Lô Borges (1952-2025)

Que tristeza começar a semana assim. Escrevi sobre a passagem do mestre lá pro Toca UOL.
Lô Borges criou novo pop ao aproximar a MPB da psicodelia dos Beatles
Triste começar a semana com a notícia da morte de Lô Borges, nesta segunda-feira, aos 71 anos. Justo ele, o mais novo e mais agitado dos integrantes do Clube da Esquina.
Essa inquietude foi responsável por transformar a esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro belo-horizontino de Santa Tereza, em um ponto de encontro de músicos que chamou a atenção de um mineiro que já havia feito fama para além das Minas Gerais.
Milton Nascimento se encantou com a juventude que se reunia naquela esquina e logo fez do músico mais animado daquele novo clube seu parceiro.
Mas a amizade vinha de antes. É clássica a história de como Lô conheceu Milton, contada inúmeras vezes por ele, em que, ao descer pelas escadas do 17º andar onde morava com sua família para fazer compras para a mãe, foi sendo lentamente hipnotizado por uma voz mágica que ecoava pelos corredores do Edifício Levy.
Ao chegar no térreo descobriu o futuro parceiro, que morava em uma pensão que funcionava no prédio, como fonte daquele timbre.
Dez anos mais velho que Lô, Bituca já havia conquistado o mercado fonográfico brasileiro depois de anos tentando a sorte na vida noturna carioca, primeiro ao ser descoberto por Elis Regina (que gravou “Canção de Sal”) em 1966 e depois com o sucesso voraz de sua “Travessia”, que foi lançada até no exterior ainda nos anos 60, graças à versão que fez com Eumir Deodato.
Por isso ninguém entendeu quando Milton Nascimento, prestes a se tornar um dos grandes nomes da música brasileira, decidiu voltar para Belo Horizonte e gravar um disco com os músicos que se reuniam na esquina que se tornaria clássica, sempre animados pelo caçula do grupo.
Borges, que aprendera a tocar violão com Milton, já havia se tornado parceiro musical do amigo ainda menor de idade e antes mesmo de gravar discos, colaborando em canções como “Para Lennon e McCartney” e “Clube da Esquina”, que se tornaram sucessos quando o cantor trouxe o grupo Som Imaginário para uma temporada no Rio de Janeiro.
Isso reforçou a certeza que Milton tinha sobre o disco que queria fazer com aqueles novos músicos, que orbitam ao redor de Lô.
“Clube da Esquina” foi lançado em 1972 como o primeiro disco duplo brasileiro gravado em estúdio e Milton fez questão de dividir a parceria do disco com Borges, embora outros nomes – como Beto Guedes, Wagner Tiso, Toninho Horta, entre outros – tivessem peso significativo para o disco.
O álbum não foi bem recebido pela crítica à época justamente porque, ao trazer Lô para o primeiro plano, Milton reforçava sua conexão com a música pop, o rock dos Beatles e uma psicodelia que harmonizava muito bem com o jazz mineiro, elementos considerados pouco elaborados ou simplórios pela intelligentsia da música brasileira daquele período.
Essa conexão entre as duas metades pode ser traduzida pela força das músicas que Lô trouxe para o álbum, clássicos eternos que resumem sua importância apenas no enunciado de seus títulos.
“Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, “Paisagem da Janela”, “O Trem Azul”, “Cravo e Canela”, “Estrelas” e “Trem de Doido” são mais do que canções clássicas e sim marcos da história da música mineira e da psicodelia brasileira, mudando completamente a abordagem que parte da MPB tinha em relação a temas, letras, acordes, arranjos e melodias.
A partir apenas deste conjunto de canções, Lô inventou uma nova música jovem, bela e melancólica, que ia para além das referências trazidas pela Jovem Guarda ou pela Tropicália, redefinindo um novo pop brasileiro. E pensar que ele compôs essas canções com meros 18 anos de idade.
A importância de Lô para a música brasileira poderia ser resumida nesse disco, mas ele foi além. Primeiro ao aceitar gravar um disco solo no mesmo ano que lançou o Clube, sabendo não tinha mais nenhuma nova composição.
Batizado apenas com seu nome e trazendo um par de tênis usados na capa, o “disco do tênis” como seu primeiro disco ficou conhecido, foi composto enquanto era gravado, com Lô fazendo as melodias pela manhã, dando-as para o irmão Marcio colocar letras de tarde e gravando-as de noite.
São canções surrealistas e abstratas que traduzem o idílio do pop mineiro e a paranoia de viver sob a ditadura militar daquele período num álbum único na história de nossa música.
E foi um disco que Lô abandonou após a gravação. Além de ser difícil de ser tocado ao vivo (só pode ser feito de tal forma em 2017, a partir da iniciativa de um fã mineiro de Lô, Pablo Castro, que tomou a realização como desafio pessoal), os tênis expostos na capa traziam uma mensagem cifrada: ele havia se cansado da vida de artista e estava pendurando as chuteiras ao mesmo tempo em que largava tudo para colocar o pé na estrada.
“A coisa mais certa que eu podia fazer foi a largar a indústria fonográfica aos vinte anos de idade depois de compor 25 músicas para dois álbuns, para o Clube da Esquina e pro disco do tênis”, ele me contou em uma entrevista em 2017, às vésperas da realização do show em que recriou o disco pela primeira vez no palco.
Foi a melhor coisa que eu fiz! Se eu continuasse gravando um disco a cada seis meses, eu ia enlouquecer! Eu não queria sobreviver de música, eu queria que a música sobrevivesse em mim!
Assim, foi viver o sonho hippie e atravessou os anos 70 pegando carona pelo Brasil, sem pensar no amanhã. Quando parou, no final daquela década, já tinha material para lançar um novo disco e voltar à vida de artista, ao lançar o excelente “A Via-Láctea” em 1979, que além da faixa-título ainda inclui “Equatorial”, “Vento de Maio” e “Nau Sem Rumo”.
A semente de sua importância foi plantada neste período e colhida em momentos diferentes de sua carreira, quando surge para novos parceiros que o buscam sempre como alicerce entre a erudição do jazz e a fruição do pop psicodélico, os dois com um sabor específico de Minas Gerais, que acaba espalhando-se para todos no Brasil.
Foi assim que desenvolveu parcerias com Samuel Rosa, Nando Reis, Paulinho Moska, Fernanda Takai e Zeca Baleiro, todos discípulos de Lô nesta nova MPB, como inúmeras bandas indies surgidas neste século, do Vanguart aos Boogarins, passando pelo O Terno, Maglore, Superguidis, Violins, Terno Rei e Sophia Chablau & Uma Enorme Perda de Tempo.
A morte precoce foi uma triste notícia, mas sua chama segue acesa.
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