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Dave Kendall (1963-2026)

Embora quase virtualmente desconhecido no Brasil, o VJ inglês da MTV norte-americana Dave Kendall, que morreu nesta terça-feira, tem uma importância que vai para além de sua fama. Ele começou escrevendo para o tabloide inglês NME e depois passou a ser correspondente da revista americana Spin, antes de mudar-se para os Estados Unidos e começar a trabalhar na MTV, onde, no primeiro ano de trabalho, em 1986, criou o programa 120 Minutes. Programa semanal de duas horas de duração (como o título deixava claro), o 120 Minutes ia ao ar nos domingos à noite e aos poucos foi apresentando para o público da emissoras artistas que passavam longe das paradas de sucesso das rádios e dos discos mais vendidos no país, caçando novidades no incipiente mercado independente dos EUA e da Inglaterra e aos poucos ir pavimentando o terreno para o que depois conheceríamos como rock alternativo. Além de produtor e criador, ele foi apresentador do programa entre 1988 e 1991, quando estreou o clipe de “Smells Like Teen Spirit” do Nirvana pela primeira vez. Neste mesmo ano deixou a MTV e seguiu carreira trabalhando em outros veículos impressos, online, rádio e TV, além de atuar como DJ até se mudar para a Tailândia, onde estabeleceu-se no jornal Bangkok News, em que trabalhava até esse ano. A causa de sua morte não foi divulgada. E não custa lembrar que o 120 Minutes (que durou até 2003), sua grande contribuição para a história da música, também é o programa que inspirou o brasileiro Lado B, que foi apresentado por Luiz Thunderbird, Fabio Massari, Kid Vinil e Sônia Francine e, como o programa gringo, também formou algumas gerações de ouvintes de rock alternativo no Brasil.

Bonnie Tyler (1951-2026)

Bonnie Tyler já não estava bem há alguns meses, depois que teve de ser submetida a um coma induzido por conta de uma complicação em uma cirurgia de emergência no intestino, e por mais que tenha saído do coma e recuperado a consciência nos últimos meses, não resistiu e faleceu nesta quarta-feira, como sua própria família noticiou. Um dos grandes nomes daquela fase em que a música pop misturou-se com o rock clássico entre o final dos anos 70 e o começo dos anos 80, a galesa Bonnie nasceu Gaynor Hopkins, mas teve que mudar de nome quando lançou-se cantora em 1969 para não ser confundida com a já estabelecida Mary Hopkin. Mas seu primeiro nome artístico não foi o que a consagrou e sim Sherene Davis, com o qual se apresentou até 1975. Mas ao ser descoberta pela gravadora RCA naquele ano, acatou a sugestão de trocar mais uma vez de nome e optou por um dos inúmeros nomes que a sugeriram. Seu segundo single, “Lost in France”, lançado em setembro de 1976, conseguiu um certo sucesso inclusive para além do Reino Unido, atingindo a Europa continental – e especialmente a França – que seria importante no futuro de sua carreira. O terceiro single “Heaven” foi ofuscado pela morte de Elvis Presley, em agosto de 1977, mas a partir da próxima música, seu primeiro grande hit, “It’s a Heartache”, lançada em novembro daquele ano, subiu um degrau e tornou-se um nome reconhecido no novo cenário do pop rock inglês. A principal mudança do novo single acabou tornando-se sua assinatura musical, quando, após retirar um nódulo nas cordas vocais, teve que passar um longo período com a voz em repouso, que culminou num grito incontido num dia mais tenso, que acabou por danificar seu timbre original, tornando-o rachado como o de outros vocalistas daquele período como Rod Stewart e Kim Carnes. Mas a grande virada de sua carreira acontece quando sai da RCA para a gravadora CBS e chama o produtor Jim Steinman (que havia produzido o best seller Bat Out of Hell, do Meat Loaf) para conduzir seu próximo disco. Ele recusou inicialmente, mas voltou atrás quando percebeu que a voz de Bonnie Tyler poderia ser a melhor forma de mostrar a música que havia composto para o disco anterior de Meat Loaf e que foi recusada. Com “Total Eclipse of the Heart”, a cantora pode exercer toda sua influência roqueira com uma carga dramática ainda mais intensa que a de suas canções anteriores, consagrando a nova canção como um dos maiores sucessos dos anos 80, uma balada imortal. A locomotiva de sucessos tornou-se constante: o single vendeu 13 milhões de cópias no mundo todo, tornando o álbum Faster Than the Speed of Light uma das maiores tiragens de 1983, faturando dezenas de prêmios. No ano seguinte emendou “Holding Out for a Hero” na trilha sonora do filme Footloose como um dos grandes sucessos do ano, seguido, em 1985, por uma colaboração com o produtor Giorgio Moroder na trilha sonora da versão restaurada do clássico filme alemão Metrópolis, na música “Here She Comes”, que lhe garantiu mais um Grammy. Ela recusou cantar a música tema de um filme do agente 007. Após os anos 80, seu alcance comercial caiu e a partir da década seguinte e no começo do século 21 seguiu fazendo sucesso e shows pela Europa, mais especificamente na França, onde inclusive regravou “Total Eclipse of the Heart” em francês (“Si Demain…”, em 2003). Ela seguia em atividade e ano passado inclusive lançou um single produzido por David Guetta (“Together”), além de ter encerrado sua discografia precocemente ao lançar outro single, “Only Love”, agora mesmo em março, que lançou ao vivo em um show Shepherd’s Bush Empire, em Londres. Morreu com 75 anos – e, não fosse essa trágica emergência recente, viveria muito mais.

Dave Stimson (1956-2026)

Um dos fundadores de uma das gravadoras independentes mais importantes dos EUA morreu na quarta passada, mas sua morte só foi anunciada na sexta-feira. Dave Stimson fundou a Touch & Go ainda como um fanzine em 1979 ao lado do futuro líder dos Meatman, Tesco Vee, para acompanhar a nascente cena punk que aos poucos brotava em diferentes cidades dos EUA a partir da cidade de Lansing, capital do estado de Michigan. O zine durou 17 edições (depois relançadas em um único volume, em 2010), mas em 1981, ao descobrir a banda Necros, os dois resolveram transformar a publicação numa gravadora e logo o vocalista desta banda, Corey Rusk, juntou-se aos dois no novo selo. Runk, que toca a Touch & Go até hoje foi o responsável por mudar a gravadora para Chicago em 1983, quando, além de chancelar bandas novas no fanzine, também começou a bancar discos de bandas como Big Black, Jesus Lizards, Slint e Butthole Surfers ainda nos anos 80, lançando alguns marcos em forma de disco da incipiente cena faça-você-mesmo daquele país. Se estabelecendo como selo e depois distribuidora, além dos clássicos, a gravadora também lançou artistas que são ícones recentes do indie dos EUA, como os Yeah Yeah Yeahs, Brainiac, Blonde Redhead, Delta 72, Shellac, TV on the Radio, The Ex, Silkworm, Man or Astroman?, Dirty Three, Polvo, CocoRosie, Girls Against Boys, Quasi, Urge Overkill, entre outros. Embora o mais quieto do selo, era também o mais ácido e direto deles: “Dave conseguia resumir tanto em uma frase seca e diminuta o que Tesco dizia em uma página”, lembrou Rusk ao escrever sobre a perda do amigo no Instagram do selo. “Juntos, os dois eram nossos irmãos mais velhos fodões pra nós dos Necros – que ainda estávamos no ensino médio quando os conhecemos. Eles nos colocaram na capa do fanzine, começaram o selo (que eu logo me juntei a eles pra tocá-lo) para lançar nossos discos e nos colocaram pra abrir pro Black Flag e pro DOA no clube DooBee, em Lansing, no começo de 1981. Lendas’.

Marjane Satrapi (1969-2026)

A morte precoce de Marjane Satrapi nesta quinta-feira (que, pesado demais constatar isto, morreu de tristeza) vai acelerar sua canonização no panteão dos quadrinhos, mas sua importância ainda há de ser medida. Mais do que autora de um Maus persa que viveu em primeira mão (seu Persépolis é autobiográfico, ao contrário do clássico de Art Spiegelman, uma história contada a partir de um relato alheio), ela é uma personagem importantíssima no movimento feminista deste século, não só como agente e autora, mas como inspiração e força contínua. Mas prefiro indicar o obituário feito pelo Érico Assis em sua newsletter obrigatória Virapágina, um dos melhores veículos sobre quadrinhos atualmente. Deixo um trecho a seguir:

“Marjane Satrapi, há quinze anos: ‘A primeira coisa a se lembrar é que não é uma graphic novel. É um gibi. O povo tem medo de dizer essa palavra, gibi. Porque aí vem aquela imagem do homem adulto espinhento, de rabo de cavalo e uma pança. Se você fala graphic novel, essa imagem vai embora. Só que não: é tudo gibi.’

Há 27 anos, Satrapi não se chamava Satrapi. Era uma ilustradora iraniana em Paris tentando a carreira no mercado de livros infantis, que dividia o Atelier des Vosges com vários autores de quadrinhos. Passava horas contando aos colegas – David B., Émile Bravo, Christophe Blain – da sua vida no Irã, dos perrengues que tinha passado na Áustria, de como chegou a Paris. Eles disseram que ela tinha que transformar aquilo em quadrinhos e deixaram Maus na mão da moça.

‘Passei por uma mega depressão. Aí, sabe o que aconteceu? Eu estava muito deprimida e, quando eu fico deprimida, eu não respiro. O ar não entra. Aí teve uma noite em que eu estava sozinha e minha respiração ia parar. Liguei pra emergência e disse: ‘Eu não consigo respirar.’ Aí vieram, me enrolaram no alumínio como se eu fosse um frango assado, me botaram um cobertor, me colocaram na maca e começaram a me descer pela escada, que era em espiral. Acabou que eu caí, desabei escada abaixo e cortei a cabeça. Tiveram que dar quatro pontos! Aí minha depressão acabou. Foi tanta dor que minha respiração voltou e ali eu decidi: Vou ter que fazer alguma coisa. Aí escrevi Persépolis.’

É muita pulsão de vida, abalada fatalmente pelo fim de um relacionamento, quando seu companheiro, como a própria família disse no comunicado sobre sua passagem: “morreu de tristeza pouco mais de um ano após o falecimento de Mattias Ripa, seu marido e amor de sua vida.” Confira a íntegra do texto do Érico aqui.

Sonny Rollins (1930-2026)

Sonny Rollins, último sobrevivente da maior geração do jazz (que floresceu em Nova York, nos EUA, durante os anos 50), nos deixou nesta segunda-feira, com um legado que segue mesmo após sua passagem – e no mesmo dia do centenário de Miles Davis. Escrevi sobre sua importância em mais uma colaboração para o Toca UOL.  

Noca da Portela (1932-2026)

Baluarte da Portela, o mineiro Osvaldo Alves Pereira, mais conhecido como Noca da Portela, morreu neste domingo, no Rio de Janeiro. Nascido em Leopoldina, mudou-se para o Rio de Janeiro ainda criança, mas só passou a frequentar a clássica escola de samba azul e branco depois do convite de Paulinho da Viola, em 1967, e dali nunca mais saiu. Autor de sambas-enredos clássicos como “Recordar é Viver” (1985) e “Gosto Que Me Enrosco” (1995), ambos campeões em seus respectivos anos, compôs outros cinco que representaram a escola. Parceiro de Candeia, Martinho da Vila e do próprio Paulinho (e autor do clássico “Virada”, eternizado por Beth Carvalho), ele também teve vida política ativa, sendo primeiro militante do Partido Comunista Brasileiro e depois como secretário de cultura do estado do Rio de Janeiro, em 2006. No anúncio sobre seu falecimento, a Portela decretou três dias de luto.

Luis Sérgio Carlini (1952-2026)

Conhecido principalmente por seu sobrenome, o guitarrista Luiz Sérgio Carlini deixou este plano nesta quinta-feira, encerrando assim a trajetória de um dos maiores heróis da guitarra elétrica do Brasil. Mais conhecido por ter montado o Tutti Frutti que, na metade dos anos 70, tornou-se a banda de Rita Lee, Carlini colaborou com artistas canônicos do rock brasileiro, tocando com nomes como Barão Vermelho, Titãs, Erasmo Carlos, Lobão e Marcelo Nova, entre outros. Influenciado tanto pelo rock progressivo, pelo hard rock e pela Jovem Guarda, ostentava sua Gibson Les Paul parte de seu próprio corpo. Atualmente figurava na banda que acompanha a turnê de 50 anos de carreira de Guilherme Arantes, mas foi internado recentemente e a notícia de sua morte foi confirmada por sua família.

Ted Turner (1938-2026)

Um dos nomes mais importantes na história das comunicações do século 20, o norte-americano Ted Turner morreu nesta quarta-feira sem que a causa de sua morte fosse divulgada, embora já se falasse que ele sofria de uma doença degenerativa dos nervos. Seu epíteto pode ser resumido como o criador da CNN, emissora de TV a cabo que criou, ao mesmo tempo, o conceito de canal de notícias e de canal 24 horas, lógica que aplicou a outras criações de sua empresa, a Turner Broadcasting System, ao criar o canal de filmes TNT, o de esportes TNT Sports, o de filmes clássicos Turner Classic Movies, o de programas sobre cultura TBS e o de desenhos animados Cartoon Network. Essa transformação aconteceu nos anos 70, quando juntou duas novidades tecnológicas na transmissão de TV da década – a TV a cabo, que até então só atuava em nível local nos EUA, e a da transmissão via satélite – criando uma rede de canais que aos poucos peitaria a onipresença das três principais emissoras de TV de seu país (ABC, CBS e NBC). Bem nascido, herdou a empresa de outdoors do pai quando este se matou quando ele tinha apenas 24 anos, e seu espírito aventureiro e visão futurista de negócios (“televisionário” era outra forma como era chamado) transformou a antiga empresa do pai num império, que mais tarde compraria os estúdios Warner de cinema e a revista Time. Tornou-se o primeiro bilionário dono de uma empresa de comunicações e um dos primeiros ativistas ambientais do planeta, além de ser o quarto maior latifundiário dos EUA. O poço de contradições que personificava o tornava um republicano progressista, que além de bilionário e latifundiário, era amigo de Fidel Castro, a favor do serviço médico público nos EUA e doou um bilhão de dólares para a ONU. Foi casado por muito tempo com a atriz Jane Fonda, era iatista profissional e dono de seu próprio time de beisebol, o Atlanta Braves, além de ter tentado criar sua própria versão das Olimpíadas, os Jogos da Boa Vontade. “Se eu tivesse alguma humildade, seria perfeito”, riu de si mesmo em uma entrevista.

Guto Graça Mello (1948-2026)

Não é exagero dizer que Guto Graça Mello, que morreu nesta terça-feira depois de um mês internado após sofrer uma queda, é um dos nomes mais importantes da música popular brasileira da segunda metade do século 20. Ele começou como músico e compositor, mas, depois de cair nas graças primeiro de Elis Regina e depois de Nara Leão em 1967, foi descoberto pelo diretor da novata emissora de TV Globo Walter Clark e chegou ao cargo de diretor musical da emissora ainda no começo dos anos 70. Lá criou o formato de trilha sonora de novela como conhecemos até hoje e foi um dos principais fiéis da balança no que Clark, José Bonifácio Sobrinho (o Boni) e Daniel Filho chamavam de “padrão Globo de qualidade”, ao subir o sarrafo de produções da casa para torná-las diferente do resto da produção televisiva brasileira daquele período. Ele foi mestre em convidar nomes como Dorival Caymmi para escrever o tema da novela Gabriela, Paulinho da Viola para criar o tema da novela Pecado Capital e Tom Jobim para fazer a trilha da série O Tempo e O Vento e criou temas clássicos da emissora, além de ser o compositor (ao lado de Boni) da música-tema do Fantástico. Além de dar a cara musical para a crescente emissora, assumiu a gerência da gravadora do grupo, a Som Livre, e juntos fizeram projetos históricos, além de trilhas de novelas imbatíveis até hoje – e de ter lançado as carreiras de Lulu Santos e de Cazuza, desde o Barão Vermelho, e ter feito projetos infantis ao lado de Ezequiel Neves, como Pirlimpimpim e Plunct Plact Zuuum. Também foi produtor de discos de praticamente todo o panteão da MPB, de Milton Nascimento a Rita Lee, passando por Roberto Carlos, Gilberto Gil, João Gilberto, Alceu Valença, Caetano Veloso, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e Xuxa, entre muitos outros. Saiu do grupo Globo em 1989 e na década seguinte passou a produzir outros discos importantes da nossa música como As Canções Que Você Fez pra Mim de Maria Bethânia (1993) e o terceiro disco homônimo de Cássia Eller (1994), além de fazer a trilha de mais de 30 filmes nacionais. Como disse no início, não é exagero.

Raimundo Rodrigues Pereira (1940-2026)

Morreu neste sábado um dos nomes mais importantes do jornalismo independente brasileiro e uma das principais vozes de oposição à ditadura militar dos anos 60 e 70, o pernambucano Raimundo Rodrigues Pereira. Fez parte da fundação da revista Veja, onde começou a revelar as torturas feitas pelo regime do período (negada por seus ditadores), seguiu na resistência ao participar da equipe de dois periódicos independentes que marcaram a época: o jornal Opinião (onde começou a trabalhar em 1972) e o jornal Movimento (que fundou em 1975 e o manteve até 1981, sempre sob forte repressão da ditadura), conhecido por se apresentar como “um jornal sem patrões” – por isso mesmo um dos veículos que mais cobriu as greves no ABC paulista no fim daquela década, que acabaram por desestabilizar a ditadura. No Movimento contava com colaboradores como Perseu Abramo, Chico Buarque, Jacob Gorender, Nelson Werneck Sodré, Fernando Henrique Cardoso, Moniz Bandeira e Elifas Andreato. Após a ditadura, criou o jornal diário Retratos do Brasil (que teve vida curta de poucos meses, em 1988) e seguiu colaborando com alguns veículos tradicionais, até fundar a Editora Manifesto, em 1997, que manteve até sua morte. Um herói.