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Afrika Bambaataa (1957-2026)

, por Alexandre Matias

Pioneiro do hip hop, Afrika Bambaataa, que morreu nesta quinta-feira, foi um dos pilares da fundação desta cultura que mudou a cara do final do século 20 e depois ajudou a expandir seus horizontes para além das periferias de Nova York ao cruzá-la com a música eletrônica. Mas as acusações de abuso de menores que surgiram nos últimos dez anos de sua vida destruíram sua reputação. Escrevi sobre sua ascensão e queda em mais uma colaboração para o Toca UOL.

De líder de gangue a pioneiro do hip hop, Bambaataa deixa legado manchado

Pioneiro do hip hop, Afrika Bambaataa, que morreu nesta quinta-feira (9), pertence ao panteão da cultura de rua mundial. Um artista que se descobriu ativista e combinou essas duas atividades em uma força criativa, transformando uma gangue de rua em um coletivo criativo de práticas artísticas que virou do avesso a cultura de sua cidade-natal – a metrópole estadunidense Nova York, que nos anos 1970 era um dos lugares mais perigosos do mundo. De quebra, ajudou o mundo a se reinventar culturalmente para o século que hoje vivemos.

Mas um passado sombrio que conviveu com seus dias de ouro veio à tona na última década, maculando eternamente a reputação deste que era um dos nomes mais celebrados da cultura negra mundial.

Nascido Lance Taylor, este filho de imigrantes barbadianos e jamaicanos é rotineiramente lembrado por ser um dos primeiros DJs a expandir a paleta sonora do hip hop ao samplear o grupo alemão Kraftwerk em seu maior hit, a imortal “Planet Rock”, fruto do encontro com o produtor Arthur Baker, em 1982.

A faixa, reconhecível até para quem não sabe nada sobre hip hop, criou uma série de parâmetros que seriam fundamentais para o estabelecimento do rap como principal pilar no início daquela nova cultura de rua, que ainda contava com os outros três elementos basais: o grafitti, o break e o DJ. Também foi fundamental para expandir o rap para um público alheio ao que acontecia nas periferias de Nova York.

Ao usar o andamento e a sequência de acordes de “Trans Europe Express”, que o Kraftwerk – eles mesmos pioneiros da música pop eletrônica – havia lançado anos antes, Bambaataa atingia tanto ouvintes efêmeros (que reconheciam a música no rádio), frequentadores da cultura clubber nova-iorquina, críticos musicais e colecionadores de música em geral. Ao conectar a nova sensação dos bairros distantes da maior cidade dos EUA com a fria e sisuda cultura eletrônica pop germânica, o DJ e MC ergueu as fundações para a popularização do rap e da música eletrônica como principais alicerces da música do futuro.

Mas sua importância já era indiscutível quando lançou-se como líder do grupo Soul Sonic Force com aquele compacto. Há incertezas sobre o período em que ele começou a organizar festas no bairro do Bronx, onde nasceu, e como aquelas primeiras aglomerações que produzia influenciaram o nascimento do hip hop. Hoje há um consenso que foi outro pioneiro desta cultura – o jamaicano Kool Herc – que plantou a semente nas festas que organizava naquele mesmo bairro a partir de 1973. Bambaataa, que ainda não tinha adotado seu codinome, era um dos muitos agitadores daquele bairro – o que não dizia respeito só apenas a questões culturais e de lazer.

Líder da gangue Black Spades, ele também usava a vida bandida para promover festas, mas influenciado por familiares que eram ativistas políticos e impactado pelo filme britânico “Zulu” (1964), que contava sobre a guerra entre a Inglaterra e o povo Zulu na África do Sul no século 19, passou a se interessar pelo histórico da cultura africana e ficou impressionado com o que descobriu, a ponto de começar a aplicar em sua gangue adolescente.

Transformou os Black Spades em Universal Zulu Nation e adotou o nome artístico que incluía um K no nome do continente negro como prenome e reverenciava o líder Zulu Bhambatha kaMancinza (1865-1906) ao adotar uma versão anglicisada do prenome daquele guerreiro. E sua gangue aos poucos transformava-se não apenas em um, mas em vários grupos artísticos e não apenas musicais – incluindo dançarinos de break e grafiteiros -, ao mesmo tempo em que passavam a reivindicar seus direitos através da música. Era como se o partido dos Black Panthers se misturasse com a espaçonave p-funkadelica de George Clinton.

Sua visão futurística da música entrou em contato com a música eletrônica nativa de seu país antes de descobrir outros artistas daquele novo gênero em outro continente, quando começou a discotecar o primeiro single feito com um computador nos EUA, o pitoresco hit new wave “AEIOU Sometimes Y” da dupla EBN-OZN. Foi isso que o fez conectar-se com o desbravador da cultura pós-disco de Nova York Arthur Baker e começar a descobrir outros pioneiros daquele novo gênero, como o alemão Kraftwerk e o japonês Yellow Magic Orchestra, grupo original do visionário Ryuichi Sakamoto.

Mas foi a partir de “Planet Rock” que seu nome gigantesco tornou-se reconhecível, abrindo fronteiras impensáveis para o rap, que ainda engatinhava, não era visto como música pela indústria fonográfica e não vendia milhões de discos, como aconteceu com a geração seguinte à sua, liderada pelo trio Run DMC. Enquanto o rap deixava de ser uma novidade para aos poucos firmar seu lugar nas paradas de sucesso, Bambaataa colaborava com artistas tão diferentes quanto James Brown, UB40, Boy George, U2, Bootsy Collins, John Lyndon e Yellowman. E por ser mais do que apenas um DJ ou MC – e ganhar o epíteto de “padrinho do hip hop” – passou a agir como um embaixador desta cultura indo para diferentes países e continentes.

A primeira vez que veio para o Brasil, por exemplo, foi em 1999, quando participou do festival Duloco, um dos principais eventos desta cultura no país, quando entre os dias 6 e 8 de agosto, reuniu atrações como os brasileiros Black Alien, Xis, Kamau, Z’África Brasil, Posse Mente Zulu, KL Jay, Max B.O., Thaide e DJ Hum e Consequência entre outros, além dos gringos DJ Spooky, Common, Grand Master Flash, Jungle Brothers e De La Soul. Bambaataa e sua Soul Sonic Force era a principal atração do evento.

Foi só o primeiro contato dele com o Brasil, para onde voltou várias vezes (tocou até em uma Virada Cultural de São Paulo, em 2008) e cuja influência é sentida de várias formas: seja na criação do Miami Bass (que nasceu a partir de “Planet Rock”) e influenciou diretamente o funk carioca, seja no batismo do principal disco de Marcelo D2 (Em Busca da Batida Perfeita, de 2003, teve seu título inspirado diretamente de “Looking for the Perfect Beat”, que Bambaataa lançou em 1986) ou na parceria com Fernanda Abreu no single “Tambor”, do disco Amor Geral, de 2016.

Este foi o mesmo ano em que Bambaataa sofreu a primeira das várias acusações que vieram em seguida que havia violentado adolescentes com quem convivia nos anos 80 e 90. As acusações, sempre negadas por ele, foram parar na justiça e aos poucos sua reputação foi ruindo. Ao morrer, pelo que consta, vítima de complicações de um câncer, havia sido condenado de estupro e tráfico de menores de idade no ano passado. Estes crimes, ao tornarem-se públicos, fizeram a própria Zulu Nation, que ainda segue em atividade, a tirar Bambaataa da organização, atestando que ele precisa pagar pelos crimes que cometeu. Um final frustrante que arrasa de vez uma biografia que mudou a cara da cultura mundial.

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