Side” foi plantada. “Na época, o Pupillo tinha falado em tocar ‘Crença’ do Milton Nascimento, mas a música tinha uma coisa sinfônica que o Almaz não permitia”, continua o músico, explicando que a partir dessa sugestão passou a dedicar-se com afinco à obra de Milton, descobrindo uma nova camada na música brasileira.
“O Milton esgota todas as possibilidades de beleza de uma obra”, continua Jorge. “Depois que ele crava fica muito difícil fazer algo mais bonito, deixando tudo que ele faz imaculado”. A partir daí, ele traçou um paralelo entre os discos de Milton, Tom Jobim, João Gilberto, Elis Regina, outros mineiros da geração do Clube da Esquina, descobrindo uma sofisticação na música brasileira que vem do fato de não precisar de prazos ou de pensá-la de um ponto de vista apenas comercial.
Junto a isso veio a provocação da esposa do produtor, Samantha Caldato, que toca o selo Amor in Sound com o marido, responsável pelo lançamento do novo disco nos EUA. Jorge aceitou o desafio e há mais de quinze anos começou a gravar o álbum no estúdio de Caldato em Los Angeles.
“Desde o começo pensei na ideia de não ser autor e de ter um diálogo com a música brasileira, sendo intérprete dentro das minhas limitações – e assim comecei por ‘Crença'”, explica listando a parceria de Milton com Márcio Borges de seu disco de estreia (“Travessia”, de 1967) como ponto de partida do novo álbum. E a partir da constatação que teve ao tirar a mesma música do repertório do Almaz, entendeu que ela e, portanto, o novo disco precisariam ter um tratamento sinfônico que ecoasse arranjadores que conversavam justamente com essa fase da MPB, como o próprio Tom Jobim, Arthur Verocai e o alemão Claus Ogerman.
É aí que entra o terceiro elemento do disco, o californiano Miguel Atwood-Ferguson, apresentado a Jorge por Caldato, que dá o tratamento sofisticado que o músico buscava para o disco. A partir da formação deste time, o disco seguiu sendo feito quase como uma lenda urbana e passou anos em gestação até ser concluído em 2018, quase dez anos depois do início das gravações.
Neste percurso, o repertório escolhido foi pautando possíveis convidados. “A Maria Rita foi a primeira a entrar no disco e apesar de estar muito bem no samba, chamei-a para cantar uma música que a mãe dela havia gravado”, refere-se à mineira “Vento de Maio” – “e quando ela entrou o sarrafo subiu”.
A partir daí, outros nomes vieram quase que naturalmente, tudo no tempo dilatado que o disco impunha. E trouxe músicas em inglês, mesmo com a intenção de soar brasileiro, como “Girl You Move Me” da banda canadense Cane and Able (que ganhou um clipe dramático em preto e branco com um Seu Jorge envelhecido chorando como se lamentasse a perda de alguém), “Far from the Sea”, da congolesa Zap Mama, que também foi parar no disco, e da comovente versão de “River Man”, das maiores canções do artesão Nick Drake, em que divide os vocais com ninguém menos que Beck.
O time dos colaboradores fecha com a presença de Marisa Monte, autora (ao lado de Arnaldo Antunes e de Seu Jorge) da única faixa inédita do disco, “Quando Chego”, cuja letra reflete o clima de descontração de sua composição, quando Seu Jorge lembra ter sido convidado para passar o feriado com ela em Paraty e desceu a serra ao litoral fluminense com o carro cheio de cerveja, “parecia até contrabando!”, ri.
“Fizemos umas seis músicas esse dia”, lembra o carioca, “e a letra é exatamente o que aconteceu: ‘quando chego na varanda, vejo o céu, a mata e o mar, por aqui a vida devagar? Se você quer vir aqui, eu posso te convidar, eu posso até insistir, venha pra cá'”, recita.
Encerram o repertório “Luz na Escuridão” e “Flor de Laranjeira”, duas músicas de Capinam, “Folia de Amor” de William Magalhães e Mariana Bergel e “Beleza Bárbara” de Leo Tomasini e Joey Altruda que, com quase oito minutos, encerra o disco sem deixar cair.
A duração dessa faixa foi uma questão entre ele e o produtor, mas no fim a insistência de Seu Jorge ganhou: “Pois é Mário, é o tempo que a música pediu, a gente tem as músicas começo e fim, não tem fade-out”, conclui, “A gente fez o fim pra cada música e o fim dessa vinha assim, chegou no minuto sete, desculpa, não vamos editar, está pronto. Até porque não temos nenhuma esperança que vai tocar na rádio ou ser uma comoção mundial, não é o ‘Thriller’ [de Michael Jackson].”
Agora a dúvida é como levar esse disco para os palcos, ilusão que Jorge prefere não acalentar, devido aos custos de trabalhar com uma orquestra. “Eu também preciso me preparar, tenho que cantar bem”, explica, “no estúdio você controla mais”. Não descarta a possibilidade, mas não cogita para logo. “Até porque não tenho esperança que esse disco vai tocar muito”, acanha-se modesto, mesmo ciente do grande disco que gravou.
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