O que é o rock no século 21

Quinta-feira foi o dia em que o Lollapalooza juntou duas bandas aparentemente díspares no palco da Áudio em um de seus shows paralelos ao festival, mas o casamento entre Viagra Boys e Interpol funcionou melhor que o esperado. Escrevi para o Toca UOL sobre a noite mais rock de um festival cada vez menos roqueiro.
Viagra Boys e Interpol se conectam e mostram o que é o rock do século 21
Às vésperas de uma edição do Lollapalooza que parece marcada por uma virada de perspectiva, deixando o rock em segundo plano para abraçar a diversidade musical contemporânea, a noite que reuniu os suecos Viagra Boys e os nova-iorquinos Interpol na Áudio em São Paulo, na quinta (19), parecia ir na contramão do elenco do festival neste ano.
Ao reunir dois expoentes extremos do que podemos chamar de rock nesta terceira década do século, uma das noites paralelas do festival parecia juntar alhos com bugalhos ao reunir duas atrações importantes mas aparentemente contraditórias, mesmo que representantes do gênero musical que já foi força-motriz da música pop e hoje torna-se um nicho cada vez menos importante no cenário global.
Mas se a galhofa irônica e explosiva dos Viagra Boys parecia ser um antídoto ao climão denso e indie do Interpol, ao serem enfileiradas, as duas bandas funcionaram bem e juntas fizeram uma noite digna da importância do festival, sem precisar obrigar seus públicos a atravessar a cidade para assisti-los no Autódromo de Interlagos em shows feitos com o dia claro (os Viagra tocam às quatro da tarde da sexta, duas horas antes do Interpol, que toca às seis).
A noite começou com o rolo compressor em câmera lenta do sexteto sueco, uma versão foda-se do indie punk dos conterrâneos The Hives, liderada por um vocalista igualmente carismático. Mas enquanto Pelle Almqvist encarna um Buster Poindexter das bandas de garagem, o sueco-americano Sebastian Murphy, tatuador e tagarela, prefere encarnar um misto de Iggy Pop com Jello Biafra, puxando sua banda de esquisitões para um patamar completamente novo para o rock, embora reconhecível para a maioria do público.
Eis o fio da navalha em que os Viagra Boys deslizam: eles são uma celebração e uma paródia do ethos do rock’n’roll, zoando sua autodestruição como se estivessem transformando-a em hino. O carisma explosivo do vocalista é só a parte mais evidente da banda, toda ela em prol da autodepreciação enquanto celebra suas raízes barulhentas.
O sexteto percorre um caminho que vem da Detroit dos Stooges e do MC5 (mesma cidade e época de jazzistas de vanguarda como Ron Carter, Alice Coltrane, Donald Byrd e Elvin Jones, espelhados no sax percussivo do guitarrista grandalhão Oskar Carls), atravessa o pós-punk americano e inglês, o hardcore dos anos 80 e até o indie garagem do início do século.
No centro de tudo e entregue ao público, Murphy não para de falar, fazendo o público entoar o coro de “Palestina livre” após celebrar nossa caipirinha e tecer loas públicas ao nosso pão de queijo, o que fez logo depois de fingir que ia cantar uma bossa nova. O público que enchia a Áudio foi ao delírio até que o próprio Murphy invadiu a multidão, com o microfone na mão, incendiando de vez a parte final do show, que ainda contou com a bordoada sonora do hit “Sports” e o lento derretimento da psicodélica “Research Chemicals”, que fez não só Murphy surfar no meio dos fãs, como o guitarrista Carls subir no PA da casa de shows e o tecladista Elias Jungqvist também se jogar no público — com seu teclado!
Em uma hora de tirar o fôlego, o grupo saudou o Interpol sem ironia e deixou o palco em sua primeira apresentação no Brasil como se deixasse um desafio para seus parceiros de noite — como prosseguir depois da avalanche bem-humorada dos Viagra Boys?
O Interpol respondeu à altura ao começar o show sem meias palavras e com músicas assertivas e elétricas, como se estivessem respondendo diretamente à provocação deixada pelo grupo sueco. Enfileirando “All the Rage Back Home”, “No I in Threesome” e “C’mere” como têm feito em seus shows mais recentes, o grupo apenas seguiu sua trajetória natural ao começar fugindo do repertório do primeiro disco, o impecável Turn On the Bright Lights, de 2002, tema de sua última apresentação no Brasil, quando apresentou-se sozinho naquela mesma casa de shows, há dois anos.
A escolha destas músicas mais agitadas para o início do show —além de reduzir o número de músicas do disco de estreia— fez com que a apresentação tivesse uma queda de ritmo pela metade do show, em canções que pareciam revelar uma fórmula por trás de seu repertório, puxando referências pós-punk com vocais monocórdicos e pouco melódicos. E nesta parte —entre “The Rover” e “Evil— estrearam uma música nova, chamada “See Out Loud”.
Mas o carisma imóvel do vocalista-galã Paul Banks —sempre de óculos escuros e de poucos sorrisos— já tinha o jogo ganho em território brasileiro, afinal é a sétima vinda do grupo de Nova York para o Brasil e a casa de shows parecia ter sua lotação no limite durante esta apresentação, mais que a anterior. Único integrante original ao lado do guitarrista Daniel Kessler —um guitar hero indie que ecoa diferentes pares ingleses dos anos 1980 como Johnny Marr, Bernard Sumner, os irmãos Reid e Robert Smith—, Banks ainda ouviu o coro feminino cantando “lindo, tesão, bonito e gostosão” logo no início do show.
Esta safra de shows do grupo marca a licença médica de outro fundador do Interpol, o baterista Sam Fogarino, que teve que deixar o grupo para tratar de problemas na coluna. Em seu lugar entrou o explosivo e firme Urian Hackney, que estava acompanhando Iggy Pop ao lado de outro novo integrante do Interpol, o baixista Brad Truax, na banda desde a saída do baixista original, Carlos Dengler, no início da década passada. O tecladista e vocalista Brandon Curtis, que acompanha a banda há mais de quinze anos, completa o time, entrosadíssimo.
Felizmente, o show pegou tração mais para o final, quando o grupo puxou músicas do início da carreira, como “Not Even Jail” (do segundo disco, Antics, de 2004) e “PDA”, do disco de estreia, logo no final da primeira parte do show, e depois no bem servido bis, que emendou “Pioneer to the Falls” (do terceiro disco, Our Love to Admire, de 2007), “Roland” (do disco de 2002) e “Slow Hands” (do de 2004).
O público permaneceu na casa até depois do fim do bis, pedindo até uma terceira volta da banda, que não aconteceu. Isso não diminuiu a força da noite, que começou com um show impecável do Viagra Boys e seguiu com uma boa apresentação do Interpol, que também saudou a banda sueca no final de seu show. Formado majoritariamente por roqueiros mais velhos —a média de idade ficava entre os 40 e 50 anos e os mais novos da plateia tinham entre 25 e 30—, o público saiu feliz de uma noite que parecia desconexa mas tornou-se um bom retrato do que é o rock’n’roll em plenos anos 20 do novo século.
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