Trabalho Sujo - Home

Da Lata, 30 anos depois

, por Alexandre Matias

Quem também está completando 30 anos é o clássico disco Da Lata, da Fernanda Abreu, que ela está comemorando em grande estilo, com direito a documentário, primeira edição em vinil, livro e possivelmente uma turnê temática no ano que vem. Bati um papo com ela sobre seu disco mais emblemático para o caderno Eu& do Valor Econômico.

Fernanda Abreu volta à Lata
Cantora comemora os 30 anos do álbum que consagrou sua carreira — com vinil, livro, documentário e show

“Eu fiz um documentário em seis meses!” A carioca Fernanda Abreu atravessa o meio da primeira pergunta já para comemorar o que ela considera seu maior feito na celebração de 30 anos do álbum “Da Lata”. Lançado em 1995, o terceiro disco de sua carreira solo está sendo revisitado nos formatos vinil, livro e documentário. E foi a partir deste último que a comemoração começou a tomar forma, há um ano.

“Em outubro do ano passado, o Paulo Severo, diretor do filme e grande amigo, me ligou e falou: ‘Estou começando uma limpeza das minhas fitas de Super VHS e achei 40 horas do ‘Da Lata’”, lembra ela, empolgada, ao contar do início do projeto que lança neste fim de ano.

O amigo enumerou a série de descobertas de registros em vídeo: as gravações do disco no Brasil e na Inglaterra, a sessão com o fotógrafo Walter Carvalho, o making of de dois videoclipes, o primeiro show do disco no Canecão filmado com quatro câmeras, horas e horas de bastidores. Foi a deixa para Fernanda retomar as comemorações dos 25 anos do disco, que ela queria ter feito em 2020, mas que a pandemia impediu.

A descoberta no acervo pessoal do amigo reacendeu a vontade de revisitar o disco. A cantora e compositora havia entrado no imaginário brasileiro com a primeira fagulha da nova geração do rock brasileiro, ainda no início dos anos 1980, quando a MPB e o pop radiofônico da época foram atropelados pela Blitz, em que Fernanda era uma das vocalistas. O grupo carioca inaugurou uma nova fase na indústria fonográfica brasileira e, por mais que sua vida útil tenha sido curta (entre 1981 e 1986), ela preferiu esperar para lançar sua carreira solo.

Esta veio em 1990, quando deu seu segundo grande passo artístico ao lançar o disco que é um marco na dance music brasileira. “SLA Radical Dance Disco Club” cortava as relações de Fernanda com o meio rock de onde havia saído para abraçar a música das pistas de dança do mundo, misturando música pop, funk, disco music e o início da música eletrônica daquele período. O disco seguinte (“SLA 2: Be Sample”, lançado em 1992) continuava aquela tendência, reforçando referências que já estavam no primeiro SLA, como o hip hop e o funk carioca. É desse disco que saiu um de seus maiores hits, “Rio 40 Graus”.

O disco seguinte, justamente “Da Lata”, seria seu passo artístico mais importante para colocar aquela nova abordagem musical de sua carreira solo do ponto de vista de sua cidade natal, o Rio de Janeiro, com sucessos que até hoje misturam sua biografia à paisagem da cidade, como “Veneno da Lata”, “Garota Sangue Bom” e “Brasil é o País do Suíngue”. Daí a importância que ela via em revisitá-lo décadas depois.

Mas se o diretor achava que só os registros de época eram suficientes para o filme, Fernanda queria mais. “O que faz sentido são as pessoas que participaram naquela época falarem disso hoje”, diz, e para isso saiu atrás, em março, de parcerias para viabilizar um filme que todos achavam inviável lançar ainda em 2025, ao mesmo tempo que coordenava o que mais poderia entrar no documentário.

Ela conseguiu uma parceria de produção com a TV Zero, que a ajudou em entrevistas com pessoas que estavam na época da gravação do disco, feitas pelo jornalista Sílvio Essinger. Só esse time já daria um peso considerável ao documentário, incluindo nomes como a coreógrafa Deborah Colker, o antropólogo Hermano Vianna, a figurinista Cláudia Kopke, o poeta Chacal, o escritor e vocalista Fausto Fawcett, o DJ Memê, os produtores Liminha, Will Womat (do grupo inglês Soul II Soul) e Chico Neves, o fotógrafo Walter Carvalho, o vocalista dos Paralamas do Sucesso Herbert Vianna, os cantores e compositores Ivo Meirelles, Lenine e Pedro Luís e o percussionista Marcos Suzano. Além desses, entraram outros entrevistados e personagens comentando o impacto do disco 30 anos depois.

O documentário “Da Lata – 30 Anos”, que teve sessões de lançamento no Rio de Janeiro e em São Paulo entre o fim de outubro e o início de novembro e voltará a ser exibido dentro do circuito de festivais brasileiros do ano que vem, mostra a amplitude da atuação de Fernanda. Mais do que simples cantora e compositora, ela dá palpites em todas as etapas do processo. Da fotografia ao figurino, passando pelas coreografias, sugestões de arranjos musicais, enquadramentos para os clipes, letras e batidas, tudo passa pelo crivo criativo dela. E é muito impressionante vê-la decidida e assertiva, às vezes como única mulher no ambiente.

“Mesmo sendo dirigido pelo Paulo Severo, o filme tem a minha cara”, continua Fernanda. “Tem uma contação de história aí que é da pessoa, e que as outras estão ali meio psicanaliticamente interpretando e entendendo.”

Pois é dela o conceito de uma dance music que pode ser reconhecida como brasileira mesmo sem a voz, o que a leva para o conceito central do disco — o do batuque da lata, elemento percussivo improvável e improvisado que dá o timbre básico da obra. “Também é um entendimento do Brasil como um país muito desigual, então puxamos também a lata por sua precariedade material, né? Que não é ouro, nem prata”, teoriza.

Esse conceito se desdobra na gíria “da lata”, popular no período devido ao mitológico “verão da lata” carioca, quando o navio Solana Star, que levava latas de maconha ilegalmente, afundou no litoral da cidade, fazendo boiar no horizonte das praias do Rio centenas de latas cheias da planta. Outra lata mencionada vinha de outra gíria, esta radiofônica, que mandava o ouvinte falar a verdade sem firulas, falando “na lata”.

O filme não fica apenas na produção do álbum e contextualiza o Rio de Janeiro daquele período, cuja tensão social foi bem retratada no livro “Cidade partida”, de Zuenir Ventura (1994), e ainda via a ascensão do funk carioca ao mesmo tempo que a cidade perdia o protagonismo da vida cultural brasileira para São Paulo. Que é onde Fernanda divide seu tempo, já que mora há 13 anos na ponte aérea entre as duas cidades, após casar-se com o baterista Tuto Ferraz — “ele fica 15 dias lá, eu fico 15 dias aqui”, conta, reforçando que às vezes passa mais tempo no Rio devido às filhas, que moram lá. A entrevista foi realizada em sua casa em um bucólico bairro da zona oeste paulistana.

Ela conta que sua relação com São Paulo já era intensa mesmo antes de mudar-se, quando começou a desenvolver o conceito de dance music brasileira em seu primeiro álbum solo. “Porque aqui era o lugar da pista, da cena eletrônica, da night, sabe, da história rolando na noite”, continua. “Tudo bem que o Rio também tinha DJs, mas aqui era infinitamente maior, muito mais gente, muito mais casas, muito mais boates.” Nesse período começou a envolver-se com músicos da cidade, como Skowa & A Máfia, Theo Werneck, Curumin, Paula Lima, Funk Como Le Gusta, a gravadora YB e grupos de rap, como Pavilhão 9 e Z’África Brasil, entre outros que menciona.

“Mas quando eu comecei a morar aqui, as coisas foram se consolidando na minha cabeça; as pessoas são supercomprometidas com o trabalho e com a amizade. É diferente do Rio, que fica no ‘passa lá em casa e… interrogação’. Aqui quando você fala passa lá em casa, você diz quando, que horas, está marcado, então vamos.”

Além do filme, “Da Lata” também ressurge como um livro comemorativo, coordenado por Fernanda com direção de arte e projeto gráfico de Luiz Stein, que era marido dela à época do disco e a ajudou a desenvolver o conceito visual do álbum. O livro, lançado pela editora Cobogó, reúne vasto material visual do disco, textos que saíram à época de seu lançamento, textos produzidos para o disco também naquela época e farta memorabilia visual sobre o álbum.

O disco também renasce em vinil, formato em que é prensado pela primeira vez, pois no período de seu lançamento a indústria fonográfica brasileira já o havia abandonado em favor do CD. Isso foi um problema para a parte gráfica do disco. Ela não encontrou os negativos das fotos e o material gráfico original, tendo que praticamente reconstituir tudo num trabalho quase arqueológico. O vinil, no entanto, ficará restrito aos assinantes do Clube do Vinil da gravadora Universal Music Brasil.

A versão digital do disco conta com um remix feito exclusivamente para este novo momento, quando Bruna Ferreira e Lívia Lanzoni, dupla de DJs paulistanas que assina como From House to Disco, trouxeram o terceiro single do álbum, “Garota Sangue Bom”, para o século XXI. O novo remix chegou às plataformas de streaming na semana passada.

Para o ano que vem, Fernanda quer realizar o sonho de trazer “Da Lata” na íntegra para os palcos. “Quero fazer um show mais conceitual, por isso não vou viajar para todos os lugares do Brasil”, planeja. “Isso vai me dar trabalho, porque eu vou ter que samplear tudo de novo. Vou ter que arrumar o repertório, coreografia, banda, figurino, iluminação. Estou querendo aumentar as músicas, os grooves, fazer um negócio mais para Prince ou Parliament. Fazer uns arranjos um pouco mais elaborados.”

Mas ela não está só olhando para o passado e já está compondo para um próximo álbum, embora não tenha pressa e fale dos novos artistas que tem acompanhado. “Na área internacional, um dos caras de que eu mais gosto hoje é o Anderson .Paak”, diz. Ela menciona que o disco terá um pouco de trap, nova vertente da música negra que tem tomado a nova geração tanto lá fora quanto no Brasil. “Eu escuto muito a batida e fico pensando no que posso fazer com ela… Provavelmente o meu trap vai ser cantado e não falado.”

Tags: , , ,